21 março 2020

A Comunhão Espiritual






As pessoas que não podem Comungar sacramentalmente o Corpo de Cristo, seja por qual motivo for, podem no entanto recebê-Lo na alma, espiritualmente, basta ter esse desejo.

Os santos comungavam espiritualmente muitas vezes durante o dia. Para isso basta parar um instante, e desejar profundamente receber Jesus em sua alma; e ali ficar conversando com Ele um instante. Assim, se aprende a cultivar Jesus na alma.

Podemos também nos encontrar com Nosso Senhor fazendo uma comunhão espiritual, que poderá ter tanto ou até maior fruto que a mesma comunhão eucarística, dependendo do fervor com que a pessoa se empenhe nesse encontro com Jesus. Visitar o Santíssimo no Sacrário, ou participar de uma adoração ao Santíssimo no Ostensório, são ótimas oportunidades para se Comungar espiritualmente.

Podemos receber a comunhão sacramental mais de uma vez ao dia, se a segunda vez a pessoa participa novamente da Missa como determina o Código de Direito Canónico (cânon 917). A comunhão espiritual, entretanto, pode ser feita em qualquer momento, em qualquer lugar, quantas vezes a pessoa desejar. É algo que poucos católicos sabem e fazem.

Santo Afonso Maria de Ligório, o bispo e doutor da Igreja que fundou a Congregação dos Padres Redentoristas, explica bem o que é a comunhão espiritual: “Consiste no desejo de receber a Jesus Sacramentado e em dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido”.

Esta devoção é muito mais proveitosa do que se pensa e muito fácil de realizar. Há orações que nos ajudam a fazê-la como, por exemplo, esta de Santo Afonso:

“Oh Jesus meu, 
creio que estais presente no Santíssimo Sacramento, 
te amo sobre todas as coisas e desejo receber-Te em minha alma. 
Já que agora não posso fazê-lo sacramentalmente, 
venha ao menos espiritualmente a meu coração. 
Como se já tivesse recebido, 
te abraço e me uno todo a Ti, 
não permitais, Senhor, 
que volte jamais a abandonar-Te. 
Amém”.

Cada um pode meditar e realizar a comunhão espiritual do seu jeito, com suas próprias orações e necessidades, sem se limitar a uma oração específica. Para que seja bem feita, recomenda-se que se faça um ato de Fé na Eucaristia (creio Jesus, que estás presente na Eucaristia); um ato de amor (te amo sobre todas as coisas); um ato de desejo (desejo receber-te em minha alma); e o pedido de que Jesus venha espiritualmente a seu coração, permanece em ti e faça que nunca te abandone.

Durante o dia muitas vezes temos desejo de muitas coisas que queremos ou que gostamos. Da mesma forma vamos ter o desejo de Jesus em nossa alma durante o dia. Sem dúvida que não há melhor companhia a nos proteger, guiar e iluminar a nossa caminhada a cada instante.

Na verdade, a comunhão espiritual é uma medida de nossa fé e de nosso amor a Eucaristia. Disse Jesus no Evangelho que é preciso “orar em todo tempo e não desfalecer” (Lc 18, 1). A comunhão espiritual é uma forma excelente de oração que está sempre ao nosso alcance.

Um pagão como o centurião romano (Mt 8, 5-17) viveu a experiência da comunhão espiritual quando disse: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa mas dizei uma só palavra e meu servo será curado”. Este servo é hoje a nossa alma.


Prof. Felipe Aquino






18 março 2020

Catequese sobre as Bem-aventuranças #06



Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje meditamos sobre a quinta bem-aventurança, que diz: «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7). Nesta bem-aventurança há uma particularidade: é a única em que a causa e o fruto da felicidade coincidem, a misericórdia. Aqueles que exercem a misericórdia encontrarão misericórdia, serão “misericordiados”.

Este tema da reciprocidade do perdão não está presente apenas nesta bem-aventurança, mas é recorrente no Evangelho. E como poderia ser de outra forma? A misericórdia é o próprio coração de Deus! Jesus diz: «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados» (Lc 6, 37). Sempre a mesma reciprocidade. E a Carta de Tiago afirma que «a misericórdia prevalece sempre sobre o julgamento» (2, 13).

Mas é sobretudo no Pai-Nosso que rezamos: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido» (Mt 6, 12); e este é o único pedido retomado no final: «Porque, se perdoardes aos outros as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas, se não perdoardes aos outros, tampouco o vosso Pai perdoará as vossas ofensas» (Mt 6, 14-15; cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2.838).

Existem dois elementos que não podem ser separados: o perdão oferecido e o perdão recebido. Mas muitas pessoas sentem-se em dificuldade, não conseguem perdoar. Muitas vezes o mal recebido é tão grande que conseguir perdoar se parece com a escalada de uma montanha muito alta: um esforço enorme; e pensamos: não se pode, isto não se pode! Esta questão da reciprocidade da misericórdia indica que temos necessidade de inverter a perspetiva. Sozinhos não conseguimos, precisamos da graça de Deus, devemos pedi-la. Com efeito, se a quinta bem-aventurança promete encontrar misericórdia, e no Pai-Nosso pedimos a remissão das dívidas, isto significa que somos essencialmente devedores e temos necessidade de encontrar misericórdia!

Todos nós somos devedores, todos! A Deus, que é tão generoso, e aos nossos irmãos. Cada pessoa sabe que não é o pai ou a mãe, o esposo ou a esposa, o irmão ou a irmã que deveria ser. Todos nós estamos “em falta” na vida. E precisamos de misericórdia. Sabemos que também nós praticamos o mal, falta sempre algo para o bem que deveríamos ter feito.

Mas é precisamente esta nossa pobreza que se torna a força para perdoar! Somos devedores e se, como ouvimos no início, formos medidos pela medida com que medimos os outros (cf. Lc 6, 38), então convém-nos alargar a medida e perdoar as ofensas, perdoar. Cada um deve recordar-se que tem necessidade de perdoar, que precisa do perdão, que precisa da paciência; este é o segredo da misericórdia: é perdoando que somos perdoados. Porque Deus nos precede e nos perdoa primeiro (cf. Rm 5, 8). Recebendo o seu perdão nós, por nossa vez, tornamo-nos capazes de perdoar. Assim, a nossa miséria e a nossa falta de justiça tornam-se ocasião para nos abrirmos ao reino dos céus, a uma medida maior, à medida de Deus, que é a misericórdia!

De onde nasce a nossa misericórdia? Jesus disse-nos: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36). Quanto mais aceitarmos o amor do Pai, tanto mais amaremos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2.842). A misericórdia não é uma dimensão entre outras, mas constitui o cerne da vida cristã: não há cristianismo sem misericórdia [cf. São João Paulo II, Encíclica Dives in misericordia (30 de novembro de 1980); Bula Misericordae vultus (11 de abril de 2015); Carta Apostólica Misericordia et misera (20 de novembro de 2016)]. Se todo o nosso cristianismo não nos leva à misericórdia, erramos o caminho, pois a misericórdia é a única meta verdadeira de todo o caminho espiritual. Constitui um dos frutos mais bonitos da caridade (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1.829).

Recordo que este tema foi escolhido desde o primeiro Angelus que recitei como Papa: a misericórdia. E isto ficou muito gravado em mim, como uma mensagem que, como Papa, eu deveria transmitir sempre, uma mensagem que deve ser de todos os dias: a misericórdia. Recordo que naquele dia assumi também uma atitude um pouco “descarada” de fazer publicidade de um livro sobre a misericórdia, que tinha acabado de ser publicado pelo cardeal Kasper. E naquele dia senti muito fortemente que, como Bispo de Roma, esta é a mensagem que devo transmitir: misericórdia, misericórdia, por favor, perdão!

