30 abril 2025

Maria, presença que acompanha



Há meses que falam mais alto. Maio é um desses meses.

É como se a terra inteira florescesse para nos lembrar que há uma beleza escondida no mundo, e também em nós, à espera de ser revelada. E a Igreja, com a sabedoria das mães, escolheu este mês para recordar Maria. Não porque precise de ser lembrada, mas porque nós precisamos de aprender a olhar para ela.

Maria é a mulher do silêncio, do escondimento, da escuta. É fácil passar por ela sem dar conta. Mas quando a deixamos entrar, percebemos que o seu modo de amar, de confiar, de estar com Deus, pode transformar o modo como olhamos para tudo.

Maria não é apenas uma figura de vitral. É uma mulher real, que soube viver os dias comuns com uma fé extraordinária. Uma jovem que não fugiu ao medo, mas ofereceu-se a uma promessa maior do que ela.

Quando dizemos que Maio é o mês de Maria, dizemos que também nós queremos aprender a estar mais atentos à voz de Deus. Queremos, como ela, guardar as coisas no coração. Não para nos fecharmos, mas para escutarmos melhor o que Deus tem para nos dizer. Talvez através de um amigo, de um acontecimento simples, de um silêncio que se alonga.

Maria ensina-nos a caminhar na fé, mesmo sem mapa. A confiar quando tudo parece escuro. A amar quando o mundo nos ensina a desistir. Ela é presença materna, não para nos substituir, mas para nos ajudar a crescer por dentro.

Rezar o Terço, neste mês, pode parecer uma coisa repetitiva. Mas é nessa repetição que muitas vezes se faz lugar a Deus. Como as ondas do mar que tocam a areia vezes sem conta é assim que Maria nos vai abrindo ao mistério. Com paciência, com suavidade, com ternura.

E talvez isso seja tudo o que precisamos agora: uma presença que não grite, mas que nos segure. Um amor que nos diga, sem palavras, que não estamos sozinhos.

Maio passa depressa. As flores murcham. O tempo corre. Mas Maria permanece.
Como uma memória de Deus no coração humano.


Ana Conde
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com


Oraço a Maria

Ó Maria,
Vós sempre resplandeceis sobre o nosso caminho
como um sinal de salvação e de esperança.
Confiamo-nos a Vós, Saúde dos Enfermos,
que permanecestes, junto da cruz, associada ao sofrimento de Jesus,
mantendo firme a vossa fé.

Vós, Salvação do Povo Romano,
sabeis do que precisamos
e temos a certeza de que no-lo providenciareis
para que, como em Caná da Galileia,
possa voltar a alegria e a festa
depois desta provação.

Ajudai-nos, Mãe do Divino Amor,
a conformar-nos com a vontade do Pai
e a fazer aquilo que nos disser Jesus,
que assumiu sobre Si as nossas enfermidades
e carregou as nossas dores
para nos levar, através da cruz,
à alegria da ressurreição. Amen.

À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas na hora da prova
mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.
 
Papa Francisco



26 abril 2025

Domingo da Divina Misericórdia




No segundo domingo da Páscoa, a Igreja inteira celebra com alegria o Domingo da Divina Misericórdia, uma festa que nos foi dada por São João Paulo II no ano 2000, durante a canonização de Santa Faustina Kowalska. Naquele dia, ele proclamou que, a partir daquele momento, este domingo seria dedicado de modo especial à misericórdia de Deus, esse grande coração que nunca se cansa de nos perdoar.

Santa Faustina, uma humilde religiosa polaca, foi escolhida pelo Senhor para recordar ao mundo esta verdade tão simples e tão essencial: Deus é misericórdia. No seu diário, ela deixou escrito o que Jesus lhe confiou: que o primeiro domingo depois da Páscoa deveria ser uma celebração da Misericórdia Divina, um tempo de graça para todos aqueles que se aproximassem da Eucaristia com coração arrependido e cheio de confiança.

