23 outubro 2025

A graça sobre rodas

Há vitórias que não cabem apenas no pódio. São metáforas de um país inteiro, do seu jeito de ser discreto e, no entanto, teimosamente luminoso. Madalena Costa, campeã do mundo de patinagem artística — leiam devagar, deixem as palavras assentar —, é a primeira portuguesa a alcançar o topo do mundo num desporto onde a perfeição não se mede apenas em pontos, mas em graciosas voltas de coragem. Pequim, o outro lado do planeta, viu erguer-se uma bandeira que raramente se vê nas pistas de gelo, ou neste caso, nas pistas de brilho.
Portugal é um país que patina sobre as suas próprias incertezas. Falta-nos chão, equilíbrio, impulso. Mas quando uma jovem como Madalena Costa desliza para a história com 260.15 pontos, o país lembra-se de que é capaz. E não está sozinha: Diogo Craveiro, bronze masculino, e Rita Azinheira, campeã júnior, somam-se a esta constelação de nomes que brilham onde raramente chega a luz mediática. João Cruz, outro bronze, completa o quarteto que transforma a patinagem artística numa arte nacional, ainda que por instantes.

Há qualquer coisa de poético nestes atletas. Enquanto o país discute a política e o preço da gasolina, eles treinam em silêncio, repetem movimentos até à exaustão, procuram a harmonia perfeita entre o corpo e a música. São o contrário da pressa e do ruído. São a persistência, o equilíbrio e a elegância que nos faltam no quotidiano.
E talvez seja essa a lição de Madalena e dos seus companheiros: o mundo não se conquista apenas com força, mas com beleza. Não é a pressa que nos leva longe, mas a cadência certa de quem sabe cair e levantar-se, cair e levantar-se outra vez — até que o chão se transforme em palco.
Portugal, esse país de fadistas e navegadores, acaba de descobrir que também sabe dançar sobre rodas. E, por uma vez, não tropeça. Desliza.


Maria Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



22 outubro 2025

Leão XIV destaca Newman como inspiração para a educação católica





O Papa Leão XIV vai proclamar São João Henrique Newman padroeiro da educação católica, juntamente com São Tomás de Aquino, num documento a ser publicado a 28 de outubro, por ocasião dos 60 anos da Gravissimum educationis, declaração do Concílio Vaticano II sobre a educação cristã.
O anúncio foi feito esta quarta-feira, 22 de outubro, pelo cardeal português José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, que descreveu Newman como “um educador extraordinário e grande inspiração para a filosofia da educação”.
A designação será oficializada durante o Jubileu do Mundo Educativo, que decorrerá no Vaticano entre 27 de outubro e 1 de novembro e deverá reunir cerca de 20 mil peregrinos. Na missa de encerramento, na solenidade de Todos os Santos, Leão XIV declarará também São João Henrique Newman o 38.º doutor da Igreja.
O Papa publicará ainda, a 28 de outubro, um documento dedicado ao 60.º aniversário da Gravissimum educationis, que, segundo o cardeal Tolentino, “refletirá sobre a atualidade da declaração e sobre os desafios que a educação deve enfrentar hoje, em particular nas escolas e universidades católicas”.
Tolentino sublinhou que o texto conciliar é “um documento fundamental com forte impacto na visão contemporânea da educação”, assinalando que representou “uma mudança importante na linguagem e na mentalidade, passando a compreender a escola não apenas como instituição, mas como comunidade educativa”.
No novo documento, o Papa Leão XIV afirma que a Gravissimum educationis “não perdeu nada da sua força” e que dela “nasceu uma constelação de obras e carismas... uma herança espiritual e pedagógica capaz de atravessar o século XXI e responder aos desafios mais urgentes”.
Segundo o Papa, essa herança “é uma bússola que continua a apontar o caminho”, num tempo em que “mudanças rápidas e profundas expõem crianças, adolescentes e jovens a uma fragilidade sem precedentes”. Por isso, escreve, “não basta preservar: é preciso relançar”.
Leão XIV apela às instituições de ensino que “inaugurem uma nova temporada que fale ao coração das novas gerações, recompondo conhecimento e significado, competência e responsabilidade, fé e vida”.
Atualmente, segundo dados divulgados pela Santa Sé, existem 230 mil escolas e universidades católicas em 171 países, que acolhem cerca de 72 milhões de estudantes.





Francisco Pinto Balsemão, o homem que acreditava nas palavras




Há nomes que parecem pertencer mais ao tempo do que às pessoas. Francisco Pinto Balsemão é um desses nomes. Uma espécie de metáfora viva do país que quis crescer depressa demais e, ainda assim, preservar alguma decência. Não foi apenas o empresário de comunicação que fundou jornais e televisões, nem apenas o político discreto que ocupou, com contenção e sentido de dever, o cargo de primeiro-ministro num tempo de transição e incerteza. Foi, acima de tudo, um jornalista no sentido mais nobre e antigo da palavra: aquele que acredita que a liberdade de informar é uma forma de resistência.
Na sua geração, ser jornalista não era um ofício; era uma profissão de fé. Havia uma crença quase teimosa de que a palavra escrita podia moldar consciências e, com sorte, mudar o país. Balsemão nunca abandonou essa crença. Mesmo quando o poder político lhe caiu sobre os ombros, manteve o olhar de quem procura a verdade e o ouvido de quem escuta o murmúrio das ruas. No seu legado, o Expresso surge como um monumento à liberdade: uma casa feita de papel e ideias, onde se discutiu o futuro com a serenidade de quem sabe que a democracia é um exercício diário e imperfeito.
Num tempo em que o ruído tomou o lugar da palavra e a rapidez substituiu a reflexão, a figura de Balsemão parece quase anacrónica - e, por isso mesmo, necessária. Representa a velha escola do jornalismo que não se rende ao espetáculo, que prefere perder leitores a perder credibilidade, que acredita que a liberdade não é apenas um direito, mas uma responsabilidade moral.
O seu maior legado talvez seja esse: ter mostrado que a independência não se negocia, que o poder precisa sempre de quem o questione, e que o jornalismo, quando é feito com coragem e rigor, continua a ser uma das formas mais puras de cidadania.
Francisco Pinto Balsemão foi - e continuará a ser - o exemplo de que a palavra pode, ainda, ser um ato de coragem.



Maria Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



19 outubro 2025

«Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»




Queridos irmãos e irmãs,
a pergunta que encerra o Evangelho acabado de proclamar abre esta nossa reflexão: «Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» (Lc 18, 8). Esta interrogação revela-nos o que é mais precioso aos olhos do Senhor: a fé, ou seja, o vínculo de amor entre Deus e o ser humano. Hoje, temos precisamente diante de nós sete testemunhas, os novos santos e as novas santas, que mantiveram acesa, com a graça de Deus, a lâmpada da fé, ou melhor, tornaram-se eles mesmo lâmpadas capazes de difundir a luz de Cristo.

Em relação aos grandes bens materiais e culturais, científicos e artísticos, a fé sobressai não porque estes se devam desprezar, mas porque sem fé perdem sentido. A relação com Deus é da maior importância porque Ele, no início dos tempos, criou todas as coisas do nada e, no tempo, salva do nada tudo o que simplesmente acaba. Uma terra sem fé seria povoada por filhos que vivem sem Pai, ou seja, por criaturas sem salvação.