A misericórdia de Deus é a nossa libertação e a nossa felicidade. Vivemos de misericórdia e não nos podemos dar ao luxo de viver sem misericórdia: é o ar que se deve respirar! Somos demasiado pobres para estabelecer as condições, temos necessidade de perdoar, porque precisamos de ser perdoados. Obrigado!


Catequese do Papa Francisco
18 de Março de 2020





16 março 2020

Algumas formas de rezar






Outras questões para reflectires:

- Tens, ou já tiveste, algum lugar de oração onde sentiste que podias "tocar" em Deus?
- Quem foi a primeira pessoa que te ensinou a rezar?
- A quem é que rezas?
- Como é que a oração te transformou?



Fonte: Janet Schaeffler, OP
in "A Espiritualidade do Catequista"





11 março 2020

Catequese sobre as Bem-aventuranças #05



Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Na audiência de hoje continuamos a meditar sobre o caminho luminoso da felicidade que o Senhor nos concedeu com as bem-aventuranças, e chegamos à quarta: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6).

Já encontramos a pobreza de espírito e o choro; agora somos confrontados com outro tipo de fraqueza, aquela ligada à fome e à sede. Fome e sede são necessidades básicas, referem-se à sobrevivência. Isto deve ser enfatizado: aqui não não se trata de um desejo genérico, mas de uma exigência vital e diária, como a alimentação.

Mas o que significa ter fome e sede de justiça? Certamente não estamos a falar daqueles que querem vingança, pelo contrário, na bem-aventurança precedente falamos de mansidão. Certamente as injustiças ferem a humanidade; a sociedade humana tem uma necessidade urgente de equidade, verdade e justiça social; recordemos que o mal sofrido pelas mulheres e pelos homens do mundo chega ao coração de Deus Pai. Que pai não sofreria pela dor dos seus filhos?

As Escrituras falam da dor dos pobres e oprimidos que Deus conhece e compartilha. Por ter ouvido o grito de opressão levantado pelos filhos de Israel — como narra o Livro do Êxodo (cf. 3, 7-10) — Deus desceu para libertar o seu povo. Mas a fome e a sede de justiça de que o Senhor nos fala é ainda mais profunda do que a legítima necessidade de justiça humana que cada homem carrega no seu coração.

No mesmo “Sermão da Montanha”, um pouco mais adiante, Jesus fala de uma justiça maior do que o direito humano ou a perfeição pessoal, dizendo: «Se a vossa virtude não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus» (Mt 5, 20). E esta é a justiça que vem de Deus (cf. 1 Cor 1, 30).

Nas Escrituras encontramos uma sede expressa mais profundamente do que a sede física, que é um desejo colocado na raiz do nosso ser. Um salmo diz: «Vós, Senhor, sois o meu Deus, anseio por Vós. A minha alma está sedenta de Vós, o meu corpo anela por Vós, numa terra árida, exausta, sem água» (Sl 63, 2). Os Padres da Igreja falam desta inquietação que habita no coração do homem. Santo Agostinho diz: «Tu nos fizeste para ti, Senhor, e o nosso coração não encontrará a paz enquanto não repousar em ti» (Confissões, 1, 1.5). Há uma sede interior, uma fome interior, uma inquietação...
Em cada coração, até na pessoa mais corrupta e afastada do bem, está escondido um anseio de luz, mesmo que esteja sob escombros de engano e erro, mas há sempre uma sede de verdade e bondade, que é a sede de Deus. É o Espírito Santo que desperta esta sede: Ele é a água viva que moldou o nosso pó, Ele é o sopro criativo que lhe deu vida.

Por esta razão, a Igreja é enviada a proclamar a todos a Palavra de Deus, imbuída de Espírito Santo. Pois o Evangelho de Jesus Cristo é a maior justiça que pode ser oferecida ao coração da humanidade, que tem uma necessidade vital dele, mesmo sem se aperceber (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2017: «A graça do Espírito Santo confere-nos a justiça de Deus. Unindo-nos, pela fé e pelo Baptismo, à paixão e ressurreição de Cristo, o Espírito Santo faz-nos participar da sua vida»).

Por exemplo, quando um homem e uma mulher se casam têm a intenção de fazer algo grande e belo, e se mantiverem viva essa sede encontrarão sempre o caminho a seguir, no meio dos problemas, com a ajuda da Graça. Até os jovens têm esta fome, e não devem perdê-la! É necessário proteger e alimentar no coração das crianças este desejo de amor, de ternura, de acolhimento que expressam nos seus impulsos sinceros e luminosos.

Cada pessoa é chamada a redescobrir o que realmente importa, o que realmente precisa, o que a faz viver bem e, ao mesmo tempo, o que é secundário, e aquilo a que pode tranquilamente renunciar.
Jesus proclama nesta bem-aventurança — fome e sede de justiça — que há uma sede que não será desiludida; uma sede que, se for satisfeita, será saciada e será sempre bem sucedida, porque corresponde ao próprio coração de Deus, ao seu Espírito Santo que é amor, e também à semente que o Espírito Santo semeou nos nossos corações. Que o Senhor nos conceda esta graça: ter esta sede de justiça que é precisamente o desejo de o encontrar, de ver Deus e de fazer o bem aos outros.


Catequese do Papa Francisco
11 de Março de 2020




07 março 2020

A esmola: sinal universal de justiça e solidariedade




1. Desejo voltar mais uma vez aos assuntos das nossas três meditações quaresmais: oração, jejum e esmola; sobretudo a esta última. Se a oração, o jejum e a esmola formam a nossa conversão a Deus, conversão que é expressa de modo mais exacto com o termo grego «metánoia», se elas constituem o principal tema da liturgia quaresmal, um estudo penetrante desta liturgia persuade-nos que a «esmola» ocupa nesta um lugar especial. Procurámos explicá-lo brevemente na quarta-feira passada, apoiando-nos no ensinamento de Cristo e dos Profetas do Antigo Testamento, que ressoa muitas vezes na liturgia quaresmal.

Existe porém a necessidade de actualizar esta matéria, de a traduzir, por assim dizer, não só em linguagem de termos modernos, mas também em linguagem da realidade humana actual: interior e social, ao mesmo tempo. Como se referem à realidade actual as palavras pronunciadas há milhares de anos, num contexto histórico-social completamente diverso, palavras dirigidas a homens duma mentalidade tão diversa da de hoje? Como é possível então aplicá-las a nós mesmos? Que pontos nevrálgicos da nossa actual injustiça, das iniquidades humanas e das várias desigualdades, não eliminadas na vida da humanidade — embora tantas vezes a palavra de ordem «igualdade» tenha sido escrita em várias bandeiras —, que pontos devem as nossas palavras combater?

Ressoam com energia insólita as discretas palavras de Cristo dirigidas um dia ao apóstolo traidor: Pobres sempre tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis (Jo. 12, 8).

«Vós tereis sempre pobres convosco». Depois do abismo desta palavra, nenhum homem pôde nunca dizer o que é a Pobreza. (...) Quando se pergunta a Deus, Ele responde que é Ele precisamente o Pobre: «Ego sum pauper» (Léon Bloy, La femme pauvre, II.1, Mercure de France 1948).

