29 dezembro 2022

Os pastores guardam o seu rebanho



Pastores e gado pequeno

A verdadeira riqueza dos povos nómadas e semi-nómadas reside nos seus rebanhos de gado de pequeno porte: as ovelhas e as cabras. As ovelhas da Judeia, região em que se situa a povoação de Belém, são especialmente dignas de menção. Os rebanhos de cabras e ovelhas costumavam percorrer vegetação que surge nas colinas após a época das chuvas.
A ovelha desta zona caracteriza-se por uma cauda extraordinariamente desenvolvida em largura, constituindo um depósito de gordura que o animal consumirá em épocas de escassez e falta de alimento.
A água para dar de beber às ovelhas tira-se dos poços, que nunca faltam na estepe ou, mesmo, no deserto.
As ovelhas constituem uma fonte de leite, lã, gordura e carne, bem como da preciosa pele de cabra para a confeção de tendas e cobertores.
A pele curtida e cozida das cabras servia, também, para fazer odres para o leite, água e vinho. Por outro lado, tanto a ovelha como a cabra eram os animais utilizados nos sacrifícios religiosos.
A partir da época de David equilibrou-se a balança entre a agricultura e a criação de gado, não porque esta última entrasse em recessão, mas porque a agricultura ganhou terreno.
Os judeus mais ortodoxos e menos abertos tinham uma certa predileção pelos pastores, pois as grandes figuras da nação de Israel haviam sido pastores nómadas: Abraão, Moisés, Isaac, Jacob e David, antes de ser rei... Os judeus ortodoxos, defensores de uma tradição nómada e pastoril, não estavam de acordo com a transição para uma sociedade onde preponderava a agricultura. Para eles, a existência seminómada e o trabalho de pastor constituíam, simultaneamente, uma tradição e um ideal de vida.
O ideal do ofício pastoril cultivou-se especialmente no sul, onde a imagem do pastor servia de símbolo para exprimir as atividades que todo o bom rei deve levar a cabo. Esta tradição é também percetível na linguagem empregue por Jesus.
O Evangelho fala de pastores que passam a noite ao relento vigiando os seus rebanhos. Trata-se de pastores que se encontravam numa zona de terra fértil que separa a aldeia de Belém do início do deserto.



28 dezembro 2022

O Natal com São Francisco de Sales




Este tempo litúrgico convida-nos a fazer uma pausa e a refletir sobre o mistério do Natal. E dado que precisamente hoje se celebra o quarto centenário da morte de São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja, podemos tirar sugestões de alguns dos seus pensamentos. Ele escreveu muito sobre o Natal. A este propósito, tenho o prazer de anunciar que hoje está a ser publicada a Carta Apostólica que comemora este aniversário. O título é Tudo pertence ao amor, retomando uma expressão caraterística de Francisco de Sales. De facto, assim escreveu no seu Trattato dell’amore di Dio [Tratado sobre o Amor de Deus], assim dizia: «Na santa Igreja tudo pertence ao amor, vive no amor, é feito por amor e vem do amor» (Ed. Paulinas, Milão 1989, p. 80). E pudéssemos todos nós percorrer este caminho do amor, tão bonito.

Procuremos agora aprofundar um pouco mais o mistério do nascimento de Jesus, “na companhia” de São Francisco de Sales, assim unimos as duas comemorações.

São Francisco de Sales, numa das suas muitas cartas dirigidas a Santa Joana Francisca de Chantal, escreve assim: «Parece-me ver Salomão no grande trono de marfim, dourado e esculpido, que não tinha igual em reino algum, como diz a Escritura ( 1 Rs 10, 18-20); ver, em suma, aquele rei que não tinha igual em glória e magnificência (cf. 1 Rs 10, 23). Mas prefiro cem vezes ver o querido pequeno Menino na manjedoura do que todos os reis nos seus tronos» [1]: é bonito o que dizia. Jesus, o Rei do Universo, nunca se sentou num trono, nunca: nasceu num estábulo – vemo-lo representado assim - , envolto em faixas e deitado numa manjedoura; e no final morreu numa cruz e, envolto num lençol, foi deposto no sepulcro. Com efeito, o evangelista Lucas, ao narrar o nascimento de Jesus, insiste muito no detalhe da manjedoura. Isto significa que é muito importante não apenas como detalhe logístico, mas como elemento simbólico para compreender o quê? Para compreender que tipo de Messias é Aquele que nasceu em Belém, que tipo de Rei: quem é Jesus. Olhando para a manjedoura, olhando para a cruz, olhando para a sua vida de simplicidade, podemos compreender quem é Jesus. Jesus é o Filho de Deus que nos salva, fazendo-se homem, como nós, despojando-se da sua glória e humilhando-se (cf. Fl 2, 7-8). Vemos este mistério concretamente no ponto focal do presépio, isto é, no Menino deitado numa manjedoura. Este é “o sinal” que Deus nos dá no Natal: foi assim para os pastores em Belém (cf. Lc 2, 12), é assim hoje e o será sempre. Quando os anjos anunciam o nascimento de Jesus: “Ide vê-lo”; e o sinal é: encontrareis um menino numa manjedoura. Aquele é o sinal. O trono de Jesus é a manjedoura ou a estrada, durante a sua vida quando pregava, ou a cruz no final da vida: este é o trono do Nosso Rei.

Este sinal mostra-nos o “estilo” de Deus. E qual é o estilo de Deus? Nunca vos esqueçais: o estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. O nosso Deus está próximo, é compassivo e terno. Em Jesus vemos este estilo de Deus. Com este seu estilo, Deus atrai-nos a si. Ele não nos toma com a força, não nos impõe a sua verdade e justiça, não faz proselitismo connosco, não: quer atrair-nos com amor, com ternura, com a compaixão. Noutra carta, São Francisco de Sales escreveu: «O íman atrai o ferro e o âmbar atrai a palha e o feno. Pois bem, quer sejamos ferro devido à nossa dureza, quer sejamos palha devido à nossa fraqueza, devemos deixar-nos atrair por este pequeno Menino celestial» [2]. As nossas forças, as nossas fragilidades, são resolvidas apenas diante do presépio, diante de Jesus, ou diante da cruz: Jesus despojado, Jesus pobre; mas sempre com o seu estilo de proximidade, compaixão e ternura. Deus encontrou o meio para nos atrair como somos: com o amor. Não um amor possessivo e egoísta, como infelizmente é muitas vezes o amor humano. O seu amor é puro dom, pura graça, é tudo e apenas para nós, para o nosso bem. E assim atrai-nos, com este amor desarmado e também desarmante. Pois quando vemos esta simplicidade de Jesus, também nós deitamos fora as armas da soberba e vamos ali, humildes, pedir salvação, pedir perdão, pedir luz para a nossa vida, para poder ir em frente. Não vos esqueçais do trono de Jesus: a manjedoura e a cruz, eis o trono de Jesus.

