26 junho 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #04



Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

O fruto do Pentecostes, a poderosa efusão do Espírito de Deus sobre a primeira comunidade cristã, foi que muitas pessoas sentiram o próprio coração trespassado pelo alegre anúncio — o querigma — da salvação em Cristo e aderiram livremente a Ele, convertendo-se, recebendo o batismo em seu nome e aceitando por sua vez o dom do Espírito Santo. Cerca de três mil pessoas começam a fazer parte daquela fraternidade, que é o habitat dos crentes e constitui o fermento eclesial da obra de evangelização. O fervor da fé destes irmãos e irmãs em Cristo faz da sua vida o cenário da obra de Deus, que se manifesta com prodígios e sinais através dos Apóstolos. O extraordinário faz-se ordinário e o dia a dia torna-se o espaço da manifestação de Cristo vivo!
O Evangelista Lucas narra-nos isto, mostrando-nos a Igreja de Jerusalém como o paradigma de todas as comunidades cristãs, como o ícone de uma fraternidade que fascina e que não deve ser mitificada, nem sequer minimizada. A narração dos Atos permite-nos olhar para dentro das paredes da domus onde os primeiros cristãos se reúnem como família de Deus, espaço da koinonia, ou seja, da comunhão de amor entre irmãos e irmãs em Cristo. Perscrutando no seu interior, podemos ver que eles vivem de uma forma muito específica: são «assíduos no ensinamento dos Apóstolos, na união fraterna, na fração do pão e nas orações» (At 2, 42). Os cristãos ouvem assiduamente a didaqué, ou seja, o ensinamento apostólico; praticam relacionamentos interpessoais de alta qualidade (inclusive através da comunhão dos bens espirituais e materiais); fazem memória do Senhor mediante a “fração do pão”, isto é, a Eucaristia, e dialogam com Deus na oração. São estas as atitudes do cristão, as quatro caraterísticas de um bom cristão.
Contrariamente à sociedade humana, onde se tende a perseguir os próprios interesses, prescindindo ou até em detrimento do próximo, a comunidade dos crentes afasta o individualismo para favorecer a partilha e a solidariedade. Não há lugar para o egoísmo na alma do cristão: se o teu coração for egoísta, não és cristão, és um mundano, que só procuras a tua vantagem, o teu benefício. E Lucas diz-nos que os crentes permanecem juntos (cf. At 2, 44). A proximidade e a unidade são o estilo dos crentes: próximos, preocupados uns pelos outros, não para falar mal do outro, não, para ajudar, para se aproximar.
Portanto, a graça do Batismo revela a íntima união entre os irmãos em Cristo, que são chamados a compartilhar, a identificar-se com os outros e a dar, «de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45), ou seja, a generosidade, a esmola, preocupar-se pelo próximo, visitar os doentes, ir ao encontro dos necessitados, de quantos precisam de consolação.
E precisamente porque escolhe o caminho da comunhão e da atenção aos carentes, esta fraternidade que é a Igreja pode levar uma vida litúrgica verdadeira e autêntica. Lucas diz: «Frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo» (At 2, 46-47).
Enfim, a narração dos Atos recorda-nos que o Senhor garante o crescimento da comunidade (cf. 2, 47): a perseverança dos crentes na aliança genuína com Deus e com os irmãos torna-se força atrativa que fascina e conquista muitas pessoas (cf. Evangelii gaudium, 14), um princípio graças ao qual a comunidade de crentes de todos os tempos vive.
Oremos ao Espírito Santo a fim de que faça das nossas comunidades lugares onde receber e praticar a vida nova, as obras de solidariedade e de comunhão, lugares onde as liturgias sejam um encontro com Deus, que se torna comunhão com os irmãos e irmãs, lugares que sejam portas abertas para a Jerusalém celestial.

Catequese do Papa Francisco
26 de Junho de 2019








19 junho 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #03



Bom dia, caros irmãos e irmãs!