2. A chamada à penitência, à conversão, significa chamada à abertura interior «para com os outros». Nada pode substituir, na história da Igreja e na história do homem, esta chamada. Esta chamada tem infinitos destinatários. Dirige-se a todos os homens e dirige-se a cada um pelos motivos próprios a ele mesmo. Cada um deve portanto ver-se nos dois aspectos do destino desta chamada. Cristo exige de mim uma abertura para com o outro. Mas para com que outro? Para com aquele que está aqui, neste momento. Não se pode «adiar» esta chamada de Cristo para um momento indefinido em que aparecerá aquele mendigo «qualificado» a estender a mão.

Devo estar aberto para cada homem, disposto a «oferecer-me». A oferecer-me levando quê? E sabido que às vezes com uma só palavra podemos «dar um presente» ao outro; mas com uma palavra só, podemos também golpeá-lo dolorosamente, injuriá-lo e feri-lo; podemos até «matá-lo» moralmente. É necessário portanto aceitar esta chamada de Cristo naquelas ordinárias situações quotidianas de convivência e de contacto, onde cada um de nós é sempre aquele que pode «dar» aos outros e, ao mesmo tempo, aquele que sabe aceitar o que os outros podem oferecer-lhe.

Responder à chamada de Cristo para me abrir interiormente para os outros, significa viver sempre pronto a encontrar-me do outro lado do destino desta chamada. Eu sou quem dá aos outros, mesmo quando sei receber, quando sou agradecido por todo o bem que me chega doutrem. Não posso ser fechado e ingrato. Não posso isolar-me. Aceitar o chamamento de Cristo para abrir-me aos outros exige, como se vê, uma reelaboração de todo o estilo da nossa vida quotidiana. É necessário corresponder a esta chamada nas dimensões reais da vida. Não adiar para outras condições e circunstâncias, para quando se apresentar a necessidade. Urge perseverar continuamente nessa atitude interior. Sem isso, quando se apresentar a ocasião «extraordinária», poderá acontecer-nos que não tenhamos a correspondente disposição.

3. Entendendo assim, de maneira prática, o significado da chamada de Cristo a «oferecermo-nos» aos outros na vida de cada dia, não queremos restringir o sentido desta doação apenas aos factos quotidianos, por assim dizer de pequenas dimensões. O nosso «oferecermo-nos» deve referir-se também aos factos longínquos, às necessidades do próximo com quem não estamos em contacto cada dia, mas de cuja existência somos conhecedores. Sim, hoje sabemos muito melhor quais as necessidades, os sofrimentos e as injustiças dos homens que vivem noutros países, noutros continentes. Estamos longe deles geograficamente, estamos separados por barreiras linguísticas, por fronteiras levantadas por cada um dos Estados ... Não podemos entranhar-nos directamente na fome deles, nas indigências, nos maus-tratos, nas humilhações, nas torturas, na prisão, nas discriminações sociais que os amarguram, nas condenações a um «exílio interior» ou à «proscrição» a que se vêem sujeitos; sabemos todavia que sofrem, e sabemos que são homens como nós, nossos irmãos. A «fraternidade» não foi escrita só nas bandeiras e nos estandartes das modernas revoluções. Já há muito a proclamou Cristo: ... vós sois todos irmãos (Mt. 23, 8). E mais ainda: a esta fraternidade deu Ele um ponto indispensável de referência: ensinou-nos a dizer «Pai nosso». A fraternidade humana pressupõe a paternidade divina.

A chamada de Cristo a abrirmo-nos «ao outro», ao «irmão», precisamente ao irmão, tem um raio de extensão sempre concreto e sempre universal. Diz respeito a cada um, porque se refere a todos. A medida deste «abrirmo-nos» não é só — e não é tanto — a proximidade do outro, quanto o são exactamente as suas carências: tinha fome, tinha sede, estava nu, na prisão, doente ... Respondamos a esta chamada procurando o homem que sofre, seguindo-o até além-fronteiras dos Estados e dos Continentes. Deste modo cria-se — através do coração de cada um de nós — aquela dimensão universal da solidariedade humana. A missão da Igreja está em guardar esta dimensão: Não limitar-se a algumas políticas e a alguns sistemas. Guardar a universal solidariedade humana sobretudo com aqueles que sofrem; conservá-la com respeito a Cristo que formou, duma vez para sempre, essa dimensão de solidariedade com o homem. O amor de Cristo nos constrange, persuadidos que, se um só morreu por todos, então todos estão mortos. Cristo morreu por todos para que os que vivem já não vivam para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou (2 Cor. 5, 14 s). E deu-no-la como missão, uma vez para sempre. Deu-a a cada um. Quem é fraco, sem que eu também o seja? Quem tropeça, que eu não me consuma com febre? São palavras de São Paulo (2 Cor. 11, 29).

Portanto, na nossa consciência — na consciência individual do cristão —, na consciência social dos vários ambientes e das nações, devem formar-se, diria eu, zonas especiais de solidariedade precisamente com aqueles que mais sofrem. Devemos trabalhar sistematicamente para que as zonas de especiais carências humanas, dos grandes sofrimentos, dos agravos e das injustiças, se tornem zonas de solidariedade cristã de toda a Igreja e, por meio da Igreja, de cada sociedade e da humanidade inteira.

4. Se vivemos em condições de prosperidade ou de bem-estar, mais urna razão para termos consciência de toda a geografia da fome no globo terrestre; mais uma razão para dirigirmos a nossa atenção para a miséria humana, como fenómeno de massa; devemos despertar a nossa responsabilidade e estimular a prontidão para um auxílio activo e eficaz. Se vivemos nas condições de liberdade, de respeito dos direitos humanos, mais uma razão para sofrermos pelas opressões das sociedades que estão privadas da liberdade, pelas opressões dos homens que estão privados dos direitos fundamentais humanos. Isto diz respeito também à liberdade religiosa. De modo especial onde há respeito pela liberdade religiosa, devemos participar nos sofrimentos dos homens, às vezes de comunidades religiosas inteiras e de Igrejas inteiras, a quem é negado o direito à vida na religião segundo a própria confissão ou o próprio rito. Devo chamar pelos seus nomes a tais situações? Sem dúvida. É meu dever. Mas não podemos ficar só nisto. É necessário que nós, todos e em toda a parte, nos esforcemos por tomar uma atitude de solidariedade cristã com os nossos irmãos na fé, que sofrem discriminações e perseguições. É necessário, além disso, procurar formas em que esta solidariedade possa exprimir-se. Esta foi sempre, desde os tempos mais antigos, a tradição da Igreja. Na verdade, é bem sabido que a Igreja de Jesus Cristo não entrou «em posição de força» na história da humanidade, mas através de séculos de perseguições sofridas. E foram precisamente estes séculos que estabeleceram a mais profunda tradição da solidariedade cristã.

Também hoje tal solidariedade é a força duma renovação autêntica. É o caminho indispensável para a auto-realização da Igreja no mundo contemporâneo. Foi a verificação da nossa fidelidade a Cristo que levou a dizer: Pobres sempre tereis convosco (Jo. 12, 8. 7), e ainda: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes (Mt. 25, 40). A nossa conversão a Deus só se realiza no caminho desta solidariedade.


Papa João Paulo II
4 de Abril de 1979



06 março 2020

O que fazer durante a Quaresma?