Eis por que Jesus, o Filho de Deus feito homem, se interroga sobre a fé: o que aconteceria se ela desaparecesse do mundo? O céu e a terra permaneceriam como antes, mas não haveria mais esperança nos nossos corações; a liberdade de todos seria derrotada pela morte; o nosso desejo de vida precipitaria no nada. Sem fé em Deus, não podemos ter esperança na salvação. Por isso, a pergunta de Jesus inquieta-nos, sim, mas só se esquecemos que é o próprio Jesus que a pronuncia. Com efeito, as palavras do Senhor permanecem sempre Evangelho, ou seja, alegre anúncio de salvação. Esta salvação é o dom da vida eterna que recebemos do Pai, por meio do Filho, com a força do Espírito Santo.

Caríssimos, é precisamente por isso que Cristo fala aos seus discípulos «sobre a obrigação de orar sempre, sem desfalecer» (Lc 18, 1): tal como não nos cansamos de respirar, também não nos cansemos de orar! Do mesmo modo que a respiração sustenta a vida do corpo, a oração sustenta a vida da alma: a fé, com efeito, expressa-se na oração e a oração autêntica vive da fé.

Jesus mostra-nos essa ligação com uma parábola: um juiz mantém-se surdo perante os pedidos insistentes de uma viúva, cuja persistência, por fim, o leva a agir. Tal tenacidade, à primeira vista, torna-se para nós um bonito exemplo de esperança, especialmente nos momentos de provação e tribulação. Porém, a perseverança da mulher e o comportamento do juiz, que age contra vontade, preparam uma provocante pergunta de Jesus: Deus, Pai bom, «não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite?» (Lc 18, 7).

Deixemos que estas palavras ressoem na nossa consciência: o Senhor pergunta-nos se acreditamos que Deus é um juiz justo para com todos. O Filho pergunta-nos se acreditamos que o Pai quer sempre o nosso bem e a salvação de todas as pessoas. A este propósito, duas tentações põem à prova a nossa fé: a primeira ganha força a partir do escândalo do mal, levando-nos a pensar que Deus não ouve o clamor dos oprimidos nem tem piedade do sofrimento dos inocentes. A segunda tentação é a pretensão de que Deus deve agir como nós desejamos: a oração cede então lugar a uma ordem dirigida a Deus, para lhe ensinar o modo de ser justo e eficaz.

Jesus, testemunha perfeita da confiança filial, liberta-nos de ambas as tentações. Ele é o inocente que, sobretudo durante a sua Paixão, reza assim: “Pai, faça-se a tua vontade” (cf. Lc 22, 42). São as mesmas palavras que o Mestre nos entrega na oração do Pai Nosso. Aconteça o que acontecer, Jesus confia-se como Filho ao Pai; por isso, nós, como irmãos e irmãs em seu nome, proclamamos: «Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação, dar-Vos graças sempre e em toda a parte, por Jesus Cristo, vosso amado Filho» (Missal Romano, Oração Eucarística II, Prefácio).

A oração da Igreja lembra-nos que Deus, ao dar a sua vida por todos, faz justiça a todos. Assim, quando clamamos ao Senhor: “Onde estás?”, transformamos essa invocação em oração e reconhecemos, então, que Deus está precisamente ali onde o inocente sofre. A cruz de Cristo revela a justiça de Deus e a justiça de Deus é o perdão: Ele vê o mal e redime-o, tomando-o sobre si. Quando somos crucificados pela dor e pela violência, pelo ódio e pela guerra, Cristo já está ali, na cruz por nós e conosco. Não há choro que Deus não console, nem lágrima que esteja longe do seu coração. O Senhor escuta-nos, abraça-nos como somos, para nos transformar como Ele é. Quem, pelo contrário, recusa a misericórdia de Deus, permanece incapaz de misericórdia para com o próximo. Quem não acolhe a paz como um dom, não saberá dar a paz.

Caríssimos, compreendemos agora que as perguntas de Jesus são um vigoroso convite à esperança e à ação: quando o Filho do homem vier, encontrará fé na providência de Deus? Na verdade, é esta fé que sustenta o nosso empenho pela justiça, precisamente porque acreditamos que Deus salva o mundo por amor, libertando-nos do fatalismo. Perguntemo-nos, então: quando ouvimos o apelo de quem está em dificuldade, somos testemunhas do amor do Pai, como Cristo o foi para com todos? Ele é o humilde que chama os prepotentes à conversão, o justo que nos torna justos, como atestam os novos santos de hoje: não são heróis, nem paladinos de um ideal qualquer, mas homens e mulheres autênticos.

Estes fiéis amigos de Cristo são mártires pela sua fé, como o Bispo Ignazio Choukrallah Maloyan e o catequista Pietro To Rot; são evangelizadores e missionários, como a Irmã Maria Troncatti; são fundadoras carismáticas, como a Irmã Vincenza Maria Poloni e a Irmã Carmen Rendiles Martinez; são benfeitores da humanidade, com coração ardente de devoção, como Bartolo Longo e José Gregorio Hernández Cisneros. Que a sua intercessão nos assista nas provações e o seu exemplo nos inspire na comum vocação à santidade. Enquanto peregrinamos rumo a esta meta, rezemos sem nos cansarmos, firmes naquilo que aprendemos e acreditamos resolutamente (cf. 2 Tm 3, 14). A fé sobre a terra sustenta assim a esperança do céu.


Papa Francisco
Praça de São Pedro
XXIX Domingo do Tempo Comum, 19 de outubro de 2025



11 outubro 2025

Catequizar com Esperança; Caminhar à Luz do Ressuscitado



Com larga experiência na catequese, e membro do Secretariado Diocesano da Catequese de Vila Real, Olímpia Mairos comenta a Nota Pastoral para esta Semana Nacional da Educação Cristã a partir da sua experiência de caminho

Vivemos num tempo em que o futuro, tantas vezes, parece incerto e sombrio. Mas é precisamente aí que a minha fé me recorda que não caminho sozinha: o olhar cristão é um olhar de esperança, aquele que vê para além das sombras e reconhece, mesmo na dor, o brilho discreto da glória futura.
Sou catequista — e nesta vocação descubro o chamamento a ser reflexo e embaixadora da esperança. Todos os dias peço a Deus que me ajude a ver nos meus catequizandos não apenas o que são hoje, mas o que podem ser no amor de Cristo. Educar na Fé, para mim, é caminhar lado a lado, semear luz no coração dos outros, mesmo quando o terreno parece árido.
Aprendi que a esperança não é uma ilusão, mas uma força viva que o Espírito Santo faz brotar em nós. É essa esperança que me faz acreditar que o amor é sempre possível, que o perdão cura, que o diálogo constrói, e que cada gesto de ternura transforma o mundo.
Em tempos em que tantos vivem sem rumo, marcados pelo medo ou pela pressa do imediato, sinto-me chamada a catequizar com paciência e confiança, acreditando que Deus age, mesmo quando os frutos ainda não se veem. Como dizia Bento XVI, “a nossa esperança é também esperança para os outros” — e é por isso que cada encontro, cada sorriso, cada escuta é, em si, um pequeno milagre.
Lançar a âncora, isto é, confiar, acreditar, entregar é desafio constante na missão catequética e que exige também perseverança — estar agarrada à corda da esperança, como nos incentivou Francisco é o compromisso — confiando que ela está firme, sustentando-me.
Quero continuar a ser testemunha de que a alegria é fruto da esperança. Não uma alegria superficial, mas a serenidade de quem sabe que o Ressuscitado caminha connosco. Catequizar com esperança é acreditar que cada criança, cada jovem, é imagem do Criador e que a missão do catequista é ajudar à descoberta desse tesouro e conduzir ao encontro com Jesus.
Hoje, mais do que nunca, quero ser profeta de amor e de esperança, ajudando a reconstruir os vínculos, a despertar o sentido e a mostrar que, mesmo num mundo dominado pela tecnologia, o coração humano continua a ser o verdadeiro centro de toda a aprendizagem.
Confio esta missão à Virgem Maria, Mãe da Esperança, para que me ensine a escutar, a acolher e a servir com alegria. Porque é no serviço e na entrega que a esperança se faz viva e é nela que desejo permanecer, como peregrina de um futuro luminoso, guiado pelo Amor que nunca falha.


