27 janeiro 2019

Missa de encerramento | JMJ Panamá 2019

HOMILIA DO SANTO PADRE
Campo São João Paulo II – Metro Park (Panamá)
Domingo, 27 de janeiro de 2019





«Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos n’Ele. Começou, então, a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir” » (Lc 4, 20-21).
O Evangelho apresenta-nos, assim, o início da missão pública de Jesus. Apresenta-O na sinagoga que O viu crescer, circundado por conhecidos e vizinhos e talvez até por algum dos seus «catequistas» de infância que Lhe ensinou a lei. Momento importante na vida do Mestre quando Ele – a criança que Se formara e crescera dentro daquela comunidade – Se levantou e tomou a palavra para anunciar e realizar o sonho de Deus. Uma palavra até então proclamada apenas como promessa do futuro, mas que, na boca de Jesus, só podia ser pronunciada no presente, tornando-se realidade: «Cumpriu-se hoje».
Jesus revela o agora de Deus, que vem ao nosso encontro para nos chamar, também a nós, a tomar parte no seu agora, no qual «anunciar a Boa-Nova aos pobres», «proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos a recuperação da vista», «mandar em liberdade os oprimidos» e «proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (cf. Lc 4, 18-19). É o agora de Deus que, com Jesus, se faz presente, se faz rosto, carne, amor de misericórdia que não espera situações ideais ou perfeitas para a sua manifestação, nem aceita desculpas para a sua não-realização. Ele é o tempo de Deus que torna justos e oportunos todos os espaços e situações. Em Jesus, começa e faz-se vida o futuro prometido.
Quando? Agora. Mas nem todos aqueles que lá O ouviram, se sentiram convidados ou convocados. Nem todos os seus vizinhos de Nazaré estavam prontos para acreditar em alguém que conheciam e tinham visto crescer e que os convidava a realizar um sonho há muito aguardado. Antes, pelo contrário! Diziam: «Mas não é o filho de José?» (cf. Lc 4, 22).
A nós, também pode suceder o mesmo. Nem sempre acreditamos que Deus possa ser tão concreto no dia-a-dia, tão próximo e real, e menos ainda que Se faça assim presente agindo através de alguém conhecido, como um vizinho, um amigo, um parente. Nem sempre acreditamos que o Senhor nos possa convidar a trabalhar e meter as mãos na massa juntamente com Ele no seu Reino de forma tão simples mas incisiva. Custa a aceitar que «o amor divino se tornou concreto e quase experimentável na história com todas as suas vicissitudes ásperas e gloriosas» (Bento XVI, Catequese na Audiência Geral de 28/IX/2005).
E não é raro comportarmo-nos como os vizinhos de Nazaré, quando preferimos um Deus à distância: magnífico, bom, generoso, bem desenhado, mas distante e sobretudo que não incomode, um Deus «domesticado». Porque um Deus próximo no dia-a-dia, um Deus amigo e irmão pede-nos para aprendermos proximidade, presença diária e, sobretudo, fraternidade. Ele não quis manifestar-Se de modo angélico ou espetacular, mas quis oferecer-Se-nos com um rosto fraterno e amigo, concreto, familiar. Deus é real, porque o amor é real; Deus é concreto, porque o amor é concreto. E é precisamente esta «dimensão concreta do amor aquilo que constitui um dos elementos essenciais da vida dos cristãos» (Bento XVI, Homilia, 1/III/2006).
Também nós podemos correr os mesmos riscos que os vizinhos de Nazaré, quando, nas nossas comunidades, o Evangelho se quer fazer vida concreta e começamos a dizer: «Mas, estes jovens, não são filhos de Maria, de José, não são irmãos de..., parentes de…? Não são aquelas crianças que nós ajudamos a crescer? É melhor que se calem! Como podemos acreditar neles? E este ali… não é o que partia sempre os vidros com a bola?» E, assim, uma pessoa que nascera para ser profecia e anúncio do Reino de Deus acaba domesticada e empobrecida. Querer domesticar a Palavra de Deus é uma tentação de todos os dias.
E também a vós, queridos jovens, pode acontecer o mesmo, sempre que pensais que a vossa missão, a vossa vocação e até a vossa vida é uma promessa mas que vale só para o futuro, nada tem a ver com o presente. Como se ser jovem fosse sinónimo de «sala de espera» para quem aguarda que chegue o seu turno. E, enquanto este não chega, inventam para vós ou vós próprios inventais um futuro higienicamente bem embalado e sem consequências, bem construído e garantido com tudo «bem assegurado». Não queremos oferecer-vos um futuro de laboratório! É a «ficção» da alegria, não a alegria do dia de hoje, do concreto, do amor. E assim, com esta «ficção» da alegria, vos «tranquilizamos», vos adormentamos para não fazerdes barulho, para não estorvardes demasiado, não colocardes interrogativos a vós mesmos e a nós, para não vos pordes em discussão a vós próprios e a nós; e «entretanto» os vossos sonhos perdem altitude, tornam-se rasteiros, começam a adormentar-se e ficam «ilusões» pequenas e tristes (cf. Francisco, Homilia do Domingo de Ramos, 25/III/2018), só porque consideramos ou considerais que o vosso agora ainda não chegou; que sois demasiado jovens para vos envolverdes no sonho e construção do amanhã. E, assim, continuamos a adiar-vos... E sabeis uma coisa? Muitos jovens gostam disso. Por favor, ajudemo-los para que não gostem, que reajam, que queiram viver o «agora» de Deus.
Um dos frutos do Sínodo recente foi a riqueza de nos podermos encontrar e, sobretudo, escutar. A riqueza da escuta entre gerações, a riqueza do intercâmbio e o valor de reconhecer que precisamos uns dos outros, que devemos esforçar-nos por promover canais e espaços onde nos comprometamos a sonhar e construir o amanhã, já hoje. Não isoladamente, mas unidos, criando um espaço em comum: um espaço que não nos é oferecido de prenda, nem o ganhamos na loteria, mas um espaço pelo qual deveis lutar vós também. Vós, jovens, deveis lutar pelo vosso espaço hoje, porque a vida é hoje. Ninguém te pode prometer um dia do amanhã: a tua vida é hoje, o teu desafio é hoje, o teu espaço é hoje. Como estás a responder a isto?
Vós, queridos jovens, não sois o futuro. Gostamos de dizer-vos: «Sois o futuro….» Mas não é verdade! Vós sois o presente! Não sois o futuro de Deus; vós, jovens, sois o agora de Deus. Ele convoca-vos, chama-vos nas vossas comunidades, chama-vos nas vossas cidades, para irdes à procura dos avós, dos adultos; para vos erguerdes de pé e, juntamente com eles, tomar a palavra e realizar o sonho que o Senhor sonhou para vós.
Não amanhã; agora! Pois, onde agora está o teu tesouro, aí está também o teu coração (cf. Mt 6, 21); e, aquilo que vos apaixona, conquistará não apenas a vossa imaginação, mas envolverá tudo. Será aquilo que vos faz levantar de manhã e incita nos momentos de cansaço, aquilo que vos abrirá o coração enchendo-o de maravilha, de alegria e de gratidão. Senti que tendes uma missão e apaixonai-vos por ela, tudo dependerá disto (cf. Pedro Arrupe S.J., Nada és más práctico). Poderemos ter tudo; mas, queridos jovens, se falta a paixão do amor, faltará tudo! A paixão do amor hoje! Deixemos que o Senhor nos faça enamorar e nos leve para o amanhã!
Para Jesus, não há um «entretanto», mas um amor de misericórdia que quer penetrar no coração e conquistá-lo. Ele quer ser o nosso tesouro, porque Jesus não é um «entretanto» na vida nem uma moda passageira: é amor de doação que convida a doar-se.
É amor concreto, de hoje, próximo, real; é alegria festiva que nasce da opção de participar na pesca miraculosa da esperança e da caridade, da solidariedade e da fraternidade frente a tantos olhares paralisados e paralisadores por causa dos medos e da exclusão, da especulação e da manipulação.
Irmãos, o Senhor e a sua missão não são um «entretanto» na nossa vida, qualquer coisa de passageiro, não são apenas um Jornada Mundial da Juventude: são a nossa vida de hoje e para todo o caminho!
Ao longo de todos estes dias, como um fundo musical, acompanhou-nos de modo especial o «faça-se» de Maria. Ela não Se limitou a acreditar em Deus e nas suas promessas como algo possível, mas acreditou em Deus e teve a coragem de dizer «sim» para participar neste agora do Senhor. Possais vós, de igual modo, sentir que tendes uma missão, deixar-vos apaixonar… e o Senhor decidirá tudo.
E como sucedeu na sinagoga de Nazaré, o Senhor, no meio de nós, dos seus amigos e conhecidos, de novo Se ergue de pé, toma o livro e diz-nos: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4, 21).
Queridos jovens, quereis viver em concreto o vosso amor? O vosso «sim» continue a ser a porta de entrada para que o Espírito Santo conceda um novo Pentecostes à Igreja e ao mundo. Assim seja.

