Cristo parte, a Igreja começa (cf. At 1, 1-11)
O início dos Atos dos Apóstolos tem a densidade de uma aurora espiritual. Tudo parece suspenso entre dois mundos: Cristo já venceu a morte, mas o Reino ainda não se manifestou plenamente; Jesus sobe ao Céu, mas a Igreja ainda não desceu ao coração da sua missão. É um texto de passagem, quase como uma respiração entre a Páscoa e Pentecostes. E talvez seja precisamente aí que ele fala tão profundamente à condição humana. Vivemos quase sempre “entre” promessas e cumprimentos.
Os Atos dos Apóstolos começa com uma recordação: “Jesus começou a fazer e a ensinar”. O verbo é decisivo. Lucas não diz que Jesus “concluiu”, mas que “começou”. A obra de Cristo não terminou na Ascensão. Segundo a teologia patrística, sobretudo em Santo Agostinho, Cristo continua a agir no mundo através do seu Corpo, que é a Igreja. Os Atos não são apenas a história dos apóstolos, são os atos do Cristo ressuscitado através de homens frágeis habitados pelo Espírito.
Existe aqui uma inversão belíssima, os discípulos pensavam que a Ascensão seria uma ausência, mas ela torna-se uma expansão. Jesus deixa de estar limitado a um lugar, a uma estrada da Galileia, a uma mesa em Jerusalém. Pela força do Espírito, passa a estar presente em toda a parte onde houver um coração disponível. A nuvem que O esconde não simboliza distância, mas mistério. Na Escritura, a nuvem é sempre sinal da presença divina: no Sinai, no Êxodo, na Transfiguração. Deus não desaparece, torna-se contemplável apenas pela fé.
Os discípulos, porém, continuam presos a uma expectativa política: “É agora que vais restaurar o reino de Israel?”. Querem datas, estratégias, triunfos visíveis. É profundamente humano. O homem prefere um Deus que organize o mundo exterior a um Deus que transforme o interior. Mas Cristo desloca radicalmente o eixo da esperança: “Não vos compete saber os tempos”. Em linguagem teológica, Jesus desinstala a tentação apocalíptica da curiosidade e substitui-a pela espiritualidade da missão.
Aqui toca-se uma verdade central do cristianismo. O discípulo não é chamado a controlar a história, mas a testemunhá-la. A obsessão pelos “tempos” nasce frequentemente do medo, a missão nasce da confiança. O Reino de Deus não cresce como um império visível, mas como fermento escondido na massa da humanidade.
É notável que Jesus não entregue aos discípulos um mapa do futuro. Entrega-lhes apenas uma promessa: o Espírito Santo. Na teologia de São Basílio Magno, o Espírito é aquele que torna o homem participante da vida divina. Não é mera força emocional ou entusiasmo religioso, é a própria vida de Deus respirando na fragilidade humana. Sem o Espírito, os apóstolos continuam homens assustados. Com o Espírito, tornam-se testemunhas até ao martírio.
E talvez a frase mais desconcertante do texto seja esta: “Porque estais a olhar para o Céu?”. É quase uma correção espiritual. Há um modo estéril de olhar o Céu, aquele que nos faz esquecer a terra. O cristianismo não é fuga do mundo, mas transfiguração do mundo. A Ascensão não autoriza alienação, inaugura responsabilidade.
Hans Urs von Balthasar escreveu que a Ascensão é o momento em que Cristo “abre espaço” para a liberdade da Igreja. Deus retira-Se visivelmente para que o amor humano possa responder livremente. É um silêncio fecundo. Como um mestre que deixa o discípulo caminhar sozinho não por abandono, mas por confiança.
Há ainda outro detalhe comovente. Jesus parte enquanto está à mesa com eles. A última imagem antes da Ascensão não é um trono nem um prodígio cósmico, mas uma refeição. O Deus cristão permanece o Deus da comunhão. O Céu não rompe a intimidade, eterniza-a.
No fundo, este texto dos Atos dos Apóstolos fala de uma espiritualidade da espera. Os discípulos são enviados a esperar em Jerusalém. Esperar, na Bíblia, nunca significa passividade. Significa permanecer disponível. O homem contemporâneo sabe consumir, produzir, acelerar, prever. Mas desaprendeu a esperar. E quem não sabe esperar também não sabe acolher o Espírito, porque o Espírito não invade, visita.
A Ascensão deixa-nos então uma pergunta silenciosa: estamos apenas a olhar o Céu, paralisados entre nostalgias e medos, ou estamos dispostos a descer às cidades humanas para sermos testemunhas?
Talvez a verdadeira Ascensão aconteça quando deixamos de procurar Cristo apenas “acima” de nós e começamos a reconhecê-Lo “dentro” da história, das feridas humanas, da esperança persistente, da caridade escondida, do pão repartido.
O Céu, neste texto, não é um lugar distante. É a direção última da humanidade quando tocada pelo Espírito.
Desafios para ti
'Dos olhos no Céu aos pés no caminho'
1. O desafio do silêncio habitado
Durante 15 minutos por dia, desliga tudo: música, telemóvel, notificações, ruído.
