27 fevereiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #08


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Parece que o inverno está a ir embora e por conseguinte voltamos à praça. Bem-vindos à praça! No nosso percurso de redescoberta da oração do “Pai-Nosso”, hoje aprofundaremos a primeira das suas sete invocações, isto é, «santificado seja o vosso nome».
Os pedidos do “Pai-Nosso” são sete, facilmente divisíveis em dois subgrupos. Os primeiros três têm no centro o “Vós” de Deus Pai; os outros quatro têm no centro o “nós” e as nossas necessidades humanas. Na primeira parte Jesus faz-nos entrar nos seus desejos, todos dirigidos ao Pai: «santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade»; na segunda é Ele que entra em nós e se faz intérprete das nossas necessidades: o pão nosso de cada dia, o perdão dos pecados, o amparo na tentação e a libertação do mal.

Eis a matriz de cada oração cristã — diria de cada prece humana — que é sempre recitada, por um lado, como contemplação de Deus, do seu mistério, da sua beleza e bondade, e por outro, com sincero e corajoso pedido do que nos serve para viver, e viver bem. Deste modo, na sua simplicidade e essencialidade, o “Pai-Nosso” educa quantos o recitam a não multiplicar palavras vãs, porque — como diz o próprio Jesus — «o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de lho pedirdes» (Mt 6, 8).

Quando falamos com Deus, não o fazemos para revelar a Ele o que temos no coração: Ele conhece-o muito melhor do que nós. Se Deus é um mistério para nós, ao contrário, nós não somos um enigma aos seus olhos (cf. Sl 139, 1-4). Deus é como aquelas mães às quais é suficiente um olhar para compreender tudo dos filhos: se estão contentes ou tristes, se são sinceros ou escondem algo...
Portanto, o primeiro trecho da oração cristã é a entrega de nós mesmos a Deus, à sua providência. É como dizer: “Senhor, vós sabeis tudo, não há necessidade de que eu vos conte a minha dor, peço-vos só que estejais aqui ao meu lado: sois a minha esperança”. É interessante observar que Jesus, no sermão da montanha, imediatamente depois de ter transmitido o texto do “Pai-Nosso”, nos exorta a não nos preocupar nem nos aborrecer pelas situações. Parece uma contradição: primeiro ensina-nos a pedir o nosso pão de cada dia e depois recorda-nos: «Não vos preocupeis, dizendo: “Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?”» (Mt 6, 31). Mas a contradição é só aparente: os pedidos do cristão exprimem a confiança no Pai: e é precisamente esta confiança que faz com que peçamos aquilo de que precisamos sem afã nem agitação.

Por isso rezamos dizendo: “Santificado seja o vosso nome!”. Neste pedido — o primeiro! “Santificado seja o vosso nome!” — sente-se toda a admiração de Jesus pela beleza e grandeza do Pai, e o desejo de que todos o reconheçam e admirem pelo que deveras é. E ao mesmo tempo há a súplica para que o seu nome seja santificado em nós, na nossa família, na nossa comunidade, no mundo inteiro. É Deus que santifica, que nos transforma com o seu amor, mas, ao mesmo tempo, somos também nós que, com o nosso testemunho, manifestamos a santidade de Deus no mundo, tornando presente o seu nome. Deus é santo mas se nós, se a nossa vida não for santa, haverá uma grande incoerência! A santidade de Deus deve refletir-se nas nossas ações, na nossa vida. “Sou cristão, Deus é santo, mas faço muitas coisas negativas”, não, isto não serve. Isto faz até mal; escandaliza e não ajuda.

A santidade de Deus é uma força em expansão, e nós suplicamos a fim de que ela rompa depressa as barreiras do nosso mundo. Quando Jesus começa a pregar, o primeiro a pagar as consequências disto é precisamente o mal que aflige o mundo. Os espíritos malignos praguejam: «Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus!» (Mc1, 24). Nunca se tinha visto uma santidade assim: não preocupada consigo mesma mas inclinada para fora. Uma santidade — a de Jesus — que se alarga em círculos concêntricos, como quando se lança uma pedra num lago. O mal tem os dias contados — o mal não é eterno — o mal não nos pode prejudicar: chegou o homem forte que toma posse da sua casa (cf. Mc 3, 23-27). E este homem forte é Jesus, que dá também a nós a força para tomar posse da nossa casa interior.

A oração afasta qualquer temor. O Pai ama-nos, o Filho ergue os braços apoiando-os aos nossos, o Espírito age em segredo pela redenção do mundo. E nós? Não vacilemos na incerteza. Tenhamos uma grande certeza: Deus ama-me; Jesus doou a vida por mim! O Espírito está dentro de mim. Esta é a grande verdade. E o mal? Tem medo. E isto é bom.

Catequese do Papa Francisco
27 de Fevereiro de 2019


Catequese a brincar

Foto: Paula Silva

Sabem quando os meninos têm demasiada energia e não conseguem estar quietinhos a ouvir-vos? Ou mesmo que estejam, mas simplesmente não conseguem entender o que estamos a falar? 
Bom, quando comecei a minha caminhada como catequista de 1°ano comecei a sentir um bocado isso e agora estou com o mesmo grupo, mas no 4°ano e temos-nos entendido maravilhosamente bem. 
Porquê? Porque fazemos a catequese a brincar. 
“A brincar? Como assim? É para se levar a sério!”
Eu levo isto tudo muito a sério, tanto que tento arranjar a melhor forma para eles aprenderem. 
Por exemplo, quando quero falar sobre um certo tema, faço o abecedário no quadro e os meus tesourinhos (é assim que eu os trato) têm que completar aquele quadro com palavras sobre aquele tema. 
E eles ficam tão entusiasmados que ficam ali a pensar seriamente que palavras lá poderiam encaixar. 

Este ano, estou com três grupos de catequese, 4.°, 5.° e 10.° anos. 
Quando os junto todos para a catequese de duas horas, eles nem dão pelo tempo passar. 
Faço equipas e jogamos ao jogo da forca, mas eu claro, penso sempre em palavras que depois vou conseguir falar sobre um certo tema, também faço questionários e vão respondendo.
Como tenho o grupo dos mais velhos e dois mais novinhos, decidi fazer um apadrinhamento.
Ou seja, cada catequizando do 10.° ano tem 2 / 3 afilhados do 4.° ou 5.° ano. 
No início do ano, tanto padrinhos como afilhados fizeram o seu compromisso um para com o outro e como eles formam uma equipa, cada grupo tem um nome e um grito de guerra. 
Alguns padrinhos vão com os afilhados acolitar, ajudam a perceber a bíblia, ensinam canções, etc… Cada um tem a sua forma de cumprir o seu papel neste compromisso.

Tendo apenas 20 anos e ser quase da idade dos catequizandos do 10.° ano fez-me sentir um pouco insegura para lhes dar catequese no início do ano, mas tem sido uma experiência incrível! 
Entendemos-nos lindamente, com eles sozinhos a catequese é mais calma, mas com um jeito diferente.
Somos 19 ao todo, brincamos, cantamos, dançamos, jogamos, mas acima de tudo estamos sempre a aprender. 
Eles aprendem comigo, mas eu aprendo muito com eles, estou a crescer com eles. 
Eles tornam-me uma pessoa melhor sem dúvida. 
A catequese é levada a sério sim, mas às vezes brincamos e é muito melhor, estão a aprender, mas estão ali porque gostam e querem aprender.  

Obrigada aos meus tesourinhos! São os melhores do mundo.

Paula Silva, catequista


20 fevereiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #07


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

A audiência de hoje realiza-se em dois lugares. Primeiro, encontrei-me com os fiéis de Benevento, que estavam em São Pedro, e agora convosco. E isto deve-se à delicadeza da Prefeitura da Casa Pontifícia que não quer que sintais frio: agradeçamos-lhe que pensou nisto. Obrigado.