Pouco depois, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, no dia 23 de maio de 2000, confirmou oficialmente esta festa para toda a Igreja, incluindo esta celebração no Missal Romano.

E para nos encorajar ainda mais a confiar na misericórdia de Deus, São João Paulo II concedeu a indulgência plenária a todos os que, neste domingo, participassem de práticas devocionais em honra da Misericórdia Divina, cumprindo as condições habituais: confissão, comunhão e oração pelas intenções do Santo Padre.

Celebrar o Domingo da Divina Misericórdia é abrir o coração ao perdão do Pai, confiar na sua bondade sem limites e aprender a estender a mão ao próximo com o mesmo amor que recebemos. É um convite a deixar que a misericórdia de Deus renove a nossa vida e transforme o mundo com gestos concretos de amor.


Ana Conde
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com





25 abril 2025

Liberdade e Libertinagem: a subtil mas decisiva diferença





Vivemos tempos curiosos. Fala-se tanto de liberdade que quase nos esquecemos do que ela é. A palavra tornou-se moda, bandeira, desculpa, escapatória. Em nome da liberdade, proclama-se que tudo é válido: cada impulso, cada capricho, cada vontade momentânea. Mas será isto liberdade, ou apenas libertinagem disfarçada?

A verdadeira liberdade é uma coisa exigente. É, na verdade, uma conquista diária. Nasce da capacidade de escolher bem, de pensar antes de agir, de respeitar não apenas os meus direitos mas também os direitos dos outros. A liberdade, para ser digna do nome, obriga a consciência, impõe responsabilidade, pede maturidade.

Libertinagem, pelo contrário, é a versão preguiçosa da liberdade: "faço o que quero, como quero, quando quero" - e que se lixem as consequências. É o triunfo do impulso sobre a razão, do egoísmo sobre a convivência, do imediatismo sobre o futuro. Uma liberdade sem critério, sem lei e sem moral, acaba - ironicamente - por aprisionar. Quem se deixa guiar apenas pelo desejo é, no fundo, escravo dos seus próprios caprichos.

É fácil confundir liberdade com libertinagem numa época que desconfia de tudo o que tenha sabor a norma, autoridade ou obrigação. Mas a verdade, essa coisa teimosa, permanece. Ninguém é verdadeiramente livre se não souber dominar-se. Quem é incapaz de dizer "não" a si próprio já perdeu a liberdade que julgava ter.

O Papa Francisco disse, num dos seus discursos à Europa, que "uma liberdade sem limites é uma nova forma de escravidão". E é. Basta olhar para quem, em nome da liberdade absoluta, destruiu a saúde, a família ou a própria vida. A liberdade é uma corda bamba. Se quisermos atravessar para o outro lado sem regras, sem treino e sem cuidado, a queda é certa.

Por isso, talvez nos devêssemos lembrar de uma verdade simples e antiga: ser livre não é fazer tudo o que me apetece. É ser capaz de escolher o que é bom, mesmo quando não é o mais fácil. E, às vezes, o maior ato de liberdade é saber dizer "não" - aos outros e a nós próprios.


Natália Matos
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



24 abril 2025

A Política dos Likes


AP - Armando Franca



Vivemos numa era em que os algoritmos parecem ter mais poder do que as ideologias, e os likes substituíram os votos como termómetro da popularidade. A política deixou de ser construída nas praças, nos parlamentos e nos programas eleitorais. Hoje, a arena pública migrou para os ecrãs dos smartphones, onde um tweet vale mais que um discurso estruturado e um vídeo viral tem mais impacto do que um debate parlamentar.

O fenómeno não é novo, mas tem vindo a assumir proporções preocupantes. Donald Trump, atualmente no seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, continua a utilizar as redes sociais como principal meio de comunicação, apesar das críticas crescentes sobre a eficácia e legalidade das suas políticas.