Cinquenta dias depois da Páscoa, naquele Cenáculo que já é a casa deles e onde a presença de Maria, Mãe do Senhor, constitui o elemento de coesão, os Apóstolos vivem um evento que supera as suas expetativas. Reunidos em oração — a prece é o “pulmão” que dá fôlego aos discípulos de todos os tempos; sem oração não se pode ser discípulo de Jesus; sem oração não podemos ser cristãos! Ela é o ar, o pulmão da vida cristã — são surpreendidos pela irrupção de Deus. Trata-se de uma irrupção que não tolera o fechamento: escancara as portas através da força de um vento que recorda a ruah, o sopro primordial, e cumpre a promessa da “força” feita pelo Ressuscitado antes da sua despedida (cf. At 1, 8). Chega inesperadamente, do alto: «De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde eles estavam» (At 2, 2).
Depois, ao vento acrescenta-se o fogo que evoca a sarça ardente e o Sinai, com o dom das dez palavras (cf. Êx 19, 16-19). Na tradição bíblica, o fogo acompanha a manifestação de Deus. No fogo Deus concede a sua palavra viva e enérgica (cf. Hb 4, 12) que abre ao futuro; o fogo exprime simbolicamente a sua função de aquecer, iluminar e testar os corações, a sua cura na provação da resistência das obras humanas, na sua purificação e revitalização. Enquanto no Sinai se ouve a voz de Deus, em Jerusalém, na festa de Pentecostes, quem fala é Pedro, a rocha sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja. A sua palavra, frágil e capaz até de renegar o Senhor, atravessada pelo fogo do Espírito, adquire força, torna-se capaz de trespassar os corações e de impelir à conversão. Com efeito, Deus escolhe aquilo que é fraco no mundo para confundir os fortes (cf. 1 Cor 1, 27).
Por conseguinte, a Igreja nasce do fogo do amor e de um “incêndio” que arde no Pentecostes e que manifesta a força da Palavra do Ressuscitado, imbuída de Espírito Santo. A Aliança nova e definitiva já não está fundamentada numa lei escrita em tábuas de pedra, mas na ação do Espírito de Deus, que renova tudo e é gravado em corações de carne.
A palavra dos Apóstolos impregna-se do Espírito do Ressuscitado e torna-se uma palavra nova, diferente, que no entanto é compreensível, como se fosse traduzida simultaneamente em todas as línguas: com efeito, «cada um os ouvia falar na própria língua» (At 2, 6). Trata-se da linguagem da verdade e do amor, que é a língua universal: até os analfabetos podem entendê-la. Todos compreendem a linguagem da verdade e do amor. Se te apresentares com a verdade do teu coração, com sinceridade, com amor, todos te hão de entender. Mesmo que tu não possas falar, faz uma carícia que seja verídica e amorosa.
O Espírito Santo não só se manifesta mediante uma sinfonia de sons que une e compõe harmoniosamente as diversidades, mas apresenta-se como o maestro que faz executar as partituras dos louvores pelas «grandes obras» de Deus. O Espírito Santo é o artífice da comunhão, é o artista da reconciliação que sabe remover as barreiras entre judeus e gregos, entre escravos e livres, para fazer de todos um só corpo. Ele edifica a comunidade dos crentes, harmonizando a unidade do corpo e a multiplicidade dos membros. Faz crescer a Igreja, ajudando-a a ir mais além dos limites humanos, dos pecados e de qualquer escândalo.
O assombro é grande, e alguém pergunta se aqueles homens estão embriagados. Então, Pedro intervém em nome de todos os Apóstolos e volta a ler aquele acontecimento à luz de Joel 3, onde se anuncia uma nova efusão do Espírito Santo. Os seguidores de Jesus não estão inebriados, mas vivem aquela que Santo Ambrósio define «a sóbria embriaguez do Espírito» que, através de sonhos e visões, acende a profecia no meio do povo de Deus. Esta dádiva profética não está reservada apenas a alguns, mas a todos aqueles que invocam o nome do Senhor.
Dali por diante, a partir desse momento, o Espírito de Deus impele os corações a acolher a salvação que passa através de uma Pessoa, Jesus Cristo, Aquele que os homens pregaram no madeiro da cruz e que Deus ressuscitou dos mortos, «libertando-o dos grilhões da morte» (At 2, 24). Foi Ele quem infundiu aquele Espírito que orquestra a polifonia de louvores e que todos podem ouvir. Como dizia Bento XVI, «o Pentecostes é isto: Jesus, e através dele o próprio Deus, vem a nós e atrai-nos para dentro de si» (Homilia, 3 de junho de 2006). O Espírito realiza a atração divina: Deus seduz-nos com o seu Amor e deste modo envolve-nos, para mover a história e encetar processos através dos quais Ele filtra a vida nova. Com efeito, só o Espírito de Deus tem o poder de humanizar e fraternizar cada contexto, a partir de quantos o recebem.
Peçamos ao Senhor que nos deixe experimentar um novo Pentecostes, que dilate os nossos corações e sintonize os nossos sentimentos com os de Cristo, para anunciarmos sem vergonha a sua palavra transformadora e testemunharmos o poder do amor que chama à vida tudo o que encontra.


Catequese do Papa Francisco
19 de Junho de 2019









A solenidade do Corpus Christi em Portugal

Texto: iMissio

A instituição da festa do Corpo do Senhor situa-se no movimento desejoso de ver a hóstia e a adorar, que valorizou o momento da celebração em que se faz a narração da Ceia, assinalado pelo toque de campainha e com solenização ritual.

A festa do Corpus Christi, mal traduzida por «Corpo de Deus», mas chamada «Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo», foi instituída na Bélgica em 1246 e aprovada para toda a Igreja latina em 1264, na quinta-feira após a oitava do Pentecostes. Constitui uma resposta de fé e de culto a doutrinas heréticas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, ao mesmo tempo que coroou um movimento de devoção ardente ao Santíssimo Sacramento do altar. Em 1318 já o papa João XXII lhe acrescentava a procissão solene, que a caracteriza por levar em triunfo o «Santíssimo Sacramento».

Portugal não esperou a determinação papal e acolheu a festa pouco depois da sua criação belga. Já há referências para o Porto (em 1294) e para Coimbra ainda no século XIII. O título de «Corpus Christi» aparece em livros da Colegiada de Guimarães (1302), foi dado ao convento dominicano de Gaia (entre 1348 e 1352) e para reparar um ultraje (1361 e 1362) à eucaristia acontecido em Coimbra foi erguida a Capela do Corpo de Deus, cerca de 1367. Em Évora dá o nome a uma travessa (1385). A Confraria do Corpo de Deus da Igreja de São João Bartolomeu (Guadalupe), em Braga, em 1403 já tinha uma centena de irmãos. Todas as cidades e vilas do reino realizavam com brilho a mais espantosa das procissões.

A procissão dava lugar a representações, como se conhece no tempo de D. Manuel. As manifestações teatrais e os jogos de danças que se juntaram aos cortejos solenes davam lugar a abusos, que foram controlados por determinações diocesanas.

A partir do final do século XV assistiu-se a uma vaga de fundo de ordenação e moralização das procissões católicas que atingiu acima de todas a do Corpus Christi, que na apresentação das diferentes corporações de mesteres ou determinados ofícios acabava por denotar a vida do concelho mas provocava crescimentos espetaculares de representatividade que procuravam fazer chamadas de atenção sobre o poder, económico em primeiro lugar, de alguns dos participantes.