Prossigamos as catequeses sobre o “Pai-Nosso”. O primeiro passo de cada prece cristã é ingresso num mistério, o da paternidade de Deus. Não se pode rezar como papagaio. Ou entras no mistério, na consciência de que Deus é o teu Pai, ou não rezas. Se eu orar a Deus, meu Pai, entro no mistério. Para compreender em que medida Deus é nosso pai, pensemos nas figuras dos nossos pais, mas devemos sempre até certo ponto “refiná-las”, purificá-las. O próprio Catecismo da Igreja Católica diz: «A purificação do coração tem em vista as imagens paternas ou maternas resultantes da nossa história pessoal e cultural, que influenciam o nosso relacionamento com Deus» (n. 2779).

Nenhum de nós teve pais perfeitos, nenhum: como nós, por nossa vez, nunca seremos pais ou pastores perfeitos. Todos temos defeitos, todos. Vivemos as nossas relações de amor sempre sob o sinal dos nossos limites e também do nosso egoísmo, portanto com frequência são manchadas por desejos de posse ou de manipulação do outro. Por isso às vezes as declarações de amor convertem-se em sentimentos de raiva e de hostilidade. Mas veja, estes dois amavam-se tanto na semana passada, hoje não se suportam: vemos isto todos os dias! É por isso, pois todos temos raízes amargas dentro, que não são boas, e às vezes saem e fazem sofrer.

Eis por que, quando falamos de Deus como “pai”, enquanto pensamos na imagem dos nossos pais, especialmente se nos amaram, ao mesmo tempo devemos ir além. Porque o amor de Deus é o do Pai que “está nos céus”, segundo a expressão que Jesus nos convida a usar: o amor total que nós experimentamos nesta vida só de maneira imperfeita. Os homens e as mulheres são eternamente mendigos de amor — somos mendigos de amor, precisamos de amor — procuram um lugar onde finalmente ser amados, mas não o encontram. Quantas amizades e quantos amores desiludidos há no nosso mundo; muitos!

O deus grego do amor, na mitologia, é em absoluto o mais trágico: não se entende se é um ser angélico ou um demónio. A mitologia diz que é filho de Póros e Pênia, isto é da dissimulação e da pobreza, destinado a ter em si um pouco da fisionomia destes pais. Eis por que podemos pensar na natureza ambivalente do amor humano: capaz de florescer e de viver vigorosamente numa hora do dia, e de repente depois murchar e morrer; o que apanha, escapa-lhe sempre (cf. Platão, O Banquete, 203). Há uma expressão do profeta Oseias que enquadra de maneira impiedosa a fraqueza congénita do nosso amor: «O vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho matutino que logo se dissipa» (6, 4). Eis o que muitas vezes é o nosso amor: uma promessa com dificuldade para se manter, uma tentativa que depressa evapora e seca, quase como quando de manhã nasce o sol e enxuga o orvalho da noite.

Quantas vezes, nós homens, amámos desta maneira tão frágil e intermitente. Todos nós tivemos esta experiência: amámos mas depois aquele amor diminuiu ou tornou-se frágil. Desejosos de amar, depois entramos em conflito com os nossos limites, com a pobreza das nossas forças: incapazes de manter uma promessa que nos dias de graça nos parecia fácil de realizar. No fundo também o apóstolo Pedro teve medo e fugiu. O apóstolo Pedro não foi fiel ao amor de Jesus. Há sempre esta fragilidade que nos faz cair. Somos mendigos que no caminho corremos o risco de nunca encontrar completamente aquele tesouro que procuramos desde o primeiro dia da nossa vida: o amor.

Contudo, existe outro amor, o do Pai “que está nos céus”. Ninguém deve duvidar de que é destinatário deste amor. Ele ama-nos. “Ama-me”, podemos dizer. Se até o nosso pai e a nossa mãe não nos tivessem amado — uma hipótese histórica — há um Deus nos céus que nos ama como ninguém nesta terra jamais fez nem poderá fazer. O amor de Deus é constante. Diz o profeta Isaías: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos» (49, 15-16). Hoje a tatuagem está na moda: “Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos”. Fiz uma tatuagem de ti nas minhas mãos. Estou nas mãos de Deus e não a possa cancelar. O amor de Deus é como o amor de uma mãe, que nunca se esquece. E se uma mãe se esquecer? “Eu não me esquecerei”, diz o Senhor. Este é o amor perfeito de Deus, assim somos amados por Ele. Se também todos os nossos amores terrenos se despedaçassem e nas nossas mãos ficasse apenas pó, haverá sempre para todos nós, ardente, o amor único e fiel de Deus.

Na fome de amor que todos sentimos, não procuremos algo que não existe: ela é o convite a conhecer Deus que é pai. A conversão de Santo Agostinho, por exemplo, passou por este cume: o jovem e brilhante reitor buscava simplesmente entre as criaturas algo que nenhuma criatura lhe podia dar, até que um dia teve a coragem de erguer os olhos. E naquele dia conheceu Deus. Deus que ama.
A expressão “nos céus” não exprime distância mas uma diversidade radical de amor, outra dimensão de amor, um amor incansável, um amor que permanecerá para sempre, aliás, que está sempre ao alcance das mãos. É suficiente dizer “Pai nosso que estais nos Céus”, e aquele amor chega.
Portanto, não tenhais medo! Nenhum de nós está sozinho. Se por desventura o teu pai terreno se tiver esquecido de ti e tu sentires rancor contra ele, não te é negada a experiência fundamental da fé cristã: a de saber que és filho muito amado de Deus, e que nada na vida pode cancelar o seu amor apaixonado por ti.
Catequese do Papa Francisco
20 de Fevereiro de 2019