SAUDAÇÃO FINAL

No final desta celebração, dou graças a Deus por nos ter concedido a possibilidade de compartilharmos estes dias, vivendo mais uma Jornada Mundial da Juventude.
De modo particular, desejo agradecer a presença nesta celebração do Senhor Presidente do Panamá, Juan Carlos Varela Rodríguez, dos Presidentes doutras nações e das demais Autoridades políticas e civis.
Agradeço ao Arcebispo de Panamá, D. José Domingo Ulloa Mendieta, a sua disponibilidade e mediação para hospedar na sua diocese esta Jornada, bem como aos outros Bispos deste país e países vizinhos, por tudo o que fizeram nas suas comunidades para dar abrigo e ajuda a tantos jovens.
Obrigado a todas as pessoas que nos apoiaram com a sua oração e colaboraram com a sua dedicação e trabalho para tornar realidade o sonho da Jornada Mundial da Juventude neste país.
E a vós, queridos jovens, um grande «obrigado»! A vossa fé e alegria fizeram vibrar o Panamá, a América e o mundo inteiro. Como muitas vezes ouvimos, durante estes dias, no hino desta Jornada: «Somos peregrinos e viemos hoje aqui de tantos continentes e cidades». Estamos a caminho: continuai a caminhar, continuai a viver a fé e a partilhá-la. Não vos esqueçais que não sois o amanhã, não sois o «entretanto», mas o agora de Deus.
Já foi anunciado o local da próxima Jornada Mundial da Juventude. Peço-vos para não deixar resfriar o que vivestes nestes dias. Regressai às vossas paróquias e comunidades, às vossas famílias e aos vossos amigos, transmiti aquilo que vivestes, para que outros possam vibrar com a força e a esperança concreta que vós tendes. E com Maria, continuai a dizer «sim» ao sonho que Deus semeou em vós.
E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim!




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Vigília com os jovens | JMJ Panamá 2019

DISCURSO DO SANTO PADRE
Campo São João Paulo II – Metro Park (Panamá)
Sábado, 26 de janeiro de 2019





Queridos jovens, boa noite!

Acabamos de ver este belo espetáculo sobre a Árvore da Vida, que mostra como a vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é uma salvação suspensa «na nuvem» – no disco virtual – à espera de ser descarregada, nem uma nova «aplicação» para descobrir ou um exercício mental fruto de técnicas de crescimento pessoal. Nem a vida que Deus nos oferece é um «tutorial» com o qual apreender as últimas novidades. A salvação, que Deus nos dá, é um convite para fazer parte duma história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos. Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo; Ele é o primeiro a dizer «sim» à nossa vida; Ele é sempre o primeiro. É o primeiro a dizer «sim» à nossa história e quer que também nós digamos «sim» juntamente com Ele. Ele sempre nos antecede, é o primeiro.

E foi assim que surpreendeu Maria, convidando-A para fazer parte desta história de amor. Sem dúvida, a jovem de Nazaré não aparecia nas «redes sociais» de então; Ela não era um «influenciador» (influencer, em sentido digital) mas, sem querer nem procurá-lo, tornou-Se a mulher que maior influência teve na história.

E poderíamos, com confiança de filhos, defini-La: Maria, a influenciadora [às ordens] de Deus. Com poucas palavras, teve a coragem de dizer «sim», confiando no amor, confiando nas promessas de Deus, que é a única força capaz de renovar, de fazer novas todas as coisas. E, hoje, todos temos algo para renovar dentro de nós. Hoje devemos deixar que Deus renove algo no nosso coração. Pensemos um pouco: Que quero que Deus renove no meu coração?

Sempre impressiona a força do «sim» de Maria, jovem. A força daquele «faça-se em Mim», que disse ao anjo. Foi uma coisa distinta duma aceitação passiva ou resignada. Foi qualquer coisa distinta daquele «sim» que por vezes se diz: «Bem; provemos a ver que sucede». Maria não conhecia a frase «provemos a ver que sucede». Era determinada: compreendeu do que se tratava e disse «sim», sem rodeios de palavras. Foi algo mais, qualquer coisa de diferente. Foi o «sim» de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora duma promessa. Pergunto a cada um de vós: Sentes-te portador duma promessa? Que promessa trago no meu coração, devendo dar-lhe continuidade? Maria teria, sem dúvida, uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer «não». Com certeza teria complicações, mas não haveriam de ser idênticas às que se verificam quando a cobardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido. Maria não comprou um seguro de vida! Maria embarcou no jogo e, por isso, é forte, é uma «influenciadora», é a «influenciadora» de Deus! O «sim» e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades.

Esta noite ouvimos também como o «sim» de Maria ecoa e se multiplica de geração para geração. Seguindo o exemplo de Maria, muitos jovens arriscam e apostam, guiados por uma promessa. Obrigado, Erika e Rogelio, pelo testemunho que nos destes. Foram ambos corajosos! Merecem um aplauso. Obrigado! Compartilhastes os vossos medos, dificuldades, todo o risco que vivestes antes do nascimento da Inês. A dada altura dissestes: «A nós, pais, por várias razões, custa muito aceitar a chegada dum bebé portador de doença ou deficiência». Isso é verdade, é compreensível! O facto surpreendente, porém, encerra-se naquilo que acrescentastes: «Quando nasceu a nossa filha, decidimos amá-la com todo o nosso coração». Antes da sua chegada, perante todas as notícias e dificuldades que surgiram, tomastes uma decisão e dissestes como Maria «faça-se em nós», decidistes amá-la. Face à vida de vossa filha frágil, inerme e necessitada, a vossa resposta, de Erika e Rogelio, foi «sim» e, deste modo, temos a Inês. Tivestes a coragem de acreditar que o mundo não é só para os fortes! Obrigado!

Dizer «sim» ao Senhor é ter a coragem de abraçar a vida como vem, com toda a sua fragilidade e pequenez e, muitas vezes, até com todas as suas contradições e insignificâncias, abraçá-la com o mesmo amor que Erika e Rogelio nos contaram. Receber a vida como vem significa abraçar a nossa pátria, as nossas famílias, os nossos amigos como são, mesmo com as suas fragilidades e mesquinhices. Damos também provas de que se abraça a vida, quando acolhemos tudo o que não é perfeito, tudo o que não é puro nem destilado, mas lá por isso não menos digno de amor. Pergunto-vos: uma pessoa portadora de deficiência, uma pessoa frágil é digna de amor? [respondem: Sim!] Não se ouve bem… [mais forte: Sim!] Compreendestes? Outra pergunta; vejamos como respondeis. Uma pessoa, mesmo que seja estrangeira, tenha errado, se encontre doente ou numa prisão, é digna de amor? [respondem: Sim!] Assim fez Jesus: abraçou o leproso, o cego e o paralítico, abraçou o fariseu e o pecador. Abraçou o ladrão na cruz, abraçou e perdoou até àqueles que O estavam a crucificar.