A extrema-direita mundial soube colher os frutos deste novo ecossistema. Ao invés de debater ideias, prefere disseminar slogans simples, emocionalmente carregados e facilmente partilháveis. Em Portugal, esta estratégia começa a dar sinais de crescimento. Partidos como o Chega têm apostado fortemente nas redes sociais para construir uma imagem de "proximidade" e "autenticidade", ao mesmo tempo que difundem discursos polarizadores, muitas vezes desprovidos de factos ou contexto.

Num país onde a literacia mediática ainda é frágil, esta tática tem potencial destrutivo. Através de vídeos curtos, memes ou lives, constroem-se narrativas que apelam ao medo, ao ressentimento e ao preconceito. E, infelizmente, têm audiência. O algoritmo favorece o conteúdo que gera reações, e nada provoca mais reações do que a indignação. A verdade, essa, fica para segundo plano - quando chega a entrar em campo.

Mas o problema não é exclusivo da extrema-direita. Muitos políticos, independentemente do espectro ideológico, rendem-se à lógica das redes. Preferem a selfie num mercado à proposta orçamental, o tweet indignado à negociação política. A política-espetáculo substitui a política de propostas, e os cidadãos, transformados em seguidores, confundem visibilidade com competência.

É urgente resgatar a política como espaço de reflexão, construção e responsabilidade. As redes sociais são ferramentas, e como todas as ferramentas, podem ser usadas para construir ou para destruir. A democracia exige mais do que emojis e partilhas. Exige pensamento crítico, compromisso e verdade. Governar não é influenciar, é servir.


Natália Matos
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com




22 abril 2025

O Conclave, passo a passo

MAURIX/Gamma-Rapho via Getty Images


O Conclave é o processo através do qual é eleito um novo Papa da Igreja Católica. A palavra conclave vem do latim cum clave, que significa “com chave”, referindo-se ao facto de os cardeais eleitores ficarem trancados até escolherem o novo pontífice. O conclave só pode ter início passado 15 dias da morte do Papa. Pode, porém, esperar-se, no máximo, até ao 20.º dia, caso alguns cardeais não estejam ainda em Roma.
Existe um ritual que dá início ao Conclave. Logo na primeira manhã os cardeais celebram uma missa na Basílica de São Pedro. Trata-se de uma cerimónia chamada de “Missa Pro Eligendo Papa”. À tarde, encontram-se todos na Capela Paulina e vão juntos para a Capela Sistina. De um local para outro deslocam-se em procissão e a cantar o hino da Igreja Católica ao Espírito Santo (Veni Creator).


Eis os passos para a eleição de um novo Papa:

📌 1. Sede Vacante

O Conclave só ocorre quando a Sé Apostólica está vazia (Sede Vacante), seja por falecimento do Papa ou por renúncia (como aconteceu com Bento XVI em 2013).

- O Colégio Cardinalício assume a governação da Igreja, mas só para os assuntos de administração ordinária.
- Todas as decisões importantes são suspensas até à eleição de um novo Papa.

Fonte: Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis (UDG), João Paulo II, 1996


📌 2. Convocação dos Cardeais

- Todos os cardeais com menos de 80 anos (os cardeais eleitores) são convocados para participar na eleição. Temos seis cardeais portugueses em Roma. Quatro são eleitores: António Marto, Manuel Clemente, Tolentino de Mendonça e Américo Aguiar.
- Reúnem-se em Roma e participam nas chamadas Congregações Gerais para tratar dos preparativos.

Fonte: UDG, n.º 33 e 37


📌 3. Encerramento do Conclave

Os cardeais são trancados na Capela Sistina (ou noutro local adequado) e não podem ter qualquer contacto com o exterior.
É feito um juramento de segredo absoluto:
“Sobretudo prometemos e juramos observar, com a máxima fidelidade e com todos, tanto clérigos como leigos, o segredo acerca de tudo aquilo que, de algum modo, disser respeito à eleição do Romano Pontífice e sobre aquilo que suceder no lugar da eleição, concernente direta ou indiretamente ao escrutínio”