Olímpia Mairos, subdiretora do SDEC Vila Real
Texto retirado do site da Educris



29 julho 2025

Aos Influenciadores católicos e Missionários digitais


Foto: Vatican Media


SAUDAÇÃO DO PAPA LEÃO XIV
AOS INFLUENCIADORES CATÓLICOS E MISSIONÁRIOS DIGITAIS

Basílica de São Pedro
Terça-feira, 29 de julho de 2025


Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A paz esteja convosco!

Queridos irmãos e irmãs, começamos com esta saudação: a paz esteja convosco!

E quanta necessidade temos de paz neste nosso tempo dilacerado por inimizades e guerras! E quanto nos chama a dar testemunho hoje a saudação do Ressuscitado: «A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19). A paz esteja com todos nós. Nos nossos corações e nas nossas ações.

Esta é a missão da Igreja: anunciar a paz ao mundo! A paz que vem do Senhor que venceu a morte, que nos traz o perdão de Deus, que nos dá a vida do Pai, que nos mostra o caminho do Amor!

1. Esta é a missão que a Igreja hoje confia também a vós; que estais aqui em Roma para o vosso Jubileu; que viestes renovar o vosso compromisso de alimentar as redes sociais e os ambientes digitais com a esperança cristã. A paz deve ser procurada, anunciada, partilhada em toda a parte; quer nos dramáticos cenários de guerra, quer nos corações esvaziados de quem perdeu o sentido da existência e o gosto pela interioridade, o gosto pela vida espiritual. E hoje, talvez mais do que nunca, temos necessidade de discípulos missionários que levem ao mundo o dom do Ressuscitado; que, indo até aos confins da terra (cf. Act 1, 3-8), deem voz à esperança que Jesus vivo nos dá; que cheguem a todos os lugares onde houver um coração que espera, um coração que procura, um coração que sente necessidade. Sim, até aos confins da terra, até às fronteiras existenciais onde não há esperança.

2. Há um segundo desafio nesta missão: procurar sempre a “carne sofredora de Cristo” em cada irmão e irmã que encontrardes nos espaços digitais. Hoje, encontramo-nos numa nova cultura profundamente caracterizada e formada pela tecnologia. Cabe-nos a nós – cabe a cada um de vós – assegurar que esta cultura permaneça humana.

A ciência e a tecnologia influenciam a nossa maneira de viver no mundo, até ao ponto de afetar a compreensão que temos de nós mesmos e o modo como nos relacionamos com Deus, como nos relacionamos entre nós. Mas nada do que provém do homem e da sua criatividade deve ser usado para diminuir a dignidade do outro. A nossa missão – a vossa missão – é cultivar a cultura do humanismo cristão, e fazê-lo juntos. Esta é para todos nós a beleza da “rede”.

Perante as mudanças culturais, ao longo da história, a Igreja nunca ficou passiva; sempre procurou iluminar cada época com a luz e a esperança de Cristo, discernindo o bem do mal e o que era bom daquilo que precisava de ser mudado, transformado e purificado.

Hoje, estamos numa cultura em que a dimensão tecnológica está presente em quase tudo, especialmente à medida em que o amplo uso da inteligência artificial marcará uma nova era na vida dos indivíduos e da sociedade no seu todo. Este é o desafio que devemos enfrentar: refletindo sobre a autenticidade do nosso testemunho, sobre a nossa capacidade de ouvir e de falar; de compreender e de ser compreendido. Temos o dever de trabalhar juntos para desenvolver um pensamento, desenvolver uma linguagem que, sendo frutos do nosso tempo, deem voz ao Amor.

Não se trata apenas de gerar conteúdos, mas de criar um espaço de encontro de corações. Isto permitirá procurar aqueles que sofrem, aqueles que necessitam conhecer o Senhor, para que suas feridas possam ser curadas, para que se reergam e encontrem um sentido para suas vidas. Este processo começa sobretudo com a aceitação da nossa própria pobreza, deixando de lado qualquer tipo de pretensão e reconhecendo que a nossa inerente necessidade do Evangelho. E este processo é um empenho comunitário.

3. E isto leva-nos a um terceiro apelo, e por isso faço este apelo a todos vós: “Ide consertar as redes”. Jesus chamou os seus primeiros apóstolos quando eles estavam a consertar as suas redes de pescadores (cf. Mt 4, 21-22). Ele pede-nos também a nós, aliás pede-nos hoje, que construamos outras redes: redes de relações, redes de amor, redes de intercâmbio gratuito, nas quais a amizade seja autêntica e seja profunda. Redes onde se possa consertar o que está partido, onde se possa curar a solidão, sem se importar com o número de seguidores [os followers], mas experimentando em cada encontro a grandeza infinita do Amor. Redes que deem espaço ao outro mais do que a nós mesmos, onde nenhuma “bolha de filtros” possa apagar a voz dos mais fracos. Redes que libertem, redes que salvem. Redes que nos façam redescobrir a beleza de nos olharmos uns dos outros, olhos nos olhos. Redes de verdade. Assim, cada história de bem compartilhada será o nó de uma única e imensa rede: a rede das redes, a rede de Deus.

Sede vós, então, agentes de comunhão, capazes de quebrar a lógica da divisão e da polarização; do individualismo e do egocentrismo. Ponde a Cristo no centro, para vencer a lógica do mundo, das fake news e da frivolidade, com a beleza e a luz da Verdade (cf. Jo 8, 31-32).

E agora, antes de me despedir com a Bênção, confiando o vosso testemunho ao Senhor, quero agradecer-vos por todo o bem que fizestes e fazeis nas vossas vidas, pelos sonhos que levais adiante, pelo vosso amor ao Senhor Jesus e pelo vosso amor à Igreja, pela ajuda que dais a quem sofre, pelo vosso caminhar nas estradas digitais.



01 julho 2025

Devoção ao Preciosíssimo Sangue de Cristo



Cena do filme “A Paixão de Cristo”: a Virgem Maria recolhe o preciosíssimo Sangue de Cristo.


A devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo é uma das mais profundas e transformadoras formas de culto que a Igreja nos oferece, uma vez que nos conduz diretamente ao coração do mistério da redenção. O Sangue de Cristo, derramado na cruz, não é apenas um símbolo de sofrimento, mas a manifestação do amor de Deus por nós, um amor imenso, incondicional e sacrificial. Esta devoção convida-nos a uma contemplação profunda, pois, como afirmava São Bernardo de Claraval, "O Sangue de Cristo é a maior fonte de misericórdia, a qual nunca se esgota e da qual todos os cristãos podem beber."

No contexto cristão, o Preciosíssimo Sangue é um sinal de aliança e salvação, lembrando-nos de que foi através do sacrifício de Cristo que fomos reconciliados com Deus. São Paulo, na sua Carta aos Hebreus, afirma com clareza: "Sem derramamento de sangue, não há remissão" (Hebreus 9, 22). Estas palavras, inspiradas pelo Espírito Santo, explicam-nos que a salvação da humanidade só foi possível porque o sangue de Jesus foi derramado por nós. Este Sangue é, de facto, o preço da nossa redenção, o valor supremo pago por cada um de nós, e é por isso que a Igreja sempre o venerou com grande respeito e devoção.