Porquê? Porque, só o que se ama, pode ser salvo. Tu não podes salvar uma pessoa, não podes salvar uma situação, se não a amas. Só o que se ama pode ser salvo. Vamos repeti-lo? [juntos] Só o que se ama pode ser salvo. Outra vez! [os jovens: Só o que se ama pode ser salvo]. Não o esqueçais. É por isso que fomos salvos por Jesus: porque nos ama e não pode deixar de o fazer. Podemos combiná-la de todas as cores, mas Ele continua a amar-nos e salva-nos. Porque só o que se ama pode ser salvo. Só o que se abraça, pode ser transformado. O amor do Senhor é maior que todas as nossas contradições, que todas as nossas fragilidades e que todas as nossas mesquinhices, mas é precisamente através das nossas contradições, fragilidades e mesquinhices que Ele quer escrever esta história de amor. Abraçou o filho pródigo, abraçou Pedro depois de O ter negado e abraça-nos sempre, sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantar e ficar de pé. Porque a verdadeira queda – atenção a isto! – a verdadeira queda, aquela que nos pode arruinar a vida, é ficar por terra e não se deixar ajudar. Há uma canção alpina muito bonita, que cantam enquanto sobem a montanha: «Na arte de subir, a vitória não está em não cair, mas em não ficar caído». Não ficar caído! Estender a mão, para que te levantem. Não ficar caído.

O primeiro passo é não ter medo de receber a vida como ela vem, não ter medo de abraçar a vida como é! Esta é a árvore da vida que vimos hoje [durante a Vigília].

Obrigado, Alfredo, pelo teu testemunho e a coragem de o partilhares com todos nós. Fiquei muito impressionado quando disseste: «Comecei a trabalhar na construção até quando terminou aquele projeto. Sem emprego, as coisas complicaram-se: sem escola, sem ocupação e sem trabalho». 
Resumo-o nos quatro «sem» que deixam a nossa vida sem raízes e ela seca: sem trabalho, seminstrução, sem comunidade, sem família. Ou seja: uma vida sem raízes. 

Sem trabalho, sem instrução, sem comunidade e sem família. Estes quatro «sem» matam.
É impossível uma pessoa crescer, se não possui raízes fortes que a ajudem a estar firme de pé e agarrada à terra. É fácil extraviar-se, quando não temos onde agarrar-nos, onde firmar-nos. Esta é uma questão que nós, adultos, nos devemos colocar, nós adultos que estamos aqui; mais, é uma questão que vós devereis colocar-nos – vós jovens devereis colocar a nós adultos – e nós temos o dever de vos responder: Que raízes estamos a dar-vos? Quais são as bases que estamos a oferecer-vos para vos construirdes como pessoas? É uma pergunta para nós adultos. Como é fácil criticar os jovens e passar o tempo murmurando, se os deixamos sem oportunidades laborais, educativas e comunitárias a que agarrar-se para sonhar o futuro! Sem instrução, é difícil sonhar um futuro; sem trabalho, é muito difícil sonhar o futuro; sem família nem comunidade, é quase impossível sonhar o futuro. Porque sonhar o futuro é aprender a responder não só porque vivo, mas também para quem vivo, por quem vale a pena gastar a minha vida. E isto devemos proporcionar-vo-lo nós adultos, dando-vos trabalho, instrução, comunidade, oportunidades.

Como nos dizia Alfredo, quando alguém se vê despedido e fica sem trabalho, sem instrução, sem comunidade e sem família, no fim do dia sente-se vazio e acaba por preencher aquele vazio com uma coisa qualquer, com qualquer coisa ruim. Porque já não sabemos para quem viver, lutar e amar. Aos adultos que estão aqui e a quantos nos estão a ver, pergunto: Que fazes tu para gerar futuro, vontade de futuro nos jovens de hoje? És capaz de lutar para que tenham instrução, para que tenham trabalho, para que tenham família, para que tenham comunidade? Cada um de nós, adultos, responda no seu coração.

Lembro-me que uma vez, conversando com alguns jovens, me perguntaram: «Porque é que hoje muitos jovens não se interrogam se Deus existe, ou sentem dificuldade em crer n’Ele e evitam comprometer-se na vida?» Respondi: «E vós, que achais?» Dentre as respostas que surgiram na conversa, recordo uma que me tocou o coração e está relacionada com a experiência que Alfredo partilhou: «Padre, é que muitos deles sentem que, para os outros, pouco a pouco deixaram de existir, frequentemente sentem-se invisíveis». Muitos jovens sentem que deixaram de existir para os outros, para a família, para a sociedade, para a comunidade... e assim, muitas vezes, sentem-se invisíveis. É a cultura do abandono e da falta de consideração. Não digo todos, mas muitos sentem que não têm nem muito nem pouco para dar, por falta de espaços reais que a isso os convoquem. Como hão de pensar que Deus existe se eles mesmos – estes jovens –, para seus irmãos e para a sociedade, há muito que deixaram de existir? Assim, estamos forçando-os a não olhar para o futuro e a cair como presa de qualquer droga, de qualquer coisa que os destrói. Podemos perguntar-nos: Que faço pelos jovens que vejo? Critico-os, ou desinteresso-me deles? Ajudo-os, ou desinteresso-me deles? É verdade que, para mim, deixaram de existir há muito?

Bem sabemos que não basta estar conectado o dia inteiro para se sentir reconhecido e amado. Sentir-se considerado e convidado para algo é mais do que permanecer «em rede». Significa encontrar espaços onde possais, com as vossas mãos, com o vosso coração e com a vossa cabeça, sentir-vos parte duma comunidade maior que precisa de vós e, vice-versa, vós, jovens, precisais dela também.

Isto, compreenderam-no bem os santos. Penso, por exemplo, em São João Bosco [os jovens aplaudem], que não foi procurar os jovens em qualquer lugar distante ou especial. Vê-se que aqui estão os que gostam de São João Bosco: um aplauso! São João Bosco não foi procurar os jovens em qualquer lugar distante ou especial; simplesmente aprendeu a olhar, a ver tudo o que acontecia em redor na cidade e a vê-lo com os olhos de Deus, ficando impressionado com as centenas de crianças e de jovens abandonados, sem escola, sem trabalho e sem a mão amiga duma comunidade. Havia muita gente que vivia naquela mesma cidade, e muitos criticavam aqueles jovens, mas não sabiam vê-los com os olhos de Deus. Os jovens, é preciso vê-los com os olhos de Deus. João Bosco fê-lo e animou-se a dar o primeiro passo: abraçar a vida como ela se apresenta; e, a partir disto, não teve medo de dar o segundo passo: criar com eles uma comunidade, uma família onde se sentissem amados com trabalho e estudo, ou seja, dar-lhes raízes a que agarrar-se para poderem chegar ao céu, para poderem ser alguém na sociedade. Dar-lhes raízes onde se agarrar para não ser derrubados pelo primeiro vento que vem. Isto fez São João Bosco, isto fizeram os santos, isto fazem as comunidades que sabem ver os jovens com os olhos de Deus. Vós, adultos, aceitais ver os jovens com os olhos de Deus?

Penso em muitos lugares da nossa América Latina onde se promove a chamada família grande lar de Cristo, com o mesmo espírito de outros centros, que procuram receber a vida como ela vem na sua totalidade e complexidade, porque sabem que «para a árvore há uma esperança: cortada, pode ainda reverdecer e deitar novos rebentos» (Job 14, 7).

E sempre é possível «reverdecer e deitar novos rebentos», sempre é possível começar de novo quando há uma comunidade, o calor duma casa onde criar raízes, que oferece a confiança necessária e prepara o coração para descobrir um novo horizonte: horizonte de filho amado, procurado, encontrado e dedicado a uma missão. O Senhor torna-Se presente por meio de rostos concretos. Dizer «sim» como Maria a esta história de amor é dizer «sim» como instrumentos para construir, nos nossos bairros, comunidades eclesiais capazes de percorrer as estradas da cidade, abraçando e tecendo novas relações. Ser um «influenciador» no século XXI significa ser guardião das raízes, guardião de tudo aquilo que impede a nossa vida de se tornar «gasosa», impede que a nossa vida se evapore no nada. Vós, adultos, sede guardiões de tudo o que permite sentir-nos parte uns dos outros, guardiões de tudo aquilo que nos faz sentir que pertencemos uns aos outros.

