30 agosto 2022

Salmo 89 (90)




1. Os versículos que agora ressoaram aos nossos ouvidos e aos nossos corações constituem uma meditação sábia que tem, contudo, também uma entoação de súplica. De facto, o orante do Salmo 89 coloca no centro da sua oração um dos temas mais explorados da filosofia, mais cantados pela poesia, mais sentidos pela experiência da humanidade de todos os tempos e de todas as regiões do nosso planeta: a caducidade humana e a fluência do tempo.

Pensamos em certas páginas inesquecíveis do Livro de Job nas quais é focada a nossa fragilidade. De facto, nós somos como "os que habitam moradas de barro e que têm sua origem no pó! São esmagados como um verme, entre a noite e a manhã são aniquilados. Desaparecem para sempre e ninguém se recorda deles" (4, 20-21). A nossa vida na terra é "como uma sombra" (cf. Job 8, 9). É ainda Job quem confessa: "os meus dias passaram mais rápidos que um corcel, fugiram sem terem visto a felicidade. Passaram como barcas de junco. Como a águia que se precipita sobre a presa" (9, 25-26).

2. No começo do seu cântico, que se parece com uma elegia (cf. Sl 89, 2-6), o Salmista opõe com insistência a eternidade de Deus ao tempo efémero do homem. Eis a declaração mais explícita: "Mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, ou como uma vigília da noite" (v. 4).

Como consequência do pecado original, de uma ordem divina, volta a cair na poeira da qual foi tirado, como já se afirma na narração do Génesis: "Recorda-te que és pó e em pó te tornarás!" (3, 19; cf. 2, 7). O Criador, que dá forma em toda a sua beleza e complexidade à criatura humana, é também aquele que "reduz o homem ao pó" (Sl 89, 3). E "pó" na linguagem bíblica é expressão simbólica também da morte, do inferno, do silêncio sepulcral.

3. Nesta súplica é forte o sentido da limitação humana. A nossa existência tem a fragilidade da erva que brota ao alvorecer; imediatamente ouve o barulho da foice que a reduz a um feixe de erva. Muito depressa, o viço da vida é substituído pela aridez da morte (cf. vv. 5-6; cf. Is 40, 6-7; Job 14, 1-2; Sl 102, 14-16).

Como acontece com frequência no Antigo Testamento, a esta debilidade radical o Salmista associa o pecado: existe em nós a limitação, mas também a culpa. Por isso, a cólera e o juízo do Senhor parecem ameaçar também a nossa existência: "Somos consumidos pela Vossa ira, estarrecidos pelo Vosso furor. Pusestes as nossas culpas diante de Vós... Todos os nossos dias se esvanecem perante o Vosso desagrado" (Sl 89, 7-9).

4. Com o aparecimento do novo dia a Liturgia das Laudes desperta-nos, com este Salmo, das nossas ilusões e do nosso orgulho. A vida humana é limitada "a soma da nossa vida é de setenta anos, os mais fortes chegam aos oitenta" afirma o orante. Além disso, o passar das horas, dos dias e dos meses é marcado pela "canseira e pelo sofrimento" (cf. v. 10) e os mesmos anos revelam-se ser semelhantes a "um sopro" (cf. v. 9).

Eis, então, a grande lição: o Senhor ensina-nos a "contar os nossos dias" porque, "aceitando-os com realismo sadio, "alcançaremos a sabedoria do coração" (v. 12). Mas o orante pede a Deus algo mais: a sua graça ampare e dê alegria aos nossos dias, apesar de serem escassos e marcados pelas provações. Faça com que saboreemos a esperança, mesmo se o passar do tempo parece arrastar-nos. Só a graça do Senhor pode dar consistência e perenidade às nossas acções quotidianas: "Venham sobre nós as graças do Senhor, nosso Deus; consolidai em nós a obra das nossas mãos, fazei que prospere a obra das nossas mãos" (v. 17).

Pedimos a Deus com a oração que um reflexo da eternidade penetre a nossa vida breve e as nossas acções. Com a presença da graça divina em nós, uma luz brilhará com o passar dos dias, a miséria tornar-se-á glória, o que parece estar privado de sentido adquirirá significado.