Outro aspeto que se destaca no presépio é a pobreza – deveras há pobreza, ali - entendida como a renúncia a toda a vaidade mundana. Quando vemos o dinheiro que se gasta por vaidade: muito dinheiro para a vaidade mundana; tantos esforços, tantas pesquisas para a vaidade; mas Jesus mostra-nos a humildade. São Francisco de Sales escreve: «Meu Deus! Quantos afetos santos este nascimento suscita nos nossos corações! Acima de tudo, porém, ensina-nos a perfeita renúncia a todos os bens, a todas as pompas [...] deste mundo. Não sei, mas não encontro outro mistério no qual a ternura e a austeridade, o amor e a tristeza, a doçura e a dureza se misturam tão docemente» [3]: vemos tudo isto no presépio. Sim, tomemos cuidado para não cair na caricatura mundana do Natal. E isto é um problema, pois o Natal é assim. Mas hoje vemos que, embora seja “outro Natal”, entre aspas, é a caricatura mundana do Natal, que reduz o Natal a uma festa consumista e edulcorado. É necessário fazer festa, é preciso, mas que isto não seja Natal, o Natal é outra coisa. O amor de Deus não é meloso, a manjedoura de Jesus mostra-nos isto. O amor de Deus não é uma bonomia hipócrita que esconde a busca de prazeres e confortos. Os nossos idosos que conheceram a guerra e também a fome sabiam-no bem: o Natal é alegria e festa, certamente, mas na simplicidade e na austeridade.

E concluamos com um pensamento de São Francisco de Sales que também retomei na Carta Apostólica. Ele ditou-o às Irmãs Visitandinas - pensai! - dois dias antes de morrer. Dizia: «Vedes o Menino Jesus na manjedoura? Ele recebe todas as devastações do tempo, o frio e tudo o que o Pai permite que lhe aconteça. Não recusa as pequenas consolações que a sua mãe lhe dá, e não está escrito que alguma vez estenda as mãos para ter o seio da sua Mãe, mas deixa tudo aos cuidados e presciência dela; por isso nada devemos desejar nem recusar, suportando tudo o que Deus nos envia, o frio e as injustiças do tempo» [4]. E aqui, prezados irmãos e irmãs, está um grande ensinamento, que nos chega do Menino Jesus através da sabedoria de São Francisco de Sales: nada desejar nem rejeitar, aceitar tudo o que Deus nos envia. Mas atenção! Sempre e só por amor, pois Deus ama-nos e deseja sempre e apenas o nosso bem.

Olhemos para a manjedoura, que é o trono de Jesus, olhemos para Jesus nas estradas da Judeia, da Galileia, pregando a mensagem do Pai e olhemos para Jesus no outro trono, na cruz. É isto que Jesus nos oferece: a estrada, mas esta é a via da felicidade.

A todos vós e às vossas famílias, feliz tempo de Natal e bom início do ano novo!

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[1] Alla madre di Chantal, Annecy, 25 de dezembro de 1613, em Tutte le lettere, vol. II (1619-1622), por L. Rolfo, Paulinas, Roma 1967, 402-403, Œuvres de Saint François de Sales, édition complète, Annecy, Tomo XVI, 120-121.

[2] A una religiosa, Paris, 6 de janeiro de 1619, em Tutte le lettere, vol. III (1619-1622), por L. Rolfo, Paulinas, Roma 1967, 10, Œuvres de Saint François de Sales, édition complète, Annecy, Tomo XVIII, 334-335.

[3] A una religiosa dell’abbazia di Santa Caterina, Annecy, 25 ou 26 de dezembro de 1621, em Tutte le lettere, vol. III (1619-1622), por  L. Rolfo, Paulinas, Roma 1967, 615, Œuvres de Saint François de Sales, édition complète, Annecy, Tomo XX, 212.

[4] Trattenimenti spirituali, Paulinas, Milão 2000, 463 (F. De Sales, Entretiens spirituels,  Œuvres. Textes présentés et annotés par A. Ravier avec la collaboration de R. Devos, Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, Paris 1969, 1319.

 

Papa Francisco
28 de dezembro de 2022




21 dezembro 2022

O nome do menino que vai nascer




A criança que vai nascer chamar-se-á "Yeshua" (Jesus). Em Israel, o nome de uma pessoa exprimia a sua missão na vida. Yeshua é uma palavra composta por duas outras: Yavé e Oseias. Em hebraico, estes termos significam "Deus" + "Salvação". Desde o início, Jesus é chamado por Deus a cumprir uma missão: a de redimir, trazer a salvação.
Nos primeiros capítulos do Evangelho, aparece uma espécie de sobrenome de Jesus: Emanuel. Trata-se de outro nome retirado do livro do profeta Isaías 7, 14. Isaías anuncia ao rei Acaz o nascimento de uma criança que será símbolo de vida e esperança. Este menino ostentará no nome a designação da sua missão.: "Deus está connosco = Emanuel". Isto constitui uma explicação teológica da pessoa e missão de Jesus, porém, nunca foi familiarmente tratado pelo nome de "Emanuel".



19 dezembro 2022

Maria e José casam-se



O conceito de casamento em Israel não correspondia à ideia romântica de casamento que vigora na nossa sociedade. A situação da mulher era, então, muito diferente.
Para os judeus de antigamente, bem como para os povos do oriente antigo em geral, o casamento era uma instituição civil e não uma instituição religiosa. Esta realidade da época bíblica será melhor entendida se a virmos como um pacto, não entre os esposos, mas antes entre as famílias, clãs ou tribos. A mulher representava, aqui, o elo de união. As relações pessoais entre os sexos eram vistas como relações de propriedade. A mulher transitava da condição de propriedade do seu pai para a de propriedade de um marido.
É também sob esta perspetiva de pacto e contrato que devemos entender a forma de contrair matrimónio, o qual era sempre combinado pelos pais dos jovens. Depois de fechado o acordo, a família do noivo devia pagar uma determinada quantidade de bens (sacos de trigo, bovinos, dinheiro, etc.) para compensar a família da noiva, uma vez que esta ia abandonar a sua casa para ir viver coma família do noivo.
Era o pagamento do preço da noiva que era celebrado nos esponsais. Depois disto, normalmente a noiva ainda permanecia por um certo período de tempo (cerca de um ano) na casa paterna, até que o noivo a "acolhia em sua casa" ou a "tomava para junto de si", que são algumas das fórmulas para referir o casamento. A partir dessa altura, o marido convertia-se no provedor e protetor da mulher.
Os esponsais transformavam os noivos em marido e mulher, com todos os direitos e obrigações de um casamento. Por este motivo, a infidelidade da noiva equivalia a adultério, e uma separação entre noivos só era possível através de uma carta de divórcio ou de um "libelo de repúdio", o que era o mesmo.
Na época de Jesus, a idade apropriada para os esponsais de uma mulher era 12/13 anos. Um ano mais tarde, a rapariga era solenemente conduzida à casa do marido, o que significava passar a depender da sua autoridade.
No Israel de tempos remotos praticava-se a poligamia, dependendo exclusivamente de motivos económicos que um homem tivesse uma ou várias mulheres. Porém, este costume foi mudando com o passar dos séculos. Na época posterior ao cativeiro da Babilónia, segundo parece, foi-se impondo cada vez mais o casamento monogâmico e, na época de Jesus, era esta a forma de matrimónio em vigor.
O casamento poligâmico assentava na conceção da finalidade do matrimónio, que não era senão a de ter filhos. Por este motivo, a esterilidade de uma mulher era considerada uma desgraça e uma vergonha, pois a mulher estéril não podia cumprir o objetivo do casamento: criar descendência. Era a bênção dos filhos que dava sentido à vida da mulher. No século I, o celibato ou a virgindade não existiam ainda como conceito ideal de vida para a mulher.