Isto mesmo viveu Nirmeen na JMJ de Cracóvia. Encontrou uma comunidade viva, alegre, que veio ao encontro dela, deu-lhe um sentido de pertença e, consequentemente, de identidade e permitiu-lhe viver a alegria que comunica a maravilha de ser encontrada por Jesus. Nirmeen evitava Jesus, evitava-O, mantinha-se à distância, até que alguém lhe fez criar raízes, lhe deu uma pertença, e aquela comunidade deu-lhe a coragem para começar este caminho que ela nos contou.

Uma vez, um santo – latino-americano – interrogou-se: «O progresso da sociedade servirá apenas para chegar a possuir o último modelo de carro ou adquirir a última tecnologia do mercado? Nisto se resume toda a grandeza do homem? Não há mais nada que isto para viver?» (Santo Alberto Furtado, Meditación de Semana Santa para jovens, 1946). E, a vós jovens, eu pergunto: É esta grandeza que quereis, ou não? [respondem: «Não!»] Não tendes a certeza… Aqui não se ouve bem, que acontece?... [«Não!»] A grandeza não é apenas possuir o último modelo de carro ou adquirir a última tecnologia do mercado. Fostes criados para algo maior? Maria compreendeu-o e disse: «Faça-se em Mim». Erika e Rogelio compreenderam-no e disseram: «Faça-se em nós». Alfredo compreendeu-o e disse: «Faça-se em mim». Nirmeen compreendeu-o e disse: «Faça-se em mim». Ouvimo-los dizer isso mesmo aqui. Amigos, pergunto-vos: Estais dispostos a dizer «sim»? [respondem: «Sim!»] Agora respondestes… gosto mais assim! O Evangelho ensina-nos que o mundo não será melhor por haver menos pessoas doentes, menos pessoas debilitadas, menos pessoas frágeis ou idosas de que ocupar-se, nem por haver menos pecadores. Não! Não será melhor por isso. O mundo será melhor quando forem mais as pessoas que, como estes amigos que nos falaram, estiverem dispostas e tiverem a coragem de levar no ventre o amanhã e acreditar na força transformadora do amor de Deus. A vós, jovens, pergunto: Quereis ser «influenciadores» no estilo de Maria? [respondem: «Sim!»] Ela teve a coragem de dizer «faça-se em Mim»? Só o amor nos torna mais humanos, não os conflitos, nem meramente o estudo; só o amor nos torna mais humanos, mais plenificados, o resto não passa de remedeio bom, mas vazio.
Dentro de momentos, encontrar-nos-emos com Jesus vivo na Eucaristia. Certamente tereis muitas coisas para Lhe dizer, muitas coisas para Lhe contar sobre várias situações da vossa vida, das vossas famílias e dos vossos países.

Encontrando-vos na presença de Jesus, face a face, sede corajosos, não tenhais medo de Lhe abrir o coração pedindo que renove o fogo do amor d’Ele, que vos induza a abraçar a vida com toda a sua fragilidade, com toda a sua pequenez, mas também com toda a sua grandeza e beleza. Que Jesus vos ajude a descobrir a beleza de estar vivos e acordados. Vivos e acordados.
Não tenhais medo de dizer a Jesus que vós também quereis fazer parte da sua história de amor no mundo, que sois para um «mais»!

Amigos, peço-vos também que, neste face a face com Jesus, tenhais a bondade de rezar por mim, para que também eu não tenha medo de abraçar a vida, para que seja capaz de guardar as raízes e diga como Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra».




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26 janeiro 2019

Via-Sacra com os jovens | JMJ Panamá 2019

DISCURSO DO SANTO PADRE
Campo Santa Maria la Antigua – Faixa Costera (Panamá)
Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019





Queridos jovens de todo o mundo!

Caminhar com Jesus será sempre uma graça e um risco.
Uma graça, porque nos compromete a viver na fé e a conhecê-Lo, penetrando nas profundezas do seu coração, compreendendo a força da sua palavra.
Um risco, porque, em Jesus, as suas palavras, os seus gestos, as suas ações contrastam com o espírito do mundo, a ambição humana, as propostas duma cultura do descarte e da falta de amor.
Há uma certeza que enche de esperança esta via-sacra: Jesus percorreu-a com amor; e viveu-a também a Virgem Gloriosa, Ela que, desde o início da Igreja, quis sustentar com a sua ternura o caminho da evangelização.

Senhor, Pai de misericórdia, nesta Faixa Costeira, juntamente com tantos jovens vindos de todo o mundo, acabamos de acompanhar o vosso Filho no caminho da cruz; caminho esse, que Ele quis percorrer por nós, para nos mostrar quanto Vós nos amais e como estais envolvido na nossa vida.
O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, sociedade que consome e que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.
Também nós, vossos amigos, Senhor, nos deixamos levar pela apatia e o imobilismo. Tantas vezes nos derrotou e paralisou o conformismo. Foi difícil reconhecer-Vos no irmão sofredor: desviamos o olhar, para não ver; refugiamo-nos no barulho, para não ouvir; tapamos a boca, para não gritar.
Sempre a mesma tentação. É mais fácil e «remunerador» ser amigo nas vitórias e na glória, no sucesso e no aplauso; é mais fácil estar próximo a quem é considerado popular e vencedor.

Como é fácil cair na cultura do bullying, do assédio, da intimidação, do encarniçamento sobre quem é fraco!
Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, identificastes-Vos com todo o sofrimento, com quem se sente esquecido.
Para Vós, Senhor, não é assim, porque quisestes abraçar todos aqueles que muitas vezes consideramos não dignos de um abraço, uma carícia, uma bênção; ou, pior ainda, nem nos damos conta de que precisam disso, ignoramo-los.
Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, unistes-Vos à via-sacra de cada jovem, de cada situação para a transformar numa via de ressurreição.

Pai, hoje a via-sacra do vosso Filho…
Prolonga-se no grito sufocado das crianças impedidas de nascer e de tantas outras a quem se nega o direito de ter uma infância, uma família, uma instrução; nas crianças que não podem jogar, cantar, sonhar; prolonga-se nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e ignoradas na sua dignidade; e nos olhos tristes dos jovens que veem ser arrebatadas as suas esperanças de futuro por falta de instrução e trabalho digno; prolonga-se na angústia de rostos jovens, nossos amigos, que caem nas redes de pessoas sem escrúpulos – entre elas, encontram-se também pessoas que dizem servir-Vos, Senhor –, redes de exploração, criminalidade e abuso, que se alimentam das suas vidas.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se em tantos jovens e famílias que, absorvidos numa espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico humano, ficam privados não só do futuro, mas também do presente. E, assim como repartiram as vossas vestes, Senhor, acaba repartida, maltratada a sua dignidade.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se nos jovens com rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar, criar e inventar o amanhã e «passam à aposentação» com o dissabor da resignação e do conformismo, uma das drogas mais consumidas no nosso tempo.
Prolonga-se na dor escondida e indignada de quantos, em vez de solidariedade por parte duma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, sofrimento e miséria, e além disso acabam assinalados e tratados como portadores e responsáveis de todo o mal social.

A paixão do vosso Filho prolonga-se na solidão resignada dos idosos, que deixamos abandonados e descartados.
Prolonga-se nos povos nativos, despojados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura, silenciando e apagando toda a sabedoria que têm e nos podem oferecer.

Pai, a via-sacra do vosso Filho prolonga-se no grito da nossa mãe Terra, que é ferida nas suas entranhas pela contaminação da atmosfera, a esterilidade dos seus campos, o lixo das suas águas, e se vê espezinhada pelo desprezo e o consumo enlouquecido que ignora razões.
Prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se à vista do sofrimento.
Sim, Pai! Jesus continua a caminhar, carregar e padecer em todos estes rostos enquanto o mundo, indiferente e num cómodo cinismo, consuma o drama da sua própria frivolidade.

E nós, Senhor, que fazemos?

Como reagimos à vista de Jesus que sofre, caminha, emigra no rosto de tantos amigos nossos, de tantos desconhecidos que aprendemos a tornar invisíveis?

E nós, Pai de misericórdia…

Consolamos e acompanhamos o Senhor, inerme e sofredor, nos mais pequenos e abandonados?
Ajudamo-Lo a carregar o peso da cruz, como o Cireneu, fazendo-nos operadores de paz, criadores de alianças, fermento de fraternidade?
Temos a coragem de permanecer ao pé da cruz, como Maria?