5. Concluímos a nossa reflexão sobre o Salmo 89 deixando a palavra à antiga tradição cristã, que comenta o Saltério tendo como base a figura gloriosa de Cristo. Assim, para o escritor cristão Orígenes, no seu Tratado sobre os Salmos, que chegou até nós com a tradução latina de São Jerónimo, é a ressurreição de Cristo que nos dá a possibilidade, pressentida pelo Salmista, de "exultar e rejubilar todos os dias da nossa vida" (cf. v. 14). E isto porque a Páscoa de Cristo é a fonte da nossa vida para além da morte: "Depois de nos termos alegrado com a ressurreição de nosso Senhor, mediante a qual já acreditamos que fomos redimidos e que um dia também nós ressuscitaremos, agora, transcorrendo na alegria os dias da nossa vida que ainda nos falta viver, exultamos por esta confiança, e com hinos e cânticos espirituais louvamos Deus através de Jesus Cristo nosso Senhor" (Orígenes Jerónimo, 74 homilias sobre o livro dos Salmos, Milão 1993, pág. 652).


Catequese sobre os Salmos
Papa João Paulo II



24 agosto 2022

Catequese sobre a velhice #18


Há pouco celebramos a Assunção da Mãe de Jesus no Céu. Este mistério ilumina o cumprimento da graça que plasmou o destino de Maria e ilumina também o nosso. O destino é o céu. Com esta imagem da Virgem que subiu ao Céu, gostaria de concluir o ciclo de catequeses sobre a velhice. No Ocidente contemplamo-la elevada ao Céu, envolta em luz gloriosa; no Oriente Ela é representada adormecida, circundada pelos Apóstolos em oração, enquanto o Senhor Ressuscitado a segura pela mão como uma menina.

A teologia sempre refletiu sobre a relação desta singular “assunção” com a morte, que o dogma não define. Penso que seria ainda mais importante tornar explícita a relação deste mistério com a ressurreição do Filho, que abre a todos nós o caminho da geração à vida. No ato divino do encontro de Maria com Cristo Ressuscitado, não é simplesmente superada a normal corrupção corporal da morte humana, não só isto, mas é antecipada a assunção corporal da vida de Deus. Com efeito, o destino da ressurreição que nos diz respeito é antecipado: pois de acordo com a fé cristã, o Ressuscitado é o primogénito de muitos irmãos e irmãs. O Senhor Ressuscitado é Aquele que partiu antes, que ressuscitou antes de todos, depois iremos nós: este é o nosso destino: ressuscitar.

Poderíamos dizer - segundo as palavras de Jesus a Nicodemos - que é um pouco como um segundo nascimento (cf. Jo 3, 3-8). Se o primeiro foi um nascimento na terra, o segundo é o nascimento no céu. Não é por acaso que o Apóstolo Paulo, no texto lido no início, fala de dores de parto (cf. Rm 8, 22). Do mesmo modo que, quando saímos do ventre da nossa mãe, somos sempre nós, o mesmo ser humano que estava no ventre, assim, após a morte, nascemos no céu, no espaço de Deus, e ainda somos os mesmos que caminhávamos nesta terra. Analogamente a quanto aconteceu com Jesus: o Ressuscitado é sempre Jesus, Ele não perde a sua humanidade, aquilo que viveu, nem sequer a sua corporeidade, não, porque sem ela já não seria Ele, não seria Jesus: isto é, com a sua humanidade, com aquilo que viveu.

É o que nos diz a experiência dos discípulos, aos quais Ele aparece durante quarenta dias depois da ressurreição. O Senhor mostra-lhes as feridas que selaram o seu sacrifício; mas já não são a fealdade do aviltamento dolorosamente sofrido, agora são a prova indelével do seu amor fiel até ao fim. Jesus Ressuscitado vive com o seu corpo na intimidade trinitária de Deus! E nela não perde a memória, não abandona a própria história, não dissolve as relações nas quais viveu na terra. Aos seus amigos prometeu: «E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei outra vez e levar-vos-ei comigo para que onde Eu estiver, estejais vós também» (Jo 14, 3). Ele partiu a fim de preparar o lugar para todos nós e depois de ter preparado um lugar voltará. Não virá somente no final para todos, virá cada vez para cada um de nós. Virá procurar-nos para nos levar com Ele. Neste sentido a morte é um pouco como o passo ao encontro de Jesus que está à minha espera para me levar com Ele.

