13 dezembro 2019

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz | 2020




MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 53º DIA MUNDIAL DA PAZ


1 de janeiro de 2020


"A paz como caminho de esperança:
diálogo, reconciliação e conversão ecológica."



1. A paz, caminho de esperança face aos obstáculos e provações

A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda a humanidade. Depor esperança na paz é um comportamento humano que alberga uma tal tensão existencial, que o momento presente, às vezes até custoso, «pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho»[1]. Assim, a esperança é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis.

A nossa comunidade humana traz, na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e frágeis. Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro. Inúmeras vítimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilhação e da exclusão, do luto e da injustiça, se não mesmo os traumas resultantes da opressão sistemática contra o seu povo e os seus entes queridos.

As terríveis provações dos conflitos civis e dos conflitos internacionais, agravadas muitas vezes por violências desalmadas, marcam prolongadamente o corpo e a alma da humanidade. Na realidade, toda a guerra se revela um fratricídio que destrói o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana.

Sabemos que, muitas vezes, a guerra começa pelo facto de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio. Nasce, no coração do homem, a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo. A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo; e simultaneamente alimenta tudo isso.

Como fiz notar durante a recente viagem ao Japão, é paradoxal que «o nosso mundo viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo. A paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma ameaça de aniquilação total. São possíveis só a partir duma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã»[2].

Toda a situação de ameaça alimenta a desconfiança e a retirada para dentro da própria condição. Desconfiança e medo aumentam a fragilidade das relações e o risco de violência, num círculo vicioso que nunca poderá levar a uma relação de paz. Neste sentido, a própria dissuasão nuclear só pode criar uma segurança ilusória.

Por isso, não podemos pretender manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação, num equilíbrio muito instável, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferença, onde se tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada para os dramas do descarte do homem e da criação, em vez de nos guardarmos uns aos outros[3]. Então como construir um caminho de paz e mútuo reconhecimento? Como romper a lógica morbosa da ameaça e do medo? Como quebrar a dinâmica de desconfiança atualmente prevalecente?

Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos.


2. A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade

Os sobreviventes aos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui – denominados os hibakusha – contam-se entre aqueles que, hoje, mantêm viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescritíveis que se seguiram até aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição. «Não podemos permitir que as atuais e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno»[4].

Como eles, há muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem às gerações futuras o serviço imprescindível da memória, que deve ser preservada não apenas para evitar que se voltem a cometer os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilusórios do passado, mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras.

Mais ainda, a memória é o horizonte da esperança: muitas vezes, na escuridão das guerras e dos conflitos, a lembrança mesmo dum pequeno gesto de solidariedade recebida pode inspirar opções corajosas e até heroicas, pode colocar em movimento novas energias e reacender nova esperança nos indivíduos e nas comunidades.

Abrir e traçar um caminho de paz é um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas relações entre pessoas, comunidades e nações, são múltiplos e contraditórios. É preciso, antes de mais nada, fazer apelo à consciência moral e à vontade pessoal e política. Com efeito, a paz alcança-se no mais fundo do coração humano, e a vontade política deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades.

O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade mais além das ideologias e das diferentes opiniões. A paz é uma construção que «deve estar constantemente a ser edificada»[5], um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irmão.

Por conseguinte, o processo de paz é um empenho que se prolonga no tempo. É um trabalho paciente de busca da verdade e da justiça, que honra a memória das vítimas e abre, passo a passo, para uma esperança comum, mais forte que a vingança. Num Estado de direito, a democracia pode ser um paradigma significativo deste processo, se estiver baseada na justiça e no compromisso de tutelar os direitos de cada um, especialmente se vulnerável ou marginalizado, na busca contínua da verdade[6]. Trata-se duma construção social em contínua elaboração, para a qual cada um presta responsavelmente a própria contribuição, a todos os níveis da comunidade local, nacional e mundial.

Como assinalava o Papa São Paulo VI, «a dupla aspiração – à igualdade e à participação – procura promover um tipo de sociedade democrática. (...). Isto, de per si, já diz bem qual a importância de uma educação para a vida em sociedade, em que, para além da informação sobre os direitos de cada um, seja recordado também o seu necessário correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em relação aos outros. O sentido e a prática do dever são, por sua vez, condicionados pelo domínio de si mesmo, pela aceitação das responsabilidades e das limitações impostas ao exercício da liberdade do indivíduo ou do grupo»[7].

Pelo contrário, a fratura entre os membros duma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecução do bem comum. Inversamente, o trabalho paciente, baseado na força da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaixão e solidariedade criativa.
Na nossa experiência cristã, fazemos constantemente memória de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconciliação (cf. Rm 5, 6-11). A Igreja participa plenamente na busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperança da paz, através da transmissão dos valores cristãos, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais.


3. A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna

A Bíblia, particularmente através da palavra dos profetas, chama as consciências e os povos à aliança de Deus com a humanidade. Trata-se de abandonar o desejo de dominar os outros e aprender a olhar-se mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irmãos. O outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. Somente escolhendo a senda do respeito é que será possível romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança.

Guia-nos a passagem do Evangelho que reproduz o seguinte diálogo entre Pedro e Jesus: «“Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”» (Mt 18, 21-22). Este caminho de reconciliação convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso coração a força do perdão e a capacidade de nos reconhecermos como irmãos e irmãs. Aprender a viver no perdão aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz.

O que é verdade em relação à paz na esfera social, é verdadeiro também no campo político e económico, pois a questão da paz permeia todas as dimensões da vida comunitária: nunca haverá paz verdadeira, se não formos capazes de construir um sistema económico mais justo. Como escreveu Bento XVI, «a vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade económica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão»[8].


4. A paz, caminho de conversão ecológica

«Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar»[9].

Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais – considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –, precisamos duma conversão ecológica.

O Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças.

Este caminho de reconciliação inclui também escuta e contemplação do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De facto, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a própria Terra foram-nos confiados para ser «cultivados e guardados» (cf. Gn 2, 15) também para as gerações futuras, com a participação responsável e diligente de cada um. Além disso, temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice.

De modo particular brotam daqui motivações profundas e um novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as próprias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condições e modelos de sociedade que favoreçam o desabrochar e a permanência da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a família humana.

Por conseguinte a conversão ecológica, a que apelamos, leva-nos a uma nova perspetiva sobre a vida, considerando a generosidade do Criador que nos deu a Terra e nos chama à jubilosa sobriedade da partilha. Esta conversão deve ser entendida de maneira integral, como uma transformação das relações que mantemos com as nossas irmãs e irmãos, com os outros seres vivos, com a criação na sua riquíssima variedade, com o Criador que é origem de toda a vida. Para o cristão, uma tal conversão exige «deixar emergir, nas relações com o mundo que o rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus»[10].