Fonte: UDG, n.º 48 - 55


📌 4. Eleição

- São feitas votações secretas. Cada cardeal escreve o nome do candidato escolhido num boletim.
Cada cardeal recebe uma ficha de papel de forma retangular onde está escrito na parte superior “Eligo in Summum Pontificem” (“Escolho para Sumo Pontífice”). Já a parte inferior está em branco, sendo o local onde cada um escreve o nome do escolhido. Depois de se distribuírem as fichas de papel pelos cardeais, um a um vai até ao altar, onde está a urna. As fichas são dobradas duas vezes e colocadas na urna, onde são todas misturadas. Depois contam-se e apuram-se os votos. Antes de se iniciar a votação são escolhidos, à sorte, três cardeais que irão ficar responsáveis pela recolha e contagem dos votos (chamados de escrutinadores). São também selecionados outros três para confirmar esta contagem (chamados de revisores) e outros três ainda para recolherem os votos dos cardeais doentes que não se podem deslocar até à urna.
- São necessárias 2 votações de manhã e 2 à tarde (4 por dia).
- Para ser eleito Papa, o candidato precisa de 2/3 dos votos.

Fonte: UDG, n.º 62 - 66


📌 5. Fumo Preto ou Branco

- Os boletins são queimados após cada votação.
- Fumo preto (misturado com produtos químicos) significa que não houve eleição.
- Fumo branco significa que um novo Papa foi eleito.

Fonte: Vaticano News e UDG, n.º 70


📌 6. Aceitação do Eleito

- O candidato eleito é questionado: "Aceitas a tua eleição canónica como Sumo Pontífice?"
- Se aceitar, é imediatamente o novo Papa, mesmo antes da proclamação pública.

Fonte: UDG, n.º 87


📌 7. Escolha do Nome

- O novo Papa escolhe o nome pelo qual será conhecido.
- Em seguida, troca de vestes e é conduzido à Sala das Lágrimas para se preparar.


📌 8. Proclamação e Primeira Bênção

- O Cardeal Protodiácono anuncia ao povo na Praça de São Pedro:
"Habemus Papam!" (Temos Papa!)
- O novo Papa aparece na varanda da Basílica de São Pedro e dá a sua primeira bênção:
Urbi et Orbi (à cidade e ao mundo).

Fonte: UDG, n.º 89




O Papa Francisco e Portugal



O Papa veio duas vezes. Chegou como quem vem de longe, mas trouxe o olhar de quem reconhece os lugares antes de os pisar. Em 2017, veio primeiro. O céu de Fátima acolheu-o como se o esperasse desde sempre. As mãos apertadas dos que rezavam tremiam. Havia silêncio no coração do rumor. Era maio. Era o centenário. Era memória, promessa e dor a aquecerem-se juntas no lume da fé.

Francisco, o homem de branco, canonizou duas crianças - tão leves, tão pequenas, mas com uma fé que segurava o mundo. Francisco e Jacinta Marto: agora santos, agora eternos. A mensagem da Senhora ressoava nas pedras da Cova da Iria e nas almas dos que ainda acreditam no poder suave da oração. Francisco não precisou de levantar a voz: bastou-lhe estar ali, corpo e espírito, presença inteira. E, nessa presença, Portugal ajoelhou-se - não por submissão, mas por amor.

Seis anos depois, em 2023, voltou. E foi Lisboa que o recebeu com braços abertos, ruas em festa, rostos jovens como o primeiro dia do mundo. A cidade acendeu-se de vozes e passos, e cada um dos que vieram trazia no peito uma esperança acesa. Era a Jornada Mundial da Juventude. E Francisco olhava-os como se visse neles o princípio de tudo. Disse: "Na Igreja há espaço para todos, todos, todos" - e essa repetição ficou a pairar como uma melodia antiga, uma verdade que ainda estamos a aprender a acreditar.

Foi ao Bairro da Serafina, onde o concreto tem memória e as janelas conhecem a luta. Rezou com os doentes, tocou o sofrimento com mãos que não julgam. Veio como quem sabe que o Evangelho começa nas margens.

