28 fevereiro 2025

O peso das palavras e dos gestos

Foto: SAUL LOEB / AFP


O que se passou entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky (28 de fevereiro de 2025) não é apenas mais um episódio na longa história de desavenças entre líderes mundiais. É um sintoma de algo mais profundo, um reflexo do tempo em que vivemos, onde o insulto se sobrepõe ao argumento e a força se sobrepõe à diplomacia.
Trump não é um homem de subtilezas. Nunca foi. A sua política faz-se na crueza das palavras, no espetáculo da ofensa, na teatralidade da humilhação. Zelensky, por sua vez, é o líder de um país em guerra, um homem que carrega nos ombros o peso de uma nação martirizada. Entre os dois, o desequilíbrio de poder é evidente. Um, sentado na cadeira da maior potência do mundo, usa o verbo como chicote. O outro, refém da geopolítica, tem de medir cada palavra como quem pisa um campo minado.
O que Trump fez não foi apenas um ataque a Zelensky. Foi um golpe na própria ideia de diplomacia, essa arte cada vez mais esquecida de saber dizer sem destruir, de saber argumentar sem aniquilar. Num mundo onde a guerra já não é apenas uma questão de tanques e mísseis, mas também de narrativas e perceções, a palavra pode ser uma arma letal. E Trump sabe usá-la como poucos - não para construir, mas para dividir.
Os grandes líderes da História sempre compreenderam que o poder da palavra vai além do momento. Churchill moldou a resistência britânica com discursos. Mandela desarmou o ódio com a linguagem da reconciliação. Até os imperadores romanos, senhores de legiões, sabiam que a retórica era tão crucial quanto a espada. Mas Trump? Trump reduz a palavra ao mais básico instinto de agressão, como um gladiador que atira insultos em vez de lanças.
E nós, espectadores deste teatro grotesco, que fazemos? Aplaudimos? Indignamo-nos? Ou simplesmente aceitamos que a política se transformou num ringue onde vence quem grita mais alto?
A tradição cristã ensina-nos que as palavras devem ser usadas para elevar, não para esmagar. O Evangelho recorda-nos que "a boca fala do que o coração está cheio" (Lc 6,45). Se assim for, que nos diz o discurso de Trump sobre a sua visão do mundo? Que mundo queremos nós?
Talvez ainda seja tempo de recuperar o valor do respeito, da escuta, da inteligência no debate público. Talvez seja tempo de exigir mais dos que nos lideram. Ou talvez, num futuro não muito distante, olhemos para este tempo com um misto de incredulidade e vergonha, perguntando-nos como deixámos que a política se tornasse isto.


Natália Matos
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com





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(sobre as relações entre Trump e a Rússia)
 - 28/02/2025 -

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Se quiser saber mais sobre este assunto tem o livro de José Rodrigues dos Santos, O Protocolo Caos, com uma parte de ficção e outra parte com a investigação que sintetiza no vídeo.



Sinopse:
Um homem encapuzado sai do carro e abre fogo contra a multidão. Morrem dezenas de pessoas, incluindo bebés. Depois do massacre, tira a máscara e revela a sua identidade: Tomás Noronha.
Um polícia na Rússia é alertado para atividades suspeitas na cave de um prédio. O que descobre irá mudar a história do país.
Uma família americana desfaz-se sem que perceba porquê. A tragédia arrasta-a para uma conspiração que vai dilacerar os Estados Unidos.
Uma médica brasileira é perseguida por tentar salvar vidas. Para a ajudar, Maria Flor tem de enfrentar a turba.
Um birmanês tem na sua posse um documento comprometedor. Se quiser chegar a ele, Tomás Noronha precisa de mergulhar no inferno.
A ligar todos estes episódios está uma mensagem enigmática.
Inspirado em factos reais, O Protocolo Caos transporta-nos ao coração da atualidade mais escaldante e mostra-nos como a Rússia e os seus cavalos de Troia no Ocidente usam as redes sociais para destruir o nosso mundo.


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Outro livro é o de Bob Woodward, um dos jornalistas que revelou o caso do watergate.



