D. José Cordeiro apela, em Fátima, a um coração que acolhe Deus e se abre aos outros
Na homilia da noite de 12 de outubro, no Santuário de Fátima, o arcebispo de Braga convidou os peregrinos a redescobrir o valor do silêncio, da contemplação e da conversão, sublinhando que “a verdadeira peregrinação não se mede apenas pelo caminho que percorremos, mas pelo caminho que Deus percorre em nós”.
D. José Cordeiro convidou os peregrinos reunidos no Santuário de Fátima, na noite de 12 de outubro, a cultivar um coração capaz de acolher a Palavra de Deus, meditar os acontecimentos da vida e reconhecer as necessidades dos outros. Partindo do Evangelho proclamado, que termina com Maria a guardar todos os acontecimentos no coração, o arcebispo de Braga destacou a importância de uma atitude de escuta e de profundidade, num tempo marcado pelo imediatismo.
“Guardar no coração é uma atitude recorrente na Virgem Santa Maria”, afirmou, explicando que este gesto não significa apenas conservar uma recordação, mas também acolher os acontecimentos, meditá-los e procurar neles o sentido que Deus lhes quer dar. Esta atitude, acrescentou, exige paciência e capacidade de olhar a realidade para além da superficialidade.
Para ilustrar esta inquietação interior, D. José Cordeiro evocou um soneto de Luís de Camões, recordando os versos: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde; / Vem não sei como; e dói não sei porquê.”
“Há no coração humano uma inquietação que não devemos simplesmente calar”, afirmou, apresentando-a como possível ponto de partida para a peregrinação e para o encontro com Deus. “Um coração inquieto é a origem da peregrinação”, disse, sublinhando que a procura, quando se deixa conduzir pela graça, pode transformar-se em encontro.
O prelado destacou ainda que um coração atento não permanece indiferente às pessoas e aos acontecimentos. Pelo contrário, torna-se capaz de reconhecer as necessidades dos outros, agir em conformidade e descobrir a ação de Deus na história. É também um coração agradecido, que reconhece os dons recebidos e as maravilhas realizadas por Deus.
Um coração puro, abrasado pelo amor de Deus
A reflexão centrou-se igualmente na frase bíblica que orienta o itinerário proposto pelo Santuário de Fátima para o biénio 2025-2027: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”.
Segundo D. José Cordeiro, um coração puro é aquele que, abrasado pelo amor de Deus, procura configurar-se cada vez mais com Cristo. É um coração que vive no silêncio, procura o bem comum e deixa de colocar os interesses pessoais acima de tudo.
“Um coração puro entrega-se à missão de anunciar a Jesus Cristo porque Jesus Cristo é o seu maior bem”, afirmou.
Neste caminho, a Virgem Santa Maria apresenta-se como modelo de união com Deus, vivida com Cristo, em Cristo e para Cristo. O seu Imaculado Coração, explicou o arcebispo, constitui “uma escola de discipulado”, ensinando a acolher a Palavra, a permanecer diante do mistério e a responder a Deus com toda a vida.
Ao recordar a Irmã Lúcia e as revelações de Pontevedra, cujo centenário está a ser assinalado, D. José Cordeiro convidou cada peregrino a fazer sua a oração: “Espero também na proteção do Imaculado Coração de Maria que será sempre o meu refúgio, o meu guia, a minha força, a luz do meu caminho”.
Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati como exemplos de santidade
Na homilia, o arcebispo de Braga recordou também a memória litúrgica de São Carlo Acutis, evocando a canonização deste jovem e de São Pier Giorgio Frassati pelo Papa Leão XIV.
A propósito, destacou a importância de rezar pelo Santo Padre, intenção que, segundo afirmou, está sempre presente no Santuário de Fátima, mas que, nesta peregrinação, assumia uma intensidade particular, com a oração pela saúde do Papa Leão XIV.
D. José Cordeiro citou ainda palavras do Pontífice na homilia da canonização, salientando que ambos os santos cultivaram o amor a Deus e aos irmãos através de meios simples e acessíveis: “A Santa Missa diária, a oração, especialmente a Adoração Eucarística”. Recordou igualmente a sua devoção aos santos e à Virgem Maria, bem como a prática generosa da caridade.
O facto de São Carlo Acutis ter peregrinado a Fátima serviu de ligação à mensagem central da homilia. “Um coração que acolhe Deus, torna-se um coração disponível para os irmãos”, afirmou o prelado, acrescentando que “a contemplação não nos fecha em nós mesmos, transforma a nossa vida”.
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| Foto: Santuário de Fátima |
A conversão nasce do encontro com Cristo
A devoção ao Imaculado Coração de Maria foi apresentada como um caminho que converge para o mistério pascal, centrado no coração de Cristo, morto na cruz. Neste mistério de graça e misericórdia, sublinhou D. José Cordeiro, a redenção é maior do que o pecado do mundo.
O arcebispo evocou também o testemunho de Santa Jacinta Marto, recordando as suas palavras: “Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora que nunca me canso de lhes dizer que os amo”.
O apelo à penitência e à conversão, presente na mensagem de Fátima, foi relacionado com o próprio mistério de Cristo. Também a oração da Ave-Maria, explicou, conduz à contemplação dos momentos centrais da vida de Jesus, para que Ele se torne, à semelhança do que aconteceu com Maria e São José, o centro dos pensamentos, das atenções e das obras de cada cristão.
“A verdadeira peregrinação não se mede apenas pelo caminho que percorremos, mas pelo caminho que Deus percorre em nós”, afirmou D. José Cordeiro, sintetizando o sentido espiritual da celebração.
“Chegar a um Santuário é importante, mas deixar que Deus encontre morada no nosso coração é vital”, acrescentou, lembrando que o discípulo, a exemplo de Maria, acolhe a Palavra de Deus, reconhece que tudo é dom e agradece com a própria vida.
“Deus não está presente num coração ausente”
Na conclusão da homilia, D. José Cordeiro deixou um apelo à vivência concreta do amor, afirmando: “Onde não há amor não pode haver vida. Deus não está presente num coração ausente”.
A referência à “Senhora mais brilhante que o sol” encerrou a reflexão com uma invocação à proteção materna de Maria. O arcebispo citou o poeta Carlos Falcão: “Escuta-nos Maria! Acredita-nos Senhora! Ampara-nos, eleva-nos e mostra-nos Jesus”.
Por fim, pediu à Virgem Maria que vele pela sementeira do Evangelho da Esperança e que, acolhendo cada pessoa no seu coração, a Palavra de Deus faça crescer em todos “novo ardor na fé, alegria na esperança e generosidade na caridade”. Um convite a transformar a peregrinação exterior num caminho interior de encontro com Cristo, de conversão e de disponibilidade para os irmãos.
Natália de Matos
Catequese e Família







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