O Padre Pio de Pietrelcina, um dos santos mais devotos ao Preciosíssimo Sangue, dizia frequentemente: "O Sangue de Cristo é o remédio para os males da alma e do corpo. Quando invocamos o Sangue de Cristo, trazemos sobre nós uma proteção divina que não pode ser ignorada." Ele compreendia profundamente a força libertadora e curativa deste Sangue. Ao meditarmos sobre esta devoção, somos convidados a refletir não apenas sobre o sofrimento físico de Jesus, mas sobre o amor que Ele expressou ao derramá-lo. O sofrimento de Cristo é um ato de compaixão infinita, um amor que vai além do entendimento humano. Em palavras de Santa Catarina de Sena, "O Sangue de Cristo é a maior expressão do amor de Deus. Cada gota que caiu por nós tem o poder de transformar e purificar as nossas almas."

Este Sangue, portanto, não é um simples vestígio da morte, mas a garantia de vida eterna, de renovação e purificação. Como nos recorda o Beato Columba Marmion, "O Sangue de Jesus é a vida da nossa vida. É por Ele que somos chamados à santidade e à perfeição." Ao bebermos deste Sangue, na Eucaristia, e ao meditarmos sobre Ele, somos chamados a viver a nossa vocação cristã com mais intensidade e generosidade. Não podemos apenas contemplar o Preciosíssimo Sangue de forma passiva, mas devemos deixá-lo transformar as nossas vidas, levando-nos à conversão e ao compromisso com o amor e a misericórdia de Deus.

A devoção ao Preciosíssimo Sangue é, assim, uma chamada à santidade. Ela não se resume a um simples ato de veneração, mas é um convite a adentrarmos no mistério da cruz e, por meio deste mistério, nos aproximarmos mais de Deus. Como afirmava São Luís Maria Grignion de Montfort, "O sangue de Jesus é o maior de todos os tesouros, e, ao invocá-lo, tomamos parte na sua vitória." O Sangue de Cristo é a chave para a nossa transformação interior, o remédio que cura as nossas feridas espirituais e nos fortalece na luta contra o pecado.

Esta devoção, portanto, é um convite a entrar profundamente no mistério da cruz, a abraçar o sacrifício de Cristo e a reconhecer que, através do Seu Sangue, fomos purificados, redimidos e chamados à vida eterna. Como nos dizia São João Paulo II, "O Sangue de Cristo é a nossa salvação, e é através dele que recebemos a graça de viver em comunhão com Deus e entre nós." Ao contemplarmos o Preciosíssimo Sangue, somos chamados a viver não apenas para nós mesmos, mas para os outros, levando à prática o amor e o perdão que Jesus nos ofereceu.

Em suma, a devoção ao Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo é uma verdadeira escola de amor e de santidade. Ao aprofundarmos esta devoção, somos chamados a compreender o valor imensurável do Sacrifício de Cristo e a permitir que este amor nos transforme profundamente. Através do Sangue de Cristo, somos chamados à verdadeira liberdade, à verdadeira paz e à verdadeira vida, na qual o amor de Deus se faz presente de forma plena e eterna.


João do Carmo
Catequese e Família


Ladainha ao Preciosíssimo Sangue de Cristo (AIS)


27 junho 2025

Mensagem de Leão XIV para o V Dia Mundial dos Avós e dos Idosos

 



“Bem-aventurado aquele que não perdeu a esperança” (cf. Sir 14, 2)


Queridos irmãos e irmãs,

Jubileu que estamos a viver ajuda-nos a descobrir que a esperança é, em todas as idades, perene fonte de alegria. Além disso, quando é provada pelo fogo de uma longa existência, torna-se fonte de uma bem-aventurança plena.

A Sagrada Escritura apresenta vários casos de homens e mulheres já avançados em idade que o Senhor inclui nos seus desígnios de salvação. Pensemos em Abraão e Sara: já idosos, permanecem incrédulos diante da palavra de Deus, que lhes promete um filho. A impossibilidade de gerar parecia ter fechado o seu olhar de esperança para o futuro.

A reação de Zacarias ao anúncio do nascimento de João Batista não é diferente: «Como hei-de verificar isso, se estou velho e a minha esposa é de idade avançada?» (Lc 1, 18). A velhice, a esterilidade e a diminuição das forças parecem extinguir as esperanças de vida e fecundidade de todos esses homens e mulheres. E parece também puramente retórica a pergunta que Nicodemos faz a Jesus, quando o Mestre lhe fala de um “novo nascimento”: «Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?» (Jo 3, 4). Pois bem, em todas as ocasiões em que aparece uma resposta aparentemente óbvia, o Senhor surpreende os seus interlocutores com uma intervenção salvífica.

Os idosos, sinais de esperança

Na Bíblia, Deus mostra várias vezes a sua providência dirigindo-se a pessoas idosas. Foi o que aconteceu a Abraão, Sara, Zacarias, Isabel e também com Moisés, chamado a libertar o seu povo quando tinha oitenta anos (cf. Ex 7, 7). Com estas escolhas, Ele ensina-nos que, aos seus olhos, a velhice é um tempo de bênção e graça e que, para Ele, os idosos são as primeiras testemunhas da esperança. «O que é este tempo da velhice? – pergunta-se Santo Agostinho a este respeito, e continua – Deus responde-te assim: “Oh, que a tua força desapareça de verdade, para que em ti permaneça a minha força e possas dizer com o Apóstolo: quando sou fraco, então é que sou forte”» (Enarr. In Ps. 70, 11). Assim, a constatação de que hoje o número daqueles que estão avançados em idade aumenta cada vez mais torna-se, para nós, um sinal dos tempos que somos chamados a discernir, para ler bem a história que vivemos.

Com efeito, só se compreende a vida da Igreja e do mundo na sucessão das gerações. Por isso, abraçar um idoso ajuda-nos a entender que a história não se esgota no presente, nem em encontros rápidos e relações fragmentárias, mas se desenrola rumo ao futuro. No livro do Génesis, encontramos o comovente episódio da bênção dada por Jacó, já idoso, aos filhos de José, seus netos: as suas palavras os exortam a olhar com esperança para o futuro, como o tempo das promessas de Deus (cf. Gn 48, 8-20). Portanto, se é verdade que a fragilidade dos idosos precisa do vigor dos jovens, é igualmente verdade que a inexperiência dos jovens precisa do testemunho dos idosos para projetar o futuro com sabedoria. Quantas vezes os nossos avós foram para nós um exemplo de fé e devoção, de virtudes cívicas e compromisso social, de memória e perseverança nas provações! A nossa gratidão e coerência nunca serão suficientes para agradecer este bonito legado que nos foi deixado com tanta esperança e amor.

Sinais de esperança para os idosos

Desde as suas origens bíblicas, o Jubileu representou um tempo de libertação: os escravos eram libertados, as dívidas perdoadas, as terras devolvidas aos seus proprietários originais. Era um momento de restauração da ordem social desejada por Deus, em que se sanavam as desigualdades e as opressões acumuladas ao longo dos anos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus renova estes eventos de libertação quando proclama a boa nova aos pobres, a visão aos cegos, a soltura dos prisioneiros e o retorno à liberdade para os oprimidos (cf. Lc 4, 16-21).

