Chamados a continuar



Setembro chega sempre com esta mania de nos convencer de que é possível começar de novo.

As escolas abrem as portas, os cadernos aparecem nas mochilas, as agendas enchem-se de reuniões, horários, grupos de WhatsApp, listas de nomes, salas que ainda cheiram a pó e a férias, e nós, catequistas, voltamos a aparecer por ali com aquela mistura pouco científica de entusiasmo e medo, como quem embarca outra vez num barco que sabe perfeitamente que vai meter água mas, ainda assim, compra o bilhete.

Um novo ano de catequese.

Dito assim parece uma coisa simples.
Não é.

Primeiro vêm as reuniões. Sempre as reuniões. Reuniões para preparar as reuniões, reuniões para avaliar as reuniões anteriores, reuniões em que alguém diz que este ano precisamos de fazer diferente e todos concordam solenemente, embora ninguém saiba ainda muito bem o quê. Depois aparecem os horários, que nunca encaixam, os catequistas que este ano não podem, os que talvez possam, os que podem mas estão cansados, os que dizem “vou tentar” e aqueles que, sem dizerem nada, continuam.

Continuam.

Talvez esta seja uma das palavras mais bonitas da catequese.
Continuar.

Porque ninguém começa um ano de catequese com a ilusão de que tudo será fácil. Já conhecemos as faltas, os atrasos, os pais que se esquecem, as crianças que chegam sem saber onde deixaram o livro, os adolescentes que entram na sala com a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar do universo, os telemóveis que parecem possuir uma vocação religiosa própria para interromper todos os momentos de silêncio.

Conhecemos também o cansaço.

O cansaço de quem sai do trabalho e ainda vai para a catequese. O cansaço de quem prepara encontros à noite, enquanto a casa dorme. O cansaço de quem procura uma dinâmica nova quando já não sabe sequer onde guardou a anterior. O cansaço de quem tenta falar de Deus a crianças que ainda estão a descobrir o mundo e a adolescentes que já começaram a desconfiar dele.
E, no entanto, voltamos.

Não sei se alguma missão cristã se explica verdadeiramente sem esta espécie de loucura.
Voltar.

Voltar quando seria mais cómodo ficar em casa. Voltar quando ninguém nos promete resultados. Voltar quando sabemos que uma criança talvez se esqueça amanhã daquilo que hoje lhe dissemos. Voltar mesmo quando não sabemos se alguma palavra nossa ficará dentro de alguém.
E talvez fique.

Talvez uma frase dita quase sem importância, entre uma brincadeira e outra, permaneça escondida durante anos num coração que ainda nem sabe que a guardou.
É isso que às vezes esquecemos.

A catequese não é uma fábrica de resultados imediatos.
Não entregamos relatórios a Deus no final do trimestre.
Não sabemos quantas sementes ficaram na terra.
Plantamos.
E depois confiamos.

Existe uma beleza estranha nesta missão. Uma beleza que não faz barulho. Está na sala preparada antes de todos chegarem, na cadeira que alguém arrasta para uma criança se sentar, no catequista que leva consigo uma folha impressa à última hora, no café bebido depressa antes do encontro, na mensagem enviada a perguntar “está tudo bem?” porque alguém faltou pela segunda vez.

Está também naquele momento em que uma criança levanta a mão e pergunta qualquer coisa aparentemente absurda e, de repente, nos obriga a pensar seriamente sobre Deus.

“Mas porque é que Deus deixa isto acontecer?”

E ficamos ali.
Com a Bíblia aberta, a resposta ensaiada a desaparecer lentamente e a certeza de que talvez aquela criança tenha acabado de nos ensinar que a fé não é ter respostas para tudo.
A fé também é permanecer diante das perguntas.

Depois existem os pais.
Ah, os pais.
Com eles vem uma outra saga, feita de horários impossíveis, mensagens não respondidas, reuniões com pouca gente e pedidos que começam por “era só uma coisinha”. Mas também existem aqueles que aparecem, que perguntam, que acompanham, que percebem que a catequese não é uma hora semanal em que deixam os filhos à porta da igreja para depois regressarem ao fim de sessenta minutos.
E percebemos então que evangelizar uma criança é, muitas vezes, bater devagar à porta de uma família inteira.
Nem sempre a porta abre.
Mas nós batemos.
Não por teimosia.
Por esperança.

E talvez seja isso que distingue o entusiasmo cristão da simples vontade de fazer coisas. O entusiasmo acaba quando chegam os obstáculos. A esperança permanece precisamente por causa deles.
Por isso começamos outra vez.
Mesmo sabendo que haverá encontros que correrão mal.
Haverá atividades que ninguém compreenderá.
Haverá silêncios constrangedores.
Haverá catequistas a pensar, a caminho de casa, “para quê isto tudo?”
Haverá domingos em que o corpo pede descanso e a alma pede uma razão.
E haverá também aqueles momentos.
Aqueles pequenos milagres que quase ninguém vê.
Uma criança que finalmente participa.
Um adolescente que, depois de meses calado, decide falar.
Um pai que aparece.

Uma catequista que chega cansada e sai feliz sem saber muito bem porquê.
Uma oração que, naquela sala pequena, parece ocupar mais espaço do que todas as pessoas juntas.
Um abraço.
Uma pergunta.
Uma lágrima escondida.
Um sorriso.
E Deus, provavelmente, no meio de tudo isto, a fazer aquilo que sempre fez: trabalhando silenciosamente onde nós julgamos que nada acontece.

