30 novembro 2022

O que fazes ao que recebes?




Aquilo que somos depende do que fazemos com o que recebemos.
A nossa primeira responsabilidade será a de estarmos atentos a quem nos rodeia e a tudo aquilo que faz parte das nossas circunstâncias a cada hora. Devemos estar concentrados na procura de todas as bondades e belezas que podem alimentar a nossa vida, mas não para nós, antes sim para as entregarmos a quem delas mais precisa.
Há quem não esteja atento. Não procura, não encontra, não tem para dar. Outros buscam, mas julgam que tudo o que encontram é só para si, algumas vezes sob a desculpa de que são os mais necessitados!
Talvez Deus nos faça chegar tudo aquilo de que precisamos através dos outros. E aos outros através de nós... é preciso estar atento.
Depois, precisamos de nos esforçar por compreender aquilo que se passa nos nossos dias. Sem certezas de que o consigamos, mas também sem a convicção de que tal é impossível. Portanto, sem preguiça e com dedicação. Aqueles que estão próximo de nós também precisam de quem os ajude a compreender e a compreender-se. Esforça-te por prestar essa ajuda.
De tudo o que te for dado, tenta não ficar com nada de que não precises mesmo. O resto, que será muito, dá tudo. Com critério. Dá a quem precisa aquilo que precisa. Não te ponhas a dar água a quem tem fome, nem roupa a quem tem fome.
Confia que não estás só. Nunca. Mesmo quando o sentes no mais fundo de ti. Quando te escassear a fé, pensa que a vida a que chamas tua te foi dada, quando ainda nada tinhas feito para a merecer. Como pode alguém acreditar que a sua existência se deve apenas a séries lógicas de acasos sem sentido?
Amar é sacrificar-se em favor do outro, é dar-se para que o outro seja feliz. E ser feliz porque o outro o é.
Quase nada do que recebes é para ti.
Não te apegues a nada do que te é dado. Não só porque nada será algum dia mesmo teu, como também porque chegará sempre o momento em que tens de largar tudo o que tens e ficar apenas com o que conseguiste ser.
És o que fazes com o que recebeste. Nada mais.


José Luís Nunes Martins


19 novembro 2022

Salmo 121 (122)



Salmo 121: Saudação à cidade santa de Jerusalém

1. É um dos mais bonitos e apaixonantes Cânticos graduais o que agora ouvimos e apreciamos em oração. Trata-se do Salmo 121, uma celebração viva e partícipe em Jerusalém, a cidade santa para a qual se dirigem os peregrinos.

De facto, logo na abertura, fundem-se juntamente os dois momentos vividos pelo fiel: o do dia em que aceitou o convite a ir "para a casa do Senhor" (v. 1) e o da chegada jubilosa às "portas" de Jerusalém (cf. v. 2); agora os pés pisam finalmente aquela terra santa e amada. Precisamente, então, os lábios se abrem a um cântico de festa em honra de Sião, considerada no seu profundo significado espiritual.

2. "Cidade bem construída" (v. 3), símbolo de segurança e de estabilidade, Jerusalém é o coração da unidade das doze tribos de Israel, que para ela convergem como centro da sua fé e do seu culto. Com efeito, ali, elas "sobem para louvar o nome do Senhor" (cf. v. 4), no lugar que a "Lei de Israel" (Dt 12, 13-14; 16, 16) estabeleceu como único santuário legítimo e perfeito.

Existe em Jerusalém outra realidade relevante, também ela sinal da presença de Deus em Israel: são "os tribunais da casa de David" (v. 5), isto é, governa a dinastia davídica, expressão da acção divina na história, que teria chegado com o Messias (2 Sm 7, 8-16).

3. Os "tribunais da casa de David" são ao mesmo tempo chamados "tribunais de justiça" (cf. Sl 121, 5), porque o rei era também o juiz supremo. Assim Jerusalém, capital política, também era a sede judiciária suprema, onde se resolviam em última instância as controvérsias: desta forma, saindo de Sião, os peregrinos hebreus regressavam às suas cidades mais justos e pacificados.
Assim, o Salmo traçou um retrato ideal da cidade santa na sua função religiosa e social, mostrando que a religião bíblica não é abstracta nem intimidatória, mas é fermento de justiça e de solidariedade. À união com Deus segue necessariamente a dos irmãos entre si.

