Na margem do recomeço
O amanhecer junto ao lago traz sempre uma promessa silenciosa. Em Jo 21,1-14, os discípulos regressam ao que conhecem: as redes, o barco, o mar. Depois de tudo o que viveram, voltam ao início, talvez por cansaço, talvez por incerteza. E, no entanto, mesmo ali, no lugar do costume, no ritmo da rotina, é onde o Ressuscitado decide encontrá-los.
A noite foi estéril. Redes vazias, mãos cansadas, corações talvez desiludidos. Quem nunca experimentou isto? Momentos em que se trabalha, se insiste, se tenta, e nada parece resultar. A tentação é desistir ou, pior ainda, acreditar que o esforço não vale a pena. Mas é precisamente nesse vazio que uma voz se levanta da margem: "Lançai a rede para a direita do barco." Uma indicação simples, quase banal e, ainda assim, carregada de confiança.
Seguir aquela voz exige humildade. Não se trata apenas de lançar a rede, mas de aceitar que, mesmo sabendo pescar, ainda há algo a aprender. A abundância inesperada que se segue não é apenas um milagre material. É um sinal de que, quando se escuta e se confia, a vida ganha uma nova fecundidade.
Depois vem o reconhecimento: "É o Senhor." Nem todos percebem logo. É preciso um olhar atento, um coração desperto. Muitas vezes, também nós não reconhecemos a presença de Deus nas margens discretas da nossa vida, nos encontros simples, nos gestos pequenos, nas oportunidades escondidas.
E Pedro, impulsivo como sempre, lança-se à água. Não espera, não calcula. Ama, e isso basta. Talvez seja esse o convite mais profundo. Não ficar apenas na contemplação distante, mas mergulhar, arriscar, aproximar-se.
Na margem, o fogo já está aceso. O pão e o peixe estão preparados. Antes mesmo de qualquer explicação, antes de qualquer justificação, existe acolhimento. Deus não espera que cheguemos perfeitos, recebe-nos como estamos, cansados, confusos, mas disponíveis.
Este texto recorda que a vida espiritual não se constrói apenas nos momentos extraordinários. Constrói-se na fidelidade ao quotidiano, na escuta atenta, na coragem de tentar novamente. Quando tudo parece vazio, pode estar apenas a preparar-se um encontro transformador.
Aplicar esta mensagem hoje passa por aprender a confiar mesmo quando os resultados não aparecem, por reconhecer que nem sempre temos todas as respostas e por manter o coração aberto à surpresa. Significa também acreditar que, nas margens da nossa rotina, há sempre uma presença que chama, discreta, mas persistente.
E talvez o mais importante é não ter medo de recomeçar. Porque cada novo amanhecer pode ser o lugar onde o milagre acontece.
Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com
Lança a rede
Verso 1
De noite no lago, o barco a balançar
Redes na água, sem nada para dar
Pedro diz: "Vou tentar outra vez"
E os outros seguem, com fé nos pés
Pré-refrão
O céu começa a clarear
Alguém chama lá do lugar
Refrão
Lança a rede, não tenhas medo
Mesmo sem ver, guarda o segredo
Há uma voz que sabe o caminho
E enche o vazio devagarinho
Verso 2
"Temos algo?", "Não, nada aqui"
Mas a voz insiste: "Confia em Mim"
Do lado certo voltam a lançar
E a rede começa a pesar
Pré-refrão
Um olhar, um sinal no ar
"É o Senhor!" a ecoar
Refrão
Lança a rede, não tenhas medo
Mesmo sem ver, guarda o segredo
Há uma voz que sabe o caminho
E enche o vazio devagarinho
Ponte
Pedro corre sem pensar
Quer chegar primeiro ao mar
Na margem há lume e pão
Alguém espera com o coração
Verso 3
Peixe na brasa, pão a repartir
Silêncio cheio, ninguém quer fugir
Sabem bem quem está ali
Sem perguntas, só estar e ouvir
Refrão final
Vem à mesa, há lugar para ti
Traz o pouco, Ele faz crescer assim
Na partilha nasce a luz
E reconheces, é Jesus






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