José, o justo





Os Evangelhos afirmam que José "era justo". Este termo indicia uma característica muito importante de José, o pai de Jesus de Nazaré. Na nossa cultura, a palavra "justo" designa uma pessoa bondosa e que pratica a justiça. Não obstante, no século I esta expressão era utilizada pelos judeus para classificar os "judeus laicos que possuíam grandes conhecimentos da Lei de Yavé e procuravam transmiti-los". José era, pois, um judeu secular entendido na Lei. Foi provavelmente com José que Jesus adquiriu a bagagem religiosa que o acompanhou ao longo da vida.






18 dezembro 2022

Maria de Nazaré



O nome de Maria (Míriam) era bastante comum no tempo de Jesus. As suas raízes etimológicas são amplas e diversas, pois este nome feminino era utilizado tanto na zona judaica, como nas regiões fenícias e no deserto.
A tradição hebraica faz referência a Míriam, a irmã de Moisés que fez guarda à cesta de vime na qual os pais de Moisés puseram o bebé para o salvar da morte decretada pelo faraó. Neste idioma, Míriam significa "a que é forte", "a que se eleva".
Na zona de influência fenícia este nome também era utilizado, mas com outra grafia e significado: Mar-yam ("gota de água"). Nas regiões vizinhas do deserto o nome era igualmente dado a algumas raparigas, tendo aqui o significado de "moça de tez morena".





16 dezembro 2022

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz | 2023





MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 56º DIA MUNDIAL DA PAZ

1 de janeiro de 2023


Ninguém pode salvar-se sozinho.
Juntos, recomecemos a partir de COVID-19 para traçar sendas de paz.
 

«Quanto aos tempos e aos momentos, irmãos, não precisais que vos escreva. Com efeito, vós próprios sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor chega de noite como um ladrão» (I Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 5, 1-2).

1. Com estas palavras, o apóstolo Paulo convidava a comunidade de Tessalónica para que, na expetativa do encontro com o Senhor, permanecesse firme, com os pés e o coração bem assentes na terra, capaz dum olhar atento sobre a realidade e os factos da história. Assim, embora apareçam tão trágicos os acontecimentos da nossa existência sentindo-nos impelidos para o túnel obscuro e difícil da injustiça e do sofrimento, somos chamados a manter o coração aberto à esperança, confiados em Deus que Se faz presente, nos acompanha com ternura, apoia os nossos esforços e sobretudo orienta o nosso caminho. Por isso, São Paulo não cessa de exortar a comunidade a vigiar, procurando o bem, a justiça e a verdade: «não durmamos (…) como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios» (5, 6). É um convite a permanecer despertos, a não nos fechar no medo, na dor ou na resignação, não ceder à dissipação, nem desanimar, mas, pelo contrário, a ser como sentinelas capazes de vigiar vislumbrando as primeiras luzes da aurora, sobretudo nas horas mais escuras.

2. A Covid-19 precipitou-nos no coração da noite, desestabilizando a nossa vida quotidiana, transtornando os nossos planos e hábitos, subvertendo a aparente tranquilidade mesmo das sociedades mais privilegiadas, gerando desorientação e sofrimento, causando a morte de tantos irmãos e irmãs nossos.

Arrastados na voragem de desafios inesperados e numa situação que não era totalmente clara nem sequer do ponto de vista científico, o mundo da saúde mobilizou-se para aliviar a dor de inúmeras pessoas e procurar remediá-la; e de igual modo fizeram as autoridades políticas, que tiveram de tomar medidas notáveis em termos de organização e gestão da emergência.

A par das manifestações físicas, a Covid-19 provocou – inclusive com efeitos de longa duração – um mal-estar geral, que se concentrou no coração de tantas pessoas e famílias, com implicações não transcuráveis, incrementadas por longos períodos de isolamento e diversas limitações da liberdade.

Além disso, não podemos esquecer como a pandemia atingiu pontos sensíveis da ordem social e económica, pondo a descoberto contradições e desigualdades. Ameaçou a segurança laboral de muitos e agravou a solidão sempre mais generalizada nas nossas sociedades, especialmente a solidão dos mais frágeis e pobres. Pensemos, por exemplo, nos milhões de trabalhadores não regularizados em muitas partes do mundo, que ficaram sem trabalho nem qualquer apoio durante todo o período de confinamento.

Raramente os indivíduos e a sociedade progridem em situações que geram tamanho sentimento de derrota e amargura: na realidade, o mesmo enfraquece os esforços empreendidos pela paz e provoca conflitos sociais, frustrações e violências de vário género. Neste sentido, a pandemia parece ter transtornado inclusive as áreas mais pacíficas do nosso mundo, fazendo emergir inumeráveis fragilidades.

3. Passados três anos, é hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar, como indivíduos e como comunidade; um tempo privilegiado para nos prepararmos para o «Dia do Senhor». Já tive oportunidade de repetir várias vezes que, dos momentos de crise, nunca saímos iguais: sai-se melhor ou pior. Hoje somos chamados a questionar-nos: O que é que aprendemos com esta situação de pandemia? Quais são os novos caminhos que deveremos empreender para romper com as correntes dos nossos velhos hábitos, estar melhor preparados, ousar a novidade? Que sinais de vida e esperança podemos individuar para avançar e procurar tornar melhor o nosso mundo?

Certamente, tendo experimentado diretamente a fragilidade que carateriza a realidade humana e a nossa existência pessoal, podemos dizer que a maior lição que Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho. Por conseguinte, é urgente buscar e promover, juntos, os valores universais que traçam o caminho desta fraternidade humana. Aprendemos também que a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização não só foi excessiva, mas transformou-se numa intoxicação individualista e idólatra, minando a desejada garantia de justiça, concórdia e paz. Com grande frequência, neste nosso mundo que corre a grande velocidade, os problemas generalizados de desequilíbrios, injustiças, pobreza e marginalizações alimentam mal-estares e conflitos, e geram violências e mesmo guerras.

Enquanto a pandemia, por um lado, fez emergir tudo isto, por outro, permitiu-nos fazer descobertas positivas: um benéfico regresso à humildade; uma redução de certas pretensões consumistas; um renovado sentido de solidariedade que nos encoraja a sair do nosso egoísmo para nos abrirmos ao sofrimento dos outros e às suas necessidades; bem como um empenho, nalguns casos verdadeiramente heroico, de muitas pessoas que se deram para que todos conseguissem superar do melhor modo possível o drama da emergência.