5. Obtém-se tanto quanto se espera[11]

O caminho da reconciliação requer paciência e confiança. Não se obtém a paz, se não a esperamos.
Trata-se, antes de mais nada, de acreditar na possibilidade da paz, de crer que o outro tem a mesma necessidade de paz que nós. Nisto, pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de nós, amor libertador, ilimitado, gratuito, incansável.

O medo é, frequentemente, fonte de conflito. Por isso, é importante ir além dos nossos temores humanos, reconhecendo-nos filhos necessitados diante d’Aquele que nos ama e espera por nós, como o Pai do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-24). A cultura do encontro entre irmãos e irmãs rompe com a cultura da ameaça. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do único Pai celeste.

Para os discípulos de Cristo, este caminho é apoiado também pelo sacramento da Reconciliação, concedido pelo Senhor para a remissão dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou «todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Col 1, 20); e pede para depor toda a violência nos pensamentos, nas palavras e nas obras quer para com o próximo quer para com a criação.

A graça de Deus Pai oferece-se como amor sem condições. Recebido o seu perdão, em Cristo, podemos colocar-nos a caminho para ir oferecê-lo aos homens e mulheres do nosso tempo. Dia após dia, o Espírito Santo sugere-nos atitudes e palavras para nos tornarmos artesãos de justiça e de paz.
Que o Deus da paz nos abençoe e venha em nossa ajuda.

Que Maria, Mãe do Príncipe da paz e Mãe de todos os povos da terra, nos acompanhe e apoie, passo a passo, no caminho da reconciliação.

E que toda a pessoa que vem a este mundo possa conhecer uma existência de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si.


Vaticano, 8 de dezembro de 2019.


Franciscus


[1] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30 de novembro de 2007, 1.
[2] Discurso sobre as armas nucleares, Nagasáqui – Parque «Atomic Bomb Hypocenter», 24 de novembro de 2019.
[3] Cf. Francisco, Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013.
[4] Francisco, Discurso sobre a Paz, Hiroxima – Memorial da Paz, 24 de novembro de 2019.
[5] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 78.
[7] Carta ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 24.
[8] Carta enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 39.
[9] Francisco, Carta enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 200.
[10] Ibid., 217.
[11] Cf. São João da Cruz, Noite Escura, II, 21, 8.



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11 dezembro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #18


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Na leitura dos Atos dos Apóstolos, continua o caminho do Evangelho no mundo e o testemunho de São Paulo é cada vez mais marcado pelo selo do sofrimento. Mas isto é algo que cresce com o tempo na vida de Paulo. Paulo não é apenas o fervoroso evangelizador, o intrépido missionário entre os pagãos, que dá vida a novas comunidades cristãs, mas também a testemunha sofredora do Ressuscitado (cf. At 9, 15-16).

A chegada do Apóstolo a Jerusalém, descrita no capítulo 21 dos Atos, provocou um ódio feroz contra ele, reprovando-o: «Mas este era um perseguidor! Não confieis!». Como foi para Jesus, também para ele Jerusalém é a cidade hostil. Ele foi ao templo, foi reconhecido, foi levado para ser linchado e foi salvo in extremis pelos soldados romanos. Acusado de ensinar contra a Lei e contra o templo, ele é preso e começa a sua peregrinação como prisioneiro, primeiro diante do sinédrio, depois diante do procurador romano em Cesareia e, por fim, diante do rei Agripa. Lucas destaca a semelhança entre Paulo e Jesus, ambos odiados pelos seus adversários, publicamente acusados e reconhecidos como inocentes pelas autoridades imperiais; e assim Paulo é associado à paixão do seu Mestre, e a sua paixão torna-se um evangelho vivo. Venho da Basílica de São Pedro e lá tive a minha primeira audiência, esta manhã, com os peregrinos ucranianos, de uma diocese ucraniana. Quão perseguidas foram estas pessoas, quanto sofreram pelo Evangelho! Mas eles não negociaram a fé. São um exemplo. Hoje, no mundo, na Europa, muitos cristãos são perseguidos e dão a vida pela sua fé, ou são perseguidos com luvas brancas, isto é, deixados de lado, marginalizados... O martírio é o ar da vida de um cristão, de uma comunidade cristã. Haverá sempre mártires entre nós: este é o sinal de que estamos a seguir o caminho de Jesus. É uma bênção do Senhor, para que haja entre o povo de Deus, alguém que dá este testemunho de martírio.

Paulo é chamado a defender-se das acusações e, no final, na presença do rei Agripa II, a sua apologia transforma-se num testemunho eficaz de fé (cf. At 26, 1-23).

Depois Paulo fala da sua conversão: Cristo ressuscitado tornou-o cristão e confiou-lhe a missão entre as nações, «para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz, e da sujeição de Satanás para Deus. Alcançarão, assim, o perdão dos seus pecados e a parte que lhes cabe na herança, juntamente com os santificados pela fé» em Cristo (v. 18). Paulo obedeceu a este encargo e mais não fez do que mostrar como os profetas e Moisés predisseram o que ele agora anuncia: «que o Messias tinha de sofrer e que, sendo o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, anunciaria a luz ao povo e aos pagãos» (v. 23). O testemunho apaixonado de Paulo comove o coração do rei Agripa, a quem falta apenas o passo decisivo. Então o rei diz: «Por pouco não me persuades a fazer-me cristão!» (v. 28). Paulo é declarado inocente, mas não pode ser libertado porque ele apelou para César. Assim continua a viagem imparável da Palavra de Deus para Roma. Paulo, acorrentado, acaba por chegar aqui a Roma.

A partir deste momento, o retrato de Paulo é o do preso cujas correntes são o sinal da sua fidelidade ao Evangelho e do testemunho dado ao Ressuscitado.

As cadeias são certamente uma prova humilhante para o Apóstolo, que o mundo vê como um «malfeitor» (2 Tm 2, 9). Mas o seu amor por Cristo é tão forte que também estas cadeias são lidas com os olhos da fé; fé que para Paulo não é «uma teoria, uma opinião sobre Deus e o mundo», mas «o impacto do amor de Deus no seu coração [...] é o amor a Jesus Cristo» (Bento XVI, Homilia por ocasião do Ano Paulino, 28 de junho de 2008).

Queridos irmãos e irmãs, Paulo ensina-nos a perseverança na provação e a capacidade de ler tudo com os olhos da fé. Hoje pedimos ao Senhor, por intercessão do Apóstolo, que reavive a nossa fé e nos ajude a ser fiéis até ao fim à nossa vocação de cristãos, discípulos do Senhor, missionários.