Contemplemos Maria, mulher forte. D’Ela, queremos aprender a ficar de pé junto da cruz. Com a sua mesma decisão e coragem, sem evasões nem miragens. Ela soube acompanhar o sofrimento de seu Filho, vosso Filho, ó Pai, apoiá-Lo com o olhar e protegê-Lo com o coração. Que dor sofreu! Mas não A abateu. Foi a mulher forte do «sim», que apoia e acompanha, protege e abraça. É a grande guardiã da esperança.
Pai, também nós queremos ser uma Igreja que apoia e acompanha, que sabe dizer: estou aqui, na vida e nas cruzes de tantos cristos que caminham ao nosso lado.
De Maria, aprendemos a dizer «sim» à resistência forte e constante de tantas mães, tantos pais, avós que não cessam de apoiar e acompanhar os seus filhos e netos quando estão com problemas.
D’Ela, aprendemos a dizer «sim» à paciência obstinada e à criatividade daqueles que não desanimam e recomeçam do princípio nas situações em que tudo parece estar perdido, procurando criar espaços, ambientes familiares, centros de atenção que sejam uma mão estendida nas dificuldades.
Em Maria, aprendemos a força para dizer «sim» àqueles que não se calaram nem calam perante uma cultura dos maus-tratos e abuso, do descrédito e agressão, e trabalham para proporcionar oportunidades e condições de segurança e proteção.
Em Maria, aprendemos a acolher e hospedar todos aqueles que foram abandonados, que tiveram de sair ou perder a sua terra, as raízes, a família, o emprego.

Pai, como Maria, queremos ser Igreja, a Igreja que favoreça uma cultura que saiba acolher, proteger, promover e integrar; que não estigmatize e, menos ainda, generalize com a condenação mais absurda e irresponsável que é ver todo o migrante como portador do mal social.
D’Ela, queremos aprender a estar de pé junto da cruz, não com um coração blindado e fechado, mas com um coração que saiba acompanhar, que conheça a ternura e o devotamento; que se entenda de compaixão para tratar com respeito, delicadeza e compreensão. Queremos ser uma Igreja da memória, que respeite e valorize os idosos e reclame para eles o lugar que lhes é devido, como guardiões das nossas raízes.

Pai, como Maria, queremos aprender a «estar».

Ensinai-nos, Senhor, a estar ao pé da cruz, ao pé das cruzes; despertai nesta noite os nossos olhos, o nosso coração; resgatai-nos da paralisia e da confusão, do medo e do desespero. Pai, ensinai-nos a dizer: estou aqui juntamente com o vosso Filho, juntamente com Maria e juntamente com tantos discípulos amados que desejam acolher o vosso Reino no coração. Amen.


E, depois de termos vivido a Paixão do Senhor, juntamente com Maria ao pé da cruz, partimos com o coração silencioso e em paz, feliz e com uma vontade imensa de seguir Jesus. Que Jesus vos acompanhe e a Virgem vos proteja. Até à próxima!




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25 janeiro 2019

Cerimónia de acolhimento e abertura das JMJ Panamá

DISCURSO DO SANTO PADRE
Campo Santa Maria la Antigua – Faixa Costera (Panamá)
Quinta-feira, 24 de janeiro de 2019


Queridos jovens, boa tarde!

Que bom é encontrar-nos de novo, e fazê-lo nesta terra que nos acolhe com tantas cores e tanto calor! Reunidos no Panamá, a Jornada Mundial da Juventude é mais uma vez uma festa, uma festa de alegria e esperança para toda a Igreja e, para o mundo, um grande testemunho de fé.

Lembro-me que, em Cracóvia, alguns perguntaram-me se estaria presente no Panamá, tendo-lhes respondido: «Eu, não sei; mas Pedro estará lá certamente. Pedro estará…» Alegra-me poder-vos dizer hoje: Pedro está convosco, para celebrar e renovar a fé e a esperança. Pedro e a Igreja caminham convosco e queremos dizer-vos que não tenhais medo, que prossigais com esta energia renovadora e esta inquietação constante que nos ajuda e impele a ser mais alegres, mais disponíveis, mais «testemunhas do Evangelho». Prossegui, não para criar uma Igreja paralela, um pouco mais «jovial» e «atrevida» numa modalidade para jovens, com alguns elementos decorativos, como se isso pudesse deixar-vos contentes. Pensar assim seria faltar ao respeito devido a vós e a tudo aquilo que o Espírito, por vosso intermédio, nos tem vindo a dizer.

Ao contrário, queremos descobrir e despertar, juntamente convosco, a novidade incessante e a juventude da Igreja, abrindo-nos sempre a esta graça do Espírito Santo que tantas vezes realiza um novo Pentecostes (cf. Sínodo dedicado aos jovens, Documento final, 27/X/2018, 60). Isto só é possível, se, como há pouco vivemos no Sínodo, soubermos caminhar escutando-nos e escutar completando-nos uns aos outros, se soubermos testemunhar anunciando o Senhor no serviço aos nossos irmãos; que, naturalmente, é sempre um serviço concreto. Não se trata dum serviço em banda desenhada: é um serviço concreto. Se começarmos a caminhar, jovens, sempre jovens como na história da América... Penso naqueles de vós que começaram primeiro a caminhar nesta Jornada: vós, jovens da juventude indígena, fostes os primeiros na América e os primeiros a caminhar neste encontro. Um grande aplauso, forte! E ainda vós, jovens descendentes de africanos: também vós fizestes o vosso encontro, antecipando-vos a nós. Outro aplauso!

Bem! Sei que, para chegar aqui, não foi fácil. Conheço os esforços, os sacrifícios que fizestes para poderdes participar nesta Jornada. Muitos dias de trabalho e dedicação, encontros de reflexão e oração, cuja recompensa é o próprio caminho. O discípulo não é apenas aquele que chega a um lugar, mas quem começa com decisão, quem não tem medo de arriscar e pôr-se a caminho. Se alguém se põe a caminhar, já é um discípulo. Se ficas parado, perdeste… Começar a caminhar, estar a caminho: esta é a alegria maior do discípulo. Vós não tendes medo de arriscar e caminhar. Se hoje podemos estar em festa, é porque esta festa já começou há muito tempo em cada comunidade.

Como ouvimos há pouco na apresentação e constatamos pelas bandeiras que desfilavam, vimos de culturas e povos distintos, falamos línguas diferentes, vestimos roupas diversas. Cada um dos nossos povos viveu histórias e circunstâncias distintas. Quantas coisas podem diferenciar-nos! Mas nada disso impediu de nos encontrarmos; tantas diferenças não impediram de nos encontrarmos e estarmos juntos, de nos alegrarmos juntos, de celebrarmos juntos, de confessarmos Jesus Cristo juntos. Nenhuma diferença nos deteve. Isto é possível, porque sabemos que há Alguém que nos une, que nos faz irmãos. Vós, queridos amigos, fizestes muitos sacrifícios para vos poderdes encontrar, tornando-vos assim verdadeiros mestres e artesãos da cultura do encontro. Com isso, tornastes-vos mestres e artesãos da cultura do encontro, que não é «Olá! Como estás? Adeus, até breve». Não, a cultura do encontro é aquela que nos faz caminhar juntos com as nossas diferenças, mas com amor, todos unidos no mesmo caminho. Vós, com os vossos gestos e atitudes, com as vossas perspetivas, desejos e sobretudo a vossa sensibilidade, desmentis e refutais certos discursos que se concentram e empenham em semear divisão, aqueles discursos que procuram excluir e expulsar quantos «não sejam como nós». Como dizemos em vários países da América: «Não são um GCU [gente como um (que eu conheço), gente como nós]. Vós desmentis isto. Todos são pessoas como nós, cada qual com as próprias diferenças. Assim é, porque tendes um olfato capaz de intuir que «o amor verdadeiro não anula as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior» (Bento XVI, Homilia, 25/I/2006). Repito-o: «O amor verdadeiro não anula as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior». Sabeis quem disse isto? Sabeis ou não? O Papa Bento XVI, que está a acompanhar-nos. Façamos-lhe um aplauso. Mandemos-lhe daqui uma saudação! Ele está a ver-nos na televisão. Uma saudação (todos, todos com as mãos) para o Papa Bento! Entretanto sabemos que o pai da mentira, o demónio, prefere sempre o contrário: um povo dividido e litigioso. Ele é o mestre da divisão e tem medo de um povo que aprenda a trabalhar em conjunto. E isto é um critério para distinguir as pessoas: os construtores de pontes e os construtores de muros. Os construtores de muros que, semeando medo, procuram dividir e amedrontar as pessoas. Mas vós quereis ser construtores de pontes. Que quereis ser? [os jovens respondem: «Construtores de pontes!»] Aprendestes bem, gostei!