Estas duas visitas foram como páginas do mesmo livro: uma escrita com lágrimas e silêncio, outra com música e futuro. Fátima foi o sussurro da fé, Lisboa, o grito alegre da esperança. E em ambas, o Papa, com a sua maneira de caminhar devagar, mostrou que o amor verdadeiro não tem pressa.

Portugal ouviu-o. E, por instantes, acreditou mais no que pode ser.


Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



João Paulo II e Francisco - Uma coincidência de Abril





Foi em abril.
Abril, esse mês onde a luz começa a vencer os últimos restos do inverno.
Abril, o mês que aprende a dizer adeus com flores a abrir nas árvores.
Abril, o mês em que João Paulo II e Francisco partiram.
Vinte anos e dezenove dias a separar os dois silêncios.

João Paulo II.
O corpo curvado pelo tempo, a alma feita de ferro e de oração.
Um homem que atravessou a história como quem caminha dentro de um incêndio - sem fugir, sem se esconder.
As multidões gritavam o seu nome, mas ele escutava mais alto a voz de Deus.
Morreu a 2 de abril.
Naquela tarde, o mundo ficou um pouco mais quieto.
A sua mão, que já tremia, descansou.
E, ao longe, ouviu-se a palavra misericórdia.

Francisco.
Outro homem, outro gesto.
Menos muralha, mais abraço.
Era o papa dos gestos pequenos, dos sorrisos com rugas, das palavras que desarmavam.
Tinha nos olhos uma espécie de cansaço belo, como quem carrega o peso de todos os pobres.
Partiu a 21 de abril.
E a sua ausência foi um vento a passar nas folhas.
Leve, mas impossível de ignorar.

Dois papas.
Duas vidas feitas entrega.
Ambos em abril, como se Deus os tivesse chamado na mesma estação, para que o céu se enchesse do perfume da sua fidelidade.
Vinte anos entre um e outro e ainda assim, tão próximos.
Na memória.
Na fé.
No silêncio onde agora habitam.

Abril, depois disto, já não será só primavera.
Será também saudade e gratidão.
Será também oração.


Natália Matos
Catequese e Família


21 abril 2025

Papa Francisco: o Evangelho feito gesto





Há vidas que não passam, mesmo quando deixam de respirar entre nós. A de Jorge Mario Bergoglio - o Papa Francisco - é uma dessas. Nascido nas margens do mundo, em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, e chamado ao descanso eterno a 21 de abril de 2025, ele foi, mais do que um pontífice, um pastor com o cheiro das ovelhas, um profeta com os pés na terra e o coração no Céu.
Na sua voz escutámos o murmúrio do Evangelho feito carne e gesto. Na sua vida, tocámos a urgência de uma Igreja que se abaixa, que escuta, que cuida. Ele não quis ser um príncipe, ele escolheu ser servo. Preferiu a simplicidade dos corredores da Casa de Santa Marta à solenidade dos palácios. E foi nesse despojamento que reencontrou o rosto de Cristo.
Francisco foi o Papa do abraço. Dos migrantes, dos pobres, dos doentes, dos esquecidos e até da Criação. Com Laudato Si’, ensinou-nos que a Terra geme connosco, e que a ecologia verdadeira é espiritual. Com Amoris Laetitia, convidou-nos a olhar a família com misericórdia e realismo. E com a sua vida inteira, mostrou que a ternura é uma forma de resistência.
Não foi um tempo fácil o seu. Carregou o peso dos silêncios e das sombras da Igreja, enfrentou crises, reformou estruturas, e sobretudo, abriu portas. Mais do que doutrinas, ofereceu proximidade. Mais do que respostas, fez perguntas. E nas perguntas, devolveu-nos o desejo de Deus.
Morreu como viveu, em silêncio e simplicidade. A morte visitou-o na manhã de uma primavera romana, mas o que floresce hoje, em tantos corações, é a gratidão por um homem que foi ponte, que foi casa, que foi pão partido.
Os pobres, seus prediletos, chorarão a sua ausência. Mas nas periferias do mundo, o seu nome continuará a ser sussurrado como oração. Os grandes da Terra prestar-lhe-ão homenagens, mas o verdadeiro tributo virá dos pequenos, dos humildes, dos que, por sua causa, voltaram a acreditar que a Igreja é também a sua casa.
Francisco será lembrado como aquele que fez da alegria uma teologia, da misericórdia uma política, da escuta uma forma de governo. Como aquele que não teve medo da fragilidade - nem da sua, nem da dos outros.
Hoje, mais do que fazer a sua biografia, fazemos memória. E a memória, quando feita com amor, é sacramento. O seu legado não é uma pedra no Vaticano, é uma brisa no rosto dos que sofrem, é uma mão estendida no escuro, é um olhar que diz: “Não tenhas medo, Deus está contigo.”