Catequese do Papa Francisco
11 de Dezembro de 2019



04 dezembro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #17


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A viagem do Evangelho pelo mundo continua ininterrupta no Livro dos Atos dos Apóstolos, e atravessa a cidade de Éfeso, mostrando todo o seu poder salvífico. Graças a Paulo, cerca de doze homens recebem o batismo em nome de Jesus e experimentam a efusão do Espírito Santo que os regenera (cf. At 19, 1-7). Depois há várias maravilhas que acontecem através do Apóstolo: os doentes curados e os possuídos são libertados (cf. At 19, 11-12). Isto acontece porque o discípulo se assemelha com o seu Mestre (cf. Lc 6, 40) e o torna presente, comunicando aos seus irmãos a mesma vida nova que recebeu dele.

O poder de Deus que irrompe em Éfeso desmascara aqueles que desejam usar o nome de Jesus para realizar exorcismos, mas sem terem autoridade espiritual para o fazer (cf. At 19, 13-17), e revela a fraqueza da magia, que é abandonada por um grande número de pessoas que escolhem Cristo e renunciam às artes mágicas (cf. At 19, 18-19). Uma verdadeira inversão para uma cidade, como Éfeso, que foi um centro famoso para a prática da magia! Lucas enfatiza assim a incompatibilidade entre a fé em Cristo e a magia. Se escolheres Cristo, não podes recorrer ao mago: a fé significa abandonar-se nas mãos de um Deus confiável, que se faz conhecer não através de práticas ocultas, mas da revelação e com amor gratuito. Talvez alguns de vós me digam: “Ah, sim, isto de magia é uma coisa antiga: hoje, com a civilização cristã isto não acontece”. Mas tomai cuidado! Eu pergunto-vos: quantos de vós vão ler a sina, quantos de vós vão aos adivinhos para que lhes leiam as mãos ou as cartas? Ainda hoje, nas grandes cidades, os cristãos praticantes fazem essas coisas. E à pergunta: “Mas como é que, se crês em Jesus Cristo, vais ao mago, ao adivinho, a todas estas pessoas?”, respondem: “Creio em Jesus Cristo, mas por superstição vou também a elas”. Por favor: a magia não é cristã! Essas coisas que são feitas para adivinhar o futuro ou adivinhar muitas coisas ou mudar situações da vida, não são cristãs. A graça de Cristo traz-te tudo: reza e confia no Senhor.

A difusão do Evangelho em Éfeso prejudica o comércio dos ourives — outro problema — que fabricavam as estátuas da deusa Ártemis, fazendo da prática religiosa um verdadeiro negócio. Peço-vos que penseis nisto. Vendo diminuir aquela atividade que rendeu muito dinheiro, os ourives organizaram uma revolta contra Paulo, e os cristãos foram acusados de terem colocado em crise a categoria de artesãos, o santuário de Ártemis e a adoração desta deusa (cf. At 19, 23-28).

Depois, Paulo parte de Éfeso para Jerusalém e chega a Mileto (cf. At 20, 1-16). Aqui ele manda chamar os anciãos da Igreja de Éfeso — os presbíteros: ou seja, os sacerdotes — para fazer uma entrega de exortações “pastorais” (cf. At 20, 17-35). Estamos na fase final do ministério apostólico de Paulo e Lucas apresenta-nos o seu discurso de despedida, uma espécie de testamento espiritual que o Apóstolo dirige àqueles que, depois da sua partida, deverão guiar a comunidade de Éfeso. E esta é uma das páginas mais belas do Livro dos Atos dos Apóstolos: aconselho-vos a pegar hoje no Novo Testamento, na Bíblia, capítulo 20 e ler esta despedida de Paulo dos sacerdotes de Éfeso, que ele fez em Mileto. É um modo para compreender como o Apóstolo se despede e também como os sacerdotes de hoje se deveriam despedir, assim como se deveriam despedir todos os cristãos de hoje. É uma página linda.

Na parte exortativa, Paulo encoraja os responsáveis da comunidade, que ele sabe que vê pela última vez. E que lhes diz? “Vigiai sobre vós mesmos e sobre todo o rebanho”. Esta é a obra do pastor: ser vigilante, vigiar sobre si mesmo e sobre o rebanho. O pastor deve vigiar, o pároco deve vigiar, ser vigilante, os presbíteros devem vigiar, os bispos, o Papa devem vigiar. Vigiar para guardar o rebanho, e também vigiar sobre si mesmo, examinar a própria consciência e ver como se cumpre este dever de vigiar. «Tomai cuidado convosco e com todo o rebanho, de que o Espírito Santo vos constituiu administradores para apascentardes a Igreja de Deus, adquirida por Ele com o seu próprio sangue» (At 20, 28): assim diz São Paulo. Pede-se aos episcopi que se aproximem o mais possível do rebanho, resgatado pelo sangue precioso de Cristo, e que estejam dispostos a defendê-lo dos «lobos» (v. 29). Os Bispos devem estar muito próximos do povo para o guardar, para o defender; não devem estar afastados do povo. Depois de ter confiado esta tarefa aos responsáveis de Éfeso, Paulo entrega-os nas mãos de Deus e recomenda-os à «palavra da sua graça» (v. 32), fermento de qualquer crescimento e caminho de santidade na Igreja, convidando-os a trabalhar com as próprias mãos, como ele, para não serem um peso para os outros, a fim de ajudar os fracos e experimentar que «a felicidade está mais em dar do que em receber» (v. 35).

Queridos irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor que renove em nós o seu amor pela Igreja e pelo depósito da fé que ela conserva, e que nos torne a todos corresponsáveis na preservação do rebanho, apoiando com a oração os pastores para que manifestem a firmeza e a ternura do Divino Pastor.

Catequese do Papa Francisco
4 de dezembro de 2019



13 novembro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #16


Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

Esta audiência realiza-se em dois grupos: os doentes estão na sala Paulo VI — já estive com eles, saudei-os e abençoei-os; são aproximadamente 250. Para eles será mais confortável lá, por causa da chuva — e nós aqui. Mas eles veem-nos na tela gigante. Saudemos os dois grupos com um aplauso.
Os Atos dos Apóstolos narram que Paulo, como evangelizador incansável, depois da sua permanência em Atenas, leva em frente a corrida do Evangelho no mundo. A nova etapa da sua viagem missionária é Corinto, capital da província romana da Acaia, uma cidade comercial e cosmopolita, graças à presença de dois portos importantes.

