Ele caminha contigo




Dois homens caminham, e isso por si só já não é notícia. A humanidade passa a vida a caminhar para sítios onde acha que vai ser feliz, só para descobrir que, afinal, o Google Maps da alma estava desatualizado. Estes dois, porém, caminham com uma espécie particular de cansaço. Não é o cansaço das pernas, é o das expectativas falhadas. É aquele cansaço que nem um bom café resolve, porque não vem da falta de sono, vem da falta de sentido.
E vão a conversar. Porque quando a vida nos corre mal, falamos muito. Explicamos, reinterpretamos, dramatizamos. Basicamente fazemos um podcast interior que ninguém pediu, mas que insistimos em transmitir em loop. E é nesse momento que aparece Jesus. O que, convenhamos, é uma habilidade notável, aparecer precisamente quando estamos convencidos de que já percebemos tudo.
Mas eles não O reconhecem. O que também não é surpreendente. Reconhecer Deus quando tudo corre bem é relativamente simples, quase intuitivo. O verdadeiro desafio é reconhecê-Lo quando tudo parece ter corrido mal. Quando a história não bate certo com o final que tínhamos escrito. Quando o Messias não corresponde ao cargo que Lhe atribuímos no nosso imaginário administrativo.

E Jesus faz uma coisa curiosa, Ele pergunta. Deus, que supostamente sabe tudo, faz perguntas. Isto devia inquietar-nos mais do que inquieta. Porque talvez as perguntas de Deus não sejam para Ele perceber, sejam para nós começarmos, finalmente, a perceber alguma coisa.
Eles explicam, com aquele tom ligeiramente indignado de quem acha que está a dar uma aula a alguém desinformado. "Nós esperávamos...", e esta frase merece um minuto de silêncio. Porque quase todas as nossas desilusões começam assim: "eu esperava". Esperava isto, esperava aquilo, esperava que a vida fosse um contrato com cláusulas claras e penalizações para incumprimento. E depois a vida aparece com letras pequenas.
Jesus responde com uma espécie de repreensão que, traduzida para português contemporâneo, seria algo como: "Vocês não estão a ver o filme todo." E começa a explicar. Pacientemente. Como quem acompanha alunos que faltaram às primeiras aulas e agora estão surpreendidos com o exame final.

E o mais extraordinário é isto, eles continuam sem O reconhecer, mas ficam. Ficam a ouvi-Lo. Ficam com Ele. Porque, mesmo sem perceberem tudo, alguma coisa fazia sentido. O coração começa a arder antes de os olhos começarem a ver. O que é profundamente inconveniente para uma cultura que só acredita depois de provas documentais, assinadas e carimbadas.
Depois chega o momento do pão. Simples, quase banal. E é aí que tudo se revela. Não numa grande demonstração cósmica, não num espetáculo pirotécnico celestial, mas num gesto quotidiano. Partir o pão. Como quem diz, talvez Deus não esteja escondido, talvez esteja disfarçado de normalidade.
E, claro, quando finalmente percebem, Ele desaparece. Porque Deus tem este sentido de timing que parece quase humorístico, aparece quando não O vemos e desaparece quando finalmente começamos a ver. Talvez para evitar que transformemos a fé numa fotografia, quando ela é, claramente, um caminho.
E eles fazem o impensável, voltam para trás. A mesma estrada, o mesmo percurso, mas já não são as mesmas pessoas. Porque quando o sentido muda, a distância deixa de importar. O cansaço também muda de nome, passa a chamar-se urgência.


Agora, alguns desafios, porque uma boa reflexão sem consequências práticas é só um texto bonito, e isso já há muitos:

- Experimenta rever uma desilusão recente e perguntar: "o que é que eu esperava?". Se o problema não foi o que aconteceu, mas o guião que escreveste antes?
- Num dia aparentemente banal, tenta identificar um momento "de partir o pão". Algo simples onde, talvez, esteja escondido mais significado do que parece.
- Da próxima vez que sentires que não estás a perceber nada da tua vida, resiste à tentação de concluir demasiado depressa. Caminha mais um pouco. Conversa mais um pouco.
- Pergunta-te se já alguma vez estiveste acompanhado, sem reconhecer quem estava contigo.

Porque, no fim, a grande ironia desta história é desconfortável. Podemos estar a caminhar com Deus e, ainda assim, achar que vamos sozinhos.


Catarina Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



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