As proibições desta procissão concelhio-religiosa foram muitas e atingiram sobretudo os seus elementos festivaleiros, como o São Jorge, o seu alferes, cavalo e sela, o Dragão, Serpe ou Conca, as danças e folias variadas.

Além da particular exaltação eucarística na Quinta-feira Santa, os acontecimentos mais atribulados da vida social e política e ocasiões de profanações sacrílegas proporcionavam solenes e emotivos atos de desagravo. João Marques sublinha o momento da Restauração como particularmente propício ao recurso do imaginário eucarístico nos sermões e nas narrações de atos litúrgicos. Unia-se a defesa da pátria à comunhão eucarística.

Esta sensibilidade foi contrariada pela separação da Igreja do Estado e pelas orientações do concílio plenário (1926), que conseguiram reduzir a procissão ao meramente religioso e nalguns lugares levaram mesmo à sua suspensão.

[D. Carlos A. Moreira Azevedo, António Camões Gouveia (Dicionário de História Religiosa de Portugal); Diretório sobre a piedade popular e a Liturgia]


14 junho 2019

A Santíssima Trindade


Fonte: zenit.org

SANTÍSSIMA TRINDADE
É celebrada no primeiro domingo depois de Pentecostes como um olhar retrospectivo de uma ação de graças sobre todo o mistério salvífico que o Pai opera no Filho pelo Espírito Santo. É uma festividade que foi introduzida no Calendário Romano em 1334, pelo papa João XXII, e que ainda é celebrada. Há factos históricos, na vida da Igreja que, em determinado tempo, foram motivos de apreensão e riscos contra a fé, por outro lado, esses riscos motivaram uma afirmação doutrinária consubstanciada no Plano de Salvação. Nos séculos III, IV e V surgiram controvérsias cristológicas e trinitárias, provocadas por heresias, como o Monarquianismo Modalista (ou Sabelianismo) do século III, afirmando que o Pai, Filho e Espírito Santo são simplesmente três aspectos ou manifestações da existência de uma só pessoa, Deus. Defendiam uma unidade de substância, negando as três Pessoas. Ário, que deu origem à heresia conhecida como arianismo, afirmava que Cristo era apenas homem, semelhante ao Pai, mas um ser criado. Cristo não tem alma, o Verbo substitui a alma. Heresia muito popular no seu tempo. Com essas heresias, defesa sistemática de tese ou doutrina errónea em face da doutrina dogmática da Igreja, a própria Igreja se vê na obrigação de afirmar os princípios da fé revelados na Sagrada Tradição e Sagrada Escritura, com a proclamação dogmática, depois de criterioso estudo. Foi o que aconteceu com os concílios de Nicéia em 335, Constantinopla em 381, Calcedónia em 451, e muitos Padres da Igreja, como Santo Atanásio, Basílio, Crisóstomo, Agostinho.
O Catecismo da Igreja Católica, no número 234, ensina que “o mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em sim mesmo. Portanto é a fonte de todos os outros mistérios da fé. É a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na hierarquia das verdades da fé”. Se quisermos chegar à fonte que nos alimenta, dando vigor espiritual para viver em plenitude o amor de Deus, basta seguir o caminho mais curto com a aproximação do Mistério Trinitário. Pois a fé católica consiste em venerar um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade, sem confundir as Pessoas e sem separá-las.
Resumindo o mistério celebrado nos três ciclos anuais, A, B e C, encontramos nas leituras dominicais uma síntese: o amor salvador do Pai que entrega seu Filho por nós, que, por sua vez, confia aos seus discípulos a missão de pregar por todo o mundo, como resposta do mistério festivo, pois tudo o que ele recebeu do Pai é dado aos discípulos pelo Espírito da Verdade.
A CATEQUESE TRINITÁRA
Deus é Tri-Uno. É indivisível. É um, embora sejam três pessoas distintas uma das outras, mas um só Deus. É a Trindade. No acto da criação estava a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas, pelo relato bíblico, somente o Pai é manifestado, como acontece em todo o Antigo Testamento. Israel não conheceu a Trindade.
A revelação que Deus faz de si mesmo aos homens se dá paulatinamente e de forma progressiva, para que o homem possa assimilar e absorver o seu mistério. Deus não se revela totalmente, desde o começo. Dá tempo ao homem, em cada etapa da Revelação, para que ele possa responder ao seu gesto de amor. É a pedagogia de Deus. Este é o mistério do Deus que se manifesta como vemos no Catecismo da Igreja: “A Trindade é um mistério de fé, no sentido estrito, um dos ‘mistérios escondido em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados pelo alto’ (DS, 3015). Sem dúvida Deus deixou vestígios de seu ser trinitário na sua obra da Criação e na sua Revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu Ser como Santíssima Trindade constitui um mistério inacessível à pura razão e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo” (CIC, n.237).
No Mistério Trinitário centraliza toda a vida da Igreja. A história da salvação só é compreendida na Trindade, onde há um Deus Criador, um Deus Salvador e um Deus Santificador: um Deus invisível em três Pessoas. Não são três indivíduos, mas três Pessoas inseparáveis. Não são três nomes, mas uma Trindade indivisível como vemos no mandato de Cristo: “baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).
A Trindade está impregnada em nossa vida como uma marca, um selo cravado no coração e na alma. Ela deveria ser mais consciente e abundante na devoção popular, não como um gesto repetitivo, mas enraizado e sensível. A Trindade está no nosso Baptismo, pois foi com ela que entramos para a Igreja. Está no sinal que traçamos sobre nós ao fazermos o sinal da cruz. Está no início e no final de todas as nossas orações. Está nas nossas orações antes do trabalho. Está no começo e no final da Missa. Está em toda a doxologia: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!