Como lemos no capítulo 18 dos Atos, Paulo encontra hospitalidade na casa de um casal, Áquila e Priscila (ou Prisca), obrigados a transferir-se de Roma para Corinto depois que o imperador Cláudio tinha decretado a expulsão dos judeus (cf. At 18, 2). Gostaria de abrir um parêntese. O povo judeu sofreu muito na história. Foi expulso, perseguido... E, no século passado, vimos muitas brutalidades que cometeram contra o povo judeu e estávamos todos convencidos de que isto tinha acabado. Mas hoje, o hábito de perseguir os judeus começa a renascer aqui e ali. Irmãos e irmãs, isto não é humano nem cristão. Os judeus são nossos irmãos! E não devem ser perseguidos. Entendestes? Aqueles esposos mostram que têm um coração cheio de fé em Deus e generoso para com os outros, capaz de dar lugar a quem, como eles, experimenta a condição de forasteiro. Esta sensibilidade leva-os a descentralizar-se de si mesmos para praticar a arte cristã da hospitalidade (cf. Rm 12, 13; Hb 13, 2) e abrir as portas da própria casa para acolher o Apóstolo Paulo. Assim, eles acolhem não só o evangelizador, mas também o anúncio que ele traz consigo: o Evangelho de Cristo, que é «o poder de Deus para a salvação de todos os que acreditam» (Rm 1, 16). E a partir daquele momento a sua casa impregna-se com o perfume da Palavra «viva» (Hb 4, 12) que anima os corações.

Áquila e Priscila partilham com Paulo também a atividade profissional de fabricar tendas. Com efeito, Paulo tinha grande estima pelo trabalho manual e considerava-o um espaço privilegiado de testemunho cristão (cf. 1 Cor 4, 12), assim como um modo correto de se manter, sem ser um fardo para os outros (cf. 1 Ts 2, 9; 2 Ts 3, 8) nem para a comunidade.

A casa de Áquila e Priscila em Corinto abre as suas portas não apenas ao Apóstolo, mas também aos irmãos e irmãs em Cristo. Com efeito, Paulo pode falar da «assembleia que se reúne em sua casa» (1 Cor 16, 19), que se torna “casa da Igreja”, “domus Ecclesiae”, um lugar de escuta da Palavra de Deus e de celebração da Eucaristia. Ainda hoje, nalguns países onde não há liberdade religiosa nem liberdade para os cristãos, eles reúnem-se numa casa, um pouco escondidos, para rezar e celebrar a Eucaristia. Ainda hoje existem estas casas, estas famílias, que se tornam um templo para a Eucaristia.
Depois de um ano e meio de permanência em Corinto, Paulo parte daquela cidade com Áquila e Priscila, e estabelecem-se em Éfeso. Também ali a casa deles passou a ser um lugar de catequese (cf. At 18, 26). Sucessivamente, os dois esposos voltarão para Roma e serão destinatários de um maravilhoso elogio, que o Apóstolo insere na sua carta aos Romanos. Paulo tinha um coração grato e assim escreveu sobre aqueles dois cônjuges na carta aos Romanos. Escutai: «Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça. Não sou apenas eu que lhes estou agradecido, mas todas as Igrejas dos gentios» (16, 3-4). Quantas famílias, em tempos de perseguição, arriscam a cabeça para manter escondidos aqueles que são perseguidos! Este foi o primeiro exemplo: a hospitalidade familiar, até em tempos difíceis.

Entre os numerosos colaboradores de Paulo, Áquila e Priscila sobressaem como «modelos de uma vida conjugal responsavelmente comprometida ao serviço de toda a comunidade cristã» e recordam-nos que o cristianismo chegou até nós, graças à fé e ao compromisso na evangelização de muitos leigos como eles. Com efeito, «para se radicar na terra do povo, para se desenvolver vivamente, era necessário o compromisso destas famílias. Mas pensai que no início o Cristianismo era pregado pelos leigos. Também vós leigos sois responsáveis, mediante o vosso Batismo, de levar em frente a fé. Este era o compromisso de muitas famílias, destes esposos, destas comunidades cristãs, de fiéis leigos que ofereceram o “húmus” ao crescimento da fé» (cf. Bento XVI, Catequese7 de fevereiro de 2007). É bonita esta frase do Papa Bento XVI: os leigos oferecem o “húmus” para o crescimento da fé!

Peçamos ao Pai, que quis fazer dos esposos a sua «verdadeira “escultura” viva» (Exortação Apostólica Amoris laetitia11) — acho que aqui há recém-casados: prestai atenção à vossa vocação, deveis ser a verdadeira escultura viva — a fim de que derrame o seu Espírito sobre todos os casais cristãos para que, a exemplo de Áquila e Priscila, saibam abrir as portas do seu coração a Cristo e aos seus irmãos, transformando os próprios lares em igrejas domésticas. Bonita expressão: a casa é uma igreja doméstica, onde viver a comunhão e oferecer o culto da vida vivida com fé, esperança e caridade. Devemos rezar a estes dois Santos, Áquila e Priscila, para que ensinem as nossas famílias a ser como eles: uma igreja doméstica onde há “húmus”, a fim de que a fé cresça.

Catequese do Papa Francisco
13 de Novembro de 2019



06 novembro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #15




Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Continuamos o nosso “caminho” com o livro dos Atos dos Apóstolos. Depois das provações em Filipos, Tessalónica e Bereia, Paulo chegou a Atenas, precisamente no coração da Grécia (cf. At 17, 15). Esta cidade, que vivia à sombra de antigas glórias apesar da decadência política, ainda mantinha a primazia da cultura. Aqui o Apóstolo «fremia de indignação, ao ver a cidade repleta de ídolos» (At 17, 16). Contudo, este “impacto” com o paganismo, em vez de o fazer fugir, estimula-o a criar uma ponte para dialogar com essa cultura.

Paulo escolhe familiarizar-se com a cidade e começa portanto a frequentar os lugares e as pessoas mais significativas. Vai à sinagoga, símbolo da vida de fé; vai à praça, símbolo da vida da cidade; e vai ao Areópago, símbolo da vida política e cultural. Ele encontra judeus, filósofos epicuristas e estoicos, e muitos outros. Encontra-se com todas as pessoas, não se fecha, vai falar com todas as pessoas. Assim Paulo observa a cultura e o ambiente de Atenas «a partir de um olhar contemplativo» que descobre aquele «Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas e nas suas praças» (Evangelii gaudium, 71). Paulo não olha para a cidade de Atenas nem para o mundo pagão com hostilidade, mas com os olhos da fé. E isto faz-nos questionar sobre a nossa forma de olhar para as nossas cidades: observamo-las com indiferença? Com desprezo? Ou com a fé que reconhece os filhos de Deus no meio das multidões anónimas?