E, de tal experiência, brotou mais forte a consciência que convida a todos, povos e nações, a colocar de novo no centro a palavra «juntos». Com efeito, é juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos. De facto, as respostas mais eficazes à pandemia foram aquelas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais unidos para responder ao desafio, deixando de lado interesses particulares. Só a paz que nasce do amor fraterno e desinteressado nos pode ajudar a superar as crises pessoais, sociais e mundiais.

4. Entretanto, quando já ousávamos esperar que estivesse superado o pior da noite da pandemia de Covid-19, eis que se abateu sobre a humanidade uma nova e terrível desgraça. Assistimos ao aparecimento doutro flagelo – uma nova guerra – comparável em parte à Covid-19 mas pilotado por opções humanas culpáveis. A guerra na Ucrânia ceifa vítimas inocentes e espalha a incerteza, não só para quantos são diretamente afetados por ela, mas de forma generalizada e indiscriminada para todos, mesmo para aqueles que, a milhares de quilómetros de distância, sofrem os seus efeitos colaterais: basta pensar nos problemas do trigo e nos preços dos combustíveis.

Não era esta, sem dúvida, a estação pós-Covid que esperávamos ou por que ansiávamos. Na realidade, esta guerra, juntamente com todos os outros conflitos espalhados pelo globo, representa uma derrota não apenas para as partes diretamente envolvidas mas também para a humanidade inteira. E enquanto para a Covid-19 se encontrou uma vacina, para a guerra ainda não se encontraram soluções adequadas. Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provem de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado (cf. Evangelho de Marcos 7, 17-23).

5. Enfim, o que se nos pede para fazer? Antes de mais nada, deixarmos mudar o coração pela emergência que estivemos a viver, ou seja, permitir que, através deste momento histórico, Deus transforme os nossos critérios habituais de interpretação do mundo e da realidade. Não podemos continuar a pensar apenas em salvaguardar o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas devemos repensar-nos à luz do bem comum, com um sentido comunitário, como um «nós» aberto à fraternidade universal. Não podemos ter em vista apenas a proteção de nós próprios, mas é hora de nos comprometermos todos em prol da cura de nossa sociedade e do nosso planeta, criando as bases para um mundo mais justo e pacífico, seriamente empenhado na busca dum bem que seja verdadeiramente comum

Para fazer isto e viver melhor depois da emergência Covid-19, não se pode ignorar um dado fundamental: as variadas crises morais, sociais, políticas e económicas que estamos a viver encontram-se todas interligadas, e os problemas que consideramos como singulares, na realidade um é causa ou consequência do outro. E assim somos chamados a enfrentar, com responsabilidade e compaixão, os desafios do nosso mundo. Devemos repassar o tema da garantia da saúde pública para todos; promover ações de paz para acabar com os conflitos e as guerras que continuam a gerar vítimas e pobreza; cuidar de forma concertada da nossa casa comum e implementar medidas claras e eficazes para fazer face às alterações climáticas; combater o vírus das desigualdades e garantir o alimento e um trabalho digno para todos, apoiando quantos não têm sequer um salário mínimo e passam por grandes dificuldades. Fere-nos o escândalo dos povos famintos. Precisamos de desenvolver, com políticas adequadas, o acolhimento e a integração, especialmente em favor dos migrantes e daqueles que vivem como descartados nas nossas sociedades. Somente despendendo-nos nestas situações, com um desejo altruísta inspirado no amor infinito e misericordioso de Deus, é que poderemos construir um mundo novo e contribuir para edificar o Reino de Deus, que é reino de amor, justiça e paz.

Compartilho estas reflexões com a esperança de que, no novo ano, possamos caminhar juntos valorizando tudo o que a história nos pode ensinar. Formulo votos de todo o bem aos Chefes de Estado e de Governo, aos Responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes das várias religiões. Desejo a todos os homens e mulheres de boa vontade que possam, como artesãos de paz, construir dia após dia um ano feliz! Maria Imaculada, Mãe de Jesus e Rainha da Paz, interceda por nós e pelo mundo inteiro.

Vaticano, 8 de dezembro de 2022.

Francisco




30 novembro 2022

O que fazes ao que recebes?




Aquilo que somos depende do que fazemos com o que recebemos.
A nossa primeira responsabilidade será a de estarmos atentos a quem nos rodeia e a tudo aquilo que faz parte das nossas circunstâncias a cada hora. Devemos estar concentrados na procura de todas as bondades e belezas que podem alimentar a nossa vida, mas não para nós, antes sim para as entregarmos a quem delas mais precisa.
Há quem não esteja atento. Não procura, não encontra, não tem para dar. Outros buscam, mas julgam que tudo o que encontram é só para si, algumas vezes sob a desculpa de que são os mais necessitados!
Talvez Deus nos faça chegar tudo aquilo de que precisamos através dos outros. E aos outros através de nós... é preciso estar atento.
Depois, precisamos de nos esforçar por compreender aquilo que se passa nos nossos dias. Sem certezas de que o consigamos, mas também sem a convicção de que tal é impossível. Portanto, sem preguiça e com dedicação. Aqueles que estão próximo de nós também precisam de quem os ajude a compreender e a compreender-se. Esforça-te por prestar essa ajuda.
De tudo o que te for dado, tenta não ficar com nada de que não precises mesmo. O resto, que será muito, dá tudo. Com critério. Dá a quem precisa aquilo que precisa. Não te ponhas a dar água a quem tem fome, nem roupa a quem tem fome.
Confia que não estás só. Nunca. Mesmo quando o sentes no mais fundo de ti. Quando te escassear a fé, pensa que a vida a que chamas tua te foi dada, quando ainda nada tinhas feito para a merecer. Como pode alguém acreditar que a sua existência se deve apenas a séries lógicas de acasos sem sentido?
Amar é sacrificar-se em favor do outro, é dar-se para que o outro seja feliz. E ser feliz porque o outro o é.
Quase nada do que recebes é para ti.
Não te apegues a nada do que te é dado. Não só porque nada será algum dia mesmo teu, como também porque chegará sempre o momento em que tens de largar tudo o que tens e ficar apenas com o que conseguiste ser.
És o que fazes com o que recebeste. Nada mais.


José Luís Nunes Martins


19 novembro 2022

Salmo 121 (122)



Salmo 121: Saudação à cidade santa de Jerusalém

1. É um dos mais bonitos e apaixonantes Cânticos graduais o que agora ouvimos e apreciamos em oração. Trata-se do Salmo 121, uma celebração viva e partícipe em Jerusalém, a cidade santa para a qual se dirigem os peregrinos.

De facto, logo na abertura, fundem-se juntamente os dois momentos vividos pelo fiel: o do dia em que aceitou o convite a ir "para a casa do Senhor" (v. 1) e o da chegada jubilosa às "portas" de Jerusalém (cf. v. 2); agora os pés pisam finalmente aquela terra santa e amada. Precisamente, então, os lábios se abrem a um cântico de festa em honra de Sião, considerada no seu profundo significado espiritual.

2. "Cidade bem construída" (v. 3), símbolo de segurança e de estabilidade, Jerusalém é o coração da unidade das doze tribos de Israel, que para ela convergem como centro da sua fé e do seu culto. Com efeito, ali, elas "sobem para louvar o nome do Senhor" (cf. v. 4), no lugar que a "Lei de Israel" (Dt 12, 13-14; 16, 16) estabeleceu como único santuário legítimo e perfeito.