4. Chegamos agora à invocação final (cf. vv. 6-9). Ela está toda ritmada sobre a palavra hebraica shalom, "paz", tradicionalmente considerada na base do próprio nome da cidade santa Jerushalaim, interpretada como"cidadedapaz".

Como sabemos, shalom faz alusão à paz messiânica, que reúne em si alegria, prosperidade, bem, abundância. Aliás, na saudação final que o peregrino dirige ao templo, à "casa do Senhor nosso Deus", acrescenta à paz o "bem": "pedirei para ti o bem" (v. 9). Tem-se assim de forma antecipada a saudação franciscana: "Paz e bem!". Todos temos um pouco de alma franciscana. É um voto de bênção para os fiéis que amam a cidade santa, para a sua realidade física de muros e casas nos quais pulsa a vida de um povo, para todos os irmãos e amigos. Desta forma Jerusalém tornar-se-á um lar de harmonia e de paz.

5. Concluindo a nossa meditação sobre o Salmo 121 com uma sugestão de reflexão feita pelos Padres da Igreja, para os quais a antiga Jerusalém era sinal de outra Jerusalém, também ela "construída como cidade sólida e compacta". Esta cidade recorda São Gregório Magno nas Homilias sobre Ezequiel "já possui uma grande construção nos costumes dos santos. Num edifício, uma pedra serve de base para outra, porque se coloca uma pedra sobre outra, e quem ampara outro e, por sua vez, amparado por alguém. Assim, precisamente assim, na santa Igreja, cada um ampara o outro e é amparado. Os mais próximos amparam-se reciprocamente, e assim por meio deles eleva-se o edifício da caridade. Eis por que Paulo admoesta, dizendo: "Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo" (Gl 6, 2). Realçando a força desta lei, diz: "é no amor que está o pleno cumprimento da lei" (Rm 13, 10). Se eu, de facto, não me esforço por vos aceitar tal como sois, e se vós não vos comprometerdes a aceitar-me tal como sou, não pode erguer-se o edifício da caridade entre nós, mesmo estando unidos por amor recíproco e paciente".

E, para completar a imagem, não esqueçamos o que "há um alicerce que suporta todo o peso da construção, é o nosso Redentor, o qual sozinho consente no seu conjunto os costumes de todos nós. Dele o Apóstolo diz: "ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo" (1 Cor 3, 11). O fundamento suporta as pedras e não é suportado pelas pedras; isto é, o nosso Redentor carrega o peso de todas as nossas culpas, mas n'Ele não houve culpa alguma a ser tolerada" (2, 1, 5: Obras de Gregório Magno, III/2, Roma, pp. 27.29).

E assim o grande Papa São Gregório diz-nos o que significa o Salmo concretamente para a prática da nossa vida, diz-nos que devemos ser na Igreja de hoje uma verdadeira Jerusalém, isto é, um lugar de paz, "suportando-nos uns aos outros" tal como somos; "suportando-nos juntos" na alegre certeza de que o Senhor nos "suporta a todos". E assim cresce a Igreja como uma verdadeira Jerusalém, um lugar de paz. Mas queremos também rezar pela cidade de Jerusalém para que seja cada vez mais um lugar de encontro entre as religiões e os povos; para que seja realmente um lugar de paz.

Salmo 121 (122)



Catequese sobre os Salmos
Papa Bento XVI


14 novembro 2022

Eucaristia



A Eucaristia é a reunião semanal dos cristãos. Nela partilhamos o que somos e o que temos. Sentimo-nos comunidade, família, Povo de Deus. Cada Eucaristia é uma oportunidade de nos encontrarmos com Deus para O conhecer melhor através da Palavra com que nos fala; de nutrirmo-nos com o pão que nos dá a vida; de conviver como irmãos empenhados em amarmo-nos uns aos outros, do mesmo modo que Jesus nos ama. Desde o início da Igreja que se celebra este encontro entre Deus e a humanidade (Mt 26, 26-28; Act 2, 42; 1Cor 11, 23-26).