Paulo escolhe o olhar que o leva a abrir uma brecha entre o Evangelho e o mundo pagão. No coração de uma das mais famosas instituições do mundo antigo, o Areópago, ele realiza um extraordinário exemplo de inculturação da mensagem da fé: proclama Jesus Cristo aos adoradores dos ídolos, e não o faz agredindo-os, mas tornando-se «pontífice, construtor de pontes» (Homilia em Santa Marta, 8 de maio de 2013).

Paulo inspira-se no altar da cidade dedicado a «um deus desconhecido» (At 17, 23) — havia um altar com uma inscrição “ao deus desconhecido”; nenhuma imagem, nada, apenas aquela inscrição. A partir dessa “devoção” ao deus desconhecido, para entrar em empatia com os seus ouvintes, ele proclama que Deus «vive entre os cidadãos» (Evangelii gaudium, 71) e «não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero, ainda que o façam tacteando» (ibid.). É precisamente esta presença que Paulo procura revelar: «Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio» (At 17, 23).

Para revelar a identidade do deus que os atenienses adoram, o Apóstolo parte da criação, isto é, da fé bíblica no Deus da revelação, para chegar à redenção e ao juízo, isto é, à própria mensagem cristã. Ele mostra a desproporção entre a grandeza do Criador e os templos construídos pelo homem, e explica que o Criador se faz procurar sempre para que todos o possam encontrar. Assim Paulo, segundo uma bela expressão do Papa Bento XVI, anuncia «Aquele que os homens ignoram, e todavia conhecem-No: o Ignorado-Conhecido» (Bento XVI, Encontro com o mundo da cultura no Collège des Bernardins, 12 de setembro de 2008). Em seguida, convida todos a ir além dos “tempos da ignorância” e a decidir-se pela conversão em vista do juízo iminente. Assim, Paulo chega ao querigma e alude a Cristo, sem o citar, definindo-o como o Homem, que Deus «designou, oferecendo a todos um motivo de crédito, com o facto de o ter ressuscitado de entre os mortos» (At 17, 31).

E aqui está o problema. A palavra de Paulo, que até agora tinha mantido os seus interlocutores em expectativa — porque era uma descoberta interessante — encontra um obstáculo: a morte e a ressurreição de Cristo parecem «loucura» (1 Cor 1, 23) e suscita zombaria e escárnio. Então Paulo afasta-se: a sua tentativa parece ter fracassado, mas ao contrário, alguns aderem à sua palavra e abrem-se à fé. Entre eles está um homem, Dionísio, um membro do Areópago, e uma mulher, Damaris. Também em Atenas o Evangelho se enraíza e pode correr em duas vozes: a do homem e a da mulher!

Peçamos também nós hoje ao Espírito Santo que nos ensine a construir pontes com a cultura, com quantos não creem ou com aqueles que têm um credo diferente do nosso. Sempre a construir pontes, sempre a estender a mão, sem agredir. Peçamos-lhe a capacidade de inculturar delicadamente a mensagem de fé, com um olhar contemplativo sobre quantos não conhecem Cristo, movidos por um amor que aquece também os corações mais endurecidos.

Catequese do Papa Francisco
6 de Novembro de 2019


30 outubro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #14





Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

Lendo os Atos dos Apóstolos vê-se que o Espírito Santo é o protagonista da missão da Igreja: é Ele quem guia o caminho dos evangelizadores, mostrando-lhes a vereda a seguir.

Vemos isto claramente no momento em que o Apóstolo Paulo, ao chegar a Tróade, tem uma visão. Um Macedónio suplica-lhe: «Vem à Macedónia e ajuda-nos!» (At 16, 9). O povo da Macedónia do Norte é orgulhoso disto, muito orgulhoso de ter chamado Paulo, para que ele anunciasse Jesus Cristo. Lembro-me muito bem daquele bonito povo, que me recebeu com tanto entusiasmo: oxalá conserve a fé que Paulo lhe anunciou! O Apóstolo não hesita e parte para a Macedónia, certo de que é o próprio Deus que o envia, e chega a Filipos, «colónia romana» (At 16, 12) na Via Egnácia, para pregar o Evangelho. Paulo passa ali vários dias. São três os acontecimentos que caraterizam a sua permanência em Filipos, naqueles três dias: três acontecimentos importantes. 1) A evangelização e o batismo de Lídia e da sua família; 2) a prisão que sofreu, com Silas, depois de ter exorcizado uma escrava explorada pelos seus senhores; 3) a conversão e o batismo do seu carcereiro e da sua família. Vemos estes três episódios na vida de Paulo.

O poder do Evangelho visa sobretudo as mulheres de Filipos, em particular Lídia, uma comerciante de púrpura, na cidade de Tiatira, uma crente em Deus a quem o Senhor abre o coração «para aderir às palavras de Paulo» (At 16, 14). Com efeito, Lídia acolhe Cristo, recebe o Batismo com a sua família e hospeda aqueles que pertencem a Cristo, acolhendo Paulo e Silas na sua casa. Aqui temos o testemunho da chegada do cristianismo à Europa: o início de um processo de inculturação que continua até hoje. Ele veio da Macedónia.

Depois do entusiasmo experimentado na casa de Lídia, Paulo e Silas têm que enfrentar a dureza da prisão: passam da consolação da conversão de Lídia e da sua família para a desolação do cárcere, onde foram lançados por terem libertado, em nome de Jesus, «uma serva que tinha um espírito de adivinhação» e que «dava muito lucro aos seus senhores» com o trabalho de adivinha (At 16, 16). Os seus senhores ganhavam muito dinheiro e aquela pobre escrava fazia o que os adivinhos fazem: adivinhava o futuro, lia as mãos — como diz a canção, “prendi questa mano, zingara” [“pega nesta mão, cigana”] — e as pessoas pagavam por isto. Prezados irmãos e irmãs, ainda hoje há pessoas que pagam por isto. Lembro-me que na minha diocese, num parque muito grande, havia mais de 60 mesinhas, diante das quais estavam sentados os adivinhos e as adivinhas, que liam as mãos e as pessoas acreditavam nessas coisas! E pagavam. E isto acontecia também na época de São Paulo. Por retaliação, os seus senhores denunciam Paulo e conduzem os Apóstolos perante os magistrados com a acusação de desordem pública.

Mas o que acontece? Paulo está na prisão e, durante a sua detenção, verifica-se algo surpreendente. Está desolado, mas em vez de se queixar, Paulo e Silas cantam louvores a Deus e este louvor desencadeia um poder que os liberta: durante a oração, um tremor de terra abala os fundamentos da prisão, as portas abrem-se e as correntes de todos caem (cf. At 16, 25-26). Como a oração de Pentecostes, também a prece recitada na prisão provoca efeitos prodigiosos.