19 fevereiro 2019

Santa Jacinta e São Francisco Marto


Jacinta, a sétima filha do casal Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus dos Santos, nasceu no lugar de Aljustrel, paróquia de Fátima, no dia 11 de Março de 1910. No dia 19 do mesmo mês recebeu a graça do Baptismo. 
Os seus pais, que eram humildes agricultores e piedosos cristãos, deram-lhe uma sã educação moral e religiosa. Desde tenra idade mostrou o gosto pela oração, a preocupação pelas verdades da fé, prudência na escolha das amizades e um sereno espírito de obediência. De índole vivaz, expansiva e alegre, gostava de brincar e bailar; cativava a simpatia dos outros, se bem que tivesse certa inclinação a dominar e a não ser contrariada tanto que facilmente amuava e era ciosa do que lhe pertencia. Todavia, depois mudou completamente e tornou-se um modelo esplêndido de humildade, de mortificação e de generosidade. 
Logo que pôde, começou a trabalhar; em particular foi encarregada de acompanhar o irmão Francisco, um pouco mais velho do que ela, no pastoreio do rebanho. Ambos gostavam de se juntar com a prima Lúcia de Jesus dos Santos, que era também pastora de ovelhas. Deste modo as três crianças, unidas por uma grande amizade, passavam o dia inteiro nesta actividade, que, apesar de custosa, eles executavam diligentemente e com prazer, porque lhes deixava tempo para brincar e para rezar e lhes permitia usufruir das belezas da natureza. 
O que inesperadamente lhes mudou a vida, deu-se no ano de 1916: eles disseram ter visto três vezes um anjo que os exortava a rezar e a fazer penitência pela remissão dos pecados e para obter a conversão dos pecadores. A partir deste momento; a pequena Jacinta aproveitava todas as ocasiões para fazer o que o anjo lhe pedira. 
Desde o dia 13 de Maio até ao dia 13 de Outubro de 1917, juntamente com Francisco e Lúcia, teve o privilégio de ver várias vezes a Virgem Maria no lugar chamado Cova da Iria, perto de Fátima. Cheia de alegria e gratidão pelo dom recebido, quis imediatamente responder com todas as forças à exortação da Virgem Maria que lhes pedia orações e sacrifícios em reparação dos pecados que ofendem a Deus e o Imaculado Coração de Maria e pela conversão dos pecadores. 
Ao mesmo tempo dócil à acção da graça, separou-se das coisas terrenas, a fim de se voltar para as coisas celestes e voluntariamente consagrou a sua vida para entrar um dia no paraíso. Estava constantemente mergulhada na contemplação de Deus, em colóquio íntimo com Ele. Procurava o silêncio e a solidão e de noite levantava-se da cama para rezar e livremente expressar o seu amor ao Senhor. Em pouco tempo, a sua vida interior se notabilizou por uma grande fé e por uma enorme caridade. 
A propósito disto dizia: «Gosto tanto de Nosso Senhor! Por vezes julgo ter um fogo no peito, mas que não me queima». Gostava muito de contemplar Cristo Crucificado e comovia-se até às lágrimas ao ouvir a narração da Paixão. Então afirmava já não querer cometer pecados para não fazer sofrer Jesus. Alimentou uma ardente devoção à Eucaristia, que visitava frequentemente e durante longo tempo na igreja paroquial, escondendo-se no púlpito, onde ninguém a pudesse ver e distrair. 
Desejava alimentar-se do Corpo de Cristo mas isso não lhe foi permitido por causa da idade. Encontrava contudo consolação na comunhão espiritual. De igual modo honrou a Virgem Maria, com um amor terno, filial e alegre e constantemente correspondeu às suas palavras e desejos; muitas vezes honrava-a com a recitação do rosário e com piedosas jaculatórias. 
O seu desejo de sofrer tornou-se mais notório durante a longa e grave doença que a atingiu a partir de Outubro do ano de 1918. Contaminada pela epidemia bronco-pulmonar, a que chamavam «espanhola», o seu estado de saúde agravou-se a pouco e pouco, de tal forma que teve de suportar a ideia de ter de ser operada. Sabendo que lhe restava pouco tempo de vida, multiplicou os sacrifícios, as penitências e as privações de forma a cooperar até ao máximo das suas possibilidades na obra da Redenção. Porém, o que lhe custou mais foi o ter de deixar a família a fim de ser tratada no hospital Rainha D. Estefânia, em Lisboa. Prevendo morrer sozinha, isto é, longe dos seus queridos familiares, disse: «Ó meu Jesus, agora podes converter muitos pecadores, porque este sacrifício é muito grande!». 
No dia 20 de Fevereiro do ano de 1920 pediu os Sacramentos. Apenas recebeu o Sacramento da Penitência: consciente de estar próxima da morte, pediu o Sagrado Viático, mas o sacerdote, não obstante as suas insistências, adiou-o para o dia seguinte. 
Naquele mesmo dia à noite, longe dos pais e dos conhecidos, morreu no hospital de Lisboa, onde desde há algum tempo se encontrava internada. Alcançara finalmente a meta dos seus desejos: a vida eterna. 


Francisco, nascido numa povoação chamada Aljustrel, pertencente à paróquia de Fátima, em Portugal, no dia 11 de Junho de 1908, era filho de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus Marto, modestos agricultores e bons cristãos; no dia 20 do mesmo mês, recebido o baptismo, tornou-se membro do povo da nova aliança. 
De carácter dócil e condescendente, recebeu com fruto a boa educação que os pais lhe deram. Em casa, começou a conhecer e a amar a Deus, a rezar, a participar nas sagradas funções paroquiais, a ajudar o próximo necessitado, a ser sincero, justo, obediente e diligente. Viveu em paz com todos, quer adultos quer da mesma idade. Não se irritava quando o contrariavam e nos jogos não encontrava dificuldades em se adequar à vontade dos outros. Era sensível à beleza da natureza, que contemplava com sensibilidade e admiração; deleitava-se com a solidão dos montes e ficava extasiado perante o nascer e pôr do sol. Chamava ao sol «candeia de Nosso Senhor» e enchia-se de alegria ao aparecerem as estrelas que designava «candeias dos Anjos». Era de tal inocência que dizia que ao chegar ao céu havia de colocar azeite na candeia da Virgem Maria. 
Logo que pôde, quando atingiu a idade de cerca de seis anos, foi-lhe confiada a guarda do rebanho, que diariamente pastoreava; segundo o costume, saía de manhã cedo com a sacola levando o alimento e a flauta, com a qual se divertia, e tornava a casa ao pôr do sol. Muitas vezes era acompanhado pela irmãzinha Jacinta e ambos se reuniam com a prima Lúcia de Jesus dos Santos, que guardava também as suas ovelhas. Estas crianças declararam ter visto três vezes um anjo no ano de 1916. Este acontecimento inesperado e imprevisto constitui para Francisco o início duma experiência espiritual mais generosa, mais eficaz e mais intensa de dia para dia. De repente começou a tornar-se mais piedoso e taciturno; recitava frequentemente a oração ensinada pelo anjo; estava disposto a oferecer sacrifícios pela salvação dos que não acreditam, não esperam e não amam. 
Do dia 13 de Maio até ao dia 13 de Outubro de 1917, algumas vezes, juntamente com a Jacinta e a Lúcia, foi-lhe concedido o privilégio de ver a Virgem Maria na Cova da Iria. A partir daí, inflamado cada vez mais no amor a Deus e às almas, tinha uma só aspiração: rezar e sofrer de acordo com o pedido da Virgem Maria. Se extraordinária foi a medida da benignidade divina para com ele, extraordinária foi também a maneira como ele quis corresponder à graça divina na alegria, no fervor, e na constância. Não se limitou apenas a ser como que um mensageiro do anúncio, da penitência e da oração, mas, mais do que isso, com todas as suas forças, conformou a sua vida com a mensagem que ele anunciou mais com a bondade das obras do que com palavras. 
Costumava dizer: «Que belo é Deus, que belo! Mas está triste por causa dos pecados dos homens. Eu quero consolá-lo, quero sofrer por seu amor». 
Manteve este propósito até ao fim. Durante as aparições suportou com espírito inalterável e com admirável fortaleza as más interpretações, as injúrias, as perseguições e mesmo alguns dias de prisão. Resistiu respeitosa e fortemente à autoridade local que tudo tentou para conhecer o «segredo» revelado pela Virgem Santíssima às três crianças, infundindo coragem simultaneamente à irmã e à prima. Todas as vezes que o ameaçavam com a morte respondia: «se nos matarem não importa: vamos para o céu». 
Já antes das aparições rezava, porém depois, movido por um espírito de fé mais vivo e amadurecido, tomou consciência de ser chamado e de se entregar zelosa e constantemente ao dever de rezar segundo as intenções da Virgem Maria. Procurava o silêncio e a solidão para mergulhar totalmente na contemplação e no diálogo com Deus. 
Participava na missa dos dias festivos e quando podia também nos feriais. Nutriu uma especial devoção à Eucaristia e passava muito tempo na igreja, adorando o Santíssimo Sacramento do altar a que chama «Jesus escondido». Recitava diariamente os quinze mistérios do Rosário e muitas vezes mais, a fim de satisfazer o desejo da Virgem; para isso gostava de juntar orações e jaculatórias, que tinha aprendido no catecismo e que o Anjo, a Virgem Santíssima e piedosos sacerdotes lhe tinham ensinado. Rezava para consolar a Deus, para honrar a Mãe do Senhor, que muito amava, para ser útil às almas que expiam as penas no fogo do purgatório, para auxiliar o Sumo Pontífice no seu importante múnus de pastor universal; rezava pelas necessidades do mundo transtornado pelo pecado; rezava pela Igreja e pela salvação eterna das almas. Rezava sozinho, com os familiares, com os peregrinos, manifestando um profundo recolhimento interior e uma confiança segura na bondade divina. 
Como tivesse sabido da Virgem Maria que a sua vida iria ser breve, passava os dias na ardente expectativa de entrar no céu. E de facto tal expectativa não foi longa. Com efeito, apesar de ser robusto e de gozar de boa saúde, em Outubro do ano de 1918 foi atingido pela grave epidemia bronco-pulmonar chamada «espanhola». Do leito em que caiu não chegou a levantar-se; pelo contrário, no ano de 1919, o seu estado de saúde agravou-se. Sofreu, com íntima alegria, a sua enfermidade e as suas enormes dores, em oblação a Deus. À Lúcia que lhe perguntava se sofria, respondeu: «Bastante, mas não me importa. Sofro para consolar Nosso Senhor e em breve irei para o céu». No dia 2 de Abril, recebeu santamente o sacramento da Penitência e no dia seguinte foi finalmente alimentado com o Corpo de Cristo, como Santo Viático. Ao despedir-se dos presentes prometeu rezar por eles no céu. 
Entrou piedosamente na vida eterna, que veementemente desejara, no dia 4 de Abril de 1919. Foi sepultado no cemitério de Fátima, mas depois as suas relíquias foram transladadas para o Santuário, que entretanto fora construído onde a Virgem aparecera.