12 junho 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #02



Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Começámos um percurso de catequeses que seguirá a “viagem”: a viagem do Evangelho narrada pelo livro dos Actos dos Apóstolos, pois este livro mostra certamente a viagem do Evangelho, como o Evangelho foi além, além, além... Tudo parte da Ressurreição de Cristo. Com efeito, ele não é um evento entre outros, mas é a fonte da vida nova. Os discípulos sabem-no e — obedientes ao mandamento de Jesus — permanecem unidos, concordes e perseverantes na oração. Estreitam-se a Maria, a Mãe, e preparam-se para receber o poder de Deus não de maneira passiva, mas consolidando a comunhão entre eles.
Aquela primeira comunidade era composta por mais ou menos 120 irmãos e irmãs: um número que contém o 12, emblemático para Israel, pois representa as doze tribos, e emblemático para a Igreja, devido aos doze Apóstolos escolhidos por Jesus. Mas agora, depois dos eventos dolorosos da Paixão, os Apóstolos do Senhor já não são doze, mas onze. Um deles, Judas, já não existe: matou-se esmagado pelo remorso.
Já antes se tinha começado a separar da comunhão com o Senhor e com os demais, a fazer sozinho, a isolar-se, a apegar-se ao dinheiro chegando a instrumentalizar os pobres, a perder de vista o horizonte da gratuidade e da doação de si, chegando a permitir que o vírus do orgulho contaminasse a sua mente e o seu coração transformando-o de «amigo» (Mt 26, 50) em inimigo e em «guia dos que prenderam Jesus» (Act 1, 16). Judas tinha recebido a grande graça de fazer parte do grupo dos íntimos de Jesus e de participar do seu ministério, mas a um certo ponto pretendeu “salvar” por si a sua vida com o resultado de a perder (cf. Lc 9, 24). Deixou de pertencer com o coração a Jesus e afastou-se da comunhão com Ele e com os seus. Deixou de ser discípulo e colocou-se acima do Mestre. Vendeu-o e com o «preço do seu crime» comprou um terreno, que não deu frutos mas ficou impregnado com o seu próprio sangue (cf. Act 1, 18-19).
Se Judas preferiu a morte e não a vida (cf. Dt 30, 19; Eclo 15, 17) e seguiu o exemplo dos ímpios cuja via é como a obscuridade e cai em ruínas (cf. Pr 4, 19; Sl 1, 6), ao contrário os Onze escolhem a vida e a bênção, tornam-se responsáveis em fazê-la fluir por sua vez na história, de geração em geração, do povo de Israel para a Igreja.
O Evangelista Lucas mostra-nos que diante do abandono de um dos Doze, que causou uma ferida no corpo comunitário, é necessário que o seu cargo passe para outro. E quem o poderia assumir? Pedro indica uma exigência: o novo membro deve ter sido um discípulo de Jesus desde o início, ou seja, desde o Batismo no Jordão, até ao final, isto é, à ascensão ao Céu (cf. Act 1, 21-22). É necessário reconstruir o grupo dos Doze. Inaugura-se a este ponto a praxe do discernimento comunitário, que consiste em ver a realidade com os olhos de Deus, na ótica da unidade e da comunhão.
São dois os candidatos: José Barsabás e Matias. Então toda a comunidade reza assim: «Senhor, Tu que conheces o coração de todos, indica-nos qual destes dois escolheste para ocupar... o lugar abandonado por Judas» (Act 1, 24-25). E, através do destino, o Senhor indica Matias, que é associado aos Onze. Reconstrói-se assim o corpo dos Doze, sinal da comunhão, e a comunhão vence as divisões, o isolamento, a mentalidade que absolutiza o espaço do particular, sinal de que a comunhão é o primeiro testemunho que os Apóstolos oferecem. Jesus tinha dito: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).
Os Doze manifestam nos Actos dos Apóstolos o estilo do Senhor. São as testemunhas acreditadas da obra de salvação de Cristo e não manifestam ao mundo a sua suposta perfeição mas, através da graça da unidade, fazem sobressair Outro que já vive num mundo novo no meio do seu povo. E quem é ele? É o Senhor Jesus. Os Apóstolos escolhem viver sob o senhorio do Ressuscitado na unidade entre os irmãos, que se torna a única atmosfera possível da doação autêntica de si.
Também nós temos necessidade de redescobrir a beleza de testemunhar o Ressuscitado, abandonando as atitudes autorreferenciais, renunciando a reter os dons de Deus e não cedendo à mediocridade. A recomposição do colégio apostólico mostra que no adn da comunidade cristã existe a unidade e a liberdade de si mesmo, que permitem não temer a diversidade, não apegar-se às coisas nem aos dons e tornar-se martyres, ou seja, testemunhas luminosas do Deus vivo e activo na história.


Catequese do Papa Francisco
12 de Junho de 2019







A Trindade marca encontro com a humanidade



Uma das expressões mais constantes nos discursos e na prática do Papa Francisco é o apelo a viver a “cultura do encontro”, inspirado na comunhão intra-trinitária: “Vivei a mística do encontro: a capacidade de ouvir atentamente as outras pessoas; a capacidade de procurar juntos o caminho, o método, deixando-vos iluminar pelo relacionamento de amor que se verifica entre as três Pessoas divinas e tomando-o como modelo de toda a relação interpessoal”. 