Descanse em paz, Francisco. E que o Céu se alegre com o teu sorriso.


Manuel Sampaio
Catequese e Família




11 abril 2025

Semana Santa: O Coração do Mistério Cristão


A Semana Santa é o ponto culminante do ano litúrgico da Igreja Católica. Celebrada desde os primeiros séculos do cristianismo, esta semana conduz os fiéis ao mistério central da fé cristã: a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 571). É um tempo sagrado, não apenas de memória, mas de participação viva no mistério da redenção.

O significado da Semana Santa

A Semana Santa começa no Domingo de Ramos, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11). Esta celebração introduz o paradoxo cristão: o mesmo povo que aclama Jesus como Rei será, dias depois, aquele que gritará "Crucifica-O!" (cf. Mt 27,22-23). Esta tensão revela a profundidade do amor de Deus, que escolhe entregar-Se por um povo volúvel e pecador.

Nos dias seguintes, a Igreja propõe uma caminhada espiritual que culmina no Tríduo Pascal:

- Quinta-feira Santa, com a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, na Última Ceia (cf. Lc 22,19-20; Jo 13,1-15);

- Sexta-feira Santa, dia da Paixão e Morte do Senhor, marcada pelo silêncio, pela adoração da cruz e pela meditação da entrega de Jesus até ao fim (cf. Jo 19);

Sábado Santo, tempo de espera e silêncio, que antecede a alegria da Vigília Pascal, onde a luz da Ressurreição rompe as trevas da morte (cf. Mc 16,1-8).

Importância Espiritual para os Católicos

A Semana Santa não é apenas uma recordação histórica. Como ensina o Papa Bento XVI, "as celebrações litúrgicas não são simples representações de eventos passados, mas tornam presente aquele Mistério" (cf. Homilia, 5 de Abril de 2007, Vaticano). Através da liturgia, o fiel é introduzido no próprio mistério pascal, sendo chamado a morrer para o pecado e a ressurgir com Cristo para uma vida nova (cf. Rm 6,3-4).

A participação consciente e piedosa nos ritos da Semana Santa transforma o coração do crente. Como afirma o Papa Francisco: "A Páscoa de Jesus não é um evento do passado; com o poder do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos olhar e tocar com fé a carne de Cristo em tantos irmãos e irmãs que sofrem" (cf. Evangelii Gaudium, n. 24).

Uma Caminhada de Conversão e Amor

Para os católicos, a Semana Santa é também um tempo de conversão, de confissão dos pecados e de retorno sincero ao Evangelho. A oração, o jejum e a caridade são práticas intensificadas, lembrando que não há verdadeira celebração da Páscoa sem o amor concreto ao próximo (cf. Mt 25,31-46).

Conclusão

A Semana Santa é o "coração do ano litúrgico" (cf. Missal Romano, Introdução), pois nela se manifesta o maior ato de amor da história. Deus entrega-Se para salvar a humanidade. Ao participar plenamente desta semana, o cristão renova o seu compromisso com Cristo, abraça a cruz e caminha com esperança rumo à Ressurreição.