17 fevereiro 2019

Virtude da Temperança (Tt 2,12)

Virtude morais (ditas também humanas) - Designamos por virtudes morais ou humanas, as atitudes e disposições interiores da pessoa que a determinam a agir segundo os princípios da razão e da fé. Entre as diversas virtudes humanas destacam-se quatro, que são como que a fonte de todas as outras e por isso se designam de:

Hoje é a vez de falar da quarta virtude cardeal, a "temperança", acabando de cumprir assim, dalgum modo, o programa de João Paulo I, programa em que pode ver-se como que um testamento do Pontífice falecido.

Quando falamos das virtudes —  não só das cardeais, mas de todas e cada uma das virtudes — devemos conservar sempre diante dos olhos o homem real, o homem concreto. A virtude não é alguma coisa de abstracto, separado da vida, mas, pelo contrário, tem profundas "raízes" na vida mesma, dela brota, é ela que forma. A virtude incide na vida do homem, nas suas acções e no seu comportamento. Disto resulta que, em todas estas nossas reflexões, não falamos tanto da virtude quanto do homem que vive e procede "virtuosamente"; falamos do homem prudente, justo, corajoso e, por fim, hoje exactamente, falamos do homem "temperante" (ou "sóbrio").
Acrescentemos imediatamente que todos estes atributos, ou melhor atitudes do homem, provenientes de cada uma das virtudes cardeais, estão entre si conexas. Não se pode, por conseguinte, ser homem verdadeiramente prudente, nem autenticamente justo, nem realmente forte, se não se tem ainda a virtude da temperança. Pode-se dizer que esta virtude condiciona indirectamente todas as outras virtudes; mas deve-se dizer também que todas as outras virtudes são indispensáveis para que o homem possa ser "temperante" (ou "sóbrio").

O próprio vocábulo "temperança" parece em certo modo referir-se ao que está "fora do homem". Dizemos, de facto, que temperante é aquele que não abusa de alimentos, de bebidas e de prazeres, que não toma imoderadamente bebidas alcoólicas, não se priva da consciência pelo uso de estupefacientes, etc. Esta referência a elementos externos ao homem tem contudo a sua base dentro do homem. É como se em cada um de nós existisse um "eu superior" e um "eu inferior". No nosso "eu inferior" exprime-se o nosso "corpo" e tudo o que lhe pertence: as suas carências, os seus desejos, as suas paixões de natureza prevalentemente sensual. A virtude da temperança garante a cada homem o domínio do "eu superior" sobre o "eu inferior". Temos aqui humilhação do nosso corpo? ou diminuição? Pelo contrário, este domínio valoriza o corpo. A virtude da temperança leva o corpo e os nossos sentidos a encontrarem o justo lugar que lhes pertence no nosso ser humano.
O homem temperante é aquele que é senhor de si mesmo. Aquele em que as paixões não tornam a supremacia sobre a razão, sobre a vontade e também sobre o "coração". O homem que sabe dominar-se a si mesmo! Se assim é, facilmente nos damos conta do valor fundamental e radical que tem a virtude da temperança. É absolutamente indispensável, para que o homem "seja" plenamente homem. Basta reparar nalguém que, arrastado pelas suas paixões, delas se torna "vítima", renunciando ele próprio ao uso da razão (como, por exemplo, um alcoolizado, um drogado). Verificamos então com evidência que "ser homem" significa respeitar a própria dignidade e, por isso, em particular deixar-se guiar pela virtude da temperança.

Esta virtude é chamada também "sobriedade". E é bem justo chamá-la assim! De facto, para podermos dominar as paixões — a concupiscência da carne, as explosões da sensualidade (por exemplo nas relações com o outro sexo) etc., devemos não ultrapassar o justo limite que se põe a nós próprios e ao nosso "eu inferior". Se não respeitamos este justo limite, não seremos capazes de dominar-nos. Não quer isto dizer que o homem virtuoso, sóbrio, não possa ser "espontâneo", não possa gozar, não possa chorar, não possa manifestar os próprios sentimentos, isto é, não significa que deva tornar-se insensível, "indiferente", como se fosse de gelo ou de pedra. Não, de nenhum modo! Basta olharmos para Jesus e convencer-nos-emos. A moral cristã nunca se identificou com a estóica. Pelo contrário, considerando toda a riqueza dos afectos e das emotividades de que é dotado cada homem — cada um aliás de modo diverso: dum modo o homem, doutro a mulher por causa da sensibilidade de cada um — é necessário reconhecer que o homem não pode chegar a esta espontaneidade madura, senão através de um trabalho intenso sobre si mesmo e uma especial "vigilância" sobre todo o seu comportamento. Nisto está de facto a virtude da "temperança", da "sobriedade".

Julgo que esta virtude exige de cada um de nós uma especial humildade quanto aos dons que Deus colocou na nossa natureza humana. Diria, "a humildade do corpo" e a "do coração". Esta humildade é condição necessária para a "harmonia" interior do homem: para a beleza "interior" do homem. Cada um reflicta bem neste ponto, em especial reflictam os jovens, e mais ainda as jovens, na idade em que tanto se tem a peito ser belo ou bela, para agradar aos outros! Recordemo-nos que o homem deve ser belo sobretudo interiormente. Sem esta beleza, todos os esforços que tenham em vista só o corpo não farão — nem dele nem dela — uma pessoa verdadeiramente bela.
E não é, por sinal, precisamente o corpo que sofre prejuízos sensíveis e muitas vezes até notáveis quanto à saúde, se falta ao homem a virtude da temperança, da sobriedade? A este propósito, muito poderiam dizer as estatísticas e as fichas clínicas de todos os hospitais do mundo. Disso possuem também grande experiência os médicos ocupados nos consultórios, a quem muitas vezes se dirigem noivos e jovens em geral. É verdade que não podemos julgar a virtude baseando-nos exclusivamente no critério da saúde psicofísica, abundam todavia as provas de a falta da virtude da temperança, da sobriedade, vir a prejudicar a saúde.

É preciso que eu termine aqui, embora esteja convencido de este assunto ficar mais interrompido do que esgotado. Talvez um dia se apresente a ocasião de a ele voltar.
Por agora, basta isto.
Deste modo procurei, como pude, executar o testamento de João Paulo I.