Eucaristia
A palavra Eucaristia vem do grego e significa "agradecer", "obrigado", "acção de graças". A Eucaristia é a acção de graças do Povo de Deus que reunido em família agradece ao seu Senhor por tudo. É nosso dever e nossa vida dar graças sempre de modo especial pela salvação que nos oferece.

E que vamos lá fazer?
Desde o início da Igreja (a assembleia, comunidade dos que professam a fé em Cristo morto e ressuscitado) é convocada, no dia do Senhor (Domingo), para celebrar a Eucaristia. Não vamos à Missa por nossa iniciativa, mas porque fomos convocados para louvar e dar graças ao Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo.
Não vamos à Missa para cumprir um preceito, uma obrigação... seria fraco motivo. A Celebração é encontro com aquele que mais nos ama; é , por isso, festa.
Uma festa em que queremos louvar, agradecer, pedir perdão e ajuda para o nosso caminhar. É, além disso, um encontro ainda mais especial: é memorial (faz-se presente no meio de nós), é banquete (Jesus nos alimenta com o seu próprio corpo) e é sacrifício (é oferta total, na qual pomos toda a nossa vida nas mãos de Deus, tal como fez Jesus).
Nela é Cristo que Se oferece em sacrifício de acção de graças (Eucaristia) ao Pai, e nós unimo-nos a Ele neste gesto vital e significativo. Vai de Cristo para o Pai e, nesse movimento, Ele (Cristo) envolve-nos a nós e oferece-nos ao Pai e, nesse movimento, Ele (Cristo) envolve-nos a nós e oferece-nos ao Pai juntamente com Ele. Os gestos, as palavras, os textos, as orações, os cânticos têm de ser significativos e agradáveis a Deus e de acordo com a realidade e a densidade do mistério que celebramos juntamente com Cristo. Trata-se de, fundamentalmente, agradar a Deus e não à nossa sensibilidade. Há gestos, palavras e cânticos que poderão ser muito agradáveis à nossa sensibilidade, mas que podem não passar de mero folclore e estarem pouco de acordo com o que estamos a celebrar.

Preparação
Se este encontro é assim tão especial será importante vivê-lo bem, e por isso prepará-lo para o viver com intensidade. Sim, porque para os grandes encontros nós queremos chegar cedo, queremos ir bem apresentados, queremos saber que dizer, queremos levar certamente alguma oferta, etc...
Na Eucaristia, este encontro especial, sempre novo e único com Deus, é sempre uma mais-valia preparar-nos. Passar da agitação, da rua, para a nova situação de assembleia reunida à volta de Cristo. Não tanto para esquecer ou cortar com as preocupações da vida concreta que é a de cada um de nós, mas, antes, colocar essas preocupações no seio de Cristo, à maneira de oração de oferenda e sentir a comunhão com os irmãos reunidos em assembleia. No fundo, passar da vida apressada ao encontro com Cristo, da vida individual ao encontro com a comunidade.
Procurando sintonizar o pensamento e o espírito com o tempo litúrgico ou a festa litúrgica que se celebra naquele dia. Sem pressas, sem relógios, evitando distracções, num clima de serenidade e paz que a todos nos ajuda viver com intensidade qualquer encontro.

A assembleia
Um encontro que queremos viver em comunidade. Colaborando sempre que possível nos diferentes ministérios: como leitor, como cantor, como acólito, ministro da comunhão, etc. Consciente que não se trata de "assistir à Missa", mas de participar, de viver com intensidade e verdade este encontro pessoal e comunitário com Deus.

Conclusão
«Contemplar o rosto de Cristo é o "programa" da Igreja na aurora do terceiro milénio, convidando-a a fazer-se ao largo no mar da história lançando-se com entusiasmo na nova evangelização. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo onde quer que Ele Se manifeste, com as suas diversas presenças mas sobretudo no sacramento vivo do seu corpo e do seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada. A Eucaristia é mistério de fé e, ao mesmo tempo, "mistério de luz". Sempre que a Igreja a celebra, os fiéis podem de certo modo reviver a experiência dos dois discípulos de Emaús: "Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No" (Lc 24, 31)». (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 17 de Abril de 2003, 6).



