“Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10,8)
O Evangelho deste domingo apresenta-nos um dos retratos mais belos do coração de Jesus. Antes de chamar, enviar ou ensinar, Jesus olha. E o seu olhar não é superficial nem indiferente. Ele vê as multidões e reconhece nelas o cansaço, a fragilidade, a desorientação. Vê pessoas que carregam fardos invisíveis, feridas escondidas, perguntas sem resposta, sonhos adiados e esperanças enfraquecidas. São, nas suas próprias palavras, «ovelhas sem pastor».
A primeira atitude de Jesus não é o julgamento, mas a compaixão. O verbo utilizado pelo evangelista exprime um movimento profundo das entranhas, uma comoção que nasce do amor. Jesus não permanece distante da dor humana; deixa-Se tocar por ela. A compaixão é o ponto de partida de toda a missão.
Esta palavra interpela profundamente os catequistas, as famílias e toda a comunidade cristã. Também hoje existem multidões fatigadas e abatidas. Encontramo-las nas nossas casas, nas escolas, nos locais de trabalho, nos grupos de jovens, nas comunidades paroquiais. Há crianças que crescem sem referências sólidas, adolescentes que procuram sentido para a vida, pais e mães sobrecarregados pelas preocupações diárias, idosos que experimentam a solidão, pessoas que perderam a esperança ou a fé.
A pergunta que o Evangelho nos coloca é simples e exigente: somos capazes de olhar como Jesus olha? Ou habituámo-nos tanto às dificuldades do mundo que já não nos deixamos tocar por elas?
A seara é grande
Depois de contemplar a realidade, Jesus dirige-se aos discípulos e afirma: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos».
A seara continua imensa. Há uma fome de Deus muitas vezes escondida por detrás da indiferença religiosa. Há uma sede de amor autêntico disfarçada em tantas procuras e inquietações. Há corações que esperam uma palavra de esperança, um testemunho credível, uma presença amiga.
Por vezes, nas nossas comunidades, somos tentados a lamentar a falta de vocações, a diminuição da participação ou as dificuldades pastorais. Jesus, porém, convida-nos primeiro à oração: «Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara».
Antes de procurar soluções, somos chamados a reconhecer que a missão pertence a Deus. A Igreja não cresce apenas pela eficiência dos seus métodos, mas pela ação da graça. Toda a vocação nasce de um coração que reza.
Esta palavra é particularmente importante para as famílias. Muitas vocações sacerdotais, religiosas, missionárias ou laicais comprometidas nascem em lares onde se reza, onde se fala de Deus com naturalidade e onde a fé é vivida com alegria. Uma família que reza torna-se terreno fértil para que Deus faça germinar a sua chamada.
Jesus chama pelo nome
O Evangelho apresenta depois a lista dos doze apóstolos. À primeira vista, pode parecer apenas uma enumeração de nomes. Contudo, esconde uma verdade extraordinária: Jesus chama pessoas concretas, diferentes entre si, com histórias, qualidades e fragilidades próprias.
Entre os Doze encontramos pescadores simples, um cobrador de impostos, homens impulsivos, homens discretos, e até Judas, que acabaria por O trair. Nenhum deles era perfeito. Nenhum possuía todas as capacidades necessárias.
Isto é um grande consolo para todos nós. Deus não chama os mais perfeitos; chama aqueles que estão disponíveis para se deixarem transformar pelo seu amor.
Também os catequistas vivem esta experiência. Quantas vezes se sentem insuficientes diante da missão de transmitir a fé? Quantas vezes as famílias se interrogam sobre a sua capacidade de educar cristãmente os filhos? Quantas vezes as comunidades se confrontam com as próprias limitações?
O Evangelho recorda-nos que a eficácia da missão não nasce das nossas forças, mas da confiança em Cristo que chama e envia.
Uma missão que cura
As instruções de Jesus aos discípulos são surpreendentes. Ele não os envia para conquistar poder, prestígio ou influência. Envia-os para anunciar que o Reino está próximo e para curar.
Curar os enfermos, sarar os leprosos, expulsar os demónios, ressuscitar os mortos. Estas ações manifestam que o Reino de Deus não é uma teoria, mas uma presença que transforma a vida.
Hoje, a missão da Igreja continua a ser uma missão de cura.
Cada catequista cura quando ajuda uma criança a descobrir que Deus a ama infinitamente.
Cada família cura quando oferece um ambiente de amor, diálogo e perdão.
Cada comunidade cura quando acolhe quem se sente excluído, escuta quem sofre e acompanha quem procura um novo sentido para a vida.
Num mundo marcado por tantas divisões, medos e feridas, os cristãos são chamados a ser sinais da ternura de Deus.
Talvez não realizemos milagres espetaculares, mas podemos realizar o milagre da proximidade, da escuta, da compreensão, da paciência e da esperança.
Recebestes de graça, dai de graça
A última frase do Evangelho é o segredo de toda a vida cristã: «Recebestes de graça, dai de graça».
Tudo o que somos e possuímos como discípulos é dom. A fé é dom. A vida é dom. O amor de Deus é dom. A vocação é dom.
Quando esquecemos isto, a missão transforma-se em obrigação pesada. Quando o recordamos, a missão torna-se resposta agradecida.
O catequista não transmite apenas conhecimentos religiosos; partilha um tesouro que recebeu gratuitamente.
Os pais não são proprietários dos filhos; são guardiões de uma vida que Deus lhes confiou.
A comunidade cristã não existe para si mesma; existe para oferecer ao mundo aquilo que recebeu de Cristo.
A gratuidade é a linguagem própria do Evangelho. Num mundo onde tudo parece ter preço, o cristão testemunha que o amor verdadeiro não se compra nem se vende: oferece-se.
Para a nossa oração
Senhor Jesus,
ensina-nos a olhar as pessoas com os teus olhos cheios de compaixão.
Faz das nossas famílias lugares onde a fé seja vivida e transmitida com alegria.
Sustenta os catequistas na sua missão de semear a tua Palavra
nos corações das crianças, adolescentes e jovens.
Desperta na tua Igreja novas vocações
e renova em todos nós a consciência de que somos enviados.
Que nunca esqueçamos que tudo recebemos de Ti gratuitamente.
E que, com generosidade, humildade e amor,
saibamos dar aos outros aquilo que primeiro recebemos das tuas mãos.
Porque a seara continua grande,
porque o mundo continua a ter sede de esperança,
e porque Tu continuas a chamar cada um de nós pelo nome. Amém.
Catarina Pereira
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com






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