Desde os tempos antigos, a Quaresma foi considerada como um período de renovação da própria vida. As práticas a serem cumpridas eram sobretudo três: a oração, a luta contra o mal e o jejum.
A oração para pedir a Deus a força para se converter e para crer no Evangelho.
A luta contra o mal para dominar as paixões e o egoísmo.
Por fim, o jejum. Para seguir o Mestre, o cristão deve ter a força de se esquecer de si mesmo, de não pensar nos próprios interesses, mas só no bem do irmão. Assumir uma atitude constante, generosa e desinteressada, é sem dúvida difícil.
Este é o jejum.
Mas, será que o sofrimento pode ser uma coisa boa? Como é que a nossa dor pode agradar a Deus? De maneira nenhuma. Deus não quer que o homem sofra. Mas, para ajudar a quem se encontra em necessidade, é necessário muitas vezes renunciar àquilo de que se gosta e isso implica sacrifício. Não é o jejum em si que é bom (às vezes ele é praticado por razões que nada têm a ver com a religião: há quem coma pouco simplesmente para manter a linha, para ser elegante, para gozar de boa saúde). O que agrada a Deus é que, com o alimento que se consegue economizar através do jejum, se alivie, pelo menos por um dia, a fome do irmão.
Um livro muito antigo, muito lido pelos primeiros cristãos, o Pastor das Hermas, explica desta forma a ligação entre o jejum e a caridade: «Eis como deverás praticar o jejum: durante o dia de jejum tu comerás somente pão e água; em seguida, calcularás quanto terias gasto em alimento durante aquele dia e oferecerás esse dinheiro a uma viúva, a um órfão ou a um pobre; assim, privar-te-ás de alguma coisa para que o teu sacrifício seja proveitoso a alguém para se alimentar. Ele rezará por ti ao Senhor. Se tu jejuares desta maneira, o teu sacrifício será agradável a Deus».
Um Papa muito famoso dos primeiros tempos da Igreja, chamado Leão Magno, dizia numa homilia: «Nós vos prescrevemos o jejum, lembrando-vos não só a necessidade da abstinência, mas também as obras de misericórdia. Desta forma, o que tiverdes poupado dos vossos gastos ordinários se transforme em alimento para os pobres».


por Fernando Armellini
in «O Banquete da Palavra - Ano A»




05 março 2020

Significado espiritual do deserto




Hoje gostaria de falar convosco precisamente sobre o significado espiritual do deserto. O que significa espiritualmente o deserto para todos nós, até para quem vive na cidade, o que significa o deserto.

Imaginemos que estamos num deserto. A primeira sensação seria a de nos encontrarmos envolvidos por um grande silêncio: sem barulho, a não ser o vento e a nossa respiração. Eis que o deserto é o lugar do desapego do barulho que nos rodeia. É ausência de palavras para dar lugar a outra Palavra, a Palavra de Deus que, como uma brisa suave, acaricia o nosso coração (cf. 1 Rs 19, 12). O deserto é o lugar da Palavra, com letra maiúscula. Com efeito, na Bíblia o Senhor gosta de falar connosco no deserto. No deserto Ele entrega a Moisés as “dez palavras”, os dez mandamentos. E quando o povo se afasta dele, tornando-se como que uma noiva infiel, Deus diz: «Eis que a conduzirei ao deserto para lhe falar ao coração. Aí ela responderá, como nos dias da sua mocidade» (Os 2, 16-17). No deserto ouve-se a Palavra de Deus, que é como um som suave. O Livro dos Reis diz que a Palavra de Deus é como um fio de silêncio sonoro. No deserto encontra-se a intimidade com Deus, o amor do Senhor. Jesus gostava de se retirar todos os dias para lugares desertos e entregava-se à oração (cf. Lc 5, 16). Ele ensinou-nos como procurar o Pai, que nos fala no silêncio. E não é fácil fazer silêncio no coração, pois procuramos sempre conversar um pouco, estar com os outros.

A Quaresma é o momento propício para dar espaço à Palavra de Deus. É o tempo para desligar a televisão e abrir a Bíblia. É o tempo para nos desligarmos do telemóvel e para nos ligarmos ao Evangelho. Quando eu era criança não havia televisão, mas tínhamos o hábito de não ouvir o rádio. A Quaresma é deserto, é tempo para renunciar, para nos desligarmos do telemóvel e para nos ligarmos ao Evangelho. É o tempo para renunciar a palavras inúteis, conversas, boatos, tagarelices, e falar e tratar o Senhor por “tu”. É o tempo para se dedicar a uma saudável ecologia do coração, para fazer limpeza. Vivemos num ambiente poluído por demasiada violência verbal, por tantas palavras ofensivas e nocivas, que a rede amplifica. Hoje insulta-se como se se dissesse: “Bom dia”. Estamos inundados de palavras vazias, publicidades, mensagens subliminares. Estamos acostumados a ouvir tudo sobre todos e corremos o risco de cair numa mundanidade que atrofia o nosso coração e não existe um bypass para curar isto, apenas o silêncio. Temos dificuldade em distinguir a voz do Senhor que nos fala, a voz da consciência, a voz do bem. Chamando-nos ao deserto, Jesus convida-nos a escutar o que conta, o importante, o essencial. Ao diabo que o tentava, respondeu: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). Como o pão, mais do que o pão, precisamos da Palavra de Deus, temos necessidade de falar com Deus: precisamos de orar. Pois só diante de Deus vêm à luz as inclinações do coração e a duplicidade da alma desvanece. Eis o deserto, lugar de vida, não de morte, porque dialogar em silêncio com o Senhor nos restitui vida.

Procuremos pensar de novo num deserto. O deserto é o lugar do essencial. Vejamos as nossas vidas: quantas coisas inúteis nos circundam! Perseguimos mil coisas que parecem necessárias mas na realidade não o são. Como nos faria bem livrar-nos de tantas realidades supérfluas, para redescobrir o que importa, para encontrar os rostos de quantos estão ao nosso lado! Também sobre isto Jesus nos dá um exemplo, jejuando. Jejuar é saber renunciar às coisas vãs, ao supérfluo, para ir ao essencial. Jejuar não é apenas para perder peso, jejuar é ir diretamente ao essencial, é procurar a beleza de uma vida mais simples.

Por fim, o deserto é o lugar da solidão. Até hoje, perto de nós, há muitos desertos. São as pessoas solitárias e abandonadas. Quantos pobres e idosos estão ao nosso lado e vivem no silêncio, sem fazer barulho, marginalizados e descartados! Falar sobre eles não chama a atenção do público. Mas o deserto leva-nos a eles, àqueles que, calados, pedem em silêncio a nossa ajuda. Tantos olhares silenciosos que pedem a nossa ajuda. O caminho através do deserto quaresmal é uma senda de caridade para com os mais fracos.

Oração, jejum, obras de misericórdia: este é o caminho no deserto quaresmal.

Queridos irmãos e irmãs, com a voz do profeta Isaías, Deus fez esta promessa: «Vou realizar algo de novo... vou abrir um caminho no deserto» (43, 19). No deserto abre-se o caminho que nos leva da morte para a vida. Entremos no deserto com Jesus e dali sairemos saboreando a Páscoa, o poder do amor de Deus que renova a vida. Acontecerá connosco como com aqueles desertos que florescem na primavera, fazendo germinar de repente, “do nada”, brotos e plantas. Ânimo, entremos neste deserto quaresmal, sigamos Jesus no deserto: com Ele os nossos desertos hão de florescer.


Papa Francisco
Audiência Geral
26 de fevereiro de 2020


03 março 2020

Porquê exactamente 40 dias?