Catequese do Papa João Paulo II
22/11/78



15 fevereiro 2019

Virtude da Fortaleza (Jo 16,33)

Virtude morais (ditas também humanas) - Designamos por virtudes morais ou humanas, as atitudes e disposições interiores da pessoa que a determinam a agir segundo os princípios da razão e da fé. Entre as diversas virtudes humanas destacam-se quatro, que são como que a fonte de todas as outras e por isso se designam de:


O Papa João Paulo I, falando da varanda da Basílica de São Pedro, no dia seguinte à sua eleição, recordou em especial que durante o Conclave de 26 de Agosto, quando tudo já indicava que ele precisamente seria escolhido, os Cardeais que lhe estavam ao lado lhe sussurraram ao ouvido: "Coragem!". Provavelmente esta palavra, naquele momento, era necessária para ele e imprimiu-se-lhe no coração, uma vez que logo no dia seguinte a recordou. João Paulo I me perdoará se agora me sirvo da sua confidência. Creio que ela conseguirá introduzir-nos do melhor modo, a nós todos aqui presentes, no tema que desejo desenvolver. De facto, desejo falar hoje da terceira virtude cardeal, isto é, da fortaleza. Exactamente a esta virtude nos referimos quando queremos exortar alguém a ter coragem, como fez o Cardeal vizinho a João Paulo I no Conclave, quando lhe disse: "Coragem!".

Quem julgamos nós ser homem forte, corajoso? Esta palavra evoca ordinariamente o soldado que defende a Pátria, expondo ao perigo a sua saúde e até a sua vida em tempo de guerra. Damo-nos porém conta que, mesmo em tempo de paz, precisamos de fortaleza. Por isso alimentamos grande estima pelas pessoas que se distinguem pela chamada "coragem civil". Um testemunho de fortaleza é-nos oferecido por quem expõe a própria vida para salvar alguém que está para afogar-se, ou pelo homem que traz o seu auxílio nas calamidades naturais, como incêndios, inundações, etc.
Certamente se distinguia por esta virtude São Carlos, o meu Patrono, que durante a peste de Milão exercia o seu ministério pastoral entre os habitantes dessa cidade. Mas pensemos também com admiração naqueles homens que escalam os píncaros do Everest ou nos cosmonautas quando pela primeira vez põem o pé na lua.

Como se conclui de tudo isto, as manifestações da virtude da fortaleza são numerosas. Algumas delas são muito conhecidas e gozam de certa fama. Outras são menos conhecidas, ainda que muitas vezes exijam uma virtude ainda maior. A fortaleza, de facto, como dissemos no princípio, é uma virtude, uma virtude cardeal. Permiti-me que atraia a vossa atenção para exemplos em geral pouco conhecidos, mas que em si mesmos testemunham grande virtude, às vezes mesmo heróica.
Penso, por exemplo, numa mulher, mãe de família já numerosa, a quem é "aconselhado" por muitos suprimir uma nova vida concebida no seu seio, submetendo-se "à intervenção" que interrompe a maternidade: e ela responde com firmeza: "não". Sem dúvida sente toda a dificuldade que este "não" traz consigo, dificuldade para ela, para o marido, para toda a família; apesar de tudo, responde: "não". A nova vida humana nela concebida é um valor demasiado grande, demasiado "sagrado", para ela poder sujeitar-se a tais pressões.

Mais um exemplo: um homem a quem é prometida a liberdade e até uma carreira fácil, contanto que renegue os seus princípios ou aprove alguma coisa que seja contra a sua honestidade para com os outros. E também ele responde: "não", mesmo defronte a ameaças, por um lado, e atractivos, por outro. Eis uni homem corajoso!
Muitas, muitíssimas são as manifestações de fortaleza, muitas vezes heróicas, de que não se escreve nos jornais ou de que pouco se sabe. Só a consciência humana as conhece... e Deus sabe-o!
Desejo prestar homenagem a todos estes corajosos desconhecidos. A todos os que têm a coragem de dizer "não" ou "sim", quando custa! Aos homens que dão testemunho singular de dignidade humana e profunda humanidade. Precisamente porque são desconhecidos, merecem homenagem e um reconhecimento particular.

Segundo a doutrina de São Tomás, a virtude da fortaleza encontra-se no homem,
— que está pronto a "aggredi pericula", isto é, a afrontar o perigo;
— que está pronto a "sustinere mala", isto é, a suportar a adversidade por uma causa justa, pela verdade, pela justiça, etc.

A virtude da fortaleza requer sempre alguma superação da fraqueza humana e sobretudo do medo. O homem, de facto, por natureza teme espontaneamente o perigo, os dissabores e os sofrimentos. preciso, por isso, procurar os homens corajosos não só nos campos de batalha, mas também nas salas dum hospital ou num leito de dor. Tais homens podiam-se encontrar muitas vezes nos campos de concentração e nos locais de deportação. Eram autênticos heróis.

O medo tira às vezes a coragem cívica aos homens que vivem num clima de ameaça, de opressão ou de perseguição. Especial valor têm então os homens que são capazes de transpor a chamada barreira do medo, com o fim de testemunhar a verdade e a justiça. Para chegar a tal fortaleza, o homem deve em certo modo "ultrapassar" os próprios limites e "superar-se" a si mesmo, correndo "o risco" de uma situação desconhecida, o risco de ser mal visto, o risco de expor-se a consequências desagradáveis, injúrias, degradações, perdas materiais, talvez a prisão ou as perseguições. Para conseguir tal fortaleza, o homem precisa de ser sustentado por grande amor pela verdade e pelo bem, a que se dedica. A virtude da fortaleza anda a par com a capacidade de cada um a sacrificar-se. Esta virtude tinha .já para os antigos um perfil bem definido. Com Cristo adquiriu um perfil evangélico, cristão. O Evangelho dirige-se aos homens fracos, pobres, mansos e humildes, mensageiros de paz, misericordiosos e, ao mesmo tempo, contém em si constante apelo à fortaleza. Repete muitas vezes: Não tenhais medo (Mt 14, 27). Ensina ao homem que, por uma justa causa, pela verdade, pela justiça, é preciso saber dar a vida (Jo 15, 13).

Desejo aqui referir-me a outro exemplo, que provém de há 400 anos, mas se conserva sempre vivo e actual. Trata-se da figura de São Estanislau Kostka, patrono dos jovens, cujo túmulo se encontra na igreja de Santo André ao Quirinal, em Roma. Aqui, de facto, terminou a sua vida aos 18 anos de idade este santo, por natureza muito sensível e terno, todavia muito corajoso.
A fortaleza levou-o, a ele proveniente de nobre família, a escolher ser pobre, seguindo o exemplo de Cristo, e a colocar-se ao seu serviço exclusivo. Embora a sua decisão encontrasse firme oposição. por parte do ambiente, conseguiu com grande amor, mas também com grande firmeza, realizar o seu propósito, expresso no mote: "Ad maiora natus sum" ("nasci para coisas maiores"). Chegou ao noviciado dos Jesuítas, percorrendo a pé o caminho de Viena a Roma e procurando fugir aos seus perseguidores que desejavam, pela força, afastar este "obstinado" jovem, dos seus intentos.

Sei que no mês de Novembro muitos jovens de toda Roma — especialmente estudantes, alunos, noviços — visitam o túmulo de Santo Estanislau na igreja de Santo André. Estou unido a eles, porque também a nossa geração precisa de homens que saibam com santa "obstinação" repetir: "Ad maiora natus sum". Temos necessidade de homens fortes!
Temos necessidade de fortaleza para ser homens. De facto, só é homem verdadeiramente prudente aquele que possui a virtude da fortaleza; assim como também só é homem verdadeiramente justo aquele que tem a virtude da fortaleza.

Peçamos este dom do Espírito Santo que se chama o "dom da fortaleza". Quando ao homem faltam as forças para "superar-se" a si mesmo em vista de valores superiores — como a verdade, a ,justiça, a vocação e a fidelidade matrimonial — é necessário que este "dom do alto" faça de cada um de nós um homem forte e, no devido momento, nos diga "no íntimo": coragem!