Na contemplação da Encarnação dos Exercícios Espirituais, S. Inácio nos convida a imaginar a Trindade que, com seu olhar compassivo, acolhe “a grande extensão e a curvatura do mundo” com um abraço apertado e decidido, de tal maneira que nada do que é do mundo é deixado para trás, evitado ou negado.

O que aconteceu no mistério da Encarnação é algo surpreendente e cheio de novidade. A decisão da “humanização” de Jesus brota das entranhas do Deus Comunidade de amor: “ver e considerar as Três Pessoas divinas...”. Ao se revelar Manancial e Fonte de nossa humanidade, não é mais possível crer que o Deus Uno e Trino seja nosso rival, mas amigo; não é possível mais aceitar que Ele seja insensível, mas providente; que seja nossa ameaça, mas alívio; que seja nossa diminuição, mas plenitude; Ele não é o “juiz distante” mas o “Deus encontro”, fonte de nossa liberdade... 

Inspirados na linguagem da “Contemplação da Encarnação”, contemplamos, com o olhar da Trindade, nosso mundo fragmentado, vendo as diversidades em conflito que geram o sofrimento, a exclusão, a morte e os infernos... E esses espaços e fronteiras são cada vez mais extensos e problemáticos; mas, nas profundezas de todos esses “mundos que nos são estranhos” se revela a presença do Filho de Deus “novamente encarnado” (EE. 109). Pois tudo foi alcançado e redimido pelo amor encarnado de Deus.

O mistério da Trindade Amorosa nos conduz à contemplação da realidade na qual vivemos e nos inspira a uma proximidade e um conhecimento mais profundo do “mundo” para o qual somos enviados.

O mais importante nesta festa que estamos celebrando, seria purificar nossa ideia do Deus-Comunhão-de-Pessoas e ajustá-la cada vez mais à realidade que d’Ele Jesus nos quis transmitir. Jesus nos ensinou que, para fazer uma verdadeira experiência de Deus, o ser humano precisa aprender a olhar dentro de si mesmo (Espírito), olhar os outros (Filho) e olhar o transcendente (Pai). Jesus não pregou a Trindade, mas abriu o caminho que conduz ao Pai e nos legou seu Espírito.

Na realidade, a experiência dos primeiros cristãos é que a Trindade podia ser, ao mesmo tempo e sem contradição: Deus que é origem, princípio, fonte de tudo (Pai); Deus que se faz um de nós (Filho); Deus que se identifica com cada um de nós (Espírito). Estão nos falando da Trindade que não se fecha em si mesma, mas pura relação que transborda e se visibiliza na criação inteira, fazendo de cada ser humano sua morada. Deus é sempre Trindade, comunhão de Três Pessoas divinas, pelas quais circula toda a torrente de Vida Eterna.

Também S. Agostinho assim sintetizou esse mistério trinitário: “Aqui temos três coisas: o Amante, o Amado e o Amor”; um Pai Amante, um Filho amado e o vínculo que mantém unidos os dois, o Espírito de Amor. Sendo presença visível desta Comunidade de Amor, Jesus quer que entremos nesse mesmo fluxo do Amor, expansivo e vital. 

A festa do Deus-Trindade, do Deus dos encontros, é especialmente significativo para a o contexto atual, carregado de desencontros, de rupturas e profundas divisões; para quem crê na Trindade, os vínculos, a comunicação e a partilha são especialmente significativos; quem se deixa habitar pela Trindade, acolhe a diversidade e a reciprocidade como nutriente de sua maneira de estar e de viver no mundo; entrar no fluxo de vida da Trindade significa comprometer-se com a vida e não com a cultura de morte; trabalhar com a Trindade implica viver em rede humanizadora, valorizando a solidariedade, a colaboração e a interdependência. Todos esses valores, com suas luzes e sombras, são uma boa porta de entrada para iniciar-nos no conhecimento do mistério do Deus-Trindade anunciado por Jesus.

O Deus comunhão, que se revelou em Jesus, fundamenta e ilumina a dignidade e liberdade do ser humano, e o capacita a viver relações e interações transformadoras na vida social e na igreja. O Deus dos encontros suscita práticas de diálogo e de reciprocidade no amor, na acolhida e na potenciação da diversidade como riqueza. 

Na contemplação do Pai, do Filho e do Espírito, aprende-se a amar, a relacionar-se, a sentir-se família com todos. Como Pai Bom que, no regresso do filho, o abraça com ternura, o cobre de beijos e lhe oferece o perdão gratuitamente. Como o Filho que se inclina para lavar e beijar os pés de cada ser humano, e se entrega como serviço. Como o Espírito que incita e sustenta com seu amor o ser humano, que é vínculo de união, criação e dinamismo, liberdade, fonte do maior consolo, luz na obscuridade, bálsamo para as feridas, criatividade e audácia na missão. 

Portanto, a contemplação do mistério do Deus Trindade ativa em nós uma “maneira trinitária de ser e de estar” no mundo; nossa presença e nossa missão fazem do mundo em que vivemos um lugar transparente, santo e luminoso em Deus. A Trindade nos expande e nos lança em direção ao mundo, à humanidade, nos faz mais universais e nos capacita para sermos “contemplativos nos encontros”. 

Na espiritualidade cristã, quem experimenta o encontro com a Trindade, Fonte de vida e amor, começa a “ver” os homens e as mulheres no mundo como a Trindade mesma os vê. Precisamente por ter-se encontrado com a Trindade-Comunhão, a pessoa torna-se mais “encarnada” na realidade e mais comprometida com os irmãos e irmãs no mundo, sobretudo com os mais pobres, os mais sofridos e excluídos; é aquela que mais se compromete com a justiça e é a que mais desenvolve uma criatividade eficaz na história, com obras que nos surpreendem. 