Olhando para os idosos nesta perspectiva jubilar, também nós somos chamados a viver com eles uma libertação, sobretudo da solidão e do abandono. Este ano é o momento propício para realizá-la: a fidelidade de Deus às suas promessas ensina-nos que há uma bem-aventurança na velhice, uma alegria autenticamente evangélica que nos convida a derrubar os muros da indiferença na qual os idosos estão frequentemente encerrados. Em todas as partes do mundo, as nossas sociedades estão a habituar-se, com demasiada frequência, a deixar que uma parte tão importante e rica do seu tecido social seja marginalizada e esquecida.

Perante esta situação, é necessária uma mudança de atitude, que testemunhe uma assunção de responsabilidade por parte de toda a Igreja. Cada paróquia, associação ou grupo eclesial é chamado a tornar-se protagonista da “revolução” da gratidão e do cuidado, a realizar-se através de visitas frequentes aos idosos, criando para eles e com eles redes de apoio e oração, tecendo relações que possam dar esperança e dignidade àqueles que se sentem esquecidos. A esperança cristã impele-nos continuamente a ousar mais, a pensar em grande, a não nos contentarmos com o status quo. Neste caso específico, a trabalhar por uma mudança que devolva aos idosos a estima e o afeto.

Por isso, o Papa Francisco quis que o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos fosse celebrado, em primeiro lugar, encontrando aqueles que estão sozinhos. E decidiu-se, pela mesma razão, que aqueles que não puderem vir a Roma neste ano em peregrinação podem «obter a Indulgência jubilar se se deslocarem para visitar por um côngruo período […] idosos em solidão […] quase fazendo uma peregrinação em direção a Cristo presente neles (cf. Mt 25, 34-36)» (Penitenciaria Apostólica, Normas sobre a Concessão da Indulgência Jubilar, III). Visitar um idoso é um modo de encontrar Jesus, que nos liberta da indiferença e da solidão.

Na velhice, pode-se ter esperança

O livro de Ben Sirá afirma que a bem-aventurança é daqueles que não perderam a esperança (cf. 14, 2), dando a entender que na nossa vida – especialmente se for longa – podem existir muitos motivos para sempre lançar o olhar para o passado, em vez de olhar para o futuro. No entanto, como escreveu o Papa Francisco durante a sua última internação no hospital, «o nosso físico é débil mas, mesmo assim, nada nos pode impedir de amar, de rezar, de nos doarmos, de sermos uns pelos outros, na fé, sinais luminosos de esperança» (Angelus, 16 de março de 2025). Possuímos uma liberdade que nenhuma dificuldade pode tirar-nos: a de amar e rezar. Todos, sempre, podemos amar e rezar.

O bem que desejamos às pessoas que nos são caras – ao cônjuge com quem compartilhamos grande parte da vida, aos filhos, aos netos que alegram os nossos dias – não desaparece quando as forças se esvaem. Pelo contrário, muitas vezes é justamente o carinho deles que desperta as nossas energias, trazendo-nos esperança e conforto.

Estes sinais de vitalidade do amor, que têm a sua raiz em Deus mesmo, dão-nos coragem e recordam-nos que «mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia» (2 Cor 4, 16). Por isso, sobretudo na velhice, perseveremos confiantes no Senhor. Deixemo-nos renovar todos os dias, na oração e na Santa Missa, pelo encontro com Ele. Transmitamos com amor a fé que vivemos na família e nos encontros quotidianos durante tantos anos: louvemos sempre a Deus pela sua benevolência, cultivemos a unidade com as pessoas que nos são caras, abramos o nosso coração aos que estão mais longe e, em particular, aos necessitados. Assim, seremos sinais de esperança, em todas as idades.

Vaticano, 26 de junho de 2025

LEÃO PP. XIV




22 junho 2025

Catequeses para finalizar o ano



(sugestões para encontros com adolescentes/jovens)


1. Encontro de oração e envio

Objetivo: Terminar o ano com um momento de interioridade, agradecimento e missão

Estrutura:
- Acolhimento e silêncio – Cria ambiente com música instrumental
- Partilha em círculo – "O que levo deste ano?" ou "Onde vi Deus na minha caminhada de fé?"
- Leitura bíblica – Ex: Mt 28,19-20 (“Ide e fazei discípulos…”)
- Tempo de oração pessoal – Cada um escreve uma oração de agradecimento
- Oração de envio – Rezar uns pelos outros

Lembrança personalizada – Uma cruz, um versículo num cartão, ou uma vela com o nome



2. Sessão de filme com reflexão

Objetivo: Usar a linguagem cinematográfica para consolidar temas vividos.

Sugestão de filme curto:

Estrutura:
- Ver o filme
- Debate/reflexão:
  "Com quem me identifiquei?"
  "Que mensagem me tocou?"
  "Como posso ser ‘borboleta’ na vida dos outros?"
  Etc....

Oração final inspirada no tema:

Senhor Jesus,
Hoje vimos uma história…
uma história que parecia ser só um filme,
mas que afinal tocou qualquer coisa cá dentro.
Tocaste-me com os gestos,
com os silêncios,
com aquela personagem que parecia perdida
e afinal encontrou um caminho.
Tu falas de mil maneiras,
e hoje falaste-me através de uma imagem,
de uma palavra,
de um olhar.
Obrigado por me mostrares que não estou sozinho.
Que mesmo quando falho,
mesmo quando me sinto pequeno ou sem rumo,
Tu continuas a acreditar em mim.
Ajuda-me a levar esta história comigo,
não apenas na memória,
mas na vida.
Que eu seja também sinal de esperança para os outros,
como aquele personagem que escolheu amar,
perdoar, recomeçar.
Fica comigo, Senhor,
hoje e sempre.
Amen.



3. Dinâmica com fogo e testemunhos

Objetivo: Libertar, agradecer, marcar um recomeço.

Material: Vela grande (símbolo de Cristo), papel e canetas

Estrutura:
- Leitura: Lc 24,13-35 (Os discípulos de Emaús)
- Partilha: “O que queimou o meu coração este ano?

Cada um escreve:
- Num papel: "O que deixo para trás" – queimar num recipiente metálico.
- Noutro: "O que quero viver com Cristo daqui para a frente" – guardar.

Oração final à volta da vela com envio.



4. Criativo e interativo

Objetivo: Fazer a síntese do ano com criatividade

Atividades:
- Mural ou linha do tempo – Colocar post-its com momentos marcantes do ano (bons e difíceis)
- Quiz bíblico ou da catequese – Divertido e ajuda a relembrar
- Cartas entre pares – Cada um escreve uma carta anónima a outro com uma palavra de encorajamento (tu distribuis no fim)

Tempo de oração espontânea ou guiada



5. Caminhada com estações da vida

Objetivo: Fazer uma revisão de vida a partir de etapas simbólicas

Como fazer:
- Prepara um percurso com 5 estações
- Cada estação tem uma pergunta/reflexão:
  Onde me senti mais próximo de Deus este ano?
  Quando me senti perdido ou desanimado?
  Que pessoa foi sinal de Deus para mim?
  Em que momento percebi que cresci?
  Que palavra ou gesto quero levar para o futuro?

Extras: Dá-lhes uma folha para anotar. Finaliza com um momento de oração em círculo.