Catequese do Papa João Paulo II
15/11/78


14 fevereiro 2019

Propósitos quaresmais





1. Visitar Jesus no sacrário, pedindo-lhe a graça da minha conversão;
2. Compreender os defeitos dos outros e tentar não ofender ninguém;
3. Perdoar de coração a quem me tenha ofendido;
4. Dar bom conselho a quem o necessite;
5. Formar em mim o hábito de fazer o acto de contrição pelos pecados da minha vida;
6. Fazer uma visita à Virgem Maria, pedindo-lhe que me ajude a viver esta quaresma;
7. Oferecer a minha comunhão pela conversão do mundo e pela minha própria conversão;
8. Fazer um sacrifício durante este dia;
9. Fazer uma obra de caridade a quem mais necessite;
10. Durante o dia fazer uma abstinência daquilo que mais gosto;
11. Rezar o Terço com muita devoção, pedindo à Virgem Maria a minha conversão e da minha família;
12. Cumprir no dia de hoje o meu dever com muita responsabilidade e alegria;
13. Pedir a Nossa Senhora que imite uma das suas virtudes, especialmente aquele que mais falta me faz;
14. Rezar três Avé Marias; a primeira pelo Santo Padre, a segunda pela minha família e a terceira pela minha vocação e conversão;
15. Prestar um serviço com amabilidade a quem mo pede;
16. Fazer uma boa confissão;
17. Participar com muito respeito na Missa;
18. Cumprir com alegria o meu dever;
19. Rezar e pedir para conservar a minha pureza;
20. Fazer um sacrifício do que mais me custa pela dor dos meus pecados;
21. Conviver mais com a minha família no dia de hoje;
22. Agradecer ao Senhor tudo o que fez por mim;
23. Fazer um bom exame de consciência antes de dormir;
24. Minha primeira saudação do dia será para o Senhor;
25. Evitar a preguiça neste dia;
26. Animar os meus amigos a aproximarem-se de Deus na Semana Santa;
27. Pedir ao Senhor por todas as almas consagradas; 




13 fevereiro 2019

Catequese sobre o Pai Nosso #06

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Continuemos o nosso percurso para aprender a rezar cada vez melhor como Jesus nos ensinou. Devemos orar como Ele nos ensinou.
Ele disse: quando rezas, entra no silêncio do teu quarto, retira-te do mundo e dirige-te a Deus chamando-o “Pai!”. Jesus quer que os seus discípulos não sejam como os hipócritas que rezam permanecendo de pé nas praças, para ser admirados pelo povo (cf. Mt 6, 5). Jesus não quer hipocrisia. A verdadeira oração é aquela que se faz no segredo da consciência, do coração: insondável, visível unicamente a Deus. Eu e Deus! Ela evita a falsidade: com Deus, é impossível fingir. É impossível, diante de Deus não há estratagema que possa funcionar, Deus conhece-nos assim, nus na consciência, e não se pode fingir. Na raiz do diálogo com Deus existe um diálogo silencioso, como o cruzamento de olhares entre duas pessoas que se amam: o homem e Deus cruzam os olhares, e isto é oração. Fitar Deus e deixar-se olhar por Deus: isto é rezar. “Mas padre, eu não pronuncio palavras...”. Olha para Deus e deixa-te fitar por Ele: é uma prece, uma bonita oração!

Contudo, não obstante a prece do discípulo seja totalmente confidencial, nunca decai no intimismo. No segredo da consciência, o cristão não deixa o mundo fora da porta do seu quarto, mas traz no coração as pessoas e as situações, os problemas, tantas questões, apresenta-as todas na oração.

Há uma ausência impressionante no texto do “Pai-Nosso”. Se eu vos perguntasse qual é a ausência impressionante no texto do “Pai-Nosso”? Não será fácil responder. Falta uma palavra. Pensai todos: o que falta no “Pai-Nosso”? Pensai, o que falta? Uma palavra. Uma palavra que nos nossos tempos — mas talvez sempre — todos têm em grande consideração. Qual é a palavra que falta no “Pai-Nosso”, que recitamos todos os dias? Para poupar tempo, di-la-ei: falta a palavra “eu”. Nunca se diz “eu”. Jesus ensina a rezar, tendo nos lábios antes de tudo o “Vós”, porque a oração cristã é diálogo: “santificado seja o vosso nome, venha o vossoreino, seja feita a vossa vontade”. Não o meu nome, o meu reino, a minha vontade. Eu não, não funciona. E depois passa para o “nós”. Toda a segunda parte do “Pai-Nosso” é declinada na primeira pessoa do plural: “dai-nos nosso pão de cada dia, perdoai-nos as nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação, livrai-nos do mal”. Até os pedidos mais elementares do homem — como aquele de ter alimento para saciar a fome — são todos no plural. Na prece cristã, ninguém pede o pão para si mesmo: dai-me o pão de cada dia, não, dai-nos, suplica-o para todos, para todos os pobres do mundo. Não podemos esquecer isto, falta a palavra “eu”. Reza-se com o vós e com o nós. É um bom ensinamento de Jesus, não o esqueçais!

Porquê? Porque no diálogo com Deus não há espaço para o individualismo. Não há ostentação dos próprios problemas, como se fôssemos os únicos que sofremos no mundo. Não existe oração elevada a Deus, que não seja a prece de uma comunidade de irmãos e irmãs, o nós: vivemos em comunidade, somos irmãos e irmãs, constituímos um povo que reza, “nós”. Certa vez o capelão de um cárcere fez-me uma pergunta: “Diga-me, padre, qual é o contrário de ‘eu’?”. E eu, ingénuo, disse: “tu”. “Este é o início da guerra. A palavra oposta a ‘eu’ é ‘nós’, onde existe a paz, todos juntos”. Foi um bonito ensinamento que recebi daquele sacerdote.

Na oração, o cristão apresenta todas as dificuldades das pessoas que vivem ao seu lado: quando cai a noite, narra a Deus as dores com as quais se cruzou naquele dia; põe diante d’Ele muitos rostos, amigos e também hostis; não os afasta como distrações perigosas. Se não se der conta de que ao seu redor há tantas pessoas que sofrem, se não sentir pena pelas lágrimas dos pobres, se estiver habituado a tudo, então significa que o seu coração... como é? Murcho? Não, pior: é de pedra. Neste caso é bom suplicar ao Senhor que nos sensibilize com o seu Espírito e enterneça o nosso coração: “Senhor, enternecei o meu coração!”. É uma bonita oração: “Senhor, enternecei o meu coração, a fim de que eu possa entender e responsabilizar-me por todos os problemas, por todas as dores dos outros”. Cristo não passou incólume ao lado das misérias do mundo: cada vez que sentia uma solidão, uma dor do corpo ou do espírito, sentia uma forte compaixão, como as vísceras de uma mãe. Este “sentir compaixão” — não nos esqueçamos desta palavra tão cristã: sentir compaixão — é um dos verbos-chave do Evangelho: é isto que impele o bom samaritano a aproximar-se do homem ferido na beira da estrada, ao contrário dos outros que têm o coração duro.

Podemos interrogar-nos: quando rezo, abro-me ao clamor de tantas pessoas próximas e distantes? Ou então penso na oração como numa espécie de anestesia, para poder estar mais tranquilo? Faço a pergunta, cada um responda a si mesmo. Neste caso eu seria vítima de um equívoco terrível. Sem dúvida, a minha oração deixaria de ser cristã. Porque aquele “nós”, que Jesus nos ensinou, me impede de estar em paz sozinho, e me faz sentir responsável pelos meus irmãos e irmãs.
Existem homens que, aparentemente, não buscam Deus, mas Jesus faz-nos rezar também por eles, porque Deus procura acima de todos estas pessoas. Jesus não veio para os sadios, mas para os doentes, para os pecadores (cf. Lc 5, 31), ou seja, para todos, porque quem pensa que é sadio, na realidade não o é. Se trabalharmos pela justiça, não nos sintamos melhores do que os outros: o Pai faz nascer o seu sol tanto sobre os bons como sobre os maus (cf. Mt 5, 45). O Pai ama todos! Aprendamos de Deus, que é sempre bom para com todos, contrariamente a nós, que só conseguimos ser bons para com alguns, para com alguém que me agrada.