Desde o princípio, fomos criados para o encontro; somos seres comunitários: vivemos com os outros, estamos com os outros, somos para os outros... Somos filhos(as) do encontro e do diálogo e realizamo-nos quando permanecemos em comunhão uns com os outros, na medida em que nos encontramos e nos amamos. “Ser” significa “ser com”, ser com os outros; existir significa coexistir. Nessa coexistência buscamos ansiosamente e descobrimos a nossa identidade.

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos   com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12). Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... 

Neste novo tempo, a Trindade Santa chama cada um de nós a uma maneira mais aberta e livre de nos relacionar com todos aqueles que são os “outros”. Afinal “somos pessoas para os outros e com os outros”. 

A cultura do mundo no qual agora vivemos requer outro tipo de ascética: uma ascética de encontros.

Construir a cultura do encontro passa pelo esforço e aprendizado de sair de si para entrar em relação com a diversidade. Ante um mundo global, diverso, multicultural, qualquer tentativa de homogeneização e uniformidade está fadada ao fracasso. Descobrir que a riqueza está na diversidade é a base sobre a qual se parte para a destruição dos muros e a construção de pontes que facilitem o encontro. Isso não significa perder os próprios valores e a identidade cultural; pelo contrário, quando somos conscientes de nossa própria identidade é quando nos tornamos capazes de entrar em relação com o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente. Afinal, “só corações solidários adoram um Deus Trinitário”.  

Textos bíblicos:  Jo 16,12-15    

Na oração:

“Trindade Santa, para descobrir tua proposta original, ensina-nos a contemplar o mundo inteiro com o teu próprio olhar, respeitoso e fiel à nossa realidade”
(Benjamin Buelta).
- Sentir-se olhado pela Trindade (impacto na própria interioridade, como Maria);
- Olhar o mundo com o olhar da Trindade (universalidade);
- Evangelizar os sentidos, muitas vezes atrofiados e limitados, para que eles sejam mediação para viver encontros verdadeiramente humanizadores. 

Pe. Adroaldo Palaoro sj
publicado no site Catequese Hoje




Peregrinação das Crianças a Fátima | 2019


E foi na madrugada do dia 10 de junho que entramos no autocarro para mais uma aventura às 5:30 lá estávamos nós a sair de Rendufinho. 
A caminho, rezamos o terço, louvamos Nossa Senhora com cânticos e pedimos para que o nosso dia fosse repleto de alegrias e aprendizagem. 
Por volta das 8:30 chegamos ao Santuário da Nossa Senhora de Fátima. 


Fomos em direção à Basílica da Santíssima Trindade onde iríamos assistir ao teatro "Façam aqui uma capela" tema da peregrinação deste ano, em comemoração da construção da Capelinha das Aparições. Este foi o pedido de Nossa Senhora na sua última aparição aos Pastorinhos.
No fim do teatro, fomos para o recinto do santuário para assistirmos à celebração da Eucaristia que este ano era acompanhada de interpretação de língua gestual pelo primeiro ano, para as crianças surdas conseguirem vivenciar melhor a sua fé.



Eram cerca de 25 mil crianças juntas a celebrar a amor da mãe.
Antes da bênção final, tivemos a honra de mais um ano podermos ouvir a famosa frase "Meus amiguitos e minhas amiguitas…" pelo D. António Marto que nos disse: “Vós sois um espetáculo de beleza! E há um espetáculo que não se vê, mas está dentro de vós, hoje: a beleza do vosso amor filial a Nossa Senhora e do amor fraterno entre todos!”
E recebemos a surpresa como todos anos é claro. Desta vez foi um terço da azinheira para rezarmos em família, com amigos, na catequese, sozinhos…
Como a fome já era muita, fomos almoçar para seguirmos viagem para Aveiro. 
Fomos para o Jardim Oudinot onde podíamos apreciar o mar, saltar, brincar na relva, passear por ali e lancharmos. 


Visitamos lá a Capela da Nossa Senhora dos Navegantes e passámos o resto da tarde a desfrutar da companhia uns dos outros. 
Houve vários jogos como, mata, lencinho, saltar à corda… 
Na viagem de regresso a casa cada um tinha que dizer uma palavra para descrever o dia, algumas das quais foram: feliz, fixe, lindo, magnífico, espetacular, memorável… 
Depois, foi cantar até chegarmos à nossa casa.
Para o ano queremos repetir é claro! Porque como eu disse: Vai! Se lá fores feliz, fica!



Fotos e texto: Paula Silva, catequista





07 junho 2019

Solenidade de Pentecostes


Vinde, Espírito Santo, 
enchei os corações dos vossos fiéis 
e acendei neles o fogo do Vosso amor. 
Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado, 
e renovareis a face da terra. 

Oremos:
Ó Deus, 
que instruístes os corações dos vossos fiéis 
com a luz do Espírito Santo, 
fazei que apreciemos rectamente todas as coisas 
e gozemos sempre da sua consolação. 
Por nosso Senhor Jesus Cristo, 
na unidade do Espírito Santo. Amen.






06 junho 2019

Pentecostes: de portas abertas



Lembremo-nos que, no domingo passado, após a Ascensão, os discípulos retornaram ao Templo de Jerusalém: “E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lc 24, 53). Isso quer dizer que eles ainda não estavam em movimento; eles não tinham tomado consciência de que eram habitados pelo Espírito Santo e que deviam sair do Templo para partir em missão. No entanto, em Pentecostes eles se deram conta de que deviam sair do Templo para transmitir o Sopro de vida (vento), para reunir no Amor todos os povos (fogo) e para comunicar a todos o Amor universal (línguas). A presença do Espírito rompeu os espaços atrofiados e os fez viver de portas abertas. Esta é a missão do Espírito Santo. 