Vós ensinais-nos que encontrar-se não significa mimetizar-se, pensar todos a mesma coisa, viver todos de forma igual fazendo e repetindo as mesmas coisas. Isto, fazem-no os papagaios. Encontrar-se significa saber fazer outra coisa: entrar na cultura do encontro é apelo e convite a termos a coragem de manter vivo e em conjunto um sonho comum. Entre nós, há tantas diferenças, falamos línguas diferentes. Todos nos vestimos de forma diferente, mas, por favor, procuremos ter um sonho em comum. Isto, podemos fazê-lo. E isto não nos aniquila, mas enriquece. Um sonho grande, um sonho capaz de envolver a todos. O sonho, pelo qual Jesus deu a vida na cruz e o Espírito Santo, no dia de Pentecostes, foi derramado e gravado a fogo no coração de cada homem e mulher, no coração de cada um, no deste, no daquele, no daqueloutro…, no meu, também no teu gravou-o com a esperança de aí encontrar espaço para crescer e desenvolver-Se. Um sonho, um sonho chamado Jesus, semeado pelo Pai: Deus como Ele, como o Pai, enviado pelo Pai com a confiança que crescerá e viverá em todo o coração. Um sonho concreto, que é uma Pessoa, que corre nas nossas veias, faz exultar e dançar de alegria o coração sempre que escutamos o mandamento que Jesus nos deu: «Que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos». Como se chama o nosso sonho? [os jovens respondem: «Jesus!»] Não ouço… [repetem: «Jesus!»] Não ouço… Mais forte! [repetem mais forte: «Jesus!»].

Um santo destas terras – ouvi isto – um santo destas terras gostava de dizer: «O cristianismo não é um conjunto de verdades para se acreditar, nem de leis para se observar nem de proibições. O cristianismo, visto assim, seria muito repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto, que deseja e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo» (Santo Óscar Romero, Homilia, 6/XI/1977) Podemos repetir todos juntos? [juntamente com os jovens] O cristianismo é Cristo. Outra vez: O cristianismo é Cristo. Mais uma vez: É Cristo! É continuar o sonho pelo qual Ele deu a vida: amar com o mesmo amor com que Ele nos amou. Não nos amou a meias, não nos amou um pouco… Amou-nos totalmente, cumulou-nos de ternura, de amor; deu a sua vida.

Perguntemo-nos: O que é que nos mantém unidos? Por que é que estamos unidos? Que nos impele a encontrar-nos? Sabeis o que nos mantem unidos? É a certeza de saber que fomos amados com um amor cativante que não queremos nem podemos calar; um amor que nos desafia a responder da mesma maneira: com amor. O que nos impele é o amor de Cristo (cf. 2 Cor 5, 14).

Olhai! Um amor que une é um amor que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza nem obriga a estar calado nem silencia, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do Senhor: amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade, amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos que de quedas, de reconciliação que de proibições, de dar nova oportunidade que de condenar, de futuro que de passado. É o amor silencioso da mão estendida no serviço e na doação; é o amor que não se vangloria nem se pavoneia, é o amor humilde que se dá aos outros sempre com a mão estendida. Tal é o amor que nos une hoje.

Pergunto: acreditas tu neste amor? [respondem: «Sim!»] E faço outra pergunta: acreditas que este amor vale a pena? Uma vez Jesus, respondendo a uma pessoa que O interrogara, terminou dizendo: «Se acreditas que é assim, vai e faz o mesmo». Em nome de Jesus, eu digo-vos: Ide e fazei o mesmo. Não tenhais medo de amar, não tenhais medo deste amor concreto, deste amor que tem ternura, deste amor que é serviço, deste amor que dá a vida.

E esta foi a mesma pergunta e a chamada que recebeu Maria. O anjo perguntou-Lhe se queria trazer este sonho no seu ventre, se queria fazê-lo vida, fazê-lo carne. Maria tinha a idade de muitos de vós, a idade de tantas jovens como vós. Ela respondeu: «Eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Fechemos nossos olhos, todos nós, e pensemos em Maria. Ela não era estúpida, sabia o que sentia o seu coração, sabia o que era o amor, e respondeu: «Eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra». Nestes breves momentos de silêncio, em que Jesus diz a cada um – a este, àquele, àqueloutro –: «Estás disposto? Queres?» Pensa em Maria e responda: «Quero servir o Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra». Maria soube dizer «sim». Teve a coragem de dar vida ao sonho de Deus. E o mesmo nos é pedido a nós hoje: queres encarnar com as tuas mãos, os teus pés, o teu olhar, o teu coração o sonho de Deus? Queres que seja o amor do Pai a abrir-te novos horizontes e levar-te por sendas nunca imaginadas nem pensadas, sonhadas ou esperadas, que alegrem e façam cantar e dançar o coração?

Temos a coragem de responder ao anjo, como Maria, «eis-nos aqui, somos os servos do Senhor, faça-se em nós…»? Agora não respondais; cada qual responda no seu coração. Há perguntas a que se responde apenas em silêncio.

Queridos jovens, esta Jornada não se revelará fonte de esperança por um documento final, uma mensagem consensual ou um programa a aplicar. Não será por isso. Aquilo que dará mais esperança neste encontro serão os vossos rostos e uma oração. Isto dará esperança... o rosto com que voltardes para casa, o coração transformado com que regressardes a casa, a oração que tiverdes aprendido a dizer com esse coração transformado. O que dará mais esperança neste encontro serão os vossos rostos, a vossa oração! E cada um regressará a casa com aquela força nova que se gera sempre que nos encontramos com os outros e com o Senhor, cheios do Espírito Santo para lembrar e manter vivo aquele sonho que nos faz irmãos e que somos convidados a não deixar congelar no coração do mundo: onde quer que nos encontremos, a fazer seja o que for, sempre poderemos olhar para o alto e dizer: «Senhor, ensinai-me a amar como Vós nos amastes». Quereis repeti-lo comigo? «Senhor, ensinai-me a amar como Vós nos amastes». [juntamente com os jovens] «Senhor, ensinai-me a amar como Vós nos amastes». Mais forte! Estais roucos? «Senhor, ensinai-me a amar como Vós nos amastes».

Pois bem! Dado que queremos ser bons e educados, não podemos terminar este primeiro encontro sem agradecer. Obrigado a todos aqueles que prepararam, com grande entusiasmo, esta Jornada Mundial da Juventude, tudo isto. Um grande obrigado! Obrigado por terem tido a coragem de construir e hospedar, por terem dito «sim» ao sonho de Deus que é ver os seus filhos reunidos. Obrigado ao Arcebispo D. Ulloa e todos os seus colaboradores por terem ajudado a fazer com que hoje o Panamá não seja apenas um canal que une mares, mas também canal onde o sonho de Deus continua a encontrar pequenos canais para crescer e multiplicar-se irradiando-se por todos os cantos da terra.

Amigos – amigos e amigas –, que Jesus vos abençoe! Vo-lo desejo com todo o coração. Que Santa Maria la Antigua vos acompanhe e proteja, para podermos dizer, sem medo, como Ela: «Eis-me aqui. Faça-se em mim».

Obrigado!



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16 janeiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #05

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Prosseguindo as catequeses sobre o “Pai-Nosso”, hoje comecemos pela observação de que, no Novo Testamento, parece que a oração deseja chegar ao essencial, até se concentrar numa única palavra: Aba, Pai!