Existe em Jerusalém outra realidade relevante, também ela sinal da presença de Deus em Israel: são "os tribunais da casa de David" (v. 5), isto é, governa a dinastia davídica, expressão da acção divina na história, que teria chegado com o Messias (2 Sm 7, 8-16).

3. Os "tribunais da casa de David" são ao mesmo tempo chamados "tribunais de justiça" (cf. Sl 121, 5), porque o rei era também o juiz supremo. Assim Jerusalém, capital política, também era a sede judiciária suprema, onde se resolviam em última instância as controvérsias: desta forma, saindo de Sião, os peregrinos hebreus regressavam às suas cidades mais justos e pacificados.
Assim, o Salmo traçou um retrato ideal da cidade santa na sua função religiosa e social, mostrando que a religião bíblica não é abstracta nem intimidatória, mas é fermento de justiça e de solidariedade. À união com Deus segue necessariamente a dos irmãos entre si.

4. Chegamos agora à invocação final (cf. vv. 6-9). Ela está toda ritmada sobre a palavra hebraica shalom, "paz", tradicionalmente considerada na base do próprio nome da cidade santa Jerushalaim, interpretada como"cidadedapaz".

Como sabemos, shalom faz alusão à paz messiânica, que reúne em si alegria, prosperidade, bem, abundância. Aliás, na saudação final que o peregrino dirige ao templo, à "casa do Senhor nosso Deus", acrescenta à paz o "bem": "pedirei para ti o bem" (v. 9). Tem-se assim de forma antecipada a saudação franciscana: "Paz e bem!". Todos temos um pouco de alma franciscana. É um voto de bênção para os fiéis que amam a cidade santa, para a sua realidade física de muros e casas nos quais pulsa a vida de um povo, para todos os irmãos e amigos. Desta forma Jerusalém tornar-se-á um lar de harmonia e de paz.

5. Concluindo a nossa meditação sobre o Salmo 121 com uma sugestão de reflexão feita pelos Padres da Igreja, para os quais a antiga Jerusalém era sinal de outra Jerusalém, também ela "construída como cidade sólida e compacta". Esta cidade recorda São Gregório Magno nas Homilias sobre Ezequiel "já possui uma grande construção nos costumes dos santos. Num edifício, uma pedra serve de base para outra, porque se coloca uma pedra sobre outra, e quem ampara outro e, por sua vez, amparado por alguém. Assim, precisamente assim, na santa Igreja, cada um ampara o outro e é amparado. Os mais próximos amparam-se reciprocamente, e assim por meio deles eleva-se o edifício da caridade. Eis por que Paulo admoesta, dizendo: "Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo" (Gl 6, 2). Realçando a força desta lei, diz: "é no amor que está o pleno cumprimento da lei" (Rm 13, 10). Se eu, de facto, não me esforço por vos aceitar tal como sois, e se vós não vos comprometerdes a aceitar-me tal como sou, não pode erguer-se o edifício da caridade entre nós, mesmo estando unidos por amor recíproco e paciente".

E, para completar a imagem, não esqueçamos o que "há um alicerce que suporta todo o peso da construção, é o nosso Redentor, o qual sozinho consente no seu conjunto os costumes de todos nós. Dele o Apóstolo diz: "ninguém pode pôr um alicerce diferente do que já foi posto: Jesus Cristo" (1 Cor 3, 11). O fundamento suporta as pedras e não é suportado pelas pedras; isto é, o nosso Redentor carrega o peso de todas as nossas culpas, mas n'Ele não houve culpa alguma a ser tolerada" (2, 1, 5: Obras de Gregório Magno, III/2, Roma, pp. 27.29).

E assim o grande Papa São Gregório diz-nos o que significa o Salmo concretamente para a prática da nossa vida, diz-nos que devemos ser na Igreja de hoje uma verdadeira Jerusalém, isto é, um lugar de paz, "suportando-nos uns aos outros" tal como somos; "suportando-nos juntos" na alegre certeza de que o Senhor nos "suporta a todos". E assim cresce a Igreja como uma verdadeira Jerusalém, um lugar de paz. Mas queremos também rezar pela cidade de Jerusalém para que seja cada vez mais um lugar de encontro entre as religiões e os povos; para que seja realmente um lugar de paz.

Salmo 121 (122)



Catequese sobre os Salmos
Papa Bento XVI


14 novembro 2022

Eucaristia



A Eucaristia é a reunião semanal dos cristãos. Nela partilhamos o que somos e o que temos. Sentimo-nos comunidade, família, Povo de Deus. Cada Eucaristia é uma oportunidade de nos encontrarmos com Deus para O conhecer melhor através da Palavra com que nos fala; de nutrirmo-nos com o pão que nos dá a vida; de conviver como irmãos empenhados em amarmo-nos uns aos outros, do mesmo modo que Jesus nos ama. Desde o início da Igreja que se celebra este encontro entre Deus e a humanidade (Mt 26, 26-28; Act 2, 42; 1Cor 11, 23-26).

Eucaristia
A palavra Eucaristia vem do grego e significa "agradecer", "obrigado", "acção de graças". A Eucaristia é a acção de graças do Povo de Deus que reunido em família agradece ao seu Senhor por tudo. É nosso dever e nossa vida dar graças sempre de modo especial pela salvação que nos oferece.

E que vamos lá fazer?
Desde o início da Igreja (a assembleia, comunidade dos que professam a fé em Cristo morto e ressuscitado) é convocada, no dia do Senhor (Domingo), para celebrar a Eucaristia. Não vamos à Missa por nossa iniciativa, mas porque fomos convocados para louvar e dar graças ao Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo.
Não vamos à Missa para cumprir um preceito, uma obrigação... seria fraco motivo. A Celebração é encontro com aquele que mais nos ama; é , por isso, festa.
Uma festa em que queremos louvar, agradecer, pedir perdão e ajuda para o nosso caminhar. É, além disso, um encontro ainda mais especial: é memorial (faz-se presente no meio de nós), é banquete (Jesus nos alimenta com o seu próprio corpo) e é sacrifício (é oferta total, na qual pomos toda a nossa vida nas mãos de Deus, tal como fez Jesus).
Nela é Cristo que Se oferece em sacrifício de acção de graças (Eucaristia) ao Pai, e nós unimo-nos a Ele neste gesto vital e significativo. Vai de Cristo para o Pai e, nesse movimento, Ele (Cristo) envolve-nos a nós e oferece-nos ao Pai e, nesse movimento, Ele (Cristo) envolve-nos a nós e oferece-nos ao Pai juntamente com Ele. Os gestos, as palavras, os textos, as orações, os cânticos têm de ser significativos e agradáveis a Deus e de acordo com a realidade e a densidade do mistério que celebramos juntamente com Cristo. Trata-se de, fundamentalmente, agradar a Deus e não à nossa sensibilidade. Há gestos, palavras e cânticos que poderão ser muito agradáveis à nossa sensibilidade, mas que podem não passar de mero folclore e estarem pouco de acordo com o que estamos a celebrar.