Senta-te em silêncio e repete interiormente: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta.”
No início parecerá vazio. Depois perceberás que o silêncio não é ausência. É espaço. E Deus costuma entrar sem fazer barulho.
2. O desafio de Jerusalém
Jesus disse aos discípulos para não fugirem de Jerusalém.
Jerusalém era precisamente o lugar do medo, da confusão e das feridas.
Pergunta-te:
Qual é a minha “Jerusalém”?
Que realidade da minha vida tenho evitado?
Que conversa preciso de ter?
Que ferida preciso de deixar de esconder?
Durante esta semana, dá um passo concreto nessa direção.
3. O desafio do olhar
Os discípulos ficaram a olhar para o Céu, mas os anjos chamaram-nos de volta à missão.
Hoje, tenta reparar nas pessoas que normalmente atravessas sem ver:
- o colega isolado,
- a pessoa cansada,
- alguém que vive sempre “a brincar” para esconder tristeza,
- alguém em casa que precisa de escuta.
O desafio é simples:
olhar verdadeiramente alguém durante um dia inteiro.
Há pessoas a morrer de invisibilidade.
4. O desafio do Espírito
Antes de dormir, faz esta oração curta durante nove dias:
“Espírito Santo, mostra-me quem sou aos olhos de Deus.”
Não peças coisas.
Pede luz.
Porque muitos jovens vivem como estrangeiros dentro de si mesmos.
5. O desafio do confim da terra
Jesus envia os discípulos “até aos confins da terra”.
Às vezes, os “confins” não são geográficos. São humanos.
Pode ser:
- falar com alguém diferente de ti,
- reconciliar-te com uma pessoa,
- sair do teu grupo habitual,
- visitar alguém esquecido,
- atravessar a fronteira do orgulho.
A maior distância do mundo costuma ser entre dois corações fechados.
6. O desafio da espera
Vivemos numa cultura de velocidade: resposta imediata, prazer imediato, validação imediata.
Escolhe uma coisa de que gostes muito:
- redes sociais,
- séries,
- videojogos,
- música constante,
- consumo impulsivo.
E faz um pequeno jejum durante um dia.
Não para provar força.
Mas para descobrires se és livre.
7. O desafio da testemunha
Jesus não disse “sereis especialistas”, “sereis perfeitos” ou “sereis famosos”.
Disse: “Sereis minhas testemunhas.”
Uma testemunha não é alguém que sabe tudo.
É alguém que viu uma luz e já não consegue fingir que vive na escuridão.
O desafio:
- partilha com alguém, esta semana, uma experiência verdadeira da tua fé, mesmo pequena.
Sem discursos.
Sem máscaras.
Só verdade.
8. O desafio da mesa
Jesus despede-Se à mesa.
O cristianismo nasce muitas vezes em volta de pão repartido.
Faz uma refeição sem telemóveis.
Escuta realmente quem está contigo.
Permanece.
Às vezes Deus aparece disfarçado de conversa simples numa cozinha qualquer.
9. O desafio da nuvem
A nuvem esconde Jesus.
Nem sempre sentirás Deus claramente.
Durante esta semana não procures “sentir”. Procura permanecer.
A maturidade espiritual começa quando continuamos o caminho mesmo nos dias em que o coração parece inverno.
10. O desafio final: descer do Céu
Escreve num papel:
- aquilo que mais te prende,
- aquilo que mais temes,
- aquilo que Deus talvez esteja a pedir-te.
Depois termina com esta frase: “Recebereis a força do Espírito Santo.”
Guarda esse papel na Bíblia, na carteira ou no bolso.
Porque a fé não é viver com respostas completas.
É caminhar com uma Presença.
Manuel Sampaio e Catarina Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com
Até aos confins da terra
Jesus falou aos amigos:
"Não tenham medo, não.
Esperem em Jerusalém
a força do alto então."
E os discípulos unidos
começaram a rezar,
confiando na promessa
que Jesus veio deixar.
Jesus sobe ao céu,
mas fica no coração,
manda o Espírito Santo
para guiar a missão.
Vamos juntos anunciar,
com alegria e amor,
Jesus está vivo,
é o nosso Salvador!
Uma nuvem O levou,
todos ficaram a olhar,
dois anjos lhes disseram:
"Ele vai voltar!"
Então cheios de esperança
foram logo partilhar
a Boa Nova de Cristo
para o mundo transformar.
Jesus sobe ao céu,
mas fica no coração,
manda o Espírito Santo
para guiar a missão.
Vamos juntos anunciar,
com alegria e amor,
Jesus está vivo,
é o nosso Salvador!
E hoje a nossa voz
vai cantar sem parar,
com o fogo do Espírito
vamos juntos caminhar.
Jesus sobe ao céu,
mas fica no coração,
manda o Espírito Santo
para guiar a missão.
Vamos juntos anunciar,
com alegria e amor,
Jesus está vivo,
é o nosso Salvador!






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