Irmãos e irmãs, santos e pecadores, somos todos irmãos amados pelo mesmo Pai. E, no crepúsculo da vida, seremos julgados sobre o amor, sobre o modo como amamos. Não com um amor apenas sentimental, mas compassivo e concreto, segundo a regra evangélica, não a esqueçais! «Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 40). Assim diz o Senhor. Obrigado!


Catequese do Papa Francisco
13 de Fevereiro de 2019



Virtude da Justiça (Col 4,1)

Virtude morais (ditas também humanas) - Designamos por virtudes morais ou humanas, as atitudes e disposições interiores da pessoa que a determinam a agir segundo os princípios da razão e da fé. Entre as diversas virtudes humanas destacam-se quatro, que são como que a fonte de todas as outras e por isso se designam de:



Toca-me hoje falar da justiça. Bom é talvez que este seja o tema da primeira catequese no mês de Novembro. De facto, este mês leva-nos a fixar os olhos sobre a vida de cada homem, e ao mesmo tempo sobre a vida de toda a humanidade, na perspectiva da justiça final. Todos, em certo modo, sabemos que, na transitoriedade deste mundo, não é possível realizar a medida plena da justiça. Talvez que as palavras tantas vezes ouvidas, "Não ha justiça neste mundo", sejam fruto dum simplismo demasiado fácil. Há nelas, porém, ao mesmo tempo um principio de profunda verdade. A justiça é, em certo modo, maior que o homem, que as dimensões da sua vida terrena, que as possibilidades de estabelecer nesta vida relações plenamente justas entre os homens, os ambientes, as sociedades e grupos sociais, as nações, e assim por diante. Cada homem vive e morre com certa sensação de a justiça não estar completa, porque o mundo não é capaz de satisfazer completamente um ser criado à imagem de Deus, de o satisfazer nem na profundidade da sua pessoa nem nos vários aspectos da sua vida humana. E assim, por meio desta fome de justiça, o homem abre-se a Deus que "é a justiça mesma". Jesus, no Sermão da Montanha, expressou isto dum modo claro e conciso, dizendo: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5, 6).

Tendo diante dos olhos este sentido evangélico da justiça, devemos considerá-la ao mesmo tempo como dimensão fundamental da vida humana sobre a terra: vida do homem, da sociedade e da humanidade. Esta é a dimensão ética. A justiça é princípio fundamental da existência e da coexistência dos homens, como também das comunidades humanas, das sociedades e dos povos. Além disso, a justiça é princípio da existência da Igreja como Povo de Deus, e princípio de coexistência da Igreja e das várias estruturas sociais, em particular do Estado, como também das organizações internacionais. Neste terreno vasto e diferenciado, o homem e a humanidade procuram continuamente justiça: é um processo perene e um encargo de suprema importância.
Segundo as diversas relações e os diversos aspectos, a justiça obteve, através dos séculos, definições mais apropriadas. Daqui o conceito da justiça comutativa, distributiva, legal e social. Tudo isto mostra a grandeza do significado fundamental que tem a justiça para a ordem moral entre os homens, nas relações sociais e internacionais. Pode dizer-se que até o sentido da existência do homem sobre a terra está ligado à justiça. Definir correctamente "quanto é devido" a cada um por todos, e ao mesmo tempo a todos por cada um "o que é devido" (debitum) ao homem pelo homem em diversos sistemas e relações — definir, e antes de mais realizar! é grande coisa, pela qual cada homem vive e graças à qual a sua vida tem sentido.

Mantém-se portanto, durante os séculos da existência humana na terra, um esforço contínuo e uma luta contínua para ordenar com justiça o conjunto da vida social nos seus vários aspectos. É necessário olhar com respeito para a multiplicidade de programas e para a actividade, às vezes reformadora, de diversas tendências e sistemas. É necessário, ao mesmo tempo, ter consciência de não se tratar aqui primeiramente dos sistemas, mas da justiça e do homem. Não pode ser o homem para o sistema, mas o sistema deve ser para o homem. Por isso é necessário defendermo-nos do enquilosamento do sistema. Refiro-me aos sistemas sociais, económicos, políticos e culturais, que devem ter conta do homem, do seu bem integral, e devem ser capazes de se reformar a si mesmos, as suas estruturas próprias, segundo as exigências da verdade plena sobre o homem. Deste ponto de vista é que há-de medir-se o grande esforço dos nossos tempos, que tende a definir e a consolidar "os direitos do homem" na vida da humanidade hodierna, dos povos e dos Estados.

A Igreja do nosso século mantém-se em diálogo contínuo sobre a grande frente do mundo contemporâneo, como o testemunham numerosas encíclicas dos Papas e a doutrina do Concílio Vaticano II. O actual Papa terá certamente de voltar outras vezes a estes argumentos. Na breve exposição de hoje basta porém limitar-me a assinalar apenas este vasto e diferenciado terreno.
4. É necessário para cada um de nós poder viver num contexto de justiça, e ainda mais, ser cada um de nós justo e actuar com justiça a respeito dos que estão perto e dos que estão longe, da comunidade, da sociedade de que é membro... e a respeito de Deus.

A justiça tem de atender a muitas coisas e reveste muitas formas. Há também uma forma de justiça que tem em vista aquilo que o homem "deve" a Deus. Já só este tema é principal e vasto. Não o desenvolverei agora, ainda que não possa fugir a indicá-lo.

Detenhamo-nos entretanto sobre os homens. Cristo deixou-nos o manda-mento do amor do próximo. Neste mandamento inclui-se também tudo o que diz respeito à justiça. Não pode haver amor sem justiça. O amor "supera" a justiça, mas, ao mesmo tempo, encontra a sua verificação na justiça. Até o pai e a mãe, amando o próprio filho, devem ser justos com ele. Vacilando a justiça, também o amor corre perigo.

Ser justo significa dar a cada um o que lhe é devido. Isto diz respeito aos bens temporais, de natureza material. O melhor exemplo pode ser, neste particular, a retribuição do trabalho ou o chamado direito aos frutos do próprio trabalho ou da própria terra. Mas ao homem deve-se, além disso, o bom nome, o respeito, a consideração e a fama, que para si mereceu. Quanto mais conhecemos o homem, tanto mais se nos revelam a sua personalidade, o seu carácter, a sua inteligência e o seu coração, E tanto mais nos damos conta — e devemos dar-nos conta! — do critério com que devemos "medi-lo" e o que significa sermos justos para com ele.

É por isso, necessário aprofundar-mos continuamente o conhecimento da justiça. Não se trata duma ciência teórica. É virtude, é capacidade do espírito humano, da vontade humana e também do coração. Requer-se ainda que oremos para sermos justos e sabermos ser justos. Não podemos esquecer as palavras de Nosso Senhor. Com a medida cora que medirdes sereis medidos (Mt 7, 2).
Homem justo, homem de "justa medida".
Sejamo-lo todos! Tendamos todos sem descanso para o virmos a ser!
A todos a minha bênção.

Catequese do Papa João Paulo II
8/11/78


As Bem-aventuranças (Mt 5)



Reflexão do Papa Francisco sobre as Bem-aventuranças:
"«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.» Podemos perguntar-nos como pode ser feliz uma pessoa pobre de coração, cujo único tesouro é o Reino dos Céus. O motivo é precisamente este: tendo o coração despojado e livre de tantas coisas mundanas, essa pessoa está à espera do Reino dos Céus.