Preparação
Se este encontro é assim tão especial será importante vivê-lo bem, e por isso prepará-lo para o viver com intensidade. Sim, porque para os grandes encontros nós queremos chegar cedo, queremos ir bem apresentados, queremos saber que dizer, queremos levar certamente alguma oferta, etc...
Na Eucaristia, este encontro especial, sempre novo e único com Deus, é sempre uma mais-valia preparar-nos. Passar da agitação, da rua, para a nova situação de assembleia reunida à volta de Cristo. Não tanto para esquecer ou cortar com as preocupações da vida concreta que é a de cada um de nós, mas, antes, colocar essas preocupações no seio de Cristo, à maneira de oração de oferenda e sentir a comunhão com os irmãos reunidos em assembleia. No fundo, passar da vida apressada ao encontro com Cristo, da vida individual ao encontro com a comunidade.
Procurando sintonizar o pensamento e o espírito com o tempo litúrgico ou a festa litúrgica que se celebra naquele dia. Sem pressas, sem relógios, evitando distracções, num clima de serenidade e paz que a todos nos ajuda viver com intensidade qualquer encontro.

A assembleia
Um encontro que queremos viver em comunidade. Colaborando sempre que possível nos diferentes ministérios: como leitor, como cantor, como acólito, ministro da comunhão, etc. Consciente que não se trata de "assistir à Missa", mas de participar, de viver com intensidade e verdade este encontro pessoal e comunitário com Deus.

Conclusão
«Contemplar o rosto de Cristo é o "programa" da Igreja na aurora do terceiro milénio, convidando-a a fazer-se ao largo no mar da história lançando-se com entusiasmo na nova evangelização. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo onde quer que Ele Se manifeste, com as suas diversas presenças mas sobretudo no sacramento vivo do seu corpo e do seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada. A Eucaristia é mistério de fé e, ao mesmo tempo, "mistério de luz". Sempre que a Igreja a celebra, os fiéis podem de certo modo reviver a experiência dos dois discípulos de Emaús: "Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No" (Lc 24, 31)». (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 17 de Abril de 2003, 6).



Juan Freitas
in Revista Catequistas
Setembro 2010



11 novembro 2022

Ergue-te ao Sol









Quando acordares olha por mim
E em silêncio beija-me assim
Conta-me como é acreditar
Mostra-me o mundo p'ra além do olhar

Vozes no mar que se escondem
E com vergonha de te ver, talvez!!!
Passo a vida sem acreditar
Na corda bamba a vacilar

Ergue-te ao sol
Vive cada dia como um só
Solta a tua voz
Vem comigo acreditar


E ao acordar vejo-te a olhar
Para o fim do céu, lá, junto ao mar
Contigo ri-me e encontrei
As palavras certas para ser alguém

E assim vivi, acreditei
Nadei no Sol e no mar Voei
Bastou ter fé e acreditar
E passo a passo, viver, amar.

Ergue-te ao sol
Vive cada dia como um só
Solta a tua voz
Vem comigo acreditar


Música: Maresia
Letra: Maresia



01 novembro 2022

Comemoração de todos os fiéis defuntos




A Celebração dos fiéis defuntos é uma solenidade que tem um valor profundamente teológico, porque chama a nossa atenção para todo o mistério da existência humana, desde suas origens até o seu fim e para além também. A novidade introduzida pela nossa fé é a esperança: nós cristãos acreditamos em um Deus. que não é apenas Criador, mas também Juiz.


A morte é apenas uma porta ...

Logo, Deus é também é um Juiz! O seu juízo vai para além do tempo e do espaço, em uma vida após a morte e na vida eterna, na qual o Reino de Deus se realiza plenamente. O julgamento do Senhor será duplo: além de responder individualmente às nossas ações, no final dos tempos, seremos chamados a responder-lhes também como humanidade.
Se morrermos em Cristo, porque vivemos a nossa vida em comunhão com Ele, seremos admitidos na Comunhão dos Santos.
A celebração de hoje se insere nesta perspectiva: a Igreja não esquece seus irmãos falecidos, mas reza por eles, oferece sufrágios, celebra Missas e oferece esmolas, para que também as almas, que ainda precisam de purificação, após a morte, possam alcançar a visão de Deus.


Cristo venceu a morte!

A morte é um acontecimento inevitável. Cada um de nós pode entender isso pela própria experiência pessoal. Segundo a visão cristã, porém, não é considerada um fato natural. Pelo contrário, é o oposto da vontade de Deus! Deus, o Senhor da vida, nos dá a vida em abundância e a morte é uma mera consequência do nosso pecado. Entretanto, em Cristo, Deus toma sobre si os nossos pecados e suas consequências. Desta forma, a morte se torna uma passagem, uma porta.
Graças à vitória de Cristo sobre a morte, podemos superar o medo que temos dela e a dor que sentimos quando atinge alguém que está próximo de nós.
Enfim, para o cristão, não há distinção entre vivos e mortos, porque nem os mortos são "mortos", mas "defuntos", ou seja, "privados das funções terrenas", à espera de serem transformados pela Ressurreição.


História e origem desta celebração

A “pietas” humana para com os defuntos remonta aos primórdios da humanidade. Mas, como vimos, com o advento do cristianismo a perspectiva muda radicalmente.
Os primeiros cristãos, como podemos facilmente observar nas catacumbas, esculpiam a figura de Lázaro nos túmulos, como anseio de que seus entes queridos pudessem também voltar à vida, por intermédio de Cristo.
No entanto, somente no século IX começou a celebração litúrgica de um falecido, como herança do uso monacal, já em vigor no século VII, de empregar, dentro dos mosteiros, um dia inteiro de oração por um falecido.
Este costume, porém, já existia no rito bizantino, que celebrava os mortos no sábado anterior à Sexagésima, um período entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro.
Mais tarde, no ano 809, o Bispo de Trier, Dom Amalário Fortunato de Metz, inseriu a memória litúrgica dos falecidos - que aspiram ao céu - no dia seguinte ao dedicado a Todos os Santos, que já estavam no céu.
Enfim, em 998, por ordem do abade de Cluny, Odilone de Mercoeur, a solenidade de Finados foi marcada para o dia 2 de novembro, precedida por um período de preparação de nove dias, conhecido como Novena dos Defuntos, que começava no dia 24 de outubro.