Julgando que os prisioneiros tinham escapado, o carcereiro estava prestes a suicidar-se, pois quando um prisioneiro escapava, os carcereiros pagavam com a própria vida; mas Paulo brada-lhe: «Estamos todos aqui!» (At 16, 27-28). Então, ele pergunta: «Que devo fazer para ser salvo?» (v. 30). A resposta é: «Acredita no Senhor Jesus, e assim tu e os teus sereis salvos» (v. 31). É neste ponto que se verifica a mudança: no meio da noite, o carcereiro e a sua família ouvem a palavra do Senhor, acolhem os Apóstolos, lavam as suas feridas — porque tinham sido espancados — e, com a sua família, recebem o Batismo; então, ele «entrega-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus» (v. 34), prepara a mesa e convida Paulo e Silas a permanecer com eles: o momento da consolação! No meio da noite deste carcereiro anónimo, a luz de Cristo brilha e vence as trevas: as correntes do coração caem e, nele e na sua família, floresce uma alegria nunca experimentada. É assim que o Espírito Santo cumpre a missão: desde o início, do Pentecostes em diante, Ele é o protagonista da missão. E leva-nos adiante; devemos ser fiéis à vocação que o Espírito nos impele a abraçar. Para anunciar o Evangelho!

Peçamos também nós hoje ao Espírito Santo um coração aberto, sensível a Deus e hospitaleiro para com os nossos irmãos, como o de Lídia, e uma fé arrojada, como a de Paulo e de Silas, e inclusive um coração aberto, como o do carcereiro que se deixa tocar pelo Espírito Santo.


Catequese do Papa Francisco
30 de Outubro de 2019


23 outubro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #13





Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O livro dos Atos dos Apóstolos conta que São Paulo, depois daquele encontro transformador com Jesus, é acolhido pela Igreja de Jerusalém graças à mediação de Barnabé e começa a proclamar Cristo. No entanto, devido à hostilidade de alguns, ele é forçado a mudar-se para Tarso, a sua cidade natal, onde Barnabé se une a ele para envolvê-lo na longa jornada da Palavra de Deus. O livro dos Atos dos Apóstolos, que temos vindo a comentar nestas catequeses, pode afirmar-se como o livro da longa viagem da Palavra de Deus: a Palavra de Deus deve ser anunciada e anunciada em todos os lugares. Esta jornada começa após uma forte perseguição (cfr At 11,19); mas isto, em vez de provocar um revés para a evangelização, torna-se uma oportunidade de ampliar o campo onde se espalha a boa semente da Palavra. Os cristãos não têm medo. Devendo partir, mas fugindo com a Palavra, e espalhando a Palavra um pouco por toda a parte.

Paulo e Barnabé chegam pela primeira vez a Antioquia da Síria, onde ficam um ano inteiro para ensinar e ajudar a comunidade a criar raízes (Cfr. Atos 11, 26). Eles anunciaram à comunidade judaica, aos judeus. Assim, Antioquia torna-se o centro da propulsão missionária, graças à pregação com a qual os dois evangelizadores - Paulo e Barnabé - incendeiam o coração dos crentes, que aqui em Antioquia são chamados de «cristãos» pela primeira vez (cfr. Atos 11, 26)

A natureza da Igreja emerge do Livro dos Atos, que não é uma fortaleza, mas uma tenda capaz de ampliar o seu espaço (Cfr Is 54, 2) e dar acesso a todos. A Igreja é "em saída” ou não é Igreja, ou está sempre em caminho, ampliando o seu espaço para que todos possam entrar, ou não é Igreja. «Uma igreja de portas abertas» (Ex. Ap. Evangelii gaudium, 46), sempre com as portas abertas. Quando vejo alguma igreja aqui, nesta cidade, ou quando a vejo na outra diocese de onde venho, com as portas fechadas, isso é um mau sinal. As igrejas devem sempre ter as portas abertas, porque este é o símbolo do que é uma igreja: sempre aberta. A Igreja é «chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. [...] Assim, se alguém quer seguir uma inspiração do Espírito e se aproxima na busca de Deus, não encontrará a frieza de uma porta fechada» (ibid., 47).

Mas esta novidade das portas abre-se para quem? Para os pagãos, por que os apóstolos pregaram aos judeus, mas os pagãos também vieram bater à porta da Igreja; e essa novidade das portas abertas aos pagãos desencadeia uma controvérsia muito viva. Alguns judeus afirmam a necessidade de se tornarem judeus através da circuncisão para se salvarem e depois receberem o batismo. Eles dizem: «A menos que sejais circuncidados de acordo com o costume de Moisés, não podereis ser salvos» (Atos 15, 1), isto é, não se pode posteriormente receber o batismo. Primeiro o rito judeu e depois o batismo: esta era a posição deles. E para resolver o assunto, Paulo e Barnabé consultam o conselho dos apóstolos e anciãos em Jerusalém, naquilo que é considerado o primeiro concilio na história da Igreja, o Concilio de Jerusalém, ao qual Paulo se refere na Carta aos Gálatas (2,1-10).

Nele é abordada uma questão teológica, espiritual e disciplinar muito delicada: isto é, a relação entre a fé em Cristo e a observância da Lei de Moisés. Decisivos durante a assembleia são os discursos de Pedro e Tiago, «colunas» da Igreja mãe (cfr. Atos 15, 7-21; Gl 2, 9). Eles convidam a não impor a circuncisão aos pagãos, mas apenas a pedir que rejeitem a idolatria e todas as suas expressões. Da discussão vem o caminho comum, e esta decisão, ratificada com a chamada carta apostólica enviada a Antioquia.

A assembleia de Jerusalém oferece-nos uma luz importante sobre como lidar com as diferenças e buscar a «verdade no amor» (Ef 4,15). Lembra-nos que o método eclesial de resolução de conflitos se baseia num diálogo feito de escuta atenta e paciente e no discernimento realizado à luz do Espírito. É o Espírito, de facto, que ajuda a superar a tentação do fechamento e das tensões e é Ele que trabalha nos corações para que, na verdade e no bem, possam alcançar a unidade. Este texto ajuda-nos a entender a sinodalidade. É interessante como se escreve na carta: começam os apóstolos por dizer: "O Espírito Santo e nós pensamos que ...". É próprio da sinodalidade, a presença do Espírito Santo, caso contrário não é sinodalidade, é parlatório, parlamento, outra coisa ...

Peçamos ao Senhor que fortaleça o desejo e a responsabilidade da comunhão em todos os cristãos, especialmente nos bispos e presbíteros. Que Ele nos ajude a viver o diálogo, a escuta e o encontro com os irmãos na fé e com os que estão longe, a provar e manifestar a fecundidade da Igreja, chamada a ser sempre a «mãe alegre» de muitos filhos (cfr Sal 113, 9).