Sinopse:
Os bastidores da presidência Trump contados por Bob Woodward
«Poder real é – eu nem quero usar a palavra – medo.»
Candidato Donald Trump, a 31 de Março de 2016, numa entrevista durante a campanha eleitoral à presidência dos Estados Unidos
Tendo acompanhado e investigado a fundo oito presidências, de Nixon a Barack Obama, Bob Woodward revela em primeira mão, num relato sem precedentes e com detalhes nunca antes contados, a vida brutal dentro da Casa Branca de Donald Trump, e como ele decide sobre as grandes questões da atualidade política nacional e internacional. Woodward baseia-se em centenas de horas de entrevistas com fontes de informação em primeira-mão, e também em notas de reuniões, diários pessoais, ficheiros e documentos oficiais. O livro conta ainda os debates explosivos e as tomadas de decisão na Sala Oval, na Situation Room, no Air Force One e na residência oficial da Casa Branca.
MEDO é o retrato mais íntimo de um presidente norte-americano em funções alguma vez publicado durante os seus primeiros anos no cargo.


Olha bem para ti antes de querer mudar os outros

'A parábola dos cegos' de Pieter Bruegel, o Velho, séc. XVI



Jesus não tinha papas na língua. Quando queria ensinar algo importante, usava imagens fortes e diretas, como as deste Evangelho (Lucas 6, 39-45). Cegos a guiar cegos, traves nos olhos, árvores que dão frutos podres… Se isto não nos faz pensar, então estamos mesmo distraídos.

Quem te deu carta de condução espiritual?
«Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova?» Claro que sim. Mas quantas vezes nos achamos mestres quando ainda estamos a tropeçar no nosso próprio caminho? Quantas vezes queremos ensinar os outros sem antes termos aprendido?
O mundo está cheio de "guias cegos", pessoas que falam de moralidade mas vivem cheias de contradições, que apontam os erros dos outros mas fecham os olhos aos seus próprios defeitos. Já pensaste se, por acaso, tu também não tens sido assim?

E essa trave no teu olho?
Jesus provoca-nos com uma imagem exagerada de propósito. Imaginar alguém a tentar tirar um cisco do olho do outro enquanto tem uma trave enorme na sua própria vista é quase cómico. Mas é exatamente isso que fazemos quando criticamos os outros sem antes olharmos para nós próprios.
Talvez gostes de corrigir o teu amigo porque ele mente, mas será que és sempre sincero? Talvez julgues quem tem atitudes agressivas, mas será que nunca magoaste ninguém com as tuas palavras?
Jesus não diz que não devemos ajudar os outros a melhorar. Mas antes disso, temos de fazer um exame sério da nossa própria vida. Não basta apontar o erro, é preciso ter autoridade moral para o fazer.

O que tens dentro do coração?
Jesus conclui com outra bomba: «Cada árvore conhece-se pelo seu fruto.» Ou seja, não adianta parecer santo por fora se por dentro estás cheio de podridão. Mais cedo ou mais tarde, o que está no teu coração vai transbordar para as tuas palavras, as tuas atitudes e as tuas escolhas.
Se te alimentas de orgulho, egoísmo e falsidade, não esperes que a tua vida produza frutos bons. Mas se te enraizares em Deus, na oração e na verdade, a tua vida será um reflexo d’Ele.

Então, e agora?
O Evangelho deste domingo é um convite (ou melhor, um abanão) para pararmos de viver de aparências e começarmos a mudança dentro de nós. Antes de quereres ser guia de alguém, certifica-te de que não és cego. Antes de quereres corrigir, trata das tuas próprias falhas. E lembra-te: a tua vida fala mais alto do que qualquer palavra.

Que frutos tens dado ultimamente?


João do Carmo
Catequese e Família




25 fevereiro 2025

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma | 2025

 




Caminhemos juntos na esperança

Queridos irmãos e irmãs!

Com o sinal penitencial das cinzas sobre as nossas cabeças, iniciamos na fé e na esperança a peregrinação anual da Santa Quaresma. A Igreja, mãe e mestra, convida-nos a preparar os nossos corações e a abrir-nos à graça de Deus para podermos celebrar com grande alegria o triunfo pascal de Cristo, o Senhor, sobre o pecado e a morte, como exclamava São Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» ( 1Cor 15, 54-55). Realmente, Jesus Cristo, morto e ressuscitado, é o centro da nossa fé e a garantia da nossa esperança na grande promessa do Pai, já realizada n’Ele, Seu Filho amado: a vida eterna (cf. Jo 10, 28; 17, 3) [1].

Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades.

Antes de tudo, caminhar. O lema do Jubileu – “Peregrinos de Esperança” – traz à mente a longa travessia do povo de Israel em direção à Terra Prometida, narrada no livro do Êxodo: a difícil passagem da escravidão para a liberdade, desejada e guiada pelo Senhor, que ama o seu povo e sempre lhe é fiel. E não podemos recordar o êxodo bíblico sem pensar em tantos irmãos e irmãs que, hoje, fogem de situações de miséria e violência e vão à procura de uma vida melhor para si e para seus entes queridos. Aqui, surge um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode perguntar-se: como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto? Busco caminhos de libertação das situações de pecado e falta de dignidade? Seria um bom exercício quaresmal confrontar-nos com a realidade concreta de algum migrante ou peregrino e deixar que ela nos interpele, a fim de descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai. Esse é um bom “exame” para o viandante.

Em segundo lugar, façamos esta viagem juntos. Caminhar juntos, ser sinodal, é esta a vocação da Igreja [2]. Os cristãos são chamados a percorrer o caminho em conjunto, jamais como viajantes solitários. O Espírito Santo impele-nos a sair de nós mesmos para ir ao encontro de Deus e dos nossos irmãos, e nunca a fechar-nos em nós mesmos [3]. Caminhar juntos significa ser tecelões de unidade, partindo da nossa dignidade comum de filhos de Deus (cf. Gl 3, 26-28); significa caminhar lado a lado, sem pisar ou subjugar o outro, sem alimentar invejas ou hipocrisias, sem deixar que ninguém fique para trás ou se sinta excluído. Sigamos na mesma direção, rumo a uma única meta, ouvindo-nos uns aos outros com amor e paciência.

Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades. Perguntemo-nos diante do Senhor se somos capazes de trabalhar juntos ao serviço do Reino de Deus, como bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos; se, com gestos concretos, temos uma atitude acolhedora em relação àqueles que se aproximam de nós e a quantos se encontram distantes; se fazemos com que as pessoas se sintam parte da comunidade ou se as mantemos à margem [4]. Este é o segundo apelo: a conversão à sinodalidade.

Em terceiro lugar, façamos este caminho juntos na esperança de uma promessa. A esperança que não engana (cf. Rm 5, 5), mensagem central do Jubileu [5], seja para nós o horizonte do caminho quaresmal rumo à vitória pascal. Como o Papa Bento XVI nos ensinou na Encíclica Spe salvi, «o ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” ( Rm 8, 38-39)» [6]. Jesus, nosso amor e nossa esperança, ressuscitou [7] e, vivo, reina glorioso. A morte foi transformada em vitória e aqui reside a fé e a grande esperança dos cristãos: na ressurreição de Cristo!

Eis o terceiro apelo à conversão: o da esperança, da confiança em Deus e na sua grande promessa, a vida eterna. Devemos perguntar-nos: estou convicto de que Deus me perdoa os pecados? Ou comporto-me como se me pudesse salvar sozinho? Aspiro à salvação e peço a ajuda de Deus para a receber? Vivo concretamente a esperança que me ajuda a ler os acontecimentos da história e me impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém seja deixado para trás?

Irmãs e irmãos, graças ao amor de Deus em Jesus Cristo, somos conservados na esperança que não engana (cf. Rm 5, 5). A esperança é “a âncora da alma”, inabalável e segura [8]. Nela, a Igreja reza para que «todos os homens sejam salvos» ( 1Tm 2, 4) e ela própria anseia estar na glória do céu, unida a Cristo, seu esposo. Santa Teresa de Jesus expressou isso da seguinte forma: «Espera, espera, que não sabes quando virá o dia nem a hora. Vela com cuidado, que tudo passa com brevidade, embora o teu desejo faça o certo duvidoso e longo o tempo breve» ( Exclamações, XV, 3) [9].