Juan Freitas
in Revista Catequistas
Setembro 2010



11 novembro 2022

Ergue-te ao Sol









Quando acordares olha por mim
E em silêncio beija-me assim
Conta-me como é acreditar
Mostra-me o mundo p'ra além do olhar

Vozes no mar que se escondem
E com vergonha de te ver, talvez!!!
Passo a vida sem acreditar
Na corda bamba a vacilar

Ergue-te ao sol
Vive cada dia como um só
Solta a tua voz
Vem comigo acreditar


E ao acordar vejo-te a olhar
Para o fim do céu, lá, junto ao mar
Contigo ri-me e encontrei
As palavras certas para ser alguém

E assim vivi, acreditei
Nadei no Sol e no mar Voei
Bastou ter fé e acreditar
E passo a passo, viver, amar.

Ergue-te ao sol
Vive cada dia como um só
Solta a tua voz
Vem comigo acreditar


Música: Maresia
Letra: Maresia



01 novembro 2022

Comemoração de todos os fiéis defuntos




A Celebração dos fiéis defuntos é uma solenidade que tem um valor profundamente teológico, porque chama a nossa atenção para todo o mistério da existência humana, desde suas origens até o seu fim e para além também. A novidade introduzida pela nossa fé é a esperança: nós cristãos acreditamos em um Deus. que não é apenas Criador, mas também Juiz.


A morte é apenas uma porta ...

Logo, Deus é também é um Juiz! O seu juízo vai para além do tempo e do espaço, em uma vida após a morte e na vida eterna, na qual o Reino de Deus se realiza plenamente. O julgamento do Senhor será duplo: além de responder individualmente às nossas ações, no final dos tempos, seremos chamados a responder-lhes também como humanidade.
Se morrermos em Cristo, porque vivemos a nossa vida em comunhão com Ele, seremos admitidos na Comunhão dos Santos.
A celebração de hoje se insere nesta perspectiva: a Igreja não esquece seus irmãos falecidos, mas reza por eles, oferece sufrágios, celebra Missas e oferece esmolas, para que também as almas, que ainda precisam de purificação, após a morte, possam alcançar a visão de Deus.


Cristo venceu a morte!

A morte é um acontecimento inevitável. Cada um de nós pode entender isso pela própria experiência pessoal. Segundo a visão cristã, porém, não é considerada um fato natural. Pelo contrário, é o oposto da vontade de Deus! Deus, o Senhor da vida, nos dá a vida em abundância e a morte é uma mera consequência do nosso pecado. Entretanto, em Cristo, Deus toma sobre si os nossos pecados e suas consequências. Desta forma, a morte se torna uma passagem, uma porta.
Graças à vitória de Cristo sobre a morte, podemos superar o medo que temos dela e a dor que sentimos quando atinge alguém que está próximo de nós.
Enfim, para o cristão, não há distinção entre vivos e mortos, porque nem os mortos são "mortos", mas "defuntos", ou seja, "privados das funções terrenas", à espera de serem transformados pela Ressurreição.


História e origem desta celebração

A “pietas” humana para com os defuntos remonta aos primórdios da humanidade. Mas, como vimos, com o advento do cristianismo a perspectiva muda radicalmente.
Os primeiros cristãos, como podemos facilmente observar nas catacumbas, esculpiam a figura de Lázaro nos túmulos, como anseio de que seus entes queridos pudessem também voltar à vida, por intermédio de Cristo.
No entanto, somente no século IX começou a celebração litúrgica de um falecido, como herança do uso monacal, já em vigor no século VII, de empregar, dentro dos mosteiros, um dia inteiro de oração por um falecido.
Este costume, porém, já existia no rito bizantino, que celebrava os mortos no sábado anterior à Sexagésima, um período entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro.
Mais tarde, no ano 809, o Bispo de Trier, Dom Amalário Fortunato de Metz, inseriu a memória litúrgica dos falecidos - que aspiram ao céu - no dia seguinte ao dedicado a Todos os Santos, que já estavam no céu.
Enfim, em 998, por ordem do abade de Cluny, Odilone de Mercoeur, a solenidade de Finados foi marcada para o dia 2 de novembro, precedida por um período de preparação de nove dias, conhecido como Novena dos Defuntos, que começava no dia 24 de outubro.