Catequese do Papa Francisco
23 de Outubro de 2019




16 outubro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #12





Amados irmãos e irmãs, bom dia!

A viagem do Evangelho no mundo, que São Lucas narra nos Atos dos Apóstolos está acompanhada pela máxima criatividade de Deus que se manifesta de maneira surpreendente. Deus quer que os seus filhos superem qualquer particularismo para se abrirem à universalidade da salvação. Esta é a finalidade: superar os particularismos e abrir-se à universalidade da salvação, pois Deus deseja salvar todos. Quantos renasceram da água e do Espírito — os batizados — são chamados a sair de si mesmos e a abrir-se aos outros, a viver a proximidade, o estilo do viver juntos, que transforma qualquer relação interpessoal numa experiência de fraternidade (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 87).

Pedro, protagonista nos Atos dos Apóstolos juntamente com Paulo, é a testemunha deste processo de “fraternização” que o Espírito deseja introduzir na história. Pedro vive um evento que assinala uma mudança decisiva para a sua existência. Enquanto reza, recebe uma visão que serve de “provocação” divina, para suscitar nele uma mudança de mentalidade. Vê uma grande toalha que desce do alto, dentro da qual há vários animais: quadrúpedes, répteis e aves, e ouve uma voz que o convida a alimentar-se com aquelas carnes. Ele, sendo bom judeu, responde afirmando que nunca comeu nada de impuro, como exigido pela Lei do Senhor (cf. Lv 11). Então a voz insiste vigorosamente: «O que foi purificado por Deus não o consideres tu impuro» (At 10, 15).

Com este facto o Senhor quer que Pedro deixe de avaliar os eventos e as pessoas segundo as categorias do puro e do impuro, mas que aprenda a ir adiante, a fim de considerar a pessoa e as intenções do seu coração. Com efeito, o que torna o homem impuro não vem de fora mas só de dentro, do coração (cf. Mc 7, 21). Jesus disse isto claramente.

Depois daquela visão, Deus envia Pedro a casa de um estrangeiro não circuncidado, Cornélio, «centurião da coorte itálica [...] Piedoso e temente a Deus» que dava largas esmolas ao povo e orava continuamente a Deus (cf. At 10, 1-2), mas não era judeu.

Naquela casa de pagãos, Pedro anuncia Cristo crucificado e ressuscitado e o perdão dos pecados a todo aquele que crê n’Ele. E enquanto Pedro fala, sobre Cornélio e os seus familiares efunde-se o Espírito Santo. E Pedro batiza-os em nome de Jesus Cristo (cf. At 10, 48).

Este acontecimento extraordinário — é a primeira vez que se verifica uma coisa deste género — difunde-se em Jerusalém, onde os irmãos escandalizados com o comportamento de Pedro, o reprovam asperamente (cf. At 11, 1-3). Pedro fez algo que ia além dos costumes, que ia além da lei, e por isso o censuraram. Mas depois do encontro com Cornélio, Pedro sente-se mais livre de si mesmo e mais em comunhão com Deus e com os demais, pois viu a vontade de Deus na ação do Espírito Santo. Portanto, pode compreender que a eleição de Israel não é a recompensa devido a méritos, mas o sinal da chamada gratuita a ser mediação da bênção divina entre os povos pagãos.

Queridos irmãos, aprendamos do príncipe dos Apóstolos que um evangelizador não pode ser um impedimento para a obra criadora de Deus, o qual «quer que todos os homens sejam salvos» (1 Tm 2, 4), mas alguém que favorece o encontro dos corações com o Senhor. E nós, como nos comportamos com os nossos irmãos, sobretudo com quantos não são cristãos? Somos impedimento para o encontro com Deus? Obstaculamos o seu encontro com o Pai ou favorecemo-lo?

Peçamos hoje a graça de nos deixarmos impressionar com as surpresas de Deus, de não impedir a sua criatividade, mas de reconhecer e favorecer as vias sempre novas através das quais o Ressuscitado efunde o seu Espírito no mundo e atrai os corações fazendo-se conhecer como o «Senhor de todos» (At 10, 36). Obrigado.


Catequese do Papa Francisco
16 de Outubro de 2019



09 outubro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #11





Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Partindo do episódio do apedrejamento de Estêvão, aparece uma figura que, ao lado de Pedro, é a mais presente e incisiva dos Atos dos Apóstolos: a de «um jovem chamado Saulo» (At 7, 58). Ele é descrito no início como aquele que aprova a morte de Estêvão e quer «destruir a Igreja» (cf. At 8, 3); mas depois tornar-se-á o instrumento escolhido por Deus para anunciar o Evangelho às nações (cf. At 9, 15; 22, 21; 26, 17).

Com a autorização do sumo sacerdote, Saulo perseguia os cristãos e capturava-os. Vós, que pertenceis a alguns povos que foram perseguidos por ditaduras, compreendeis bem o que significa perseguir pessoas e capturá-las. Foi o que o Saulo fez. E ele fez isso pensando que estava a servir a lei do Senhor. Lucas diz que Saulo “respirava” sempre «ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor» (At 9, 1): nele há um sopro que cheira a morte, não a vida.

O jovem Saulo é retratado como um intransigente, isto é, alguém que manifesta intolerância para com aqueles que pensam de modo diferente, absolutiza a sua identidade política ou religiosa e reduz o outro a um inimigo potencial a ser combatido. Um ideólogo. Em Saulo, a religião foi transformada em ideologia: ideologia religiosa, ideologia social, ideologia política. Só depois de ter sido transformado por Cristo, então ensinará que a verdadeira batalha «não é contra os seres humanos [...], mas contra [...] os Dominadores deste mundo de trevas, e contra os espíritos do mal» (Ef 6, 12). Ele ensinará que não se devem combater as pessoas, mas o mal que inspira as suas ações.

A condição raivosa — porque Saulo era raivoso — e conflituosa de Saulo convida todos a questionar-se: como vivo eu a minha vida de fé? Vou ao encontro dos outros ou ponho-me contra os outros? Pertenço à Igreja universal (bons e maus, todos) ou tenho uma ideologia seletiva? Adoro Deus ou adoro formulações dogmáticas? Como é a minha vida religiosa? A fé em Deus que professo torna-me amigável ou hostil àqueles que são diferentes de mim?

