Carta ao Pe. Joaquim Alves Brás, apóstolo da família




Querido Pe. Joaquim Alves Brás,

Escrevo-lhe de um tempo que talvez lhe pareça estranho. Não porque o mundo tenha deixado de ser humano, continua a ser, mas porque tudo parece correr mais depressa do que o coração consegue acompanhar.
As famílias continuam aqui, Sr. Padre. Ainda se sentam à mesa, ainda discutem, ainda se abraçam. Mas vivem cercadas por um ruído constante que entra pelas portas e pelas telas luminosas que carregamos no bolso. Dentro de casa há silêncio, mas não é sempre o silêncio bom. Muitas vezes é apenas cada um fechado no seu pequeno mundo, com os olhos colados a um ecrã.
Há pais cansados. Cansados de trabalhar muito e de chegar a casa tarde. Cansados de tentar ser tudo ao mesmo tempo: educadores, psicólogos, amigos, exemplos. Há mães que sentem que nunca fazem o suficiente, mesmo quando passam o dia inteiro a correr entre trabalho, casa, filhos, contas para pagar e preocupações que parecem não acabar.
E há filhos, Sr. Padre. Tantos filhos perdidos num mundo que lhes promete tudo e ao mesmo tempo lhes rouba quase tudo: o tempo, a paciência, a capacidade de esperar. Crescem rodeados de coisas, mas muitas vezes com fome de sentido. Procuram atenção nas redes sociais, aprovação em números invisíveis, enquanto dentro deles cresce um silêncio que ninguém sabe bem como escutar.
As famílias continuam a amar-se, é verdade. Mas amar hoje exige uma espécie de coragem nova. É preciso resistir a uma cultura que diz que tudo é provisório como os trabalhos, os compromissos, os lugares… e às vezes até as pessoas. Muitos casamentos começam com esperança e acabam esmagados pelo peso das expectativas, pela falta de tempo um para o outro ou simplesmente pelo cansaço de viver sempre em modo de sobrevivência.
Há também o medo. Medo do futuro, medo da instabilidade, medo de não conseguir proteger os filhos de um mundo que parece cada vez mais incerto. E quando o medo entra em casa, às vezes instala-se como um hóspede que ninguém convidou.
No meio de tudo isto, continua a haver pequenos milagres quotidianos. Pais que se sentam à beira da cama dos filhos para ouvir as suas preocupações. Famílias que, apesar das dificuldades, ainda encontram tempo para rir à mesa. Avós que mantêm viva a memória das coisas simples: a fé, a paciência, a ideia de que a vida não se mede apenas pelo que se possui.
Talvez o senhor reconhecesse tudo isto, afinal. Porque no fundo os problemas mudam de roupa, mas o coração humano continua a ser o mesmo: inquieto, frágil, sedento de amor.
Se estivesse aqui, talvez nos lembrasse uma coisa muito simples e muito difícil: que a família não se constrói com perfeição, mas com presença. Que não precisa de ser extraordinária para ser verdadeira. Basta que haja alguém disposto a ficar, mesmo quando tudo convida a fugir.
E talvez nos dissesse também que, no meio deste mundo acelerado, ainda vale a pena defender a casa como quem defende um pequeno santuário, um lugar onde cada pessoa é mais importante do que qualquer sucesso.
Escrevo-lhe, portanto, não apenas para contar como vivem hoje as famílias, mas para lhe pedir que continue a lembrar-nos do essencial. Porque, apesar de todas as mudanças, continuamos a precisar disso: alguém que nos recorde que o amor vivido no quotidiano continua a ser a mais revolucionária das esperanças.

Com gratidão,
Uma filha tua



Natália de Matos
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com




Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.