Quando falamos de 8 galinhas ou de 7 quilos de arroz, queremos significar exactamente 8 e 7, nem mais, nem menos.
Quando, pelo contrário, encontramos alguns números na Bíblia, devemos prestar atenção, pois, muitas vezes, eles têm um significado simbólico. Assim, quando aparece o número 40 ou um seu múltiplo, não quer dizer que seja exactamente 40, como se falássemos de escudos. Indica um período simbólico, que pode ser longo ou curto.
Não é como quando falamos de dinheiro: este deve ser bem contado!
Por exemplo, é difícil aceitar que Moisés tenha passado exactamente 40 dias e 40 noites na montanha, sem comer pão e sem beber água (Êx 34, 38) e também que Jesus tenha conseguido fazer a mesma coisa (Mt 4, 2). Assim, também, surge a dúvida de se eram exactamente 4.000 os homens para os quais foram multiplicados os pães (Mc 8, 9).
Entre os muitos significados que os antigos davam ao número 40, um interessa-nos de modo particular: o de indicar um período de preparação (mais ou menos longo) por causa de um grande acontecimento. Por exemplo: o dilúvio durou 40 dias e 40 noites... e foi a preparação para uma nova humanidade; 40 anos foi o tempo que passou o povo de Israel no deserto... preparando-se para a entrada na Terra prometida; por 40 dias fizeram penitência os habitantes de Nínive..., antes de receber o perdão de Deus; 40 dias e 40 noites caminhou Elias... até alcançar a montanha de Deus; por 40 dias e 40 noite jejuaram Moisés e Jesus... como preparação para a sua missão...
É claro, agora, o sentido deste número? E então, para preparar a maior de todas as festas cristãs, quantos dias eram necessários?... 40, naturalmente! 



Por Fernando Armellini
in 'O Banquete da Palavra - Ano A'






Exame de Consciência




- Costumo rezar?
- Faltei de propósito à Missa?
- Zanguei-me com os meus pais ou pessoas mais velhas?
- Zanguei-me com os meus irmãos?
- Ajudei em casa quando foi preciso?
- Fui preguiçoso?
- Deixei de cumprir os meus deveres para ir brincar ou fazer outras coisas?
- Dei mau exemplo a alguém?
- Gritei ou zanguei-me com alguém quando não devia ou não fizeram a minha vontade?
- Disse mal de alguém?
- Disse coisas que não devia (palavrões)?
- Roubei algum objecto ou dinheiro?
- Gastei dinheiro em coisas que não devia ou que depois não quis?
- Não quis emprestar as minhas coisas a quem precisava?
- Fui egoísta?
- Agradeci a quem me ajudou?
- Disse mentiras?
- Revelei segredos que me tinham confiado?
- Fui invejoso?
- Deixei de fazer alguma coisa boa que podia ter feito?
- Esforço-me por ser melhor?




A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça




1. Durante a Quaresma muitas vezes chegam aos nossos ouvidos as palavras «oração, jejum e esmola», que já tive de recordar na Quarta-feira de Cinzas. Estamos habituados a pensar nelas como em obras piedosas e boas, que todo o cristão deve realizar sobretudo neste período. Tal modo de pensar é exacto, mas não completo. A oração, a esmola e o jejum precisam de mais profunda compreensão, se queremos inserir estes actos mais profundamente na nossa vida, e não considerá-los simplesmente como práticas passageiras, que só exigem de nós algo de momentâneo, ou só momentaneamente nos privam dalguma coisa. Com este modo de pensar não chegamos ainda ao verdadeiro sentido e à verdadeira força que a oração, o jejum e a esmola têm no processo da conversão a Deus e da nossa maturação espiritual: uma anda ao mesmo passo que a outra. Chegamos à maturidade espiritual convertendo-nos a Deus, e a conversão realiza-se por meio do jejum e da esmola, devidamente entendidos.

Convém talvez dizer já que não se trata aqui só de «práticas» momentâneas, mas de atitudes constantes, que imprimem na nossa conversão a Deus, forma duradoira. A Quaresma, como tempo litúrgico, dura só 40 dias ao ano: mas para Deus devemos tender sempre; isto significa que é preciso convertermo-nos continuamente. A Quaresma deve deixar marca forte e indelével na nossa vida. Há-de renovar em nós a consciência da nossa união com Jesus Cristo, que nos faz ver a necessidade da conversão e nos indica os caminhos para a realizarmos. A oração, o jejum e a esmola são precisamente os caminhos que nos foram indicados por Cristo.

Nas meditações que irão seguir-se, procuraremos entrever quão profundamente penetram estes caminhos no homem: o que para ele significam. O cristão deve compreender o verdadeiro sentido destes caminhos, se os quer seguir.

2. Primeiro, portanto, o caminho da oração. Digo «primeiro», porque desejo falar deste antes dos outros. Mas, ao dizer «primeiro», quero hoje acrescentar que, na obra total da nossa conversão — isto é, da nossa maturação espiritual — a oração não está isolada dos outros dois caminhos que a Igreja define com o termo evangélico «jejum e esmola». Talvez o caminho da oração nos seja mais familiar. Talvez compreendamos com mais facilidade que sem ela não é possível convertermo-nos a Deus, permanecermos em união com ele naquela comunhão que nos leva à maturação espiritual. Não duvido que entre vós, que agora me ouvis, muitíssimos haja que tenham experiência própria de oração, que tenham conhecimento dos vários aspectos dela e possam torná-los conhecidos também às outras pessoas. De facto, aprendemos a orar, orando. O Senhor Jesus ensinou-nos a orar, primeiro que tudo orando ele próprio: ... e passou a noite em oração (Lc. 4, 23. 2); outro dia, como escreve São Mateus, subiu ao monte, sozinho, para orar. E, chegada a noite, ainda Ele estava só lá em cima (Mt. 14, 23). Antes da sua Paixão e Morte, foi ao monte das Oliveiras e animou os Apóstolos a que orassem; Ele mesmo, ajoelhando-se, pôs-se a orar. Invadido pela angústia, orava mais intensamente (Cfr. Lc. 22, 39-46). Só uma vez — rogado pelos discípulos Senhor, ensina-nos a orar (Lc. 11, 1). — lhes comunicou o mais simples e mais profundo conteúdo de oração: o «Pai nosso».

Sendo impossível resumir num breve discurso tudo o que se pode dizer ou foi escrito sobre o assunto da oração, queria eu hoje realçar uma coisa apenas. Nós todos, quando oramos, somos discípulos de Cristo, não porque repetimos as palavras que Ele uma vez nos ensinou — palavras sublimes, conteúdo completo da oração. Somos discípulos de Cristo, mesmo quando não usamos essas palavras. Somos seus discípulos já, só porque ora-mos: «Escuta o Mestre que ora; aprende tu a orar. Para isto, de facto, orou Ele, para nos ensinar a orar», afirma Santo Agostinho (Sto. Agostinho, Enarrationes in Ps., 56, 5) E um autor contemporâneo escreve: «Uma vez que o termo do caminho da oração se perde em Deus, e ninguém conhece o caminho senão Aquele que vem de Deus, Jesus Cristo — é necessário (...) fixarmos os olhos n'Ele só. É o caminho, a verdade e a vida. Só Ele percorreu o caminho nas duas direcções. É preciso meter-mos a nossa mão na sua e partirmos» (Y. Raguin, Chemins de la contemplation, Desclée de Brouwer, 1969, pág. 179). Orar significa falar com Deus. Atrever-me-ia a dizer mais: orar significa encontrarmo-nos naquele Único eterno Verbo, por meio de quem fala o Pai, Verbo que fala ao Pai. Este Verbo fez-se carne, para nos ser mais fácil encontrarmo-nos n'Ele, mesmo com a nossa palavra humana de oração. Pode esta palavra às vezes ser muito imperfeita, poderá até mesmo faltar-nos de todo. Mas a incapacidade das nossas palavras humanas completa-se continuamente no Verbo que se fez carne para falar ao Pai com a plenitude daquela união mística que forma com Ele cada homem que ora; que todos quantos oram, formam com Ele. Nesta particular união com o Verbo está a grandeza da oração, a sua dignidade, e em certo modo, a sua definição.