Ouvimos o que São Paulo escreve na Carta aos Romanos: «Porquanto não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: “Aba! Pai!”» (8, 15). E aos Gálatas, o Apóstolo diz: «A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!’’» (Gl 4, 6). Repete-se duas vezes a mesma invocação, na qual está condensada toda a novidade do Evangelho. Depois de ter conhecido Jesus e ouvido a sua pregação, o cristão já não considera Deus como um tirano que se deve temer, já não tem medo mas sente florescer no seu coração a confiança n’Ele: pode falar com o Criador chamando-o “Pai”! A expressão é tão importante para os cristãos, que muitas vezes se conservou intacta na sua forma originária: “Aba”!

É raro que no Novo Testamento as expressões aramaicas não sejam traduzidas em grego. Devemos imaginar que nestas palavras aramaicas tenha permanecido como que “gravada” a voz do próprio Jesus: respeitaram o idioma de Jesus! Na primeira palavra do “Pai-Nosso” encontramos imediatamente a novidade radical da oração cristã.

Não se trata apenas de usar um símbolo — neste caso, a figura do pai — relacionado com o mistério de Deus; ao contrário, trata-se de ter, por assim dizer, todo o mundo de Jesus derramado no próprio coração. Se realizarmos esta operação, poderemos recitar verdadeiramente o “Pai-Nosso”. Dizer “Aba” é algo muito mais íntimo e mais comovedor do que simplesmente chamar a Deus “Pai”. Eis por que motivo alguém propôs traduzir esta palavra aramaica original, “Aba” com “Papá” ou “Paizinho”. Em vez de dizer “Pai nosso”, dizer “Papá, Paizinho”. Nós continuamos a dizer “Pai nosso”, mas com o coração somos convidados a dizer “Papá”, a ter com Deus um relacionamento como o de uma criança com o seu pai, que diz “papá”, diz “paizinho”. Com efeito, estas expressões evocam afeto e calor, algo que nos projeta no contexto da infância: a imagem de uma criança completamente envolvida pelo abraço de um pai que sente ternura infinita por ela. E por isso, caros irmãos e irmãs, para rezar bem é necessário chegar a ter um coração de criança! Não um coração suficiente: assim não se pode rezar bem. Como uma criança no colo do seu pai, do seu papá, do seu paizinho.

Mas certamente são os Evangelhos que nos introduzem melhor no sentido desta palavra. O que significa para Jesus esta palavra? O “Pai-Nosso” adquire sentido e cor, se aprendermos a recitá-lo depois de ter lido, por exemplo, a parábola do pai misericordioso, no capítulo 15 de Lucas (cf. 15, 11-32). Imaginemos esta prece pronunciada pelo filho pródigo, depois de ter experimentado o abraço do seu pai, que tinha esperado por muito tempo, um pai que não se recorda das palavras ofensivas que ele lhe dirigira, um pai que agora lhe faz entender simplesmente a falta que tinha sentido dele. Assim descobrimos como aquelas palavras adquirem vida e força! E interrogamo-nos: como é possível que Tu, ó Deus, conheças unicamente o amor? Tu não conheces o ódio? Não — Deus responderia — Eu só conheço o amor. Onde se encontram em ti a vingança, a pretensão de justiça, a raiva pela tua honra ferida? E Deus responderia: Eu só conheço o amor!

O pai daquela parábola tem modos de agir que recordam muito o espírito de uma mãe. São sobretudo as mães que perdoam os filhos, que os defendem, que não interrompem a empatia em relação a eles, que continuam a amar, mesmo quando eles já não mereceriam mais nada.

É suficiente evocar esta expressão — Aba — para que se desenvolva uma prece cristã. E nas suas Cartas, São Paulo segue este mesmo caminho, e não poderia ser de outra forma, porque é a vereda ensinada por Jesus: esta invocação contém uma força que atrai o resto da oração.
Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.
Para o cristão, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai” mas com a confiança de uma criança.

Pode ser que também a nós aconteça percorrer sendas distantes de Deus, como aconteceu com o filho pródigo; ou então, precipitar numa solidão que nos faz sentir abandonados no mundo; ou ainda, errar e ficar paralisados por um sentido de culpa. Nestes momentos difíceis, ainda podemos encontrar a força para rezar, recomeçando pela palavra “Pai”, mas dita com o sentido terno de uma criança: “Aba”, “Papá”. Ele não nos esconderá o seu rosto. Recordai bem: talvez alguém tenha dentro de si coisas desagradáveis, que não sabe como resolver, tanta amargura por ter feito isto e aquilo... Ele não esconderá a sua face. Ele não se fechará no silêncio. Tu diz-lhe “Pai” e Ele responder-te-á. Tu tens um Pai. “Sim, mas eu sou um delinquente...”. Mas tens um Pai que te ama! Diz-lhe “Pai”, começa a rezar assim e, no silêncio, Ele dir-nos-á que nunca nos perdeu de vista. “Mas Pai, eu fiz isto...” — “Nunca te perdi de vista, vi tudo. Mas permaneci sempre ali, perto de ti, fiel ao meu amor por ti”. Esta será a resposta! Nunca vos esqueçais de dizer: “Pai”. Obrigado!

Catequese do Papa Francisco
16 de Janeiro de 2019




09 janeiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #04


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese de hoje refere-se ao Evangelho de Lucas. De facto, é acima de tudo este Evangelho, que conta as histórias da infância, descrevendo a figura de Cristo numa atmosfera cheia de oração. Nele estão contidos os três hinos que pontuam a oração diária da Igreja: o Benedictus, o Magnificat e o Nunc dimittis.
Nesta catequese sobre o Pai Nosso vamos para diante, vemos Jesus orando. Jesus ora. Na história de Lucas, por exemplo, o episódio da transfiguração surge de um momento de oração. Diz ele: «Enquanto orava, modificou-se o aspeto do seu rosto e as vestes tornaram-se-lhe de brancura fulgurante» (Lc 9, 29). Mas cada passo na vida de Jesus é inspirado pelo sopro do Espírito que o guia em todas as ações. Jesus reza no batismo no Jordão, fala com o Pai antes de tomar decisões importantes, muitas vezes retirando-se para a solidão a fim de orar, interceder por Pedro, que em breve o vai negar. Diz assim: «Simão, Simão, olha que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo. Mas eu roguei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. » (Lc 22,31-32). Isto consola: saber que Jesus ora por nós, ora por mim, por cada um de nós, para que a nossa fé não desapareça. E isto é verdade. “Mas padre, continua a fazê-lo?” Ainda o faz agora, diante do Pai. Jesus, reza por mim. Cada um de nós pode-lhe dizer isso. E também podemos dizer a Jesus: “Tu estás orando por mim, continua a orar até que eu precise. Deste modo: corajoso. 
Por fim até a morte do Messias está imersa numa atmosfera de oração, de tal modo que as horas da paixão aparecem marcadas por uma calma surpreendente: Jesus consola as mulheres, roga pelos seus executores, promete o paraíso ao ladrão, e morre a dizer: «Pai nas vossas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 45). A oração de Jesus aparece para suavizar as emoções mais violentas, desejos de vingança e retaliação, reconciliando o homem com o seu amargo inimigo, reconciliando o homem com este inimigo, que é a morte.
É sempre no Evangelho de Lucas que encontramos a demanda, expressa por um dos discípulos, de poder ser educados pelo próprio Jesus à oração. E diz assim: «Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11, 1). Vendo-O quando rezava. "Ensina-nos - podemos também dizer ao Senhor - Senhor, tu estás orando por mim, eu sei, mas ensina-me a rezar, para que também eu possa rezar”.
A partir deste pedido - «Senhor, ensina-nos a rezar» - nasce um ensinamento bastante extenso, através do qual Jesus explica aos seus as palavras e os sentimentos com os quais se devem voltar para Deus.
A primeira parte deste ensinamento é precisamente o Pai Nosso. Orai assim” pai, que estás no céu”. “Pai”: aquela palavra tão bela de se dizer. Podemos ficar o tempo todo da oração com esta só palavra: "Pai". E sentir que temos um pai: não um mestre ou um padrasto. Não: um pai. O cristão volta-se para Deus chamando-o antes de tudo o resto de “Pai”.
Neste ensinamento que Jesus dá aos seus discípulos, é interessante insistir em algumas instruções que coroam o texto da oração. Para lhes dar confiança, Jesus explica algumas coisas. Insiste nas atitudes do crente que ora. Por exemplo, há a parábola do amigo inoportuno, que vai perturbar uma família inteira que dorme porque sem aviso veio uma pessoa de uma viagem e não tem pão para lhe oferecer. O que Jesus diz a este que bate à porta e desperta o amigo: Eu digo-vos – diz Jesus – embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.» (Lc 11, 9). Com isto quer ensina-nos a rezar e a insistir na oração.  E imediatamente a seguir dá o exemplo de um pai que tem um filho com fome. Todos vós, pais e avós, que estais aqui, quando o filho ou neto pede algo, ele está com fome, e pergunta e pergunta, em seguida, chora, grita, e está com fome: «Qual de vós, pais, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra em vez do peixe?» (v. 11). E todos vós tendes a experiência de que quando a criança pede, lhe dais de comer porque vos pede, e porque lhe faz bem.
Com estas palavras, Jesus faz-nos entender que Deus responde sempre, e que nenhuma oração permanecerá por escutar, porquê? Porque Ele é um pai, e ele não esquece os seus filhos que sofrem.
É claro que estas afirmações no colocam em crise, porque muitas das nossas orações parecem não obter nenhum resultado. Quantas vezes pedimos e não obtivemos - todos experimentamos - quantas vezes batemos e encontramos uma porta fechada? Jesus insta-nos, nesses momentos, a insistir e a não desistir. A oração transforma sempre a realidade, sempre. Se as coisas não mudam ao nosso redor, pelo menos nós mudamos, mudamos o nosso coração. Jesus prometeu o dom do Espírito Santo a todo homem e a toda mulher que ora.
Podemos estar certos de que Deus responderá. A única incerteza é devida aos tempos, mas não duvidemos que Ele responderá. Talvez tenhamos que insistir por toda a vida, mas Ele responderá. Ele prometeu-nos: Ele não é como um pai que dá uma cobra em vez de um peixe. Não há nada mais certo: o desejo de felicidade que todos nós trazemos no coração um dia será cumprido. Jesus diz: «Não fará Deus justiça aos seus eleitos, que por ele clamam dia e noite?» (Lc 18, 7). Sim, ele fará justiça, ele ouvir-nos-á. Esse fia de glória e de ressurreição chegará! Orar é ao fim e ao cabo a vitória sobre a solidão e o desespero. Orar. A oração muda a realidade, não esqueçamos isto. Ou muda as coisas ou muda os nossos corações, mas muda sempre. Orar é agora a vitória sobre a solidão e o desespero. É como ver todos os fragmentos da criação fervilhando no torpor de uma história que às vezes não entendemos o porquê. Mas está a mover-se, está a caminho e, no final de cada rua, o que estará no fim da nossa estrada? No final da oração, no final de um tempo em que estamos a orar, no final da vida: o que há? Há um pai que espera tudo e espera todos com os braços abertos. Nós olhamos para este Pai.