Lucas diz-nos que, enquanto Saulo se dedica totalmente a erradicar a comunidade cristã, o Senhor está nas suas pegadas para comover o seu coração e convertê-lo a si. É o método do Senhor: comove o coração. O Ressuscitado toma a iniciativa e manifesta-se a Saulo no caminho de Damasco, acontecimento narrado três vezes no Livro dos Atos (cf. At 9, 3-19; 22, 3-21; 26, 4-23). Através da combinação de “luz” e “voz”, típica das teofanias, o Ressuscitado aparece a Saulo e pede-lhe que responda pela sua fúria fratricida: «Saulo, Saulo, porque me persegues?» (At 9, 4). Aqui o Ressuscitado manifesta o seu ser um só com aqueles que crêem n'Ele: atacar um membro da Igreja é como atacar o próprio Cristo! Também quantos são ideólogos porque querem a “pureza” — entre aspas — da Igreja, atacam Cristo.

A voz de Jesus diz a Saulo: «Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer» (At 9, 6). Mas Saulo, quando se levanta, já não vê nada, está cego, e de homem forte, autoritário e independente, torna-se fraco, necessitado e dependente dos outros, porque não vê. A luz de Cristo ofuscou-o e tornou-o cego: «assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo» (Bento xvi, Audiência Geral, 3 de Setembro de 2008).

Deste “corpo a corpo” entre Saulo e o Ressuscitado, tem início uma transformação que mostra a “páscoa pessoal” de Saulo, a sua passagem da morte para a vida: o que antes era glória torna-se «lixo» a ser rejeitado para adquirir o verdadeiro ganho que é Cristo e a vida nele (cf. Fl 3, 7-8).

Paulo é batizado. O baptismo marca assim para Saulo, como para cada um de nós, o início de uma nova vida, e é acompanhado por um novo olhar sobre Deus, sobre Si mesmo e sobre os outros, que de inimigos se tornam irmãos em Cristo.

Peçamos ao Pai que faça experimentar também a nós, como Saulo, o impacto com o seu amor, o único que pode transformar um coração de pedra num coração de carne (cf. Ez 11, 15), capaz de acolher em si mesmo «os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus» (Fl 2, 5).


Catequese do Papa Francisco
9 de Outubro de 2019



02 outubro 2019

Catequese sobre os Atos dos Apóstolos #10





Queridos irmãos e irmãs!

Depois do martírio de Estêvão, a “corrida” da Palavra de Deus parece ter chegado a um impasse, devido ao desencadeamento de «uma terrível perseguição contra a Igreja de Jerusalém» (At 8, 1). Por causa disto, os Apóstolos permanecem em Jerusalém, enquanto muitos cristãos se dispersam por outros lugares da Judeia e da Samaria.

No Livro dos Atos, a perseguição manifesta-se como a condição permanente da vida dos discípulos, de acordo com o que Jesus disse: «Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós» (Jo 15, 20). Mas em vez de apagar o fogo da evangelização, a perseguição alimenta-o ainda mais.

Ouvimos o que fez o diácono Filipe, que começa a evangelizar as cidades da Samaria, e são numerosos os sinais de libertação e de cura que acompanham o anúncio da Palavra. Neste ponto, o Espírito Santo marca uma nova etapa no caminho do Evangelho: impele Filipe a ir ao encontro de um estrangeiro com o coração aberto a Deus. Filipe levanta-se e parte com ímpeto e, numa estrada deserta e perigosa, encontra um alto funcionário da rainha da Etiópia, administrador dos seus tesouros. Este homem, um eunuco, depois de ter passado por Jerusalém para o culto, regressa ao seu país. Era um prosélito judeu da Etiópia. Sentado numa carruagem, lê o pergaminho do profeta Isaías, em particular o quarto cântico do “servo do Senhor”.

Filipe aproxima-se da carruagem e pergunta-lhe: «Compreendes, verdadeiramente, o que estás a ler?» (At 8, 30). O Etíope responde: «E como poderei compreender, sem alguém que me oriente?» (At 8, 31). Esse homem poderoso reconhece que tem necessidade de ser guiado para entender a Palavra de Deus. Era o grande banqueiro, o ministro da economia, tinha todo o poder do dinheiro, mas sabia que sem a explicação não conseguia entender, era humilde.

E esse diálogo entre Filipe e o Etíope faz refletir também sobre a constatação de que não é suficiente ler as Escrituras, pois precisamos de entender o seu significado, encontrar o “sumo”, indo mais além da “casca”, haurindo o Espírito que anima a letra. Como o Papa Bento XVI disse no início do Sínodo sobre a Palavra de Deus, «a exegese, a verdadeira leitura da Sagrada Escritura, não é apenas um fenómeno literário [...] É o movimento da minha existência» (Meditação, 6 de outubro de 2008). Entrar na Palavra de Deus significa estar disposto a sair dos próprios limites para encontrar e se conformar com Cristo, que é a Palavra viva do Pai.

Então, quem é o protagonista do que lia o Etíope? Filipe oferece ao seu interlocutor a chave de leitura: aquele manso servo sofredor, que não reage ao mal com o mal e que, não obstante seja considerado fracassado, estéril e, por fim afastado, liberta o povo da iniquidade e dá fruto para Deus é precisamente aquele Cristo que a Igreja inteira e Filipe anunciam! E que nos redimiu todos através da Páscoa. No final, o Etíope reconhece Cristo, pede o Batismo e professa a fé no Senhor Jesus. É uma linda narração, mas quem levou Filipe ao deserto para se encontrar com aquele homem? Quem levou Filipe a aproximar-se da carruagem? Foi o Espírito Santo. O Espírito Santo é o protagonista da evangelização. «Padre, eu vou evangelizar” — “Sim, o que fazes?” — “Ah, anuncio o Evangelho e digo quem é Jesus, procuro convencer as pessoas de que Jesus é Deus”. Amigo, isso não é evangelização, se não houver o Espírito Santo, não haverá evangelização! Isso pode ser proselitismo, publicidade... Mas evangelizar significa deixar-se guiar pelo Espírito Santo, que seja Ele que te estimula ao anúncio, ao anúncio com o testemunho, inclusive com o martírio, até com a palavra.

Depois de ter levado o Etíope a encontrar o Ressuscitado — o Etíope encontra Jesus Ressuscitado porque compreende aquela profecia — Filipe desaparece; o Espírito arrebata-o e envia-o para fazer outra coisa. Eu disse que o protagonista da evangelização é o Espírito Santo, e qual é o sinal de que tu cristã, cristão, és evangelizador? A alegria! Até no martírio. E, cheio de alegria, Filipe partiu para outra região, a fim de anunciar o Evangelho.

Que o Espírito faça dos batizados homens e mulheres que anunciam o Evangelho para atrair os outros, não para si, mas para Cristo, que saibam abrir espaço para a ação de Deus, que saibam tornar os outros livres e responsáveis perante o Senhor!


Catequese do Papa Francisco
2 de Outubro de 2019