Que a Virgem Maria, Mãe da Esperança, interceda por nós e nos acompanhe no caminho quaresmal.

Roma, São João de Latrão, na Memória dos Santos mártires Paulo Miki e companheiros, 6 de fevereiro de 2025.

                                                                                FRANCISCO

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[1] Cf. Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 220.

[2] Cf. Homilia na Missa de canonização dos Beatos João Batista Scalabrini e Artemide Zatti, 9 de outubro de 2022.

[3] Cf. Ibid.

[4] Cf. Ibid.

[5] Cf. Bula Spes non confundit, 1.

[6] Carta enc. Spe salvi (30 de novembro de 2007), 26.

[7] Cf. Sequência do Domingo de Páscoa.

[8] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1820.

[9] Ibid., 1821.



21 fevereiro 2025

A lógica do amor sem fronteiras




O ensinamento de Jesus no Evangelho deste domingo (Domingo VII do Tempo Comum - Ano C) desafia-nos profundamente. Ele pede-nos algo que parece contrário à nossa natureza: amar os inimigos, fazer o bem a quem nos odeia, rezar pelos que nos perseguem e retribuir o mal com o bem. À luz da lógica humana, tal atitude pode parecer uma fraqueza ou uma ingenuidade. No entanto, Jesus apresenta-nos um caminho que não é o do mundo, mas o caminho do Reino de Deus.
Este amor radical, que transcende as barreiras do ódio e da vingança, é a expressão mais pura da misericórdia divina. Deus ama sem distinção, faz chover sobre justos e injustos, acolhe com bondade até os ingratos e os maus. É a este amor que somos chamados, um amor que não procura recompensa nem age por interesse.
«Se amais aqueles que vos amam, que agradecimento mereceis?» Esta pergunta de Jesus recorda-nos que a verdadeira grandeza cristã manifesta-se quando conseguimos amar para além dos laços naturais e das afinidades. O amor cristão é um amor gratuito, que não se mede pela reciprocidade, mas pela generosidade de coração.
Jesus convida-nos também a uma atitude de despojamento e confiança: dar sem esperar receber, oferecer a outra face, não reclamar o que nos tiram. Não se trata de passividade ou resignação, mas de uma liberdade interior que nos torna senhores das circunstâncias. Quem age assim não está à mercê do mal, mas vence-o com o bem.
A promessa de Jesus é clara: «A medida que usardes com os outros será usada também convosco». O amor, a misericórdia e o perdão que dispensamos aos outros são a medida com que seremos julgados por Deus. Somos chamados a ser misericordiosos como o Pai, que a ninguém recusa a sua bondade.
Esta passagem desafia-nos a mudar a nossa maneira de pensar e de agir. Perante as ofensas, os conflitos e as injustiças do dia a dia, qual é a nossa resposta? Guardamos ressentimentos ou escolhemos perdoar? Desejamos vingança ou procuramos a reconciliação? Agimos apenas em nosso interesse ou damos generosamente sem esperar retorno?
O cristão é chamado a ser sinal do amor de Deus no mundo. Isso exige coragem, fé e uma profunda confiança na justiça divina. Que o Espírito Santo nos conceda a graça de viver este Evangelho na nossa vida quotidiana, para que, amando como Jesus nos amou, nos tornemos verdadeiramente filhos do Altíssimo.


João do Carmo
Catequese e Família



19 fevereiro 2025

A simplicidade que ilumina



Há vidas que brilham com uma luz própria, discreta e serena, mas que, mesmo assim, iluminam o caminho de muitos. Francisco e Jacinta Marto foram duas crianças de Fátima que, no silêncio dos campos e na simplicidade da oração, aprenderam a escutar Deus. Não eram sábios aos olhos do mundo, mas deixaram-se tocar por um mistério maior do que eles, e essa entrega transformou-os.

A celebração da sua memória, a 20 de fevereiro, recorda-nos que a santidade não é um caminho reservado aos grandes ou aos eruditos. Pelo contrário, é nos pequenos, nos frágeis, nos que sabem confiar sem reservas, que Deus faz morada. Francisco, com o seu desejo de consolar Jesus, encontrava na oração um refúgio onde a alma se aquietava. Jacinta, ardente e sensível ao sofrimento dos outros, oferecia os seus dias como um dom. Nenhum deles buscou a glória, mas ambos viveram com a certeza de que Deus era tudo.