6. Galeria da Fé

Objetivo: Ajudar a reconhecer o agir de Deus nas suas vidas

Como fazer:
- Cada um traz ou tira uma foto que represente a sua caminhada de fé (pode ser simbólica).
- Fazem uma “galeria” e cada um explica a sua imagem.
- Termina com um momento de oração em que oferecem essa imagem a Deus



7. Carta para o Futuro

Objetivo: Ligar o presente com o futuro em Deus

Como fazer:

Cada adolescente escreve uma carta para si mesmo daqui a 5 anos:
. Onde gostaria de estar?
. O que não quer esquecer sobre a fé?
. Que conselho dá ao “eu do futuro”?

Guardas essas cartas num envelope e combinas entregá-las ou enviar uma foto delas mais tarde (p.ex., daqui a 1 ano).

Encerra com a leitura de Jr 29,11: “Sei os planos que tenho para vós...”



8. Encontro da Semente

Objetivo: Celebrar o crescimento interior e o compromisso com o futuro

Materiais: Pequenos vasos ou copos, terra, sementes (girassol, manjericão, etc.)

Desenvolvimento:

Reflexão: “O que cresceu em mim este ano?”
- Cada um planta uma semente, símbolo do que quer cultivar na fé.
- Pode escrever numa etiqueta: “Cultivar a oração” / “Ser mais paciente” / “Confiar em Deus”

Oração com bênção das sementes e envio



9. Encontro “Missão Aceite”

Objetivo: Dar aos adolescentes uma “missão” para levar para a vida.

Como fazer:

Breve introdução: “Ser cristão é ser enviado.”

Cada um tira ao acaso (ou escolhe) uma “missão para o mundo” escrita num papel:
“Fazer alguém sentir-se amado esta semana.”
“Convidar um amigo para a missa.”
“Rezar 5 minutos por alguém que me irrita.”
“Dizer ‘obrigado’ a alguém que nunca agradeci.”
Outras sugestões...

Partilham ideias e rezam uns pelos outros



Catarina Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



19 junho 2025

Jesus no meio de nós: o milagre da Eucaristia




"Isto é o meu Corpo… este é o cálice do meu Sangue."
Estas palavras de Jesus, ditas na Última Ceia, são o coração da festa que celebramos na Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como a festa do Corpo de Deus.

Mas o que significa, afinal, esta solenidade?

É muito mais do que uma tradição ou uma missa especial. É uma festa que nos recorda o maior presente que Jesus nos deixou: Ele próprio, na Eucaristia. Cada vez que participamos na Missa e comungamos, não estamos a receber um simples símbolo ou um ritual bonito, recebemos Jesus vivo e verdadeiro, presente no Pão e no Vinho consagrados.


1. Jesus quis ficar connosco
Na noite em que ia ser entregue, Jesus sabia que os discípulos iriam sentir a sua falta. Por isso, encontrou uma maneira de ficar com eles - e connosco - para sempre, na Eucaristia. Através das mãos do sacerdote, o pão torna-se o seu Corpo, e o vinho o seu Sangue. Parece impossível? Sim, mas é por isso que é um mistério de fé. É um gesto de amor sem medida.

2. Comungar é deixar que Jesus viva em nós
Quando comungamos, Jesus entra no nosso coração. Ele quer transformar-nos, ensinar-nos a amar melhor, a perdoar mais depressa, a ajudar sem esperar recompensa. Comungar não é só "ir à frente" na Missa. É acolher Jesus, é dizer-Lhe: "Quero viver como Tu". É um compromisso.

3. A Eucaristia faz de nós uma família
Na Missa, não estamos sozinhos. Estamos em comunidade, em Igreja. Somos todos diferentes, mas à volta do altar somos todos irmãos e irmãs, unidos pelo mesmo Pão. Por isso a Eucaristia também nos desafia a viver em comunhão com os outros, com os que gostam de nós e com os que nos custam mais. Jesus deu-Se a todos, e pede-nos o mesmo.


Um desafio para ti:
Na próxima Missa, antes de comungares, faz silêncio por dentro. Pensa:
"Jesus, Tu dás-Te a mim inteiro. Eu quero dar-Te também o meu coração. Ajuda-me a viver como Tu me ensinas."

E lembra-te: cada Eucaristia é um milagre de amor. Um milagre que se repete sempre que o sacerdote levanta o pão e diz:
"Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós." (cf. 1Cor 11, 23-25)


Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com




Catequese: O Corpo e Sangue de Cristo – Um Amor que se dá





Objetivo:
Ajudar os adolescentes a compreenderem o valor da Eucaristia como presença real de Jesus e expressão máxima do Seu amor por nós.


Duração total sugerida: 1h30 a 2h


1. Acolhimento e oração inicial (15 min)

Ambientação:
Se possível, preparar o espaço com uma vela acesa, uma Bíblia aberta e, se for num local apropriado, o Santíssimo Sacramento reservado ou presente no Sacrário.


Oração:
Jesus,
estamos aqui diante de Ti,
com as nossas dúvidas, as nossas distrações,
as nossas perguntas sobre a vida e sobre Ti.
Às vezes sentimos que não Te vemos,
que não Te ouvimos,
ou que estamos longe de Ti.
Mas Tu estás sempre presente,
especialmente na Missa, quando Te dás por inteiro,
no pão e no vinho, no Teu Corpo e Sangue.

Ensina-nos a valorizar esse momento,
a perceber que na Eucaristia estás vivo,
que nos queres alimentar e dar forças.

Dá-nos coragem para Te seguir,
mesmo quando é difícil.
E faz do nosso coração um lugar onde Tu possas habitar.

Fica connosco, Senhor.
Amen.

Sugestão de cântico: Fazei isto em Memória de Mim



2. Introdução e diálogo inicial (15 min)

Perguntas para o grupo:
O que é para vocês a Missa? 
Já pensaram no que realmente acontece ali?

Objetivo: Ouvir o que os adolescentes pensam. Incentivar respostas livres e criar ligação.

Depois da partilha, explicar:
(texto para ajudar)

Ir à Missa pode parecer, às vezes, algo rotineiro ou até um pouco aborrecido. Mas já paraste para pensar o que é realmente a Missa e o que acontece ali? A verdade é que, na Missa, estamos diante do maior mistério da nossa fé: Jesus dá-Se totalmente por nós.
A Missa não é apenas um conjunto de orações e cânticos. É um encontro com Jesus vivo. Quando participamos nela com o coração aberto, acontece algo extraordinário: Jesus oferece-Se ao Pai por nós, tal como fez na cruz, e dá-Se a nós como alimento no pão e no vinho consagrados.
Desde o início, os cristãos reúnem-se ao domingo para escutar a Palavra de Deus e partilhar o Pão da Vida. E é isso que continuamos a fazer hoje.

(opcional) A Missa tem duas partes principais:
- Liturgia da Palavra
Primeiro, escutamos leituras da Bíblia. Deus fala-nos através das Escrituras. Podemos ouvir passagens do Antigo Testamento, dos Salmos, das cartas dos apóstolos e, sobretudo, do Evangelho, onde escutamos as palavras e os gestos de Jesus.
O sacerdote depois faz a homilia. Explica a Palavra e ajuda-nos a perceber como a podemos viver no dia a dia.

- Liturgia Eucarística
Depois vem o momento mais sagrado: o pão e o vinho são apresentados e o sacerdote, em nome de Jesus, reza as palavras da Última Ceia: "Isto é o meu Corpo... Este é o cálice do meu Sangue..."
Acreditamos - e não é só símbolo - que Jesus está verdadeiramente presente com o seu Corpo e Sangue, a sua Alma e a sua Divindade. É o próprio Jesus, vivo, ali no altar.
Neste momento, faz-se presente o sacrifício da cruz. Jesus oferece-Se de novo ao Pai, por amor de todos nós. Mas de forma incruenta, isto é, sem derramamento de sangue.
Depois, todos somos convidados a aproximar-nos e a comungar Jesus, a recebê-Lo no coração.

