E se Deus não fosse justo? (cf. Mt 20, 1-16a)
Passamos grande parte da vida a fazer contas.
Contamos o que damos.
Contamos o que fazemos.
Contamos o tempo que esperamos.
Contamos os sacrifícios.
E, quase sem perceber, começamos também a contar o que os outros recebem.
«Eu estive sempre.»
«Eu fiz mais.»
«Eu cheguei primeiro.»
«Eu aguentei o peso do dia.»
A parábola dos trabalhadores da vinha toca precisamente nessa ferida.
Os primeiros não ficaram zangados porque receberam pouco. Receberam exatamente aquilo que tinha sido combinado. Ficaram zangados porque os últimos receberam tanto como eles.
É aqui que Jesus nos desinstala.
Porque talvez o problema não esteja naquilo que recebemos, mas na dificuldade que temos em aceitar que Deus possa ser bom para alguém que, aos nossos olhos, «não merece tanto».
Nós pensamos em termos de mérito.
Deus pensa em termos de graça.
Nós fazemos rankings.
Deus abre portas.
Nós olhamos para quem chegou primeiro.
Deus olha para quem ainda está a chegar.
E talvez esta seja uma das perguntas mais incómodas deste Evangelho:
Consigo alegrar-me com o bem que Deus faz ao outro, mesmo quando sinto que eu fiz mais?
Porque é fácil agradecer quando somos nós os beneficiados. Difícil é celebrar quando Deus derrama a mesma misericórdia sobre alguém que chegou mais tarde, que errou mais, que se afastou mais, que só agora encontrou o caminho.
A vinha continua aberta.
Deus continua a sair ao nosso encontro.
De manhã.
A meio do dia.
Ao entardecer.
Não pergunta: «Porque demoraste tanto?»
Pergunta: «Queres vir?»
Talvez alguém esteja convencido de que já chegou tarde demais.
Talvez alguém tenha passado demasiado tempo parado na praça da vida.
Talvez alguém pense que já não vale a pena começar.
Jesus diz: «Ide vós também para a minha vinha.»
Não há uma hora certa para começar a caminhar com Deus.
E talvez também nós precisemos de deixar de ser os trabalhadores que olham para o relógio e começar a ser pessoas que olham para a vinha.
Porque, no Reino de Deus, a pergunta decisiva não é:
«Quem chegou primeiro?»
Mas:
«Quem ainda precisa de ser chamado?»
E há uma última frase que fica a ecoar:
«Ou serão maus os teus olhos porque Eu sou bom?»
Talvez seja essa a conversão de que mais precisamos.
Não pedir a Deus que seja justo segundo os nossos critérios.
Mas aprender, pouco a pouco, a ter os olhos de Deus.
Olhos que não comparam.
Olhos que não contabilizam.
Olhos que não excluem.
Olhos capazes de reconhecer que, na vinha do Senhor, a graça nunca é demasiado para ninguém.






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