Solidão não é argumento
É verdade que alguns sacerdotes vivem a solidão, e não vale a pena dourar essa realidade com frases piedosas ou respostas fáceis. A solidão existe, pesa, desgasta, às vezes corrói. E merece, antes de mais, ser olhada de frente, com humanidade e sem cinismo. Merece proximidade, escuta, presença. Merece que alguém fique.
Mas reconhecer a solidão não obriga a concluir, quase automaticamente, que a solução seja abolir o celibato ou substituí-lo pelo casamento, como se uma coisa fosse o remédio imediato da outra. Essa ligação, tão repetida, tem qualquer coisa de simplificação apressada, como se a complexidade da vida humana coubesse numa equação linear, ou seja, solidão mais casamento igual a felicidade. Não cabe.
O celibato, na Igreja, não nasceu de uma falta, não é um plano B para quem não encontrou outra vida possível. Não é uma excentricidade disciplinar nem uma relíquia teimosa. É, antes, uma escolha com densidade espiritual, uma forma de dizer que o amor pode tomar outras formas que não passam pela exclusividade de um vínculo conjugal. Não é ausência de amor, é excesso dele, ou pelo menos a tentativa de o viver de modo mais alargado, mais disponível, mais inteiro.
Há aqui, aliás, uma curiosa incoerência no modo como o tema é discutido. Fala-se dos padres, quase sempre dos padres, como se fossem um caso à parte, uma exceção problemática dentro de um sistema. E, no entanto, existem tantos outros, frades, freiras, consagrados, que vivem o mesmo celibato, muitas vezes acompanhado por votos ainda mais exigentes, como a pobreza e a obediência. Sobre esses, raramente se ergue o mesmo coro de inquietações. Como se o problema não fosse exatamente o celibato, mas antes a figura do padre, colocada sob uma lente que mistura expectativas sociais, projeções e alguma incompreensão.
Talvez porque, no fundo, se espere que o padre seja mais "como nós". Que tenha uma vida reconhecível, enquadrável, domesticada nas categorias comuns. E o celibato, nesse sentido, desinstala. Não é facilmente traduzível numa lógica de utilidade ou de compensação. Não serve para nada, e talvez por isso diga tanto.
Também convém não idealizar o casamento como antídoto universal contra a solidão. A experiência humana, essa que não precisa de teoria para se fazer entender, mostra o contrário. Há solidões habitadas a dois, silêncios partilhados que não aproximam, distâncias que crescem dentro da proximidade. E há vidas celibatárias cheias de relação, de sentido, de vínculos profundos e verdadeiros. A solidão não se resolve por decreto nem por estado civil.
Talvez, então, a questão deva ser colocada noutro lugar. Não tanto em mudar o estado de vida, mas em cuidar dele. Em perceber como é que a Igreja acompanha, ou falha em acompanhar, aqueles que pedem tudo de si. Em perguntar que comunidades existem, que fraternidade real se vive, que espaço há para a amizade, para a vulnerabilidade, para a vida partilhada. Porque nenhuma vocação, por mais alta que seja a sua exigência, se sustenta sozinha.
No fim, a solidão dos sacerdotes não é um argumento automático contra o celibato. É, isso sim, um apelo, talvez incómodo, a olhar com mais seriedade para a forma como se vive aquilo que, em teoria, já faz sentido. E a não confundir soluções fáceis com respostas verdadeiras.
Natália de Matos
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com







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