Quando Deus parece atrasado (cf. Jo 11, 1-45)
Jesus recebe a notícia: "O teu amigo está doente."
E não vai. Fica. Dois dias.
Isto não é escandaloso? Se fosse connosco, não diríamos: "Se gostas, vens. Se amas, corres"? Mas Ele fica. O amor de Cristo não é ansioso. Não é precipitado. Não é dominado pelo pânico humano. É um amor que vê mais longe do que a febre do momento.
Enquanto Marta e Maria contam as horas, Jesus conta a eternidade.
Quando finalmente chega, Lázaro já não está doente, está morto. Quatro dias. O número é quase cruel. Não há margem para equívocos, nem para ilusões piedosas. A morte instalou-se. O cheiro denuncia-a. Marta diz aquilo que muitos de nós já dissemos em silêncio:
"Senhor, se tivesses estado aqui…"
É a frase que nasce quando a fé colide com a realidade. Quando rezámos e nada mudou. Quando pedimos e o céu pareceu ficar em modo avião.
E, no entanto, é precisamente ali que Jesus se revela de uma forma quase violenta:
"Eu sou a ressurreição e a vida."
Não diz: "Eu trago a ressurreição."
Não diz: "Eu explico a vida."
Diz: "Eu sou."
A resposta não é uma teoria. É uma Pessoa.
E depois acontece algo desconcertante: Jesus chora.
O Filho de Deus, aquele que sabe que dentro de minutos vai gritar "Lázaro, sai para fora", chora. Não chora por impotência. Chora por amor. Deus não é indiferente à nossa dor, mesmo quando sabe que a última palavra não é da morte.
Isto muda tudo.
Deus não nos observa de longe, como um estratega frio da história. Ele entra na gruta connosco. Sente o cheiro. Sente o peso. Sente o luto.
Mas a parte mais provocadora ainda está para vir.
"Tirai a pedra."
Ele podia tê-la removido sozinho. Afinal, ressuscitar um morto é ligeiramente mais difícil do que deslocar uma rocha. Mas não. Antes do milagre, pede colaboração. Pede fé prática. Pede mãos sujas de pó.
A pedra não é só a do túmulo de Lázaro. É a nossa. A que tapa o que já demos como perdido. A que protege as nossas mortes interiores, a esperança que apodreceu, o perdão que não concedemos, a relação que deixámos morrer.
Marta avisa: "Já cheira mal."
É a frase da resignação. A teologia do "já não vale a pena".
Quantas vezes a nossa fé é uma fé do último dia - "Eu sei que há de ressuscitar no fim dos tempos" - mas não uma fé do hoje? Acreditamos na vida eterna, mas não acreditamos que Deus possa intervir na nossa segunda-feira.
E então o grito atravessa os séculos:
"Lázaro, sai para fora."
Repara: chama-o pelo nome. A ressurreição não é genérica. É pessoal. Deus não salva multidões anónimas, chama pessoas concretas.
Mas há um detalhe extraordinário. Lázaro sai… ainda amarrado.
Ressuscitado, mas preso. Vivo, mas enfaixado.
E Jesus diz à comunidade:
"Desligai-o e deixai-o ir."
Há coisas que só Deus pode fazer - dar vida.
Mas há outras que nos confia - ajudar a libertar.
Talvez esta página não seja apenas sobre um homem que morreu há dois mil anos numa aldeia perto de Jerusalém. Talvez seja sobre nós. Sobre as zonas da nossa vida que já sepultámos. Sobre as amizades que julgámos perdidas. Sobre a fé que enterrámos com honras fúnebres discretas.
A pergunta permanece, desconfortável e direta:
"Acreditas nisto?"
Não é uma pergunta teórica. É existencial.
Acreditas que Cristo pode entrar no que cheira mal na tua vida?
Acreditas que Ele pode transformar atraso em glória?
Acreditas que a morte, qualquer morte, não é o fim?
O Evangelho termina dizendo que muitos acreditaram.
Mas a história continua aberta.
Porque talvez hoje o nome que Ele quer gritar não seja "Lázaro".
Seja o teu.
Enquanto Marta e Maria contam as horas, Jesus conta a eternidade.
Quando finalmente chega, Lázaro já não está doente, está morto. Quatro dias. O número é quase cruel. Não há margem para equívocos, nem para ilusões piedosas. A morte instalou-se. O cheiro denuncia-a. Marta diz aquilo que muitos de nós já dissemos em silêncio:
"Senhor, se tivesses estado aqui…"
É a frase que nasce quando a fé colide com a realidade. Quando rezámos e nada mudou. Quando pedimos e o céu pareceu ficar em modo avião.
E, no entanto, é precisamente ali que Jesus se revela de uma forma quase violenta:
"Eu sou a ressurreição e a vida."
Não diz: "Eu trago a ressurreição."
Não diz: "Eu explico a vida."
Diz: "Eu sou."
A resposta não é uma teoria. É uma Pessoa.
E depois acontece algo desconcertante: Jesus chora.
O Filho de Deus, aquele que sabe que dentro de minutos vai gritar "Lázaro, sai para fora", chora. Não chora por impotência. Chora por amor. Deus não é indiferente à nossa dor, mesmo quando sabe que a última palavra não é da morte.
Isto muda tudo.
Deus não nos observa de longe, como um estratega frio da história. Ele entra na gruta connosco. Sente o cheiro. Sente o peso. Sente o luto.
Mas a parte mais provocadora ainda está para vir.
"Tirai a pedra."
Ele podia tê-la removido sozinho. Afinal, ressuscitar um morto é ligeiramente mais difícil do que deslocar uma rocha. Mas não. Antes do milagre, pede colaboração. Pede fé prática. Pede mãos sujas de pó.
A pedra não é só a do túmulo de Lázaro. É a nossa. A que tapa o que já demos como perdido. A que protege as nossas mortes interiores, a esperança que apodreceu, o perdão que não concedemos, a relação que deixámos morrer.
Marta avisa: "Já cheira mal."
É a frase da resignação. A teologia do "já não vale a pena".
Quantas vezes a nossa fé é uma fé do último dia - "Eu sei que há de ressuscitar no fim dos tempos" - mas não uma fé do hoje? Acreditamos na vida eterna, mas não acreditamos que Deus possa intervir na nossa segunda-feira.
E então o grito atravessa os séculos:
"Lázaro, sai para fora."
Repara: chama-o pelo nome. A ressurreição não é genérica. É pessoal. Deus não salva multidões anónimas, chama pessoas concretas.
Mas há um detalhe extraordinário. Lázaro sai… ainda amarrado.
Ressuscitado, mas preso. Vivo, mas enfaixado.
E Jesus diz à comunidade:
"Desligai-o e deixai-o ir."
Há coisas que só Deus pode fazer - dar vida.
Mas há outras que nos confia - ajudar a libertar.
Talvez esta página não seja apenas sobre um homem que morreu há dois mil anos numa aldeia perto de Jerusalém. Talvez seja sobre nós. Sobre as zonas da nossa vida que já sepultámos. Sobre as amizades que julgámos perdidas. Sobre a fé que enterrámos com honras fúnebres discretas.
A pergunta permanece, desconfortável e direta:
"Acreditas nisto?"
Não é uma pergunta teórica. É existencial.
Acreditas que Cristo pode entrar no que cheira mal na tua vida?
Acreditas que Ele pode transformar atraso em glória?
Acreditas que a morte, qualquer morte, não é o fim?
O Evangelho termina dizendo que muitos acreditaram.
Mas a história continua aberta.
Porque talvez hoje o nome que Ele quer gritar não seja "Lázaro".
Seja o teu.
Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com






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