É preciso sobretudo compreender bem a grandeza fundamental e a dignidade da oração. Oração de cada homem. E ainda de toda a Igreja orante. A Igreja, em certo modo, chega tão longe como a oração: até onde haja um homem que ore.

3. É preciso orarmos baseando-nos neste conceito essencial da oração. Quando os discípulos pediram ao Senhor Jesus «ensina-nos a orar», Ele respondeu pronunciando as palavras da oração Pai nosso, criando assim um modelo concreto e ao mesmo tempo universal. De facto, tudo quanto se pode e deve dizer ao Pai, está incluído naqueles sete pedidos, que todos sabemos de cor. Há neles tal simplicidade, que até uma criança os aprende, e simultaneamente tal profundidade, que se pode consumar uma vida inteira a meditar o sentido de cada um. Não é porventura assim? Não nos fala cada um deles, um após outro, do que é essencial para a nossa existência, voltada completamente para Deus, para o Pai? Não nos fala do «pão de cada dia», do «perdão das nossas ofensas assim como nós as perdoamos», e juntamente de «não cairmos em tentação» e de «ficarmos livres do mal»?

Quando Cristo, satisfazendo o pedido dos discípulos «ensina-nos a orar», pronuncia as palavras da sua oração, ensina não só as palavras, mas ensina também que no nosso colóquio com o Pai deve haver sinceridade total e plena abertura. A oração deve abraçar tudo o que faz parte da nossa vida. Não pode ser alguma coisa de suplementar ou marginal. Tudo deve encontrar nela a própria voz. Mesmo tudo o que nos pesa; aquilo de que nos envergonhamos; aquilo que por sua natureza nos separa de Deus. Exactamente, sobretudo isto. É a oração que sempre, em primeiro lugar e essencialmente, abate a barreira entre nós e Deus, barreira que o pecado e o mal podem ter levantado.
Por meio da oração, toda a gente deve encontrar a sua referência justa: quer dizer, a referência a Deus: o meu mundo interior e também o mundo objectivo, aquele em que vivemos e tal como o conhecemos. Se nos voltamos para Deus, tudo em nós se dirige para Ele. A oração é exactamente a expressão de nos dirigirmos para Deus; isto é, ao mesmo tempo, a nossa contínua conversão: o nosso caminho.

Diz a Sagrada Escritura:
Assim como a chuva e a neve / descem do céu e já não voltam lá / sem terem regado / e fecundado a terra, / e sem a terem feito germinar / dando o grão ao semeador / e o pão para comer; / o mesmo sucede com a palavra / que sai da minha boca: / não volta a mim sem produzir o seu efeito, / sem executar a minha vontade / e ter cumprido a missão que lhe dei (Is. 55, 10-11. 3).

A oração é o caminho do Verbo que tudo abraça. Caminho do Verbo eterno que atravessa a profundidade de tantos corações; que reconduz ao Pai tudo quanto n'Ele tem a sua origem.

A oração é o sacrifício dos nossos lábios (Cfr. Heb. 13, 15). É, como escreve Santo Inácio de Antioquia, «água viva que murmura dentro de nós e diz: vem para o Pai» (Cfr. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos, VII, 2).

Com a minha Bênção Apostólica.



Papa João Paulo II
14 de Março de 1979






O jejum penitencial e o desenvolvimento da pessoa




1. Ordenai um jejum (Jl. 1, 14). São as palavras que ouvimos na primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas. Escreveu-as o Profeta Joel, e a Igreja, em conformidade com elas, estabelece a prática da Quaresma, ordenando o jejum. Hoje a prática da Quaresma, definida por Paulo VI na Constituição «Poenitemini», está notavelmente mitigada em comparação com o que era antigamente. Nesta matéria o Papa deixou muito à decisão das Conferências Episcopais de cada país, às quais, por conseguinte, toca a missão de adaptar as exigências do jejum às circunstâncias em que se encontram as respectivas sociedades. Recordou também que a essência da penitência quaresmal é constituída não só pelo jejum, mas também pela oração e pela esmola (obra de misericórdia). É necessário pois decidir segundo as circunstâncias, uma vez que o jejum pode mesmo ser «substituído» por obras de misericórdia e pela oração. A finalidade deste período especial na vida da Igreja é, sempre e em toda a parte, a penitência, isto é, a conversão para Deus. A penitência, de facto, entendida como conversão, isto é «metánoia», forma um conjunto que a tradição do Povo de Deus já na Antiga Aliança, e em seguida o próprio Cristo, ligaram em certo modo à oração, à esmola e ao jejum.

Porquê o jejum?

Neste momento vêm-nos talvez à lembrança as palavras com que Jesus respondeu aos discípulos de João Baptista quando o interrogavam: por que não jejuam os teus discípulos? Jesus respondeu: Porventura podem os companheiros do esposo estar tristes enquanto o esposo está com eles? Dias hão-de vir em que lhes tirarão o esposo e então jejuarão (Mt 9, 15). Na verdade, o tempo da Quaresma recorda-nos que o esposo nos foi tirado. Tirado, detido, preso, esbofeteado, flagelado, coroado de espinhos e crucificado ... O jejum no tempo da Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo. Tal foi o significado da Quaresma através dos séculos e assim hoje se mantém.

«O meu amor foi crucificado e já não há em mim a chama que deseja as coisas materiais», como escreve o Bispo de Antioquia, Inácio, na carta aos Romanos (Santo Inácio de Antioquia, Ad Romanos, VII, 2).

2. Porquê o jejum?

A esta pergunta é preciso dar uma resposta mais extensa e profunda, para que fique clara a relação à «metánoia», isto é, aquela transformação espiritual, que aproxima o homem de Deus. Esforcemo-nos portanto por concentrar-nos não só na prática da abstenção do alimento ou das bebidas — isto de facto significa «jejum» no sentido ordinário — mas no significado mais profundo desta prática que, aliás, pode e deve às vezes ser «substituída» por alguma outra. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. A tradicional abstenção do alimento e das bebidas tem como finalidade introduzir na existência do homem não só o equilíbrio necessário, mas também o desprendimento daquilo que poderia definir-se «atitude consumística». Tal atitude tornou-se nos nossos tempos uma das características da civilização e em particular da civilização ocidental. A atitude consumística! O homem orientado para os bens materiais, múltiplos bens materiais, muitas vezes abusa deles. Não se trata aqui unicamente do alimento e das bebidas. Quando o homem está orientado exclusivamente para a posse e o uso dos bens materiais, isto é, das coisas, então também toda a civilização é medida segundo a quantidade e qualidade das coisas que se encontra capaz de fornecer ao homem e não se mede com a medida adequada ao homem. Esta civilização fornece de facto, os bens materiais não só para que sirvam ao homem a exercer as actividades criativas e úteis, mas cada vez mais ... a satisfazer os sentidos, a excitação que disso deriva, o prazer momentâneo e a multiplicidade de sensações cada vez maior.

Ouve-se às vezes dizer que o aumento excessivo dos meios audiovisuais nos países ricos nem sempre ajuda o desenvolvimento da inteligência, particularmente nas crianças; pelo contrário, às vezes contribui para lhes deter o desenvolvimento. A criança vive só de sensações, procura sensações sempre novas ... E torna-se assim, sem se dar conta, escrava desta paixão actual. Saciando-se de sensações, fica muitas vezes intelectualmente passiva; a inteligência não se abre à busca da verdade; a vontade fica presa ao hábito, a que não sabe opor-se.