«Felizes aqueles que choram, porque serão consolados.» Como podem ser felizes aqueles que choram? Todavia, quem na vida nunca experimentou a tristeza, a angústia, a dor, nunca conhecerá a força da consolação. Felizes, por seu lado, podem ser quantos têm a capacidade de se comoverem, a capacidade de sentir no coração a dor que está na sua vida e na vida dos outros. Estes serão felizes! Porque a terna mão de Deus consolá-los-á e acariciá-los-á.

«Felizes os mansos.» E nós, ao contrário, quantas vezes somos impacientes, nervosos, sempre prontos a lamentar-nos! Para os outros temos muitas reivindicações, mas quando nos tocam, reagimos levantando a voz, como se fossemos os donos do mundo, quando na realidade somos todos filhos de Deus.

Pensemos antes naquela mãe e naquele pai que são tão pacientes com os filhos, "que os enlouquecem". Este é o caminho do Senhor: o caminho da humildade e da paciência. Jesus percorreu esta via: em pequeno, suportou a perseguição e o exílio; e depois, adulto, as calúnias, as armadilhas, as falsas acusações em tribunal; e tudo suportou com mansidão. Suportou por nosso amor até a cruz.

«Felizes aqueles que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.» Sim, aqueles que têm um forte sentido da justiça, e não só para com os outros, mas antes de tudo para consigo próprios, serão saciados porque estão prontos a acolher a maior justiça, aquela que só Deus pode dar.

E depois, «felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia». Felizes aqueles que sabem perdoar, que têm misericórdia com os outros, que não julgam tudo e todos, mas procuram meter-se na pele dos outros. O perdão é a coisa de que todos temos necessidade, ninguém excluído. Por isso, no início da missa reconhecemo-nos por aquilo que somos, isto é, pecadores. E não é uma maneira de dizer, uma formalidade: é um ato de verdade. «Senhor, eis-me aqui, tem piedade de mim.» E se sabemos dar aos outros o perdão que pedimos para nós, somos felizes. Como dizemos no "Pai-nosso": «Perdoai os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido».

«Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.» Olhemos o rosto daqueles que semeiam cizânia: são felizes? Aqueles que procuram sempre as ocasiões para enganar, para se aproveitarem dos outros, são felizes? Não, não podem ser felizes. Ao contrário, aqueles que cada dia, com paciência, procuram semear paz, são artesãos de paz, de reconciliação, estes sim, são felizes porque são verdadeiros filhos do nosso Pai do Céu, que semeia sempre e só paz, ao ponto de ter enviado o seu Filho ao mundo como semente de paz para a humanidade.

Caros irmãos e irmãs, esta é a estrada da santidade, e é a mesma estrada da felicidade. E o caminho que Jesus percorreu, na verdade, é Ele mesmo esse caminho: quem caminha com Ele e passa através dele entra na vida, na vida eterna. Peçamos ao Senhor a graça de sermos pessoas simples e humildes, a graça de saber chorar, a graça de sermos mansos, a graça de trabalhar pela justiça e a paz, e sobretudo a graça de nos deixarmos perdoar por Deus para nos tornarmos instrumentos da sua misericórdia."



11 fevereiro 2019

Virtude da Prudência (1Pe 4,7)

Virtude morais (ditas também humanas) - Designamos por virtudes morais ou humanas, as atitudes e disposições interiores da pessoa que a determinam a agir segundo os princípios da razão e da fé. Entre as diversas virtudes humanas destacam-se quatro, que são como que a fonte de todas as outras e por isso se designam de:

O homem prudente, que se aplica a tudo o que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir todas as coisas, todas as situações e todo o seu operar, pelo metro do bera moral. Prudente não é pois aquele que — como muitas vezes se entende — sabe arranjar-se na vida e sabe tirar dela o maior proveito; mas aquele que sabe construir toda a sua existência segundo a voz da recta consciência e segundo as exigências da moral justa.

Assim a prudência constituí a chave para a realização do encargo fundamental que Deus confiou a cada um. Este encargo é a perfeição do próprio homem. Deus entregou a cada um de nós a humanidade que tem. Necessário que nós correspondamos ao encargo recebido programando-o como ele requer.

Mas o cristão tem o direito e o dever de observar a virtude da prudência, também noutra perspectiva. A prudência é como imagem e semelhança da Providência de Deus nas dimensões do homem concreto. Porque o homem sabemo-lo pelo livro do Génesis — foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o Seu plano na história da criação e sobretudo na história da humanidade. A finalidade deste desígnio é — como ensina São Tomás — o bem último do universo. O mesmo desígnio torna-se na história da humanidade simplesmente o desígnio da salvação, o desígnio que diz respeito a todos nós. No ponto central da sua realização encontra-se Jesus Cristo no Qual se expressou o eterno amor e a solicitude do próprio Deus, Pai, pela salvação do homem. Esta é, ao mesmo tempo, a plena expressão da Divina Providência.

Pois bem, o homem que é a imagem de Deus, deve ser — como de novo ensina São Tomás — de certo modo, a providência. Mas na medida da sua vida. Ele pode participar neste grande caminho de todas as criaturas para o termo, que é o bem do que foi criado. Deve — exprimindo-nos ainda mais na linguagem da fé — participar no divino desígnio da salvação. Deve caminhar para a salvação e ajudar os outros a salvarem-se. Ajudando os outros, salva-se a si mesmo.

Peço a quem me escuta que pense agora, a esta luz, na própria vida. Sou prudente? Vivo em consequência com o que sou, responsavelmente? O programa que realizo serve para o verdadeiro bem? Serve para a salvação que querem de nós Cristo e a Igreja? Se hoje me escuta um estudante ou uma estudante, um filho ou uma filha, olhe a esta luz para as próprias obrigações de escola, as leituras, os interesses, os passatempos e o ambiente dos amigos e das amigas. Se me escuta um pai ou uma mãe de família, pense um pouco nos seus deveres conjugais e de progenitura. Se me escuta um ministro ou homem de Estado, olhe para a extensão dos seus deveres e responsabilidades. Procura ele o bem verdadeiro da sociedade, da nação e da humanidade? Ou só interesses particulares e parciais? Se me escuta um jornalista, um publicista, uni homem que exerce influxo na opinião pública, reflicta sobre o valor e sobre o fim desta sua influência.

Também eu que vos falo, eu o Papa, que devo fazer para actuar prudentemente? Vêm-me ao espírito as cartas de Albino Luciani, então Patriarca de Veneza, a São Bernardo. Na sua resposta ao Cardeal Luciani, o Abade de Claraval — Doutor da Igreja — recorda com grande insistência que deve ser "prudente" quem governa. Que há-de fazer então o novo Papa a fim de proceder prudentemente? Sem dúvida muito deve fazer neste sentido. Deve sempre aprender e sempre meditar em tais problemas. Mas, além disso, que pode Ele fazer? Deve orar e fazer o possível por ter aquele dom do Espírito Santo que se chama dom do conselho. E todos quantos desejam que o novo Papa seja Pastor prudente da Igreja, peçam para Ele o dom do conselho. E para si mesmos, peçam também este dom, por meio da especial intercessão da Mãe do Bom Conselho. Porque deve desejar-se muito que todos os homens se comportem prudentemente e que procedam com verdadeira prudência aqueles que exercem o poder. Para que a Igreja — prudentemente, fortificando-se com os dons do Espírito Santo e em particular com o dom do conselho — participe com eficácia neste grande itinerário para o bem de todos, e para que a todos mostre o caminho da salvação eterna.


Catequese do Papa João Paulo II
25/10/78