O filho que disse não (cf. Mt 21, 28-32)
O primeiro disse não.
Disse-o sem cerimónia, sem procurar uma desculpa suficientemente elegante para parecer outra coisa. Não quero. E talvez tenha sido essa a sua única honestidade naquele dia: não quero. Não quero ir à vinha, não quero pegar na enxada, não quero sujar as mãos, não quero fazer aquilo que me pedem, não quero, e pronto.
O pai deve ter ficado a olhar para ele durante alguns segundos, aqueles segundos que os pais conhecem tão bem, quando percebem que a criança cresceu e que já não podem obrigá-la a gostar daquilo que lhe pedem. Depois foi falar com o outro.
O segundo disse sim.
Claro que disse sim.
O segundo sabia dizer sim.
Existem pessoas que sabem dizer sim com uma facilidade admirável. Sim, senhor. Sim, claro. Sim, vou já. Sim, pode deixar comigo. Sim, conte comigo. Pessoas de palavra - pelo menos enquanto a palavra não exigir sapatos, cansaço, frio, lama ou uma vinha inteira para cuidar.
O segundo disse sim e provavelmente sorriu.
O primeiro disse não e ficou com o silêncio.
E depois aconteceu aquilo que raramente aparece nas fotografias: o primeiro mudou de ideias.
Talvez tenha ficado sentado durante algum tempo. Talvez tenha olhado para as mãos. Talvez tenha pensado no pai. Talvez se tenha lembrado de qualquer coisa que não sabemos. Talvez tenha simplesmente sentido vergonha do próprio não. E levantou-se.
Foi.
Não levou consigo uma frase bonita.
Levou o corpo.
E às vezes é isso que falta à nossa fé: o corpo.
Porque somos capazes de dizer coisas lindíssimas sobre Deus enquanto continuamos sentados. Sabemos falar de missão, de entrega, de serviço, de comunidade, de amor ao próximo, de Igreja, de esperança. Temos palavras suficientes para encher muitas igrejas. O problema começa quando alguém nos pede para sair do banco e ir trabalhar na vinha.
Aí já é diferente.
A vinha suja as mãos.
A vinha exige tempo.
A vinha não aparece nas fotografias.
A vinha é aquela pessoa que nos telefona pela terceira vez porque está sozinha. É a criança que continua a não aprender apesar de já termos explicado tudo cinco vezes. É o adolescente que responde mal porque talvez não saiba dizer de outra maneira que está perdido. É o velho que repete a mesma história porque já não tem muitas histórias novas. É a família que se afastou da Igreja e que nós, em vez de procurar, preferimos comentar.
A vinha é quase sempre aquilo que não nos dá aplausos.
E talvez por isso Jesus tenha contado esta história.
Não estava interessado em saber qual dos filhos falava melhor.
Queria saber qual deles tinha ido.
É uma pergunta incómoda, sobretudo para quem conhece bem a linguagem religiosa. Porque podemos aprender a dizer «Senhor» com uma extraordinária facilidade e, no entanto, continuar a fazer exatamente aquilo que queremos. Podemos dizer «Eis-me aqui» e permanecer no mesmo lugar. Podemos dizer «conta comigo» e desaparecer quando chega a hora de contar.
O segundo filho não era necessariamente mau.
Era apenas um homem cuja palavra não chegou a transformar-se em gesto.
E talvez esse seja um dos nossos maiores perigos: confundirmos intenção com fidelidade.
Pensamos que querer fazer o bem é quase a mesma coisa que fazê-lo. Que ter boas intenções nos aproxima suficientemente de Deus. Que a vontade de mudar já conta como mudança. Que o «um dia destes» tem alguma espécie de valor espiritual.
Mas o Evangelho é menos complacente connosco.
Um dia destes não é hoje.
Depois não é agora.
E a vinha não se cultiva com promessas.
Talvez o primeiro filho tenha compreendido qualquer coisa que o segundo ainda não compreendera: que podemos começar mal e acabar bem. Que Deus não exige que a nossa primeira resposta seja perfeita. Que existe uma coisa extraordinária chamada arrependimento, essa pequena palavra que o orgulho detesta e que pode salvar uma vida inteira.
O primeiro disse não.
Mas não ficou prisioneiro do seu não.
E isto talvez seja uma das coisas mais bonitas deste Evangelho.
Deus não parece estar tão interessado na nossa primeira resposta como naquilo que fazemos depois dela.
Porque todos nós já dissemos não.
Não a Deus, talvez sem coragem para o admitir.
Não a alguém.
Não a uma mudança.
Não a um perdão.
Não a uma missão.
Não àquilo que sabíamos, muito lá no fundo, que devíamos fazer.
E alguns desses nãos ainda vivem dentro de nós, sentados confortavelmente, como se tivessem pago renda.
Jesus, porém, olha para nós e pergunta simplesmente:
Então?
Vais ficar aí?
Ou vais para a vinha?
Talvez ainda seja possível levantar-nos.
Talvez ainda haja tempo.
Talvez Deus tenha uma paciência maior do que a nossa culpa.
E talvez a santidade não comece quando finalmente aprendemos a dizer sempre sim.
Talvez comece quando temos coragem de pegar num não antigo, olhá-lo de frente e dizer:
«Pai, eu disse que não.
Mas agora vou.»
Manuel Sampaio
Catequese e Família






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