Olhos que nunca viram, corações que começam a ver (cf. Jo 9, 1-41)



Olha para ele. Sentado no pó da rua, sem saber sequer que existia uma vida diferente, uma vida de cores e horizontes. Um homem que nasceu cego e que, até àquele momento, só conhecia o mundo pelas mãos que o guiavam, pelos sons que o rodeavam, pelos gestos dos outros. E então chega Jesus. Não com perguntas morais, nem com julgamentos, nem com receitas prontas para a culpa. Chega com lodo e saliva, gesto estranho e quase grotesco, e transforma a realidade inteira daquele homem.

É provocador, não é? Porque Jesus não diz: "Foste castigado por algum pecado". Ele não oferece explicações fáceis para o sofrimento. Ele mostra que a dor, a limitação, o impossível, não são sinais de culpa, mas oportunidades para que a luz de Deus se manifeste. É um convite escandaloso, isto é, enquanto houver dia, enquanto houver tempo, trabalha nas obras de Deus. Não te escondas atrás de justificações, nem procures culpas. Age. Agora. Antes que a noite chegue e não haja mais oportunidade.

E o cego vai, lava-se, e começa a ver. E o mundo reage com incredulidade, dúvida, medo. "Não é ele… será que é…?" Mas ele insiste: "Sou eu. E foi Jesus quem me abriu os olhos." Não há hesitação, não há desculpas. A experiência da luz transforma a verdade em coragem.

Os fariseus, sempre os fariseus, não querem ver. Vêem, mas recusam reconhecer. Que paradoxal: aqueles que se julgam iluminados são os mais cegos. Recusam a evidência do milagre, defendem leis humanas em vez da vida, preferem a segurança da tradição à ousadia da luz. E é aqui que a reflexão se torna um espelho para nós. Quantas vezes nos acomodamos na cegueira confortável do hábito, da crítica fácil, da segurança do 'eu sei o que é certo', enquanto a vida real, a verdadeira luz, passa por nós e pede apenas que a recebamos?

No final, o homem não só vê, mas acredita. E prostra-se. Não porque compreende todos os mistérios, mas porque reconhece Aquele que veio para abrir os olhos, e isso basta. A luz não exige compreensão total, exige entrega, coragem e fé.

A pergunta final de Jesus corta fundo: "Os que não veem começarão a ver; os que veem ficarão cegos." Quem realmente vê? Quem está disposto a abandonar certezas falsas e abrir-se à luz, mesmo que seja incômoda, inesperada, provocadora?

E tu? Estás a ver ou ainda estás a argumentar sobre quem pecou?


Manuel Sampaio
Catequese e Família
catequistascolaboradores@gmail.com




Sem comentários

Com tecnologia do Blogger.