A Igreja, como povo de Deus, cheia de graça e de verdade, hoje se veste de festa porque está celebrando seu nascimento. Ela finca suas raízes no acontecimento de Pentecostes quando o Pai, por seu Filho, envia o Espírito da verdade e da vida à humanidade. Os discípulos receberam a força do Espírito em um contexto de debilidade e de medo. As portas estavam fechadas, no meio do mundo, por temor. E é no meio desse mundo desafiador e do medo paralisante que o Espírito rompe as portas e destranca as janelas; o que era realidade fechada e assustada se converte em comunidade “em saída”, apostólica, missionária.

O Ressuscitado cumpre a promessa definitiva: envia seu Espírito. Espírito de vida e confiança, de fortaleza e verdade, de amor e graça. É o Espírito da liberdade, que arranca as portas dos temores e das seguranças e abre as janelas para deixar entrar o vento que faz viver o risco no amor comprometido; é o Espírito do fogo que aviva a luta pela dignidade e a possibilidade da reconciliação do ser humano ferido com o Deus providente e curador, que se revela como compaixão e misericórdia; é o Espírito que torna possível outro mundo, que ativa o cuidado para com a natureza: a ecologia que se faz comunhão e se humaniza, frente ao medo da destruição do universo e daqueles que o habitam.

Com sua presença rompedora, o Espírito enche a casa onde os discípulos estavam juntos. Ele não se deixa sequestrar em certos lugares que dizemos “sagrados”. Agora “sagrada” torna-se a casa: a minha, a tua e todas as casas são o espaço privilegiado da ação Espírito. Ele vem de imprevisto, e nos apanha de surpresa, pois nem sempre estamos preparados para deixar-nos conduzir por Ele. O Espírito não suporta esquemas, rompe o que está programado, é um vento de liberdade, fonte de vida expansiva. 

Um vento que sacode nossa casa, que a enche de luz e segue adiante, que traz pólens de primavera e dispersa a poeira, que traz fecundidade e dinamismo para o interior de cada um, «esse vento que faz nascer os garimpeiros de ouro» (G. Vannucci). 

Vivemos um permanente Pentecostes. Quando sentimos medo é porque nos centramos em nós mesmos, nos auto-referenciamos, e a realidade nos força a buscar refúgio e proteção. Nossa fragilidade e a violência do mundo nos alarmam e buscamos segurança e conservação. Mas isso dificulta anunciar o evangelho, levar a boa notícia ao mundo e impede nossa própria realização como cristãos, pois apaga nossa criatividade e esvazia nossa presença inspiradora. Celebrar Pentecostes é acreditar que “outra igreja é possível”, que temos de superar nossos medos para construir e ser a comunidade da confiança, aquela que se arrisca na missão e no exercício da misericórdia, aquela que se descobre como fermento no meio da massa e leva a alegria do evangelho. 

O medo, a obscuridade e o fechamento da “casa interior” se transformam, agora com a presença do Espírito, em paz, alegria e envio missionário. São sinais palpáveis da ação misteriosa e transformante do Espírito no interior de cada um e da comunidade. 

Na vida cristã, ser espiritual faz referência ao Espírito de Deus. “Espirituais”, de algum modo, somos todos, mas a chave para deixar que essa dimensão da vida cresça está em facilitar que, dentro de nós, o Espírito de Deus tenha espaço para mover-se, ressoar e suscitar inquietações. Não se trata de que, ao habitar-nos, o Espírito nos invada. Antes, trata-se de uma convivência que potencia o melhor de nós mesmos, que faz que a solidão seja habitada e mantém os sentidos muito mais alerta.

O Espírito ressoa na oração, na atividade, ao ver o noticiário, ao dar um abraço, ao ler um livro, em uma canção, ao contemplar um quadro, fazendo um passeio, escutando alguém que nos fala de sua vida... Ressoa na história e na imaginação que nos convida a sonhar um futuro melhor. Ressoa no encontro humano. E, sob seu impulso, amadurecem em cada um de nós aquelas atitudes que nos levam a viver com mais plenitude: compaixão, justiça, verdade, amor... 

A violência, a injustiça, a intolerância e o preconceito em todos as instâncias da sociedade atual nos enchem de medo, desalento e desesperança. Não vemos saída e preferimos fechar-nos em nós mesmos, em nossos ambientes mofados e práticas religiosas alienadas, esquecendo-nos do grande movimento de vida desencadeado por Jesus, conduzido pelo Espírito de vida. É este mesmo Espírito que irrompe em nosso interior, transpassa as portas do coração e ilumina o entendimento para que compreendamos a novidade do Evangelho e tenhamos presença diferenciada no contexto em que vivemos.

Deixar-nos habitar pelo Espírito implica romper a bolha que asfixia nossa vida e derrubar os muros que cercam nosso coração e atrofia nossa própria existência. A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, em tempos de Pentecostes, revisemos nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada do ar para arejar o próprio interior. 

Nada mais contrário ao espírito de Pentecostes que uma vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores... Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura. 

Há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação. A cultura da indiferença edifica uma barreira intransponível entre nós e os outros. Tornamo-nos uma ilha sem vida e triste, negamos a condição criatural de vivermos ao lado dos diferentes, nossos semelhantes. Em nós, a indiferença, a intolerância e a violência são sintomas de desumanização. E essa desumanização é tanto prejudicial a nós quanto às outras pessoas. Todo mundo perde. Aos poucos, nos recolhemos em nossos medos, em nossas inseguranças e começamos a acreditar que os diferentes são nossos inimigos. A partir de nossa reclusão religiosa, social, política..., passamos a divulgar discursos fascistas, alimentar práticas fundamentalistas de segregação, apoiar-nos em moralismos estéreis... 