E porquê tudo isto?
Porque Jesus quer estar connosco. Quer alimentar-nos, fortalecer-nos, unir-nos a Ele e entre nós. A Eucaristia é alimento para a alma, força para viver como cristãos e sinal de unidade entre todos.
Por isso, a Missa não é só um “dever de cristão”. É um presente de amor. Um convite de Jesus: "Vinde a Mim todos vós…" (cf. Mt 11,28)

Ir à Missa com o coração distraído é como ser convidado para um banquete e nem prestar atenção ao que está na mesa. Mas ir à Missa com fé é deixar-se transformar por Jesus, escutá-Lo e alimentarmo-nos d’Ele para depois irmos para o mundo viver como cristãos de verdade.

Então, o que podes fazer?
Antes da Missa, faz silêncio interior. Pensa que vais encontrar-te com Jesus.
Durante a Missa, escuta, responde, canta, reza. Participa com o coração.
Na hora da comunhão, vai com respeito e fé. É Jesus vivo que recebes!
Depois da Missa, agradece. E vive o que recebeste: sê sinal de amor, de paz e de alegria.


3. Palavra de Deus (15 min)

Leitura do Evangelho de São João 6, 51-58: 
(Escolher um jovem para proclamar.)

Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»
Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!» Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os antepassados comeram, pois eles morreram; quem come mesmo deste pão viverá eternamente.»

Partilha:
O que é que vos chamou mais à atenção neste Evangelho?
Jesus está a falar de forma simbólica ou real?
Já pensaram que, na Missa, somos alimentados por Jesus vivo?


4. Explicação Catequética (20 min)

(texto para ajudar)
Imagina que alguém te diz isto:
"Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia." (Jo 6,54)
Parece estranho, não é? Foi isso mesmo que Jesus disse à multidão. Muitos não perceberam e até ficaram escandalizados. Mas Jesus não estava a brincar, nem a falar em metáforas confusas. Ele estava a revelar uma verdade profunda e central da nossa fé: na Eucaristia, Ele dá-se totalmente a nós, com o Seu Corpo e Sangue.

No Evangelho de João, capítulo 6, Jesus diz claramente:
"Eu sou o pão vivo que desceu do Céu."
"O pão que Eu hei de dar é a minha carne pela vida do mundo."
"Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim e Eu nele."

Isto significa que Jesus quer entrar na nossa vida de forma tão íntima e verdadeira que se faz alimento. Não é só 'estar connosco', é estar em nós. Ele dá-Se de uma forma tão concreta que podemos recebê-Lo na comunhão, quando comungamos na Missa.
Quando vamos à Missa, o pão e o vinho, depois da consagração, já não são só pão e vinho: são o Corpo e o Sangue de Jesus. A aparência continua igual, mas a realidade mudou: é Jesus vivo, inteiro, que está ali. É o que a Igreja chama de Presença Real.

Porquê esta maneira tão forte de se dar?
Porque Jesus quer alimentar-nos por dentro. Sabes quando estás fraco ou sem vontade de nada? Quando parece que a vida não faz sentido? Jesus quer ser força, luz, alimento, coragem. Ele quer unir-Se a ti de tal maneira que a tua vida e a d’Ele fiquem ligadas.

"Permanece em mim e Eu em ti", diz Ele.

Mas esta presença não é mágica. Para comungar bem, é preciso ter fé, respeito, e estar em estado de graça, ou seja, com o coração limpo, sem pecado grave. Por isso a Igreja ensina que devemos confessar-nos antes de comungar, se for necessário.
Receber a Eucaristia é como abrir o coração para deixar Jesus morar em nós. Não é um gesto qualquer. É um milagre de amor. É um momento sagrado.
E há mais: quem recebe Jesus com fé, recebe vida eterna. Ele próprio o prometeu:
"Quem come deste pão viverá para sempre."

Por isso, este Evangelho não é apenas bonito ou profundo. É um convite de Jesus:
"Vem, alimenta-te de mim. Deixa-me transformar a tua vida."

Para pensar:
Como tenho vivido a Missa?
Quando comungo, tenho consciência de que estou a receber Jesus?
O que muda na minha vida quando me uno a Ele?


5. Atividade – "O Pão que Alimenta" (20 min)

Materiais:
Cartolinas ou folhas A3
Canetas, marcadores, revistas, tesoura, cola

Proposta:
Em grupos, fazer um cartaz com o título: "O que significa para mim receber Jesus na Eucaristia?"

Cada grupo pode:
Escrever palavras-chave (amor, perdão, alimento, força…)
Fazer colagens de imagens que representem a vida cristã alimentada pela Eucaristia
Desenhar símbolos e frases de Jesus

No final, cada grupo apresenta o cartaz.


6. Testemunho (opcional – 10 min)

Convidar um jovem mais velho, catequista ou membro da comunidade a partilhar:
O que a Eucaristia significa na sua vida? Como a comunhão o ajuda a viver melhor como cristão?


7. Oração final com Adoração (15 min)

Se possível:
Fazer um breve momento de adoração ao Santíssimo

Sugestão de cântico: Hóstia Divina


Oração:

Jesus,
Tu conheces-me como ninguém.
Sabes quando estou feliz, e quando estou cansado, confuso ou com medo.
Às vezes não sei quem sou, nem o que devo escolher.
Às vezes sinto-me perdido no meio de tanta coisa - escola, redes, amigos, pressão.
Mas Tu estás aqui. Estás vivo.
Não és uma ideia ou uma história antiga. És real. És o Pão da Vida.

Dá-me fome de Ti.
Que eu não me contente com o que passa.
Que eu Te procure com verdade.

Ensina-me a parar, a escutar-Te,
A perceber que és Tu que me dás força por dentro.
Que quando Te recebo na Eucaristia, recebo um amor que não falha.

Fica comigo, Jesus.
Ajuda-me a ser luz no meio do mundo.
A fazer a diferença. A ser verdadeiro.
A amar os outros como Tu nos amas.

Tu és o meu alimento.
Tu és a minha paz.
Tu és a minha esperança.

Obrigado por Te dares a mim.

Amen.



Catarina Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com




07 junho 2025

O anúncio que vale um milhão

 



“Mas não tinha ficado assente que o aborto não mata ninguém, apenas interrompe a gravidez?!”


Miguel Milhão, que nasceu em Braga em 1983 e, aos 23 anos, fundou a Prozis, uma das maiores empresas europeias de suplementos alimentares, foi notícia por ter promovido o anúncio “Obrigado, Mãe”, um testemunho de amor à vida que é também uma homenagem a sua mãe.