Senhor Jesus Cristo,
Nesta Semana Santa, aproximamo-nos de Ti com corações humildes e contritos. 
Abre os nossos olhos para compreendermos o mistério da Tua Paixão, Morte e Ressurreição.
Concede-nos a graça de Te acompanharmos em cada passo do caminho, 
desde a entrada triunfal em Jerusalém até ao sepulcro vazio.
Que a Tua dor seja a nossa dor, que o Teu sacrifício nos inspire a amar e a servir os nossos irmãos.
Ilumina a nossa mente para meditarmos nas Tuas palavras e nos Teus ensinamentos, 
e fortalece a nossa vontade para seguirmos os Teus exemplos.
Que a Tua ressurreição seja a nossa esperança, 
a certeza de que o amor vence a morte e de que a vida eterna é a nossa promessa.
Amém.


Ana Conde e João do Carmo
Catequese e Família


10 abril 2025

O que se passa com os rapazes?



Portugal parece gostar da estatística silenciosa. Aquela que assusta, mas que não se ouve nos cafés, nem se comenta no intervalo das escolas. Uma mulher morta em contexto de violência doméstica? Não é novidade. Uma rapariga violada por um grupo de rapazes? Já vimos pior. Uma adolescente controlada pelo namorado via localização em tempo real? Os pais até acham que é “porque ele gosta dela”. A banalização da barbárie tornou-se um hábito cultural.

A pergunta que se repete - o que se passa com os rapazes? - não é inocente. É, aliás, reveladora. Revela que não sabemos - ou não queremos saber - o que estamos a construir. Educamos os rapazes como se ainda estivéssemos num país onde o machismo é uma espécie de património imaterial. E depois surpreendemo-nos com os resultados. É o mesmo espanto hipócrita de quem semeia tempestades e se admira da violência do vento.

Crescem num mundo onde a pornografia está à distância de um toque e onde a virilidade se mede por likes e seguidores. O modelo masculino continua a ser o do dominador, não o do cuidador. O “machão”, o “alfa”, o que não chora, não hesita, não escuta. O que tem direito ao corpo da mulher porque a cultura lho deu - através da música, do cinema, da publicidade, e até, muitas vezes, do silêncio cúmplice dos adultos.

Estes rapazes não nascem monstros. São feitos. Forjados em ambientes que lhes dizem, subtilmente, que podem tudo. Que uma rapariga que diz “não” está a dizer “talvez”. Que uma mulher que se veste “de forma provocadora” está a pedir para ser olhada - e talvez tocada. Que a emoção é fraqueza e que o amor exige posse. E se o amor falha, há sempre a raiva.

Vivem-se tempos em que muitos pais e educadores ainda têm medo de “feminizar” os rapazes. Evitam falar-lhes de emoções, de limites, de igualdade. Preferem deixá-los entregar-se a um universo virtual onde a mulher é objeto, desafio ou troféu. Nunca sujeito. Nunca igual. Os resultados estão à vista: a violência no namoro aumentou; os comportamentos controladores são naturalizados; e os discursos de ódio contra mulheres, feministas e até vítimas, fazem carreira nas redes sociais.


E o Estado? Tímido. As campanhas existem, sim, mas não chegam. São notas de rodapé num sistema educativo que ainda separa cidadania da vida real. Que trata a educação sexual como um tema técnico, asséptico, desprovido de ética, como se fosse possível falar de sexo sem falar de respeito. Falta coragem política e visão pedagógica.

Precisamos de ir mais longe. De ensinar que masculinidade não é dominação, que desejo não é consumo, e que amor não é vigilância. De dizer, sem rodeios, que quem bate, quem viola, quem humilha, não é homem - é o produto falhado de uma sociedade cúmplice.

O combate à violência contra mulheres não é um problema das mulheres. É, sobretudo, um problema dos homens. Mais ainda: é um problema dos rapazes que estamos hoje a educar - ou a deixar à deriva. Porque enquanto não os educarmos para a igualdade, para o respeito e para a empatia, estaremos todos em risco. E as mulheres continuarão a morrer às mãos de homens que nunca souberam o que era amar.


Catarina Pereira e Manuel Sampaio
Catequese e Família