O Ressuscitado vive no mundo de Deus, onde existe um lugar para todos, onde se forma uma nova terra e onde se constrói a cidade celestial, morada definitiva do homem. Não podemos imaginar esta transfiguração da nossa corporeidade mortal, mas estamos certos de que ela manterá os nossos rostos reconhecíveis e nos consentirá permanecer humanos no céu de Deus. Permitir-nos-á participar, com sublime emoção, na infinita e feliz exuberância do ato criador de Deus, cujas intermináveis aventuras experimentaremos pessoalmente.

Quando Jesus fala do Reino de Deus, descreve-o como um banquete de núpcias, como uma festa com amigos, como o trabalho que torna a casa perfeita: é a surpresa que torna a colheita mais rica do que a sementeira. Levar a sério as palavras do Evangelho sobre o Reino permite à nossa sensibilidade desfrutar do amor ativo e criativo de Deus, colocando-nos em sintonia com o destino inaudito da vida que semeamos. Queridas e queridos coetâneos, e falo aos “velhinhos” e às “velhinhas”, na nossa velhice a importância dos numerosos “detalhes” de que a vida é feita - uma carícia, um sorriso, um gesto, um trabalho apreciado, uma surpresa inesperada, uma alegria hospitaleira, um laço fiel - torna-se mais sentida. O essencial da vida, que nos é mais caro quando nos aproximamos do nosso adeus, torna-se definitivamente claro para nós. Eis, pois, que esta sabedoria da velhice é o lugar da nossa gestação, que ilumina a vida das crianças, dos jovens, dos adultos e de toda a comunidade. Nós, “velhinhos”, deveríamos ser isto para os outros: luz para todos. Toda a nossa vida se manifesta como uma semente que deverá ser enterrada a fim de que nasçam a sua flor e o seu fruto. Ela brotará, juntamente com todo o resto do mundo. Não sem os trabalhos de parto, não sem dores, mas brotará (cf. Jo 16, 21-23). E a vida do corpo ressuscitado será cem, mil vezes mais viva do que a experimentamos nesta terra (cf. Mc 10, 28-31).

Não é por acaso que o Senhor Ressuscitado, enquanto espera os Apóstolos na margem do lago, assa alguns peixes (cf. Jo 21, 9) e depois lhos oferece. Este gesto de amor atencioso dá-nos um vislumbre do que nos aguarda quando atravessarmos para a outra margem. Sim, caros irmãos e irmãs, especialmente vós, idosos, o melhor da vida ainda deve vir; “Mas somos velhos, o que mais devemos ver?”. O melhor, pois o melhor da vida ainda está por vir. Aguardemos esta plenitude de vida que nos espera a todos, quando o Senhor nos chamar.  Que a Mãe do Senhor e nossa Mãe, que nos precedeu no Paraíso, nos restitua a trepidação da expetativa, pois não é uma espera anestesiada, não é uma espera entediada, não, é uma espera com trepidação: “Quando virá o meu Senhor? Quando poderei estar com Ele?”. Há um pouco de medo porque não sei o que significa esta passagem e cruzar aquela porta provoca um pouco de temor, mas há sempre a mão do Senhor que nos leva em frente e, após a travessia da porta vem a festa. Estejamos atentos, vós queridos “velhinhos” e queridas “velhinhas”, coetâneos, estejamos atentos, Ele espera por nós, apenas uma passagem e depois a festa.



Catequese do Papa Francisco
24 de agosto de 2022



17 agosto 2022

Catequese sobre a velhice #17


As palavras do sonho de Daniel, que ouvimos, evocam uma visão de Deus que é misteriosa e ao mesmo tempo resplandecente. São repetidas no início do livro do Apocalipse e referem-se a Jesus Ressuscitado, que aparece ao Vidente como Messias, Sacerdote e Rei, eterno, omnisciente e imutável (1, 12-15). Ele põe a sua mão sobre o ombro do Vidente e tranquiliza-o: «Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Conheci a morte, mas eis-me aqui vivo pelos séculos dos séculos» (vv. 17-18). Assim, desaparece a última barreira de medo e angústia que a teofania sempre suscitou: o Vivente tranquiliza-nos, dá-nos segurança. Ele também morreu, mas agora ocupa o lugar que lhe está destinado: o do Primeiro e do Último.