Disto resulta que o homem contemporâneo deve jejuar, isto é, abster-se não só do alimento ou das bebidas, mas de muitos outros meios de consumo, como de estimular e satisfazer os sentidos. Jejuar significa abster-se, renunciar a alguma coisa.

3. Porque renunciar a alguma coisa? Porque privarmo-nos dela? Já em parte respondemos a esta pergunta. Não será todavia completa a resposta, se não nos dermos conta de o homem ser ele próprio, também por conseguir privar-se dalguma coisa, capaz de dizer a si mesmo «não». O homem é ser composto de corpo e alma. Alguns escritores contemporâneos apresentam esta estrutura composta do homem sob a forma de estratos, e falam, como exemplo, de estratos exteriores na superfície da nossa personalidade, contrapondo-os aos estratos em profundidade. A nossa vida parece estar dividida nestes estratos e desenvolve-se através deles. Enquanto os estratos superficiais estão ligados à nossa sensualidade, os estratos profundos são expressão da espiritualidade do homem, isto é, da vontade consciente, da reflexão, da consciência e da capacidade de viver os valores superiores.

Esta imagem da estrutura da personalidade humana pode servir para se compreender o significado do jejum para o homem. Não se trata aqui somente do significado religioso, mas dum significado que se exprime através da chamada «organização» do homem com sujeito-pessoa. O homem desenvolve-se regularmente, quando os estratos mais profundos da sua personalidade encontram suficiente expressão, quando o âmbito dos seus interesses e das suas aspirações não se limita só aos estratos exteriores e superficiais, ligados com a sensualidade humana. Para facilitar este desenvolvimento, devemos por vezes desapegar-nos conscientemente do que serve para satisfazer a sensualidade, quer dizer, daqueles estratos exteriores superficiais. Devemos portanto renunciar a tudo quanto os «alimenta».

Eis, em breves palavras, a interpretação do jejum dos dias de hoje.

A renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é fim de si mesma. Deve apenas, por assim dizer, preparar o caminho para conteúdos mais profundos, de que «se alimenta» o homem interior. Tal renúncia, tal mortificação deve servir para criar no homem as condições para poder viver os valores superiores, de que ele está, a seu modo, «faminto».
Eis o significado «pleno» do jejum na linguagem de hoje. Todavia, quando lemos os autores cristãos da antiguidade ou os Padres da Igreja, encontramos neles a mesma verdade, muitas vezes expressa com linguagem tão «actual» que nos surpreende. Diz, por exemplo, São Pedro Crisólogo: «O jejum é paz do corpo, força dos espíritos e vigor das almas» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 3), e ainda: «O jejum é o leme da vida humana e governa todo o navio do nosso corpo» (São Pedro Crisólogo, Sermo VII: de ieiunio 1).

E Santo Ambrósio responde assim às possíveis objecções contra o jejum: «A carne, pela sua condição mortal, tem algumas concupiscências suas próprias: a respeito delas foi-te concedido o direito de as enfrear. A tua carne está-te sujeita (...): Não sigas as solicitações ilícitas, mas refreia-as algum tanto, mesmo no que diz respeito às coisas lícitas. De facto, quem não se abstém de nenhuma das coisas lícitas, está também perto das ilícitas» (Santo Ambrósio, Sermo de utilitate ieiunii III. V. VII). Até escritores, que não pertencem ao cristianismo, declaram a mesma verdade. Esta é de alcance universal. Faz parte da sabedoria universal da vida.

4. É-nos agora certamente mais fácil compreender porque unem Cristo Senhor e a Igreja o apelo ao jejum com a penitência, isto é, com a conversão. Para nos convertermos a Deus, é necessário descobrirmos em nós mesmos aquilo que nos torna sensíveis a quanto pertence a Deus, portanto: os conteúdos espirituais, os valores superiores, que falam à nossa inteligência, à nossa consciência e ao nosso «coração» (segundo a linguagem bíblica). Para nos abrirmos a estes conteúdos espirituais e a estes valores, é preciso desapegarmo-nos de tudo quanto serve apenas ao consumismo, à satisfação dos sentidos. Na abertura da nossa personalidade humana para Deus, o jejum entendido quer no modo «tradicional» quer no «actual» — deve acompanhar ao mesmo passo a oração porque esta dirige-nos directamente para Ele.

Por outro lado, o jejum, isto é a mortificação dos sentidos e o domínio do corpo conferem à oração maior eficácia que o homem descobre em si mesmo. Descobre, de facto, que é «diverso», que é mais «senhor de si mesmo» e que se tornou interiormente livre. E disso se dá conta pois a conversão e o encontro com Deus, por meio da oração, frutificam nele.

Destas nossas reflexões de hoje resulta claro que o jejum não é só o «resíduo» duma prática religiosa dos séculos passados, mas é também indispensável ao homem de hoje, aos cristãos do nosso tempo. É necessário reflectir profundamente sobre este tema, precisamente durante o período da Quaresma.



Papa João Paulo II
21 de Março de 1979





A «esmola» e a «justiça»





1. Paenitemini et date eleemosynam (Cfr. Mc. 1, 15 e Lc. 12, 33)

A palavra «esmola» não gostamos hoje de a ouvir. Encontra-mos nela alguma coisa de humilhante. Esta palavra parece supor um sistema social em que reina a injustiça, a desigual distribuição dos bens, um sistema que deveria ser mudado com reformas adequadas. E se tais reformas não fossem realizadas, delinear-se-ia no horizonte da vida social a necessidade de mudanças radicais, sobretudo no campo das relações entre os homens. A mesma convicção encontramo-la nos Profetas do Antigo Testamento, a que muitas vezes recorre a liturgia no tempo da Quaresma. Os Profetas consideram este problema a nível religioso: não há verdadeira conversão a Deus, não pode haver «religião» autêntica sem reparar injúrias e injustiças nas relações entre os homens, na vida social. E mesmo neste contexto, exortam os Profetas à esmola.

Não usam sequer a palavra «esmola», que aliás em hebraico é «sedaqah», isto é precisamente «justiça». Pedem auxílio para aqueles que sofrem injustiça e para os necessitados: não tanto em virtude da misericórdia, quanto preferentemente em virtude do dever da caridade activa. Sabeis qual é o jejum que eu aprecio?... É romper as ligaduras da iniquidade, desatar os nós do jugo, deixar ir livres os oprimidos e quebrar toda a espécie de jugo; é repartir o próprio pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem abrigo, vestir o nu e não desprezar o teu irmão (Is. 58, 6-7).
A palavra grega «esmola» encontra-se nos livros tardios da Bíblia, e a prática da esmola é prova de religiosidade autêntica. Jesus faz da esmola uma condição da entrada no Seu reino (Cfr. Lc. 12, 32-33)  e da verdadeira perfeição (Mc. 10, 21 e paral).  Por outro lado, quando Judas — diante da mulher que ungia os pés de Jesus — pronunciou a frase: Porque não se vendeu este perfume por 300 denários e não se deram aos pobres? (Jo. 12, 5), Cristo defendeu a mulher respondendo: Pobres, sempre os tereis convosco, mas a mim nem sempre me tereis (Jo. 12, 8). Uma e outra frase oferecem motivo para longa reflexão.

2. Que significa a palavra «esmola»?

A palavra grega «eleemosyne» provém de «eleos» que significa compaixão e misericórdia; inicialmente indicava a atitude do homem misericordioso e, em seguida, todas as obras de caridade para com os necessitados. Esta palavra, transformada, ficou em quase todas as línguas europeias.
Em francês: «aumône»; espanhol: «limosna»; português: «esmola»; alemão: «almosen»; e inglês: «alms». Até o termo polaco «jalmuzna» é a transformação da palavra grega.