31 outubro 2022

Amar alguém é ver nele o que só ele tem




Nem eu sou o mais importante do mundo, nem todos somos iguais. Partindo destes princípios, é importante que eu seja capaz de me expulsar do centro do mundo e de estar mais atento à forma como cada um dos que estão perto de mim pensam e sentem.
Conhecer a forma como alguém pensa e sente é fundamental para a compreender, e isto é, talvez, ainda mais importante do que nos conhecermos a nós mesmos. Aliás, parte de um princípio que nos obriga a ser mais verdadeiros: a humildade de não pensarmos apenas em nós, como se fossemos a única pessoa valiosa no mundo.
O valor de alguém depende da sua capacidade de ser dom na vida dos outros. Ora, ninguém pode amar alguém, ou sequer ajudar, se não souber quem ele é.
Cometemos grandes erros sempre que julgamos e agimos com grandes certezas a respeito dos outros, sem que os tenhamos consultado antes ou feito um esforço para nos colocarmos no seu lugar.
Se não somos capazes de pensar e sentir a vida a partir do seu ponto de vista, então é bom que assumamos pelo menos isso: que não sabemos.
Há sorrisos lindos que escondem dores profundas, há pessoas com histórias muito duras, tão amargas que se esforçam para as esquecer, ou, pelo menos, para que não lhes estejam sempre a doer. Vistas de fora, estas pessoas têm vidas aparentes que muitos desejam.
O céu começa em mim, mas a porta é aberta no coração do outro. Só quando sou bom para o outro é que sou bom para mim, e não funciona ao contrário.
Sou céu quando o sou para outro. Compreendendo-o como alguém irrepetível, com uma história, sonhos, formas de pensar e sentir profundas e únicas.
Amar alguém é ver nele o que só ele tem.
Há pessoas que apenas se conhecem a si mesmas, julgam que são tudo o que há no mundo, os outros são apenas meros figurantes numa peça que é afinal um monólogo. Condenaram-se à prisão invisível que é o egoísmo. Se apenas são úteis a si mesmas, não fazem diferença no mundo.


José Luís Nunes Martins







A Solenidade de Todos os Santos



No dia 1º de novembro, a Igreja celebra a Festa de Todos os Santos. Segundo a tradição, ela foi colocada neste dia, logo após 31 de outubro, porque os celtas ingleses (pagãos) celebravam as bruxas e os espíritos que vinham se alimentar e assustar as pessoas nesta noite (Halloween).

Nesse dia, a Igreja militante (que luta na Terra) honra a Igreja triunfante do Céu, “celebrando, numa única solenidade, todos os Santos” – como diz o sacerdote na oração da Missa –, para render homenagem àquela multidão de santos que povoam o Reino dos Céus, que São João viu no Apocalipse: “Ouvi, então, o número dos assinalados: 144 mil assinalados, de toda tribo dos filhos de Israel. Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão”. “Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Ap 7,4-14)

Essa imensa multidão de 144 mil, que está diante do Cordeiro, compreende todos os servos de Deus, aos quais a Igreja canonizou por meio da decisão infalível de algum Papa, e todos aqueles, incontáveis, que conseguiram a salvação, e que desfrutam da visão beatífica de Deus. Lá, “eles intercedem por nós sem cessar”, diz uma de nossas orações eucarísticas. Por isso, a Igreja recomenda que os pais ponham nomes de santos em seus filhos.

Esses 144 mil significam uma grande multidão (12 x 12 x 1000). O número doze e o número mil significavam para os judeus antigos plenitude, perfeição e abundância; não é um valor meramente aritmético, mas simbólico. A Igreja já canonizou mais de 20 mil santos, mas há muito mais que isso no Céu. No livro ‘Relação dos Santos e Beatos da Igreja‘, eu pude relacionar, de várias fontes, quase 5 mil dos mais importantes; e os coloquei em ordem alfabética.

Todos os santos se tornam intercessores no Céu

Lumen Gentium do Vaticano II lembra: “Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós junto ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por seguinte, pela fraterna solicitude deles, a nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (LG 49) (§956).

Na hora da morte, São Domingos de Gusmão dizia a seus frades: “Não choreis! Ser-vos-ei mais útil após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha vida”. E Santa Teresinha confirmava esse ensino dizendo: “Passarei meu céu fazendo bem na terra”.

O nosso Catecismo diz: “Na oração, a Igreja peregrina é associada à dos santos, cuja intercessão solicita” (§2692).

A marca dos santos são as bem-aventuranças que Jesus proclamou no Sermão da Montanha; por isso, esse trecho do Evangelho de São Mateus (5,1ss) é lido nesta Missa. Os santos viveram todas as virtudes e, por isso, são exemplos de como seguir Jesus Cristo. Deus prometeu dar a eterna bem-aventurança aos pobres no espírito, aos mansos, aos que sofrem e aos que têm fome e sede de justiça, aos misericordiosos, aos puros de coração, aos pacíficos, aos perseguidos por causa da justiça e a todos os que recebem o ultraje da calúnia, da maledicência, da ofensa pública e da humilhação.

Somos chamados a ser santos

Essa ‘Solenidade de Todos os Santos’ vem do século IV. Em Antioquia, celebrava-se uma festa por todos os mártires no primeiro domingo depois de Pentecostes. A celebração foi introduzida em Roma, na mesma data, no século VI, e cem anos após era fixada no dia 13 de maio pelo Papa Bonifácio IV, em concomitância com o dia da dedicação do “Panteon” dos deuses romanos a Nossa Senhora e a todos os mártires. No ano de 835, essa celebração foi transferida pelo Papa Gregório IV para 1º de novembro.

Cada um de nós é chamado a ser santo. Disse o Concílio Vaticano II: “Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (Lg 40). Todos são chamados à santidade: “Deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48): “Com o fim de conseguir essa perfeição, façam os fiéis uso das forças recebidas (…) cumprindo em tudo a vontade do Pai, se dediquem inteiramente à glória de Deus e ao serviço do próximo. Assim, a santidade do povo de Deus se expandirá em abundantes frutos, como se demonstra, luminosamente, na história da Igreja pela vida de tantos santos” (LG 40).

O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncia e sem combate espiritual (cf. 2Tm 4). O progresso espiritual da oração, mortificação, vida sacramental, meditação, luta contra si mesmo, é isso que nos leva, gradualmente, a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças. Disse São Gregório de Nissa (340): “Aquele que vai subindo jamais cessa de ir progredindo, de começo em começo, por começos que não têm fim. Aquele que sobe jamais cessa de desejar aquilo que já conhece” (Hom. in Cant. 8).


Fonte: Canção Nova



27 outubro 2022

Salmo 144 (145)




1. Fizemos agora tornar-se nossa oração o Salmo 144, um louvor jubiloso ao Senhor que é exaltado como um soberano amoroso e terno, preocupado com todas as suas criaturas. A Liturgia propõe-nos este hino em dois momentos distintos, que correspondem também aos dois movimentos poéticos e espirituais do próprio Salmo. Deter-nos-emos sobre a primeira parte, que corresponde aos vv.1-13.

O Salmo é elevado ao Senhor invocado e descrito como "rei" (cf. Sl 144, 1), uma representação divina que domina outros hinos sálmicos (cf. Sl 46; 92; 95-98). Aliás, o centro espiritual do nosso cântico é constituído precisamente por uma celebração intensa e apaixonada da realeza divina. Nela repete-se quatro vezes quase para indicar os quatro pontos cardeais do ser e da história a palavra hebraica malkut, "reino"(cf.Sl144,11-13).

Sabemos que esta simbologia real, que será central também na pregação de Cristo, é a expressão do projecto salvífico de Deus: ele não é indiferente à história humana, aliás tem em relação a ela o desejo de realizar connosco e para nós um desígnio de harmonia e de paz. Toda a humanidade está convocada para realizar este plano, para que adira à vontade salvífica divina, uma vontade que se estende a todos os "homens", a "cada geração" e a "todos os séculos". Uma acção universal, que arranca o mal do mundo e nele instaura a "glória" do Senhor, isto é, a sua presença pessoal eficaz e transcendente.