O patrocinador deste polémico vídeo, que não conheço pessoalmente, nem a sua empresa, confessou as condições muito difíceis em que veio ao mundo: “Nasci cego do olho esquerdo, a minha mãe era nova, tinha 19 anos, solteira, e eu era um candidato fixe para o aborto”. Embora pressionada para não ter aquele filho, a mãe decidiu levar a gravidez até ao fim, e daí a muito especial gratidão de Miguel. As circunstâncias dolorosas deste nascimento – que recordam as de Cristiano Ronaldo, cuja mãe também foi pressionada para o abortar – deveriam inspirar sentimentos de solidariedade e de esperança, mas, pelo contrário, acirraram o ódio dos impiedosos defensores da cultura da morte.
.
Não em vão Miguel se apelida Milhão porque, de facto, apesar de apresentado como se fosse uma ave rara, tão insólita quão ridícula, há, no nosso país um milhão de pessoas, ou mais, que pensam como ele. A reportagem do insuspeito Público, do passado 31 de Maio, é exemplo disso mesmo, porque os que passaram pela experiência infeliz de um aborto ou, o que é praticamente o mesmo, da morte de um filho recém-nascido, são unânimes nos seus testemunhos. E são muitos porque, “em 2024, morreram em Portugal 320 bebés durante a gravidez ou logo após o parto. É pouco (3,7 mortes por mil nados-vivos). É imenso, para os pais que tiveram de reaprender a viver depois disso”.

Repare-se que a jornalista que assina a reportagem, Daniela Carmo, refere-se à morte de “320 bebés durante a gravidez” e, ainda, que os mesmos até tinham “pais”!?! “Morreram”?! Mas não tinha ficado assente que o aborto não mata ninguém, apenas interrompe a gravidez?! “Bebés durante a gravidez”?! Só se for o protagonista da ultramontana campanha pró-vida que tinha por lema “Não matem o Zézinho”! Ora, a comunicação social há muito que nos ensinou que, antes do nascimento, não há bebé nenhum, porque a gravidez é apenas um processo orgânico! “Pais que tiveram que reaprender a viver depois disso”?! Mas que disparate é este: a gestação só diz respeito à mulher, pois é o seu corpo que está em causa e, como é óbvio, não há “pais” de quem, por ainda não ter nascido, mais não é do que parte do corpo da grávida, que é a única pessoa cuja vontade é relevante em relação ao destino desse conglomerado de células alojadas no seu útero.

Daniel e Diana Costa confidenciaram à jornalista que “sabiam que o coração da filha parara, estava ela grávida de 35 semanas”, porque “não foram detectados batimentos na bebé.” Filha?! Bebé?! E, como se não bastasse, a reportagem também refere “o luto dos pais pelo bebé que perdem”, a que acrescenta a referência a “320 mortes perinatais, que são óbitos que ocorrem durante a gravidez”! Ora a morte, ou óbito, e o luto dizem respeito unicamente a pessoas, não se aplicando, portanto, a gravidezes interrompidas, como é óbvio. Até se chega ao exagero de afirmar que “o médico que lhe fez a ecografia de urgência confirmou o óbito da bebé”, como se um cientista, como é o médico, usasse uma terminologia nada científica, pois é sabido que na gravidez não há bebé, nem óbito nenhum.

A propósito do casal Ana Neves e Marcelo Carvalho, repetem-se os mesmos exageros, que chegam a raiar o absurdo quando se afirma que “Ana havia de passar por outras duas perdas: de João, às 26 semanas, e de Manuel, às 31”. Mas, tratando-se de partes do corpo da mulher, que lógica tem designá-los como se fossem seres humanos?! Se se tratasse de animais domésticos, como cães e gatos, seria razoável dar-lhes nomes de gente, mas não a um conjunto de células femininas! Que um casal o faça, ainda se tolera, mas não um jornal de âmbito nacional!

A reportagem assume um registo trágico quando aborda a questão do aborto. Com efeito, a propósito das “malformações que exigem interrupções da gravidez”, acrescenta-se que as mesmas “são vistas pelo casal como matar o bebé. Isto tem um peso muito grande.” Apesar de todo o cuidado em usar uma linguagem neutra, que esconda, sob a aparência de um inócuo tratamento médico, a brutalidade desse atentado contra uma vida humana inocente, a realidade nua e crua acaba por se impor: quem recorre a este dramático desfecho reconhece que o aborto é, afinal, “matar o bebé”.

Confirmada a malformação congénita, o casal em questão foi informado da possibilidade legal de pôr termo à existência do filho, ou seja, “retirar o bebé da barriga da mãe”. Mas, por mais que se queira disfarçar o indisfarçável, a verdade acaba sempre por se evidenciar, na sua brutal crueza: “depois veio a assinatura do termo porque temos de assinar um termo para tirar a vida do nosso filho, do João.” Segundo esta mãe, a ‘interrupção voluntária da gravidez’ é, na realidade, “tirar a vida do nosso filho”. Não é menos terrível o processo de eliminação: “há uma agulha que espetam no bebé para fazer parar o coração. É horrível.” Pudera, se afinal outra coisa não é do que assassinar o filho que, pela sua deficiência, mais carecia do amor e proteção dos pais.

A cultura da morte presume que o aborto, quando realizado em hospitais, é a melhor solução para as gravidezes indesejadas, ou para as malformações congénitas, quase como quem remove um inestético sinal. A realidade, infelizmente, é muito diferente, porque os pais de um filho abortado sofrem tanto quanto os que perderam um filho recém-nascido. Por isso, “Ana teve acompanhamento psicológico. Também Diana e Daniel o tiveram. Daniel entrou mesmo numa depressão grave após perder a filha.” O sofrimento dos irmãos também não é pouco: o Duarte, quando soube da perda do irmão, “chorou compulsivamente e repetia: ‘eu quero o meu irmão’.”

Mas, nos casos em que a criança não é viável, não seria preferível evitar o seu nascimento? À pergunta respondeu a Andreia, que passou pela amarga experiência de perder uma filha com apenas um mês de vida: “se voltasse atrás e me dissessem: ‘Tu vais ter esta filha, ela vai estar 30 dias contigo, mas depois vais perdê-la, o que é que escolhias?’ Sem pensar, escolheria ter a Íris aqueles 30 dias. Porque, acima da dor, a Íris é amor e foi o que nos uniu a nós os dois enquanto casal, o facto de termos tido aquela filha que não pôde ficar connosco, mas que nos ensinou muito.”

Curiosamente, ou talvez não, os pais entrevistados não manifestam convicções políticas nem religiosas, alguns nem sequer são casados e houve quem desse às filhas os nomes Ísis e Íris por seguirem “a mitologia egípcia”. Também não se fala de zigotos, nem de embriões, porque, embora ciência e religião coincidam na afirmação óbvia de que o começo da vida humana se dá na concepção, a questão é, sobretudo, humana. Por isso, fala-se sim da Maria Rita, filha da Diana e do Daniel; do Duarte, do Fernando, do João, da Luz e do Manuel, filhos da Ana e do Marcelo; da outra Maria Rita, filha da Andreia e do Marco, pais do Enzo; da Íris e da Ísis, filhas de mais uma Andreia e do Marcos. Não são números, não são amontoados de células, não são tecidos orgânicos, não são partes do corpo feminino, mas pessoas de carne e osso, que foram desejadas e queridas e que, apesar da brevidade da sua existência, receberam e deram muito amor porque, como escreveu Saint-Exupéry, “aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Obrigado, Miguel Milhão, pela coragem, pela ousadia da verdade, pela pedrada no charco da indiferença ante o pior genocídio da nossa era. Obrigado pela sua mãe, pela sua heróica rebeldia, pela sua determinação em ser uma mulher verdadeiramente livre, pela sua corajosa maternidade assumida, pela sua valentia em ir contra os preconceitos hipócritas e as mentiras anticientíficas do politicamente correcto. Obrigado pelo anúncio que vale um Milhão, o Miguel, e que pode salvar do holocausto silencioso outro milhão, ou muitos milhões de vidas humanas. Bem-haja!


P. Gonçalo Portocarrero de Almada
7 de Junho de 2025
Observador