Devemos agora distinguir o significado objectivo deste termo, do significado que lhe damos na nossa consciência social. Como resulta do que já dissemos, ao termo esmola» atribuímos muitas vezes, na nossa consciência social, um significado negativo. Diversas as circunstâncias que para isso contribuíram e ainda hoje contribuem. Pelo contrário, o termo «esmola» em si mesmo, como ajuda a quem dela precisa, como fazer participar os outros dos próprios bens, não desperta nada de tais associações desfavoráveis. Podemos não estar de acordo com quem dá a esmola, pelo modo como a dá. Podemos também não concordar com quem estende a mão pedindo esmola, se não se esforça por ganhar a vida por si mesmo. Podemos não aprovar a sociedade, o sistema social, em que haja necessidade de esmola. Todavia, o facto mesmo de prestar auxílio a quem precisa, o facto de repartir com os outros os próprios bens deve merecer respeito.

Vemos quanto, na interpretação das expressões linguísticas, é necessário libertarmo-nos da influência das várias circunstâncias acidentais: circunstâncias muitas vezes impróprias, que pesam sobre o significado fundamental. Estas circunstâncias são aliás positivas às vezes, em si mesmas (por exemplo, no nosso caso: a aspiração a uma sociedade justa, em que não haja necessidade de esmola, por nela reinar a justa distribuição dos bens).

Quando o Senhor Jesus fala de esmola, quando pede que a demos, sempre o faz no sentido de prestarmos auxílio a quem dele precisa, de repartirmos os próprios bens com os necessitados, isto é, no sentido simples e essencial, que não nos permite duvidar do valor do acto designado pelo termo «esmola», pelo contrário nos leva a que o aprovemos; como acto bom, como expressão de amor para com o próximo e como acto salvífico.

Além disso, num momento de especial relevo, pronuncia Cristo estas palavras significativas: Pobres, sempre os tereis convosco (Jo. 12, 8). Com tais palavras não pretende dizer que as mudanças das estruturas sociais e económicas nada valham e que não se hajam de tentar caminhos diversos para eliminar a injustiça, a humilhação, a miséria e a fome. Só quer dizer que no homem haverá sempre necessidades, a que não se poderá prover senão com a ajuda ao necessitado e com levar a que os outros participem dos bens meus ... De que ajuda se trata? De que participação? Acaso só de «esmola» entendida sob forma de dinheiro, de socorro material?

3. Certamente Cristo não tira a esmola do nosso campo visual. Pensa também na esmola pecuniária, material, mas pensa a Seu modo. Mais eloquente que qualquer outro é, a este propósito, o exemplo da viúva pobre, que deitava no tesouro do templo alguns trocos: do ponto de vista material, era oferta que dificilmente se poderia comparar com as ofertas que davam os outros. Todavia Cristo disse: essa viúva ... deitou tudo o que tinha para viver (Lc. 21, 3-4). Conta portanto sobretudo o valor interior do que se dá: a disponibilidade para repartir tudo, a prontidão para nos darmos a nós mesmos.

Recordemos aqui São Paulo: Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas ..., se não tiver caridade, de nada me aproveita (1 Cor. 13, 3). Também Santo Agostinho escreve sabiamente a este propósito: «Se estendes a mão para dar, mas no coração não tens misericórdia, nada fizeste; se, pelo contrário, no coração tens misericórdia, mesmo que nada tenhas para dar com a mão, Deus aceita a tua esmola» (Santo Agostinho, Enarrat. in Ps., CXXV, 5) .

Tocamos assim o núcleo central do problema. Na Sagrada Escritura e segundo as categorias evangélicas, «esmola» significa, primeiro que tudo, dom interior. Significa a atitude de abertura «para o outro». Precisamente esta atitude é factor indispensável da «metánoia», isto é, da conversão, do mesmo modo que são também indispensáveis a oração e o jejum. Na verdade, bem se exprime Santo Agostinho: «Como são ouvidas depressa as orações de quem pratica o bem! Esta é a justiça do homem na vida presente: o jejum, a esmola, e a oração» (Santo Agostinho, Enarrat. in Ps., XLII, b): a oração, como abertura para Deus; o jejum, como expressão do domínio de si próprio mesmo em privar-se dalguma coisa, em dizer «não» a si mesmo; e, por fim, a esmola, como abertura «para os outros». Este quadro descreve-o claramente o Evangelho quando nos fala da penitência, da «metánoia». Só com uma atitude totalizante — nas relações com Deus, consigo mesmo e com o próximo — atinge o homem a conversão e permanece no estado de conversão.

A «esmola» assim entendida tem um significado, em certo sentido, decisivo para tal conversão. Para disso nos convencermos, basta recordar a imagem do Juízo final que nos deu Cristo:
«Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recebestes-me; estava nu e destes-me de vestir; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo». Então, os justos responder-lhe-ão: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?». E o Rei dir-lhes-á em resposta: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt. 25, 35-40).

E os Padres da Igreja dirão depois com São Pedro Crisólogo: «A mão do pobre é o gazofilácio de Cristo, porque tudo o que o pobre recebe é Cristo que o recebe» (São Pedro Crisólogo, Sermo VIII), e com São Gregório de Nazianzo: «O Senhor de todas as coisas quer a misericórdia, não o sacrifício; e nós damo-la por meio dos pobres» (São Gregório Nazianzo, De pauperum aurore, XI).

Portanto, esta abertura para os outros, que se exprime com o «auxílio», com o «repartir» a comida, o copo de água, a palavra amável, o conforto, a visita, o tempo precioso, etc., este dom interior oferecido ao outro homem chega directamente a Cristo, directamente a Deus. Decide do encontro com Ele. É a conversão.

No Evangelho, e mesmo em toda a Sagrada Escritura, podemos encontrar muitos textos que o vêm confirmar. A «esmola» entendida segundo o Evangelho, segundo o ensinamento de Cristo, tem na nossa conversão a Deus um significado definitivo, decisivo. Se falta a esmola, a nossa vida não chega ainda plenamente a Deus.

4. No ciclo das nossas reflexões quaresmais, será necessário retomar este tema. Hoje, antes de concluir, detenhamo-nos ainda um momento no verdadeiro significado da «esmola». E facílimo, de facto, falsificar-lhe o significado, como já notámos no princípio. Jesus dava também recomendações a respeito da atitude superficial, «exterior», da esmola (Cfr. Mt. 6, 24; Lc. 11, 41) Este problema está sempre vivo. Se nos damos conta do significado essencial que a «esmola» tem para a nossa conversão a Deus e para toda a vida cristã, devemos evitar, à viva força, tudo quanto falsifica o sentido da esmola, da misericórdia, das obras de caridade: tudo o que pode deformar a imagem delas em nós mesmos. Neste campo, é importantíssimo cultivar a sensibilidade interior para com as necessidades reais do próximo, para saber em que o devemos ajudar, como proceder para não o ferir e como comportar-nos para aquilo que damos, que levamos à sua vida, ser um dom autêntico, dom não agravado pelo sentido ordinário negativo da palavra «esmola».

Vemos portanto o campo de trabalho, como é amplo e ao mesmo tempo profundo. a abrir-se diante de nós, se queremos pôr em prática o conselho: Paenitemini et date eleemosynam (Cfr. Mc. 1, 15 e Lc.12, 33). É campo de trabalho não só para a Quaresma, mas para todos os dias. Para toda a vida.



Papa João Paulo II
28 de Março de 1979