Catequese do Papa Francisco
9 de Janeiro de 2019




02 janeiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #03


Amados irmãos e irmãs, bom dia e também bom ano!

Prosseguimos as nossas catequeses sobre o “Pai-Nosso”, iluminados pelo mistério do Natal que acabamos de celebrar.
O evangelho de Mateus coloca o texto do “Pai-Nosso” num ponto estratégico, no centro do sermão da montanha (cf. 6, 9-13). Entretanto observemos o cenário: Jesus sobe à colina junto do lago, senta-se; em seu redor, em círculo, estão os seus discípulos mais íntimos, e depois uma grande multidão de rostos anónimos. É esta assembleia heterogénea a primeira que recebe a recomendação do “Pai-Nosso”.
A colocação, como foi dito, é muito significativa; pois neste longo ensinamento, que está sob o nome de “sermão da montanha” (cf. Mt 5, 1-7, 27), Jesus condensa os aspectos fundamentais da sua mensagem. O começo é como um arco decorado para a festa: as Bem-aventuranças. Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas que no seu tempo — mas também no nosso! — não eram muito consideradas. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os misericordiosos, as pessoas humildes de coração... Esta é a revolução do Evangelho. Onde há o Evangelho há revolução. O Evangelho não nos deixa impassíveis, estimula-nos: é revolucionário. Ao contrário, todas as pessoas capazes de amor, os artífices de paz, que até então tinham acabado nas margens da história, são os construtores do Reino de Deus. É como se Jesus dissesse: ide em frente vós, que levais no coração o mistério de um Deus que revelou a sua omnipotência no amor e no perdão!
Desta porta de entrada, que inverte os valores da história, sobressai a novidade do Evangelho. A Lei não deve ser abolida mas precisa de uma nova interpretação, que a reconduza ao seu sentido originário. Se uma pessoa tem um coração bondoso, predisposto para o amor, então compreende que cada palavra de Deus deve ser encarnada até às suas últimas consequências. O amor não tem confins: pode-se amar o próprio cônjuge, o próprio amigo e até o próprio inimigo com uma perspectiva totalmente nova. Jesus diz: «Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5, 44-45).
Eis o grande segredo que está na base de todo o sermão da montanha: sede filhos do vosso Pai que está nos céus. Aparentemente estes capítulos do Evangelho de Mateus parecem ser um sermão moral, parecem evocar uma ética tão exigente impossível de praticar, mas ao contrário descobrimos que são sobretudo um discurso teológico. O cristão não é alguém que se compromete a ser mais bondoso que os outros: sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente um homem que pára diante da nova Sarça Ardente, da revelação de um Deus que não inclui o enigma de um nome impronunciável, mas que pede aos seus filhos que o invoquem com o nome de “Pai”, que se deixem renovar pelo seu poder e que reflitam um raio da sua bondade para este mundo tão sedento de bem, à espera de boas novas.
Eis portanto como Jesus introduz o ensinamento da oração do “Pai-Nosso”. Fá-lo afastando-se de dois grupos do seu tempo. Antes de tudo os hipócritas: «não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens» (Mt 6, 5). Há pessoas capazes de tecer orações ateias, sem Deus e fazem-no para serem admirados pelos homens. E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à Igreja e ficam lá o dia inteiro ou vão todos os dias e depois vivem odiando os demais ou falando mal das pessoas. Isto é um escândalo! É melhor não ir à igreja: vives assim, como se fosses ateu. Mas se vais à igreja, vive como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho, não um contratestemunho. Ao contrário, a oração não tem outro testemunho crível a não ser a própria consciência, na qual se entrelaça um contínuo diálogo muito intenso com o Pai: «Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai» (Mt 6, 6).
Depois Jesus distancia-se da oração dos pagãos, «que usam de vãs repetições [...] porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos» (Mt 6, 7). Talvez aqui Jesus faça alusão àquela “captatio benevolentiae” que era a premissa necessária de tantas preces antigas: a divindade devia ser de qualquer forma acalmada com uma longa série de louvores, até de orações. Pensemos naquele cenário do Monte Carmelo, quando o profeta Elias desafiou os sacerdotes de Baal. Eles gritavam, dançavam, pediam muitas coisas para que o seu deus os ouvisse. E Elias, ao contrário, estava em silêncio e o Senhor revelou-se a Elias. Os pagãos pensam que falando, falando, falando, falando se reza. E também eu penso em tantos cristãos que creem que rezar é — desculpai — “falar a Deus como um papagaio”. Não! Rezar faz-se com o coração, de dentro. Ao contrário — diz Jesus — quando rezas, dirige-te a Deus como um filho ao seu pai, o qual sabe do que precisas ainda antes que tu lho peças (cf. Mt 6, 8). Poderia ser também uma prece silenciosa, o “Pai-Nosso”: no fundo é suficiente pôr-se sob o olhar de Deus, recordar-se do seu amor de Pai, e isto é suficiente para sermos ouvidos.
É bom pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor! Não tem necessidade de nada, o nosso Deus: na oração pede unicamente que mantenhamos aberto um canal de comunicação com Ele para nos descobrirmos sempre seus filhos amadíssimos. E Ele ama-nos tanto.



Catequese do Papa Francisco
2 de Janeiro de 2019