Talvez um novo ano de catequese seja isto: aceitar que somos apenas uma parte de uma história que começou muito antes de nós e continuará muito depois de nós.
Não somos donos da fé de ninguém.
Somos apenas companheiros de caminho.
Às vezes com certezas.
Muitas vezes com dúvidas.
Quase sempre com pouco tempo.

Mas com o desejo, teimoso e bonito, de que uma criança, um jovem, uma família possam descobrir que Deus não é apenas uma palavra aprendida num livro, uma obrigação semanal ou uma fotografia antiga pendurada numa parede.

É presença.
É encontro.
É caminho.
É amor.

E talvez por isso, quando Setembro nos empurra novamente para dentro das salas, quando voltamos a abrir caixas, a organizar materiais, a procurar nomes, a preparar encontros e a perguntar uns aos outros “então, estás pronto para mais um ano?”, a resposta verdadeira seja sempre um pouco diferente daquela que damos.

Prontos?
Não.

Preparados?
Nem por isso.

Cansados?
Talvez.

Com medo de não chegar?
Muitas vezes.

Mas disponíveis.
Ainda disponíveis.
E isso talvez seja o princípio de tudo.
Porque Deus nunca precisou de catequistas perfeitos.
Precisou de pessoas dispostas.
Pessoas que apareçam.
Que tentem.
Que falhem e voltem a tentar.
Que levem consigo uma Bíblia, algumas perguntas, uma mão cheia de ideias e outra mão cheia de imperfeições.

Pessoas que, apesar de tudo, continuem a acreditar que vale a pena.
E assim começa outra vez a saga.
As portas abrem-se.
As crianças chegam.
Os catequistas respiram fundo.
Alguém pergunta pelo marcador que desapareceu.
Alguém se esqueceu do caderno.
Alguém ri.
Alguém reza.
E, no meio daquela pequena confusão humana, talvez o Céu sorria também.

Porque uma vez mais alguém decidiu oferecer o seu tempo para que outro possa aprender a encontrar Deus.
E poucas coisas serão tão bonitas como isso.


Catarina Pereira
Catequese e Família






OUTRA VEZ
Hino aos Catequistas que recomeçam mais um ano


Setembro bate à porta, já ninguém pode fugir,
as férias foram embora, é hora de reunir!
Há listas, há horários, há salas por organizar,
e alguém pergunta baixinho:
“Quem é que vai preparar?”

O grupo já está criado,
o WhatsApp começou,
“Bom ano a todos!” — alguém manda,
e ninguém mais descansou!
Canetas, Bíblias, cartolinas,
um café para aguentar,
e aquela velha pergunta:
“Mas isto vai começar?”

E respiramos fundo,
olhamos uns para os outros…
Se Deus nos chamou,
lá vamos nós de novo!


Outra vez! Outra vez!
Vamos começar outra vez!
Com pouco tempo, muita fé,
e a vontade de fazer!

Outra vez! Outra vez!
Mesmo sem saber como vai ser,
Nós semeamos, Deus fará,
e amanhã há-de nascer!

Outra vez! Outra vez!
Se é missão, vamos até ao fim!
Com crianças, jovens e famílias,
Deus também conta comigo e contigo, sim!


Chegam uns a correr,
outros chegam a perguntar:
“Era hoje a catequese?”
“Era… não era para avisar?”

Um esqueceu o caderno,
outro perdeu o marcador,
há quem traga uma dinâmica
e quem traga só o amor.

“Silêncio!” — diz o catequista,
três segundos… talvez quatro.
Depois alguém quer saber
se Noé tinha mesmo um barco.

E no meio da confusão,
quando já ninguém sabe o que dizer,
uma criança faz uma pergunta
que nos ensina a crer.

E respiramos fundo,
olhamos uns para os outros…
Se Deus nos chamou,
lá vamos nós de novo!


Outra vez! Outra vez!
Vamos começar outra vez!
Com pouco tempo, muita fé,
e a vontade de fazer!

Outra vez! Outra vez!
Mesmo sem saber como vai ser,
Nós semeamos, Deus fará,
e amanhã há-de nascer!

Outra vez! Outra vez!
Se é missão, vamos até ao fim!
Com crianças, jovens e famílias,
Deus também conta comigo e contigo, sim!


Talvez não vejamos a semente,
talvez não saibamos onde vai cair,
mas há palavras que ficam
mesmo quando pensamos que vão partir.

Um sorriso, uma pergunta,
um abraço no momento certo,
uma criança que descobre
que Deus nunca está longe, está perto.

E se amanhã não nos lembrarem,
se ninguém disser “obrigado”,
sabemos por que voltamos:
porque fomos chamados.

Outra vez! Outra vez!
Vamos começar outra vez!
Com mochilas, Bíblias, sonhos,
e coragem para viver!

Outra vez! Outra vez!
Que venha o que vier!
Se houver dúvidas, caminhamos,
se houver medo, temos fé!

Outra vez! Outra vez!
Mais um ano, mais uma história!
Nós lançamos as sementes,
Deus fará crescer a memória!

Outra vez! Outra vez!
E se perguntarem: “Vale a pena?”
Respondemos todos juntos:

VALE! VALE! VALE A PENA!


Quem prepara?
Nós!

Quem aparece?
Nós!

Quem se cansa?
Nós!

Quem continua?
Nós!

Quem acredita?
Nós!

Então…
quem começa outra vez?

NÓS!

Outra vez!
Outra vez!
Outra vez! 

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