O Espírito de Pentecostes nos desarma e nos capacita a viver a cultura do encontro; isso significa desenvolver a própria capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à nossa volta. Ela ativa uma relação sadia com todos; o centro se expande em direção aos outros e à criação, fazendo-nos viver uma conexão livre com toda a realidade, através da íntima solidariedade e do compromisso ativo. 


Texto bíblico: Jo 20,19-23

Na oração: Que sinais da presença dinamizadora do Espírito de Deus você pode perceber em sua vida pessoal, familiar e comunitária?

Você conhece pessoas que atuam sob a ação do Espírito? Por quê? Quê você pode fazer para descobrir e potenciar os dons e ministérios que o Espírito continua suscitando nas pessoas e comunidades?

- Faça um tempo de oração mais profunda, procurando escutar as moções que o Espírito suscita em seu interior e que talvez não tenha condições de escutar na pressa diária.

- Que portas você mantém fechadas? Que portas continuam fechadas nas igrejas? São portas, ou se converteram em fronteiras? Por medo de quê? De quem?



Pe. Adroaldo Palaoro sj
publicado no site Catequese Hoje







04 junho 2019

Oração para pedir os dons do Espírito Santo






Espírito Santo, concedei-me o dom da sabedoria, a fim de que cada vez mais aprecie as coisas divinas e, abrasado pelo fogo do Vosso amor, prefira com alegria as coisas do céu a tudo o que é mundano, e me una para sempre a Cristo, sofrendo neste mundo por seu amor.

Espírito Santo, concedei-me o dom do entendimento, para que, iluminado pela luz celeste da Vossa graça, entenda bem as sublimes verdades da salvação e da doutrina da santa religião.

Espírito Santo, concedei-me o dom do conselho, tão necessário nos melindrosos passos da vida, para que escolha sempre aquilo que mais seja do Vosso agrado, siga em tudo a Vossa divina graça e saiba socorrer o meu próximo com bons conselhos.

Espírito Santo, concedei-me o dom da fortaleza, para que eu fuja do pecado, pratique a virtude com santo fervor e afronte com paciência, e mesmo com alegria de espírito, o desprezo, o prejuízo, as perseguições e a própria morte, antes de renegar por palavras e obras a Cristo.

Espírito Santo, concedei-me o dom da ciência, para que conheça cada vez mais a minha própria miséria e fraqueza, a beleza da virtude e o valor inestimável da alma, e para que veja sempre claramente as ciladas do demónio, da carne, do mundo, a fim de as evitar.

Espírito Santo, concedei-me o dom da piedade, que tornará delicioso o meu trato e colóquio Convosco na oração e me fará amar a Deus com íntimo amor como a meu Pai, a Maria Santíssima e a todos os homens como meus irmãos, em Jesus Cristo.

Espírito Santo, concedei-me o dom do temor de Deus, para que eu me lembre sempre, com suma reverência e profundo respeito, a Vossa divina presença, trema como os próprios anjos diante da Vossa divina majestade e nada receie tanto como desagradar-Vos!

Vinde, Espírito Santo, ficai comigo e derramai sobre mim as Vossas divinas bênçãos. Amém.




Junho, o mês do Sagrado Coração de Jesus


Texto: Aleteia

No mês de junho, a Igreja celebra o Sagrado Coração de Jesus, uma devoção que existe desde os primórdios do Cristianismo, quando as pessoas refletiam sobre o coração aberto de Jesus. 
Celebrar o Coração de Jesus torna-se uma importante ocasião pastoral para que toda a comunidade cristã novamente se sensibilize para fazer deste admirável Sacrifício e Sacramento o coração da própria vida.
Bento XVI, certa vez, falou sobre a importância desta devoção: 
“A contemplação do ‘lado transpassado pela lança’, na qual resplandece a vontade infinita de salvação por parte de Deus, não pode ser considerada, portanto, como uma forma passageira de culto ou de devoção: a adoração do amor de Deus, que encontrou no símbolo do ‘coração transpassado’ sua expressão histórico-devocional, continua sendo imprescindível para uma relação viva com Deus”. 

A origem da devoção 

A devoção ao Sagrado Coração aparece em dois acontecimentos fortes do evangelho: o gesto de São João, discípulo amado, encostando a sua cabeça em Jesus durante a última ceia (cf. Jo 13,23); e na cruz, onde o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança (cf. Jo 19,34). Em um temos o consolo pela dor da véspera de sua morte, e no outro, o sofrimento causado pelos pecados da humanidade. Estes dois exemplos do evangelho nos ajudam a entender o apelo de Jesus, feito em 1675, a Santa Margarida Maria Alacoque:
“Eis este coração que tanto tem amado os homens. Não recebo da maior parte senão ingratidões, desprezos, ultrajes, sacrilégios, indiferenças… Eis que te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento (Corpo de Deus) seja dedicada a uma festa especial para honrar o Meu coração, comungando neste dia e dando-lhe a devida reparação por meio de um ato de desagravo, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo em que esteve exposto sobre os altares. E prometo-te que o Meu Coração se dilatará para derramar com abundância as influências de Seu divino Amor sobre os que tributem esta divina honra e que procurem que ela lhe seja prestada.”

O papa João Paulo II sempre cultivou esta devoção e a incentivava a todos que desejassem crescer na amizade com Jesus.