Fátima não é apenas um lugar geográfico; é uma interpelação ao coração. Ao olharmos para estes dois pastorinhos, percebemos que o essencial não está nos grandes feitos, mas na fidelidade ao que é simples. Num tempo onde a infância tantas vezes se perde em ruídos e distrações, Francisco e Jacinta são um convite a redescobrir o silêncio que acolhe, a oração que sustenta, a entrega que dá sentido à vida.

Celebrá-los não é apenas recordar um passado longínquo, mas deixar-se tocar pela atualidade do seu testemunho. Que eles nos ensinem a viver com a confiança de uma criança que, nas mãos de Deus, sabe que tudo é graça.


Ana Conde
Catequese e Família





Francisco e o peso do tempo





Foto: Franco Origlia/Getty Images


O mundo observa com atenção o homem de branco, curvado pelo tempo e pelas dores do corpo, mas ainda de olhar vivo e verbo pronto. O Papa Francisco, um pontífice que desafiou convenções e desconcertou os mais rígidos, vê-se agora prisioneiro daquilo que nenhum poder humano consegue contornar que é a fragilidade da carne.

As últimas notícias vindas do Vaticano falam de uma pneumonia, de um internamento, de um estado "estável", mas complexo. As palavras são cautelosas, calibradas, medidas ao milímetro para não alarmar nem esconder o essencial. O Papa está doente. E, no entanto, a doença de um Papa nunca é um simples caso clínico. É um abalo sísmico na alma de milhões.

Francisco já não é um jovem, nunca o foi enquanto Papa. O seu pontificado começou sob o signo da idade avançada, mas também da energia, da vontade de reformar, de sacudir a poeira dos salões do Vaticano. Com ele vieram a crítica aberta ao clericalismo, a denúncia das hipocrisias, a mão estendida aos pobres e aos marginais. Agora, porém, o corpo falha. A bronquite que se transforma em pneumonia, as limitações respiratórias, as pequenas renúncias diárias à autonomia. As audiências canceladas, as viagens adiadas, a máquina burocrática da Igreja a preparar-se, talvez, para um futuro sem Francisco.

Mas será que a Igreja, essa instituição milenar, está preparada para um novo conclave? Ou, pior ainda, para a possibilidade de uma renúncia? Bento XVI abriu essa porta, e Francisco, que sempre a manteve entreaberta, pode um dia atravessá-la. Já o disse, já o sugeriu, mas a decisão, essa, pertence ao tempo e à providência. E a renúncia de um Papa, por mais que se normalize, nunca será banal.

Em Portugal, como em tantos lugares do mundo, os fiéis rezam. Na Sé de Lisboa, na capela de um hospital de província, nos bancos de madeira polida das igrejas rurais, murmuram-se orações pelo homem que veio do fim do mundo para guiar a barca de Pedro. E mesmo entre os não crentes há um reconhecimento de que Francisco trouxe ao papado uma humanidade palpável, um cheiro a povo e a rua, um registo de proximidade que incomodou os palácios mas conquistou as praças.

O que esperar então? Esperar é, aliás, a palavra certa. Esperar que a medicina cumpra o seu papel, que a fé faça a sua parte, que o tempo se incline, ainda um pouco, perante este homem de 88 anos que, cansado mas lúcido, continua a segurar o peso simbólico de uma Igreja que nunca dorme. Enquanto isso, o mundo observa. E aguarda.



Manuel Sampaio
Catequese e Família



12 fevereiro 2025

“O lobo que encontrou a amizade”




Há dias li este livro aos meus cinco netos. Confesso que deve ser para aí a nona vez que o leio, mas eles gostam sempre da história do lobo Lopo (um trava-língua engraçado) e dos amigos que arranjou e nunca mais esqueceu. A Margarida, a frequentar o 1.º ano, já procura ler histórias aos irmãos e primos, mas como (ainda) lê muito devagar, eles fartam-se à terceira página… Mas a batalha está ganha: todos gostam de “ler” livros, deliciando-se a imaginar as cenas e – espero eu – a assimilar os valores subjacentes à história.

