São Pedro e São Paulo: duas colunas, uma só Igreja



No calendário da Igreja, a solenidade de São Pedro e São Paulo não celebra apenas dois grandes santos. Celebra o mistério da unidade que Deus realiza através da diversidade. Pedro e Paulo são profundamente diferentes na personalidade, na história, na missão e até na forma de compreender alguns aspetos da evangelização. Contudo, ambos foram transformados pelo mesmo Cristo, consumidos pelo mesmo amor e conduzidos ao mesmo martírio em Roma. A Igreja não nasceu da uniformidade dos seus membros, mas da comunhão daqueles que se deixam moldar pelo Espírito Santo.

As Sagradas Escrituras apresentam Pedro como o homem da espontaneidade. É ele quem deixa as redes para seguir Jesus (Mt 4,18-20), quem O reconhece como «o Messias, o Filho de Deus vivo» (Mt 16,16), quem ousa caminhar sobre as águas (Mt 14,29), mas também quem vacila, afunda e, na noite da Paixão, nega por três vezes conhecer o Senhor (Lc 22,54-62). Pedro é a imagem da fragilidade humana elevada pela graça.
Quando Jesus lhe pergunta junto ao lago de Tiberíades: «Simão, filho de João, amas-Me?» (Jo 21,15-17), não está apenas a recordar-lhe a sua queda, está a devolver-lhe a missão. Cristo não constrói a Igreja sobre um homem perfeito, mas sobre um pecador arrependido. A autoridade de Pedro nasce da misericórdia recebida. Quem experimentou o perdão torna-se capaz de confirmar os irmãos na fé (Lc 22,32).

O Catecismo da Igreja Católica recorda que:
«Foi só de Simão, a quem deu o nome de Pedro, que o Senhor fez a pedra da sua Igreja. Confiou-lhe as chaves desta.» (CIC, 881)

Esta verdade possui uma enorme profundidade espiritual. A pedra sobre a qual Cristo edifica a Igreja não é a autossuficiência humana, mas uma fé purificada pelas lágrimas, pela humildade e pela confiança.

São Paulo percorreu um caminho diferente. Não conheceu Jesus durante a Sua vida pública. Pelo contrário, perseguiu violentamente os cristãos, convencido de estar a defender a verdadeira religião. No entanto, no caminho de Damasco (At 9,1-19), tudo muda. Não é Paulo quem encontra Cristo, é Cristo quem vai ao encontro de Paulo.

A pergunta divina permanece atual:
«Saulo, Saulo, porque Me persegues?» (At 9, 4)

Cristo identifica-Se com a Igreja. Perseguir os cristãos é perseguir o próprio Senhor. Desde esse momento, Paulo compreende que toda a sua vida anterior deve ser reinterpretada à luz da Cruz.

Escrevendo aos Gálatas, afirma:
«Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim.» (Gl 2,20)

Esta talvez seja uma das maiores definições da santidade. O santo não é aquele que realiza feitos extraordinários, mas aquele que permite que Cristo viva nele.
O Magistério da Igreja vê em Paulo o grande modelo do discípulo missionário. São João Paulo II ensinava que a conversão de Paulo mostra como ninguém está definitivamente afastado da misericórdia de Deus. Enquanto houver vida, existe sempre um caminho de regresso.

Pedro representa a estabilidade da Igreja, Paulo representa o seu dinamismo missionário. Pedro guarda a unidade da fé, Paulo leva essa fé até aos confins do mundo conhecido. Um recebe as chaves, o outro percorre milhares de quilómetros anunciando o Evangelho. Um permanece sobretudo entre os judeus, o outro torna-se o Apóstolo dos gentios.
Contudo, ambos compreenderam que toda a fecundidade apostólica nasce da Cruz.

Na segunda carta a Timóteo, já próximo do martírio, Paulo escreve palavras de uma serenidade impressionante:
«Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.» (2 Tm 4,7)

Não fala dos milagres realizados, das comunidades fundadas ou das cartas escritas. Resume toda a sua existência numa única fidelidade: guardar a fé.

Também Pedro, na sua primeira carta, exorta os cristãos perseguidos:
«Lançai sobre Ele todas as vossas preocupações, porque Ele cuida de vós.» (1 Pd 5,7)

São palavras escritas por quem aprendera que a força não vem da própria coragem, mas da confiança absoluta em Deus.
O Papa Bento XVI afirmava que Pedro e Paulo são duas formas complementares de viver o seguimento de Cristo. Um ensina que a Igreja necessita de uma autoridade visível para preservar a unidade, o outro recorda que essa mesma Igreja nunca pode deixar de sair ao encontro do mundo para anunciar o Evangelho.

Pedro aponta continuamente para Cristo, Paulo corre continuamente para os homens. Contemplando ambos, compreendemos que a Igreja respira com estes dois movimentos inseparáveis: permanecer fiel ao depósito da fé e levar essa fé até às periferias humanas e existenciais.
Talvez a maior lição de Pedro e Paulo seja precisamente esta: Deus não escolhe os mais capazes, torna capazes aqueles que escolhe.

Pedro era impulsivo, inseguro e contraditório.
Paulo era intransigente, perseguidor e convencido das suas próprias certezas.
Nenhum dos dois parecia reunir as condições ideais para mudar a história. No entanto, quando se deixaram transformar pela graça, tornaram-se as duas grandes colunas da Igreja nascente.

Também hoje Cristo continua a chamar homens e mulheres imperfeitos. Continua a confiar a sua Igreja a pessoas frágeis. Continua a escrever a história da salvação com instrumentos humanos. Isto não diminui a obra de Deus, antes manifesta a sua omnipotência, pois «trazemos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós» (2 Cor 4,7).

Celebrar São Pedro e São Paulo é renovar a certeza de que a santidade não consiste em nunca cair, mas em deixar-se levantar por Cristo, não consiste em nunca errar, mas em permanecer fiel ao chamamento recebido. Um pescador da Galileia e um antigo perseguidor tornaram-se irmãos, mártires e santos porque colocaram toda a sua esperança naquele que lhes disse: «Segue-Me.»

Que a sua intercessão obtenha para a Igreja de hoje a mesma coragem para confessar a fé de Pedro, a mesma paixão missionária de Paulo e, sobretudo, o mesmo amor incondicional por Jesus Cristo, Senhor da História e Salvador do mundo.


Ana Conde e Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com



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