2. Rumo a este coração do Salmo, colocado precisamente no centro da composição, dirige-se o louvor orante do Salmista, que se faz voz de todos os fiéis. E deveria ser hoje a voz de todos nós. De facto, a oração bíblica mais alta é a celebração das obras de salvação que revelam o amor do Senhor em relação às suas criaturas. Continua-se a exaltar neste Salmo "o nome" divino, isto é, a sua pessoa (cf.vv. 1-2), que se manifesta no seu agir histórico: fala-se precisamente de "obras", "maravilhas", "proezas", "poder", "grandeza", "justiça", "paciência", "misericórdia", "graça", "bondade" e "ternura".

É uma espécie de oração litânica que proclama a entrada de Deus nas vicissitudes humanas para levar toda a realidade criada a uma plenitude salvífica. Nós não estamos à mercê de forças obscuras, nem somos solitários com a nossa liberdade, mas estamos confiados à acção do Senhor poderoso e amoroso, que tem em relação a nós um desígnio, um "reino"para instaurar (cf. v.11).
3. Este "reino" não é feito de poder e de domínio, de triunfo e de opressão, como infelizmente muitas vezes acontece com os reinos terrenos, mas é a sede de uma manifestação de piedade, de ternura, de bondade, de graça, de justiça, como se recorda várias vezes no fluxo dos versículos que contêm o louvor.

A síntese deste retrato divino encontra-se no v. 8: o Senhor é "lento para a ira e rico em misericórdia". São palavras que reevocam a auto-apresentação que o próprio Deus fizera de si no Sinai, onde tinha dito: "Senhor! Senhor! Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade" (Êx 34, 6). Temos aqui uma preparação da profissão de fé de s. João, o Apóstolo, em relação a Deus, dizendo-nos simplesmente que Ele é amor: "Deus caritas est" (cf. 1 Jo 4, 8.16).

4. Além destas bonitas palavras, que nos mostram um Deus "lento para a ira e rico em misericórdia", sempre disposto a perdoar e a ajudar, a nossa atenção fixa-se também no bonito versículo 9: "O Senhor é bom para com todos, a sua ternura repassa todas as suas obras". Uma palavra para meditar, uma palavra de conforto, uma certeza que Ele dá à nossa vida. Em relação a isto, s. Pedro Crisólogo (380 450 ca.) exprime-se assim no Segundo discurso sobre o jejum: ""Grandiosas são as obras do Senhor": mas esta grandeza que vemos na grandeza da criação, este poder é superado pela grandeza da misericórdia. De facto, tendo dito o profeta: "São grandes as obras de Deus", noutra passagem acrescentou: "A sua misericórdia é superior a todas as suas obras". A misericórdia, irmãos, enche o céu, enche a terra... Eis por que a grande, generosa, única, misericórdia de Cristo, que reservou qualquer julgamento para um só dia, designou todo o tempo do homem à trégua da penitência... Eis por que se precipita totalmente para a misericórdia o profeta que não tinha confiança na própria justiça: "Tende piedade de mim, ó Deus diz pela tua grande misericórdia" (Sl 50, 3)" (42, 4-5: Sermões 1-62 bis, Escritores da Área Santambrosiana, 1, Milão-Roma 1996, pp. 299.301).

E assim dizemos também nós ao Senhor: "Tem piedade de mim, ó Deus, tu que és rico em misericórdia".

Salmo 144 (145)

Catequese sobre os Salmos
Papa Bento XVI


Prece

 


Prece (aqui deixamos)


Não vejo ninguém nas estradas
Os campos desertos de gente
No mar já quase não se vê água
No céu o ar morre de quente

Deixamos que o nada viesse
Do nada que tínhamos dentro
Quisemos ser donos de tudo
Fechamos as portas ao vento

E se já não formos nós
Porque o tempo não deixou
A fazer o que há ser feito
Nos unisse pelo amor

Uma prece aqui deixamos
No peito dos nossos filhos
Sejam bem melhores que nós
E perdoem por favor



A esperança caiu da montanha
De vidas há muito esquecidas
O amor queimou-se entre fogueiras
Que ardem por terras prometidas

Não queremos ver o fim da estrada
Adivinhar o fim da vida
Nascemos a troco de nada
Não queremos dá-la por vencida

E se já não formos nós
Porque o tempo não deixou
A fazer o que há ser feito
Nos unisse pelo amor

Uma prece aqui deixamos
No peito dos nossos filhos
Sejam bem melhores que nós
E perdoem por favor (mais 3x)


18 outubro 2022

São Lucas, Evangelista


Estamos em festa na liturgia da Igreja, pois lembramos a vida e o testemunho do evangelista São Lucas.

Nasceu em Antioquia da Síria, médico de profissão foi convertido pelo apóstolo São Paulo, de quem se tornou inseparável e fiel companheiro de missão. Colaborador no apostolado, o grande apóstolo dos gentios, em diversos lugares, externa a alta consideração que tinha por Lucas, como portador de zelo e fidelidade no coração. Ambos fazem várias viagens apostólicas, tornando-se um dos primeiros missionários do mundo greco-romano. Tornou-se excepcional para a vida da Igreja por ter sido dócil ao Espírito Santo, que o capacitou com o carisma da inspiração e da vivência comunitária, resultando no Evangelho segundo Lucas e na primeira história da Igreja, conhecida como Atos dos Apóstolos.

No Evangelho segundo Lucas, encontramos o Cristo, amor universal, que se revela a todos e chama Zaqueu, Maria Madalena, garante o Céu para o “bom” ladrão e conta as lindas parábolas do pai misericordioso e do bom samaritano. Nos Atos dos Apóstolos, que poderia também se chamar Atos do Espírito Santo, deparamos com a ascensão do Cristo, que promete o batismo no Espírito Santo, fato que se cumpre no dia de Pentecostes, e é inaugurada a Igreja, que desde então vem evangelizando com coragem, ousadia e amor incansável todos os povos.

Uma tradição – que recolheu no séc. XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do século VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no século IV, diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria: o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, “médico queridíssimo”. Ajudava-o no seu apostolado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que “Lucas é o único companheiro” na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado. O historiador São Jerônimo afirma que Lucas viveu a missão até a idade de 84 anos, terminando sua vida com o martírio. Por isso, no hino das Laudes rezamos: “Cantamos hoje, Lucas, teu martírio, teu sangue derramado por Jesus, os dois livros que trazes nos teus braços e o teu halo de luz”. É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse ofício, conforme diz São Paulo aos Colossenses (4,14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”.

São Lucas, rogai por nós!


Oração: 

“Ó Deus, que escolhestes São Lucas para revelar em suas palavras e escritos o mistério do vosso amor para com os pobres, concedei aos que já se gloriam do vosso nome perseverar num só coração e numa só alma, e a todos os povos do mundo ver a vossa salvação. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém”.

Fonte: Canção Nova