A propósito (ou não) do lobo Lopo, verifico, com preocupação, que os recentes dados publicados pela OCDE sobre o nível de literacia (e numeracia) dos portugueses adultos devia envergonhar-nos. Estamos mesmo muito mal, comparando-nos, claro, com os países desenvolvidos.

Também os resultados dos alunos portugueses em testes internacionais, designadamente o PISA, têm vindo a piorar desde há dez anos. Muitas dificuldades em Matemática e também em Português.

Não é preciso ser professor para reconhecer que muitas das dificuldades da Matemática (e das outras disciplinas) derivam das deficiências na língua portuguesa, pois quando não se sabe interpretar bem uma pergunta, dificilmente se resolve bem a questão.

Vem mesmo a propósito de tudo isto a recente “Carta do Papa Francisco sobre o papel da literatura na educação” (inicialmente pensada para os seminaristas, mas que acabou por se destinar a todas as pessoas), pretendendo estimular o gosto pela leitura, propondo uma nova atitude perante os livros. O Papa refere os “incontestáveis benefícios da leitura de um bom livro” e das consequências positivas que decorrem deste “hábito de ler”, como ajudar a “adquirir um vocabulário mais amplo”, a desenvolver a própria inteligência, a estimular a imaginação e a criatividade, a melhorar a capacidade de concentração “acalmando o stress e a ansiedade”.

Além disto, insiste o Papa, “lendo um texto literário” vemos através dos olhos dos outros, desenvolvemos “o poder empático da imaginação”, “descobrimos que o que sentimos não é só nosso, é universal, e, por isso, até a pessoa mais abandonada não se sente só”.

É claro que falamos de “bons livros”. Devemos, pois, fazer uma seleção, servindo-nos de comentários de amigos e de outros meios. Eu próprio, para me organizar, vou registando num documento digital os livros recomendados por revistas católicas que assino (permitam-me destacar, de entre outras, a Além-Mar, dos Missionários Combonianos, e o já extinto Mensageiro de Santo António, dos Frades Menores Conventuais), ou por comentadores televisivos “de confiança”. A lista, criteriosa (pois nem tudo o que aconselham eu acolho), tem neste momento nada menos nada mais do que 63 sugestões!

O convite à leitura é para todos. Mas se os adultos são mais difíceis de sensibilizar, há que apostar, especialmente, nos mais novos. Se, desde bebés, as crianças ouvirem ler livros de histórias e se virem os seus pais também a ler, está facilitado o caminho para estas crianças adquirirem o gosto da leitura. Não “por obrigação”, mas por “gozo”. E quem gosta de ler, também com mais facilidade saberá estudar (que, quer queiramos quer não, exige a leitura). E embora também possamos ler livros e revistas e jornais (como o Jornal da Família) através de um dispositivo móvel (normalmente o telemóvel), pelo menos as crianças devem habituar-se a ler documentos impressos. Até nós, adultos com cabelos pretos ou grisalhos (ou sem cabelo), gostamos mais de sentir o papel nas nossas mãos, fazer anotações ou mesmo sublinhar o mais importante…

Perante a “onipresença dos meios de comunicação social, das redes sociais, dos telefones celulares e de outros dispositivos” (Papa Francisco), fiquemos com este compromisso de ler mais e, sobretudo, de fazer os nossos filhos e netos lerem mais, não esquecendo de os estimular na leitura de trechos bíblicos, orações e outras leituras adequadas às suas idades. E, porque não, oferecermos-lhes a assinatura de revistas juvenis, como por exemplo a Audácia, como eu faço desde há muito?

Bem, e o Lopo? Não, não me esqueci dele… A sua história de vida – atribulada (porque além de “lobo”, era mais pequeno do que os seus semelhantes) – na busca da amizade termina assim: “Fiel à sua palavra, o Lopo mudou para melhor. O seu mundo é agora mais amistoso e acolhedor. Pois se algum dia na vida estivermos perdidos sabemos que podemos contar com os nossos amigos”.

Boas leituras!



Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de fevereiro de 2025 do Jornal da Família