Neste entrelaçamento de símbolos - aqui há muitos símbolos - há um aspeto que talvez nos ajude a compreender melhor a ligação desta teofania, esta manifestação de Deus com o ciclo da vida, o tempo da história, o senhorio de Deus sobre o mundo criado. E este aspeto tem a ver precisamente com a velhice. O que tem a ver com isto? Vejamos.

A visão transmite uma impressão de vigor e força, de nobreza, de beleza e de encanto. A roupa, os olhos, a voz, os pés, tudo é esplêndido nesta visão: trata-se de uma visão! O seu cabelo, porém, é cândido: como a lã, como a neve. Como a de um homem idoso. O termo bíblico mais comum para indicar o idoso é “zaqen”: de “zaqan”, que significa “barba”. O cabelo branco é o símbolo antigo de um tempo muito longo, de um passado imemorável, de uma existência eterna. Não devemos desmitificar tudo com as crianças: a imagem de um Deus ancião com cabelo branco não é um símbolo tolo, é uma imagem bíblica, uma imagem nobre e também terna. A Figura que no Apocalipse está entre os castiçais de ouro sobrepõe-se à do “Ancião de dias” da profecia de Daniel. É velho como a humanidade inteira, mas ainda mais. É antigo e novo como a eternidade de Deus. Porque a eternidade de Deus é assim, antiga e nova, pois Deus surpreende-nos sempre com a sua novidade, vem sempre até nós, todos os dias de modo especial, para aquele momento, para nós. Renova-se sempre: Deus é eterno, é desde sempre, podemos dizer que há como que uma velhice em Deus, não é assim, mas é eterno, renova-se.

Nas Igrejas orientais, a festa do Encontro com o Senhor, que se celebra a 2 de fevereiro, é uma das doze grandes festas do ano litúrgico. Salienta o encontro de Jesus com o ancião Simeão no Templo, que evidencia o encontro da humanidade, representada pelos anciãos Simeão e Ana, com Cristo Senhor pequenino, Filho eterno de Deus feito homem. Um bonito ícone dele pode ser admirado em Roma, nos mosaicos de Santa Maria “in Trastevere”.

A liturgia bizantina reza com Simeão: «Este é Aquele que nasceu da Virgem:  é o Verbo, Deus de Deus, Aquele que se fez carne por nós e salvou o homem». E continua: «Que se abra hoje a porta do céu, o Verbo eterno do Pai, tendo assumido um princípio temporal, sem deixar a sua divindade, é apresentado pela sua vontade no templo da Lei pela Virgem Mãe, e o ancião toma-o no colo». Estas palavras expressam a profissão de fé dos primeiros quatro Concílios ecuménicos, que são sagrados para todas as Igrejas. Mas o gesto de Simeão é também o ícone mais bonito para a especial vocação da velhice: olhando para Simeão, contemplamos o ícone mais belo da velhice: apresentar as crianças que vêm ao mundo como um dom ininterrupto de Deus, sabendo que um deles é o Filho gerado na própria intimidade de Deus, antes de todos os séculos.

A velhice, encaminhada rumo a um mundo onde poderá finalmente irradiar sem obstáculos o amor que Deus colocou na Criação, deve realizar este gesto de Simeão e Ana, antes da sua despedida. A velhice deve dar testemunho –para mim este é o núcleo, o mais central da velhice - a velhice deve dar testemunho às crianças da sua bênção: consiste na sua iniciação - bela e difícil - no mistério de um destino para a vida que ninguém pode aniquilar. Nem sequer a morte. Dar testemunho de fé perante uma criança é semear esta vida; dar testemunho de humanidade e de fé é também a vocação dos idosos. Para transmitir às crianças a realidade que experimentaram como testemunhas, dar o testemunho. Nós, idosos, somos chamados a isto, a dar testemunho, para que elas o levem adiante.

O testemunho dos idosos é credível para as crianças: os jovens e os adultos não são capazes de o tornar tão autêntico, tão terno, tão pungente como o podem os idosos, os avós. Quando o idoso abençoa a vida que vem ao seu encontro, pondo de lado todo o ressentimento pela vida que está prestes a acabar, é irresistível. Não está amargurado porque o tempo passa e ele vai-se embora: não! É com aquela alegria do bom vinho, do vinho que se tornou bom ao longo dos anos. O testemunho dos idosos une as idades da vida e as próprias dimensões do tempo: passado, presente e futuro, porque eles não são apenas a memória, são o presente e também a promessa. É doloroso - e prejudicial - ver que as idades da vida são concebidas como mundos separados e competitivos, cada um procurando viver à custa do outro: não está bem. A humanidade é antiga, muito antiga, se olharmos para o tempo do relógio. Mas o Filho de Deus, que nasceu de mulher, é o Primeiro e o Último de todos os tempos. Significa que ninguém fica fora da sua eterna geração, fora da sua maravilhosa força, fora da sua amorosa proximidade.

A aliança - e digo aliança – a aliança dos idosos e das crianças salvará a família humana. Onde as crianças, onde os jovens falam com os velhos há futuro; se não houver este diálogo entre idosos e jovens, o futuro não se verá claramente. A aliança dos idosos e das crianças salvará a família humana. Poderíamos por favor restituir às crianças, que devem aprender a nascer, o terno testemunho de idosos que possuem a sabedoria de morrer? Poderá esta humanidade, que com todo o seu progresso nos parece um adolescente que nasceu ontem, ser capaz de recuperar a graça de uma velhice que mantém firme o horizonte do nosso destino? A morte é certamente uma passagem difícil da vida, para todos nós: é uma passagem difícil. Todos temos de chegar lá, mas não é fácil. Contudo, a morte é também a passagem que fecha o tempo da incerteza e abandona o relógio: é difícil, porque ele é a passagem da morte. Porque a beleza da vida, que já não tem prazo, começa precisamente naquele momento. Mas começa com a sabedoria daquele homem e daquela mulher, idosos, que são capazes de dar testemunho aos jovens. Pensemos no diálogo, na aliança dos idosos e das crianças, dos anciãos com os jovens, e asseguremos que este vínculo não seja rompido. Que os idosos tenham a alegria de falar, de se expressar com os jovens, e que os jovens procurem os idosos para aprender com eles a sabedoria da vida.

Caros peregrinos de língua portuguesa, bem-vindos! Este período de verão, para muitos um tempo de férias, seja para todos nós uma oportunidade de maior aproximação a Jesus Cristo. Ele põe a sua mão sobre nós, fortalece-nos e anima-nos a procurá-lo nos idosos e nos pobres. Que Nossa Senhora da Assunção nos guarde neste caminho de fé. Deus vos abençoe!


Catequese do Papa Francisco
17 de agosto de 2022



10 agosto 2022

Catequese sobre a velhice #16


Já estamos nas últimas catequeses dedicadas à velhice. Hoje entramos na comovedora intimidade da despedida de Jesus dos seus, amplamente narrada no Evangelho de João. O discurso de despedida começa com palavras de consolação e promessa: «Não se turbe o vosso coração» (14, 1); «Quando Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e levar-vos-ei comigo, para que onde Eu estiver estejais vós também» (14, 3). Como são bonitas estas palavras do Senhor!

Pouco antes, Jesus disse a Pedro: «Seguir-me-ás mais tarde» (13, 36), recordando-lhe a passagem através da fragilidade da sua fé. O tempo de vida que resta para os discípulos será, inevitavelmente, uma passagem pela fragilidade do testemunho e pelos desafios da fraternidade. Mas será também uma passagem através das emocionantes bênçãos da fé: «Quem acreditar em mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores do que estas» (14, 12). Pensai na promessa que isto é! Não sei se pensamos até ao fundo, se acreditamos plenamente nisto! Não sei, às vezes penso que não...

A velhice é o tempo propício para o testemunho comovedor e jubiloso desta expetativa. O idoso e a idosa permanecem à espera, à espera de um encontro. Na velhice, as obras da fé que nos aproximam, a nós e aos outros, do reino de Deus, já estão para além do poder das energias, palavras e impulsos da juventude e da maturidade. Mas tornam ainda mais transparente a promessa do verdadeiro destino da vida. E qual é o verdadeiro destino da vida? Um lugar à mesa com Deus, no mundo de Deus. Seria interessante ver se nas Igrejas locais existe alguma referência específica, destinada a revitalizar este ministério especial da expetativa do Senhor – é um ministério, o ministério da expetativa do Senhor – encorajando os carismas individuais e as qualidades comunitárias da pessoa idosa.

Uma velhice consumida no desalento pelas oportunidades perdidas causa desânimo a si próprio e a todos. Ao contrário, a velhice vivida com docilidade, vivida com respeito pela vida real dissolve definitivamente o equívoco de um poder que deve ser suficiente para si mesmo e para o próprio sucesso. Dissolve até o equívoco de uma Igreja que se adapta à condição do mundo, pensando assim que governa definitivamente a sua perfeição e realização. Quando nos libertamos desta presunção, o tempo do envelhecimento que Deus nos concede já é em si mesmo uma daquelas obras “maiores” de que Jesus fala. Com efeito, trata-se de uma obra que a Jesus não foi concedido fazer: a sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu tornaram-na possível para nós! Recordemos que “o tempo é superior ao espaço”. É a lei da iniciação. A nossa vida não se destina a fechar-se em si mesma, numa imaginária perfeição terrestre: está destinada a ir além, através da passagem da morte, visto que a morte é uma passagem. Na verdade, o nosso lugar estável, o nosso ponto de chegada não é aqui, é ao lado do Senhor, onde Ele habita para sempre.

Aqui na terra começa o processo do nosso “noviciado”: somos aprendizes da vida – no meio de mil dificuldades – aprendemos a apreciar o dom de Deus, honramos a responsabilidade de o partilhar e de o fazer frutificar para todos. O tempo da vida na terra é a graça desta passagem. A presunção de parar o tempo – desejar a juventude eterna, a riqueza ilimitada, o poder absoluto – não só é impossível, mas delirante.

A nossa existência na terra é o tempo da iniciação à vida: é vida, mas que te leva em frente para uma existência mais plena, a iniciação daquela mais plena; uma vida que somente em Deus encontra o cumprimento. Somos imperfeitos desde o início e continuamos imperfeitos até ao fim. No cumprimento da promessa de Deus, a relação inverte-se: o espaço de Deus, que Jesus nos prepara com todo o cuidado, é superior ao tempo da nossa vida mortal. Eis: a velhice aproxima a esperança deste cumprimento. A velhice conhece definitivamente o significado do tempo e as limitações do lugar em que vivemos a nossa iniciação. É por isso que a velhice é sábia: é por isso que os idosos são sábios. Portanto, ela é credível quando convida a rejubilar com o passar do tempo: não é uma ameaça, é uma promessa. A velhice é nobre, não tem necessidade de se pintar para mostrar a sua nobreza. Talvez haja pintura quando falta a nobreza. A velhice é credível quando convida a rejubilar com o passar do tempo: mas o tempo passa e isto não é uma ameaça, é uma promessa. A velhice que redescobre a profundidade do olhar da fé não é conservadora por sua natureza, como se costuma dizer! O mundo de Deus é um espaço infinito, sobre o qual a passagem do tempo já não tem influência alguma. E foi precisamente na última Ceia que Jesus se projetou para esta meta, quando disse aos discípulos: «De agora em diante já não bebereis deste fruto da vinha, até ao dia em que Eu o voltar a beber convosco no reino do meu Pai» (Mt 26, 29). Foi além! Na nossa pregação, o Paraíso é muitas vezes, com razão, repleto de bem-aventurança, luz e amor. Talvez lhe falte um pouco de vida. Nas parábolas, Jesus falava do reino de Deus, instilando-lhe mais vida. Será que já não somos capazes disto, quando falamos sobre a vida que continua?

Amados irmãos e irmãs, a velhice vivida na expetativa do Senhor pode tornar-se a “apologia” completa da fé, que a todos dá a razão da nossa esperança (cf. 1 Pd 3, 15). Pois a velhice torna transparente a promessa de Jesus, projetando-se para a Cidade santa, da qual fala o livro do Apocalipse (caps. 21-22). A velhice é a fase da vida mais adequada para propagar a boa notícia de que a vida é uma iniciação para um cumprimento definitivo. Os idosos constituem uma promessa, um testemunho de promessa. E o melhor ainda há de vir. O melhor ainda há de vir: é como a mensagem do idoso e da idosa crentes, o melhor ainda há de vir. Deus conceda a todos nós uma velhice capaz disto!


Catequese